segunda-feira, 13 de junho de 2011

chove muito imenso

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chove.
chove muito imenso.
uma chuva intencional e substantiva que – mais do que
desprender-se do céu abandonada a um guião pré aprendido
nos ciclos genéticos secretos da água –
vem precipitada em franjas gordas e verticais a ver se esmaga
as planícies e as ondas do mar.
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tenho saudades de uma chuva andadeira e confortável,
que venha regar-me as magnólias e as ervas de cheiro.
uma água chuvente sossegada e silenciosa,
sem dúvidas e sem perguntas. falta-me essa atmosfera húmida,
pálida e plácida, com cheiros castanhos que me fazem dormente.
preguiçosa.
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chove tanto que sinto a cidade ceder e afundar, os telhados
perto da calçada, numa bidimensionalidade forçada
em que as superfícies visíveis das coisas não têm volume
porque não importam. e sobra só a chuva em forma de muitas
águas. caídas em muitos ciclos de tempo.
não sei de onde lhe vem a autoridade e a força incondicionais.
um carácter que assusta e faz inveja
porque toma conta de mim. mesmo sendo água e nada mais.
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chove muito imenso e o cantar descompassado nas telhas
e nas janelas, traz contos antigos em testemunhos de outras
monções. chovem gotas que um dia rolaram da pele
escamosa de um dinossauro e que caíram em cidades perdidas.
chovem as legendas líquidas de milhares de milhões de vidas.
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chove tanto que me chove por dentro. a água cobre e ensopa as
máscaras e os figurinos que me ocupam os corredores
que não quero ter à mostra. depois escorre-se e lava tudo
na enxurrada. fica o vazio onde ecoam os
silêncios inconvenientes das perguntas que se fazem
quando não está ninguém a ver.
ensurdecem-me as dúvidas e incomoda-me a inocência de não saber
o que serei quando crescer. ensurdece-me a chuva que não pára,
e fico presa à convicção que não há nada a fazer,
e que hoje o único verbo com propriedade de acção, é chover.
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pouso o lápis, abro as portadas grandes da varanda e saio.
estou descalça. e o chão está seco.
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r.p.|oito.junho.doismileonze

3 comentários:

josé ferreira disse...

Olá Raquel
é um poema-história que enleva e leva perante a chuva imensa que se transforma no máximo desejo de se tornar ténue, de se sentir seca. é um grande poema, parabéns.

Abraço

Marlene disse...

Olá Raquel
Que bonito poema. Apesar de salpicado de água, irradia sol. Lembrou-me pelo uso das palavras um pouco da musicalidade da escrita do Mia Couto ou José Eduardo Agualusa. Não estive presente, como sempre, em mais uma reunião que adivinho ter sido muito boa, mas por aqui pelo menos vou tentando estar presente e acompanhar o que escrevem.
Um beijinho

Marlene

Elza disse...

Adorei a chuva que cobre e ensopa as máscaras e os figurinos que me ocupam os corredores que eu não quero ter à mostra. Felizmente, ou não, a serenidade, e o chão que afinal está seco, adorei!