terça-feira, 21 de junho de 2011

O tempo presente e o tempo passado


Fotografia de Exposição "José Barrias" em Serralves



O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.
Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisíveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente, contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.


T.S. Eliot (Trad. Maria Amélia Neto)

domingo, 19 de junho de 2011

Créme de La Creme


Livro de Nuno Brito apresentado pelo Prof. Arnaldo Saraiva




Aconteceu a uma irmã de Medusa cortar

os dois pulsos com vidro e esperar assustada em frente ao espelho,

Percebeu que não era sangue que lhe saía dos pulsos mas musgo,

Dos pulsos lácteos nascia-lhe musgo verde e fresco, que torneava o azul

das veias mais pequenas, musgo verde e fresco como das fontes de Minos, então voltou

a olhar-se ao espelho e percebeu que não podia morrer

Não por já estar morta, mas por estar condenada à mais doce pena, a de renascer

sem dar conta disso; o que a olhava no espelho beijou-lhe os pulsos, lambeu o fresco

musgo cheio de vida; ela deitou a cabeça no peito do que faz adormecer e sentiu o seu

batimento cardíaco. Beijou-o e lambeu-lhe os pulsos frescos e quentes,

Então ela riu-se e bebeu vinho de Marsala e com vinho de Marsala desenhou nas costas

do que faz adormecer, uma letra e outra letra e outra letra – Mandou que lhe

trouxessem papoilas e margaridas, algumas comeu, com outras decorou o cabelo


Nuno Brito

Fragmentos IX- Na calma dos teus braços amantes

É pois um apaixonado que diz:

"Na calma de dos teus braços amantes"(Jean Lahor)


Marc Chagall 1916


Abraço: O gesto do abraço apaixonado parece preencher, num momento para o sujeito, o sonho da união total com o ser amado.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso", Ed. 70, 1981

sábado, 18 de junho de 2011

O dia deu em chuvoso


Fotografia retirada da internet

O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afetos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso.

Álvaro de Campos

sexta-feira, 17 de junho de 2011

a hora primeira do acordar


Ernst Kirchner 1908

ao escutar, na hora primeira do acordar
a cor dos teus olhos, achei-os perigosos -
não, não, não no sentido comum
não interpretes a imediata luz da dúvida
não é sob esse reflexo que se ilumina a perigosidade
antes como um relâmpago que abre e dispõe
sem que seja possível o segredo
uma semente clara de possibilidade
o perigo da perda -

mas mesmo assim não diminuiu a chama -

José Ferreira 17 Junho 2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011

sementes que nascem em terra queimada

sementes que nascem em terra queimada I

anteontem.
inquietude tão imprudente
rasga-me.
apetece demais bulir
agarro-me.

ontem.
da paralisia
não resvalou repouso

antes fosse sono.

sementes que nascem em terra queimada II

o tempo que acabaste
diluísse barulho
cassou calma por dentro
às vezes para sempre.

traste.

se o amor morre não se cuida.

não evocadas imagens, luto é luta

espuma de tristeza, dias

por mim passam mal.
não voltaste.

adormeci rápido, acordei bem
não sabia em falso abraço.
quero paz.

sementes que nascem em terra queimada IV

a verdadeira terra, essa
sem lume queimada
sempre, tarde percebo
de muito antes o negado

tarde percebo sem remédio
como a morte, só que
é loucura não te amar.

eternidade.
apenas uma, a semente.

ainda a, ainda proibida a palavra...


Apresentação de "Créme de la Creme"




Convido-vos a todos a participarem na apresentação do meu novo livro: "Créme de la Creme" que se irá realizar este Sábado pelas 16h30 na Cooperativa Árvore


Abraço a todos

Nuno Brito

quarta-feira, 15 de junho de 2011

- Que as andorinhas não choram

I
É uma porta de ferro
Alta, larga, densa – Não se lhe conhece o fim.
O bando já foi
As andorinhas nasceram para rasgar o céu
Voou, mais uma vez, de uma investida,
Conforme lhe ditava o coração
A porta não se abriu.
Como num bailado, duas piruetas
Uma andorinha no chão, duas asas partidas
- Éeee – Um eco – Dois miúdos jogavam à bola
- Iuiui – Passou o amolador das facas
- Pic pic pic – As primeiras gotas batem no vidro
Entra o cheiro da terra molhada
E começou a chover
- Que as andorinhas não choram.
Primavera Verão Outono Inverno

II
- Então não estamos aqui? – Perguntou ele.
- O corpo sim – Disse ela nua – Mas, tu não abriste a porta. E eu estou morta.
No palco também chovia
Sobre o olhar atento de Pina
E a rapariga de branco
Dançava como andorinha e gritava
- Eu sou jovem!
Primavera Verão Outono Inverno

Cansei-me desta chuva miudinha



















"Golconde", René Magritte, 1898-1967
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Cansei-me desta chuva miudinha,
Teimosa e poalha venenosa –
Molha sempre a minha poesia
E enruga a folha lisa onde mora.
.
Fechei a janela e a gelosia,
Mesmo assim aquela miudinha
Entra-me em casa sem pedir
Licença, curiosa e atrevida.
.
Pousa-se logo ali na mesa
De trabalho e olha a tinta
Como uma rival – as palavras
Entende-as como quer e pode.
.
Afinal, tanto lhe faz se estão
Deitadas ou se estão de pé,
O que ela quer é encharcá-las
Todas. Sim, mesmo até à alma
.
E fá-lo sempre com a calma
De um crítico de literatura.
A criatura lê tudo a direito
Sem respeito por quem
.
A pensou e escreveu. Enfim,
Presunção e água benta,
Tem-na ela à flor dos olhos:
Lê e insensível diz – não presta.
.
E esgueira-se de aresta em aresta
Feliz e rindo da patifaria. Eu fico,
Já se vê, como o sol no deserto
Capaz de a matar de insolação.
.
Mas sem demora guardei a poesia
Enrugada na gaveta, e fui para a janela
Exorcizar a chuva para que fosse embora.
.
E mesmo tímido, o sol iluminou-lhe o caminho –
.
2011-06-06
José Almeida da Silva
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Reflexão à chuva

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Foi de chuva intensa esta manhã, eu sei,
E a noite de caudalosas lágrimas.
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Não sei que te diga. Tu sabes, a chuva
Aborrece e depura, apesar da lama a correr
Pelas ruas [é verdade, as sarjetas entopem,
Não são limpas – o verão distrai quem é já
Propenso à distracção e à monotonia]
Enlameando os degraus das casas e as caves.
.
Às vezes, nutre a chuva, sobretudo
Se surpreende as pessoas que a não
Esperavam, distraídas, e que correm
Às lojas chinesas que pululam na
Cidade como os cogumelos nas terras
Húmidas e quentes, e compram baratos
Guarda-chuvas de qualidade duvidosa.
A lama é também aluvião, fertiliza a terra.
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Queixas-te muito de que a chuva incomoda.
E as lágrimas desassossegam-me ainda mais,
Brotam do magoado coração como a elegia,
Um coração que pensa somente em remoinho,
Sempre a mesma ideia, sempre a mesma força
Centrípeta confundindo a lucidez do espírito.
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Melhor teria sido ir para a rua festejar
Como as crianças chapinando nas poças
E molhando os sapatos e as meias, rindo –
.
[Vejo-me no espelho de uma poça a brincar,
Sapatos encharcados até aos pés, e as calças
Molhadas nas bainhas, tudo uma emoção,
E felicidade por esses momentos de alegria.
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Sei bem o que custa assim a liberdade,
A minha mãe vem lá de mãos atrás das costas –
.
E tu sorriste ao sol do meu sorriso –
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2011-06-04
José Almeida da Silva
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Toquei de leve a chuva

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Toquei de leve a chuva
Caída no teu rosto
.
Somente à transparência
O teu olhar de luz
Era frágil inocência
.
Abandonada a beleza
É ainda mais bela
E iluminada
.
Repousa a chuva
Na manhã de rosas
E tu resplandeces
.
Afrodite não estaria
Mais sublime –
.
2011-06-08
José Almeida da Silva
.

Borges e a chuva


Renée Magritte


La lluvia



Bruscamente la tarde se ha aclarado
porque ya cae la lluvia minuciosa.
Cae o cayó. La lluvia es una cosa
que sin duda sucede en el pasado.

Quien la oye caer ha recobrado
el tiempo en que la suerte venturosa
le reveló una flor llamada rosa
y el curioso color del colorado.

Esta lluvia que ciega los cristales
alegrará en perdidos arrabales
las negras uvas de una parra en cierto

patio que ya no existe. La mojada
tarde me trae la voz, la voz deseada,
de mi padre que vuelve y que no ha muerto.

Jorge Luís Borges



A Chuva

Bruscamente a tarde se há desanuviado
Porque já cai uma chuva minuciosa
Cai ou caiu. A chuva é uma coisa
Que, sem dúvida, sucede no passado.

Quem a ouve cair há recobrado
O tempo em que a sorte venturosa
Lhe revelou uma flor de nome rosa
De tão peculiar avermelhado.

Esta chuva que escurece os vidros
Há de alegrar os subúrbios perdidos
As uvas pretas de uma parra em certo

Pátio que já não existe. A molhada
Tarde me traz a voz, a voz desejada,
De meu pai que volta e que não morreu.


lido aqui

terça-feira, 14 de junho de 2011

Meditação do Duque de Gândia

a propósito da chuva (um poema republicado)


fotografia de um filme de Godard


......................................"o eu é um movimento na multidão
.........................................................Henri Michaux


o prédio no meio dos outros prédios
tem paredes tem alicerces
mas não tem braços.

por vezes assim a noite
de um lado e de outro lado
os ombros férreos apertados.

o prédio no meio dos outros prédios
tem janelas e uma porta clara iluminada
- nas costas o tijolo cego
de costas um outro prédio.

por vezes assim são os lugares do medo
cintilantes na claridade frontal
sombras de cera e chama ténue
no interior de um quarto vasto.

o prédio no meio dos outros prédios
quando chove conduz as águas nas telhas
para o espaço contínuo de um pequeno rio
- é esse o objectivo
que as águas se juntem se tornem maciças
no som no ritmo na procura dos caminhos.

por vezes assim é o pensamento
que acrescenta esta e aquela sequência
e a consequência de um sentido uma linha
feita de asfalto granito ou terra batida.

há uma mão gigante atrás de cada indivíduo
recolhendo a linha como um fio
enrola enrola agarra o novelo
como um muro sem porta
aponta o caminho em frente sem reverso
- não há regresso continua!

o prédio no meio de outros prédios
pode ganhar braços como as árvores
arrancar raízes no orgulho de ter pernas
abrir janelas e andar pelo meio das ruas
dos carros autocarros e bicicletas
até encontrar um parque, muitas árvores
desfolhar cortinas –

por vezes assim são os quadros os poemas a escrita
a revolta de um grito -

José Ferreira 30 Abril 2010

segunda-feira, 13 de junho de 2011

chove muito imenso

.
.
chove.
chove muito imenso.
uma chuva intencional e substantiva que – mais do que
desprender-se do céu abandonada a um guião pré aprendido
nos ciclos genéticos secretos da água –
vem precipitada em franjas gordas e verticais a ver se esmaga
as planícies e as ondas do mar.
.
tenho saudades de uma chuva andadeira e confortável,
que venha regar-me as magnólias e as ervas de cheiro.
uma água chuvente sossegada e silenciosa,
sem dúvidas e sem perguntas. falta-me essa atmosfera húmida,
pálida e plácida, com cheiros castanhos que me fazem dormente.
preguiçosa.
.
chove tanto que sinto a cidade ceder e afundar, os telhados
perto da calçada, numa bidimensionalidade forçada
em que as superfícies visíveis das coisas não têm volume
porque não importam. e sobra só a chuva em forma de muitas
águas. caídas em muitos ciclos de tempo.
não sei de onde lhe vem a autoridade e a força incondicionais.
um carácter que assusta e faz inveja
porque toma conta de mim. mesmo sendo água e nada mais.
.
chove muito imenso e o cantar descompassado nas telhas
e nas janelas, traz contos antigos em testemunhos de outras
monções. chovem gotas que um dia rolaram da pele
escamosa de um dinossauro e que caíram em cidades perdidas.
chovem as legendas líquidas de milhares de milhões de vidas.
.
chove tanto que me chove por dentro. a água cobre e ensopa as
máscaras e os figurinos que me ocupam os corredores
que não quero ter à mostra. depois escorre-se e lava tudo
na enxurrada. fica o vazio onde ecoam os
silêncios inconvenientes das perguntas que se fazem
quando não está ninguém a ver.
ensurdecem-me as dúvidas e incomoda-me a inocência de não saber
o que serei quando crescer. ensurdece-me a chuva que não pára,
e fico presa à convicção que não há nada a fazer,
e que hoje o único verbo com propriedade de acção, é chover.
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pouso o lápis, abro as portadas grandes da varanda e saio.
estou descalça. e o chão está seco.
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r.p.|oito.junho.doismileonze