terça-feira, 22 de maio de 2012

era o dia do boulevard




era o dia do boulevard
Paris emergia nos seus telhados de lousa lisa.
as janelas de sótão abriam-se e era maio
o mês das flores.

aquele momento foi a porta aberta e o lampião aceso
cedo, cedo, depois da madrugada que juntou a noite
cedo e tarde, ouro nos olhos e a palha espetada como agulhas
depois das costas tortas de outras escritas, o relatório –

preferia falar das vindimas, dos cachos maduros
da gravilha clara e pequenina para que não haja pó nos caminhos
mas o relatório ergueu  os números, a hora da conta
e não do conto, e não da maresia –


penso nos teus cabelos e nas minhas paredes
penso que não devia ser assim esta distância e saí cedo
cedo na esperança de que o sol fosse amigo –

 os dias seguintes da primavera, quando se aproxima o estio
são maiores, mais brancos, menos vazios –


essa a razão, saí cedo mas a barba tinha uma sombra
um piano baixo de alguns graves quando a mão a percorria.
ninguém, nem ninguém havia quando a barba erguia  o som
um som de intensidades únicas, o cansaço da noite inteira, o relatório
e a outra margem,  uma memória contínua –

passei por essa rua.  não esperava o vestido preto a sombrinha.
 os dois sozinhos
a porta aberta, o lampião aceso, a rua vazia –

não sei se soubeste se era aquele rosto, naquela hora
porque o pé tremia; a hesitação, a dúvida
o apoio da sombrinha, o recuo, a rua vazia –

 no minuto seguinte
um passo atrás na luz para o mistério dos olhos perdidos
para o mistério das cartas e dos segredos
um passo atrás, um crescer sozinho
como um rio contrariado pelo grande muro humano
por uma barragem no meio de paisagens
por ser cedo e porque a porta estava aberta
e porque provavelmente nada se explica –

cedo, digo, porque mais tarde dois minutos podia ser diferente
se, frente a frente, a porta aberta, a rua vazia –

 Paris podia ter acontecido
não fosse o atraso e a paragem
aquele lampião impossível –



                                                                                       
 josé ferreira

sábado, 19 de maio de 2012

Maio 2012




"Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo".
George Santayana

"A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo."
Eduardo Galeano

"Somos responsáveis, porque matamos noutros o que os outros matam em nós mesmos".
Jorge de Sena, "Elegia por certo", in Visão Perpétua

Por além mares,
na terra como num barco,
o extremo do extremo,
sobreviveu quem veio, e
quem ficou da outra maneira.

Por toda a vida a viver,
não vós esqueço.

Anabela Couto Brasinha

Muito acima das nuvens seja o centro




                                                                                                                                                                                                                                                                        
Muito acima das nuvens seja o centro
das nossas misteriosas poéticas
o irresistível anseio de viajar
um só movimento trabalhado à mão
nos ermos mais altos
mais desaparecidos

 

Mário Cesariny de Vasconcelos In Pena Capital  

sexta-feira, 18 de maio de 2012

a carta que te escrevo ( XXI )


                                     fotografia de um filme de Paulo Rocha

escrevo-te esta carta para que a guardes
naquele bolso que não gaste as palavras
naquela bolsa de abertura secreta
naqueles  lugares magníficos  de afecto;
a mente que brilha, os lábios de sonho
os ombros de descanso, um silêncio bom.
 vou-te contar, começa assim:

a vigésima primeira, representa uma nova dezena,  em frente, a permanência
uma continuidade de planetas, os astros em movimento
as suas rotações,  as suas danças, inaudíveis, mas presentes.

o calor sobe sobre a calçada e junto à ponte. é um maio diferente.

lembro-me do barco naquele sítio, entre o silêncio das encostas
quando os remos permitiam que o barco serpenteasse o rio;
o remador, a sua barba malfeita, as suas marcas, os seus pensos, a ligadura branca.
o remador e a tua presença, em concerto, na música de uma água que corria.
refrescavas a lisura da pele, os dedos e os pés, gota a gota, como uma chuva grossa
em consistência, refrescando mesmo -

as águas do rio naquele dia eram  frias e simples, únicas
a paisagem não mudava na suave ondulação.
guardo a fotografia e olho-a sem vinte anos, antes, antes daquele, e depois daquele dia
quando ainda subíamos a margem e observávamos cada curva do sorriso
a duplicidade atrasada e natural, sem esforço, porque qualquer um que fosse, no início
o outro acompanhava e ainda ria mais, muito mais, apropriando-se daquele espaço
que crescia e ganhava a forma de uma metáfora
a mais bela, a mais perfeita, a mais inteligente
de um puzzle que completava
a partilha –

não estou triste, não é assim. quando se olha o passado
é um constructo, um tijolo e uma argamassa, um azulejo azul de memória 
quando o momento é intacto, fresco, descontraído, como o barco
os remos e o rio, o seu movimento nas costas das margens, a fluir
no seu jeito simples –

corri o risco, a experiência , remei bastante
e quando observo aquele ar tisnado do remador
no seu rodar lento, deixando avançar primeiro
para não desequilibrar o corpo  
para que no outro canto, sentado na tábua dura, eu mesmo
pudesse disparar, num click e em privado, a eternidade lisa da fotografia –

assim saiu da máquina Nikon
sem permitir ver a outra parte da minha alegria, o meu sorriso
e achei-te tão bonita, lembro-me, apeteceu-me dar um grito
que ecoasse e repetisse, de encosta em encosta
escoando alternado e em mistura;
aquele eco que só é conhecido
por quem habita os montes, por quem habita –

quando escrevo esta carta de olhos na fotografia
sinto a leveza de dias inesquecíveis, crescem-me os dedos
digo-te –

qual o barco, qual o rio, qual o dia, qual a cor da camisa
solta sobre os calções bege, sem marca, mas oferecidos
comprados naquela loja de Santa Catarina?
 não, não foi na Zara,
foi antes, um pouco mais acima, depois da R. Formosa, do lado esquerdo
já te lembras? 
sou eu sempre que guardo esta precisão de um pormenor
esta importância de um sinal, deum pequeno vírus de vida que cresce e me adoece
lentamente –

mas que me acompanha sem cair, sem cair, e sempre –

o papel das sebentas não era branco. não havia tanta celulose destruída.
escrevia, sim, escrevia
e gastava as Levis e as  Lois até ao fim, numa alternância azul
numa cor muito preta das pestanas, dos cabelos
não eram os dias do consumismo, a modernidade que exige  –


as casas tinham varandas, tinham janelas, estendia-se a roupa
o sabão tinha aquele odor de potassa e oleína, alguns de glicerina
e depois passava a roupa
por sobre um ferro apertado, por sobre um pano branco, e as gotas de água
borrifadas, antes de serem gás, antes de serem absolutamente quentes –

e ganhava alguns escudos; as minhas, as dos outros, as da família –

mas deixa, pois, emudeço, torno-me resiliente e quase adormeço
e não cumpro os mandamentos, o mandamento de te escrever
de te ver sorrir, de te colocar, nesta distância de falésia, um olhar mais terno
mais terno ainda, para que te sintas bem, para que tranquilizes, o medo do inverno
o medo de um dia o vento, o medo de um dia o frio –

 não quero que te apoquentes
nem que te vistas de espinhos; uma rosa alta e distante a que não se possa subir –

espero bem sabes, é esta a condição dos poetas, esperar, esperar as palavras
que caiem das estrelas, as palavras que chegam, as palavras que se inventam –

há uma certa melancolia, não é costume, foi a fotografia, vinte anos antes –

transformo-me agora, erguem-se de novo os cantos dos lábios, descansa
queria o teu ombro, o teu colo, as tuas mãos no meu cabelo-

hoje que guardo a fotografia, sorrio e visualizo o rio, a chegada ao cais
a corda grossa, molhada, antes de presa, a minha mão que te segura
e te ajuda a subir de pés descalços, as marcas nas tábuas
de pégadas intrínsecas, doces  –
e sorrio sabes, e quero que sorrias, que dês uma gargalhada
para que os peixes saibam –

sossega agora, coloco no envelope quadrado a fotografia
o rio todo, as vinhas por despontar, as carapuças das bolotas
ainda verdes e muito presas, as raízes dos olhos, das letras, dos poemas
humedeço a cola, escrevo uma data e uma história, e guardo –

é muito tarde, o relógio da sala não tem cuco, não toca, são duas horas.
aproximo-me de 900 palavras, e canso-te, estás cansada -

quero que adormeças
não te mexas
fecha os olhos, chamo os anjos e lembro-me.
a fotografia está fechada no envelope quadrado.
falamos uma outra vez, amanhã,depois, quem sabe
escrevo uma outra carta, mais clara. 
desculpa, descansa
chamo os anjos, não te mexas, chamo os anjos –

a fotografia –



josé ferreira






quinta-feira, 17 de maio de 2012






Já por aqui coloquei este post e muitos naturalmente já viram e partilharam, no entanto esta é a votação final, faltam dois dias, a letra é da Ana Luísa Amaral que me enviou o email e que agradeço que divulguem e votem, faltam dois dias vamos lá !

"Blanket Made of Blue, de Francisco Rua e Mariana Mello, com letra da Ana Luísa Amaral, a canção vencedora do Concurso Nacional Rio+20 poderá vencer o Concurso Mundial Rio+20 Global Youth Music Contest se conseguirmos mobilizar a população portuguesa para o voto.

Faltam apenas três dias para o encerramento da votação online.

Ouça a canção e vote até 18 de Maio:
http://www.global-rockstar.net/blanket-made-of-blue
Reenvie este e-mail para todos os seus contactos. Precisamos de milhares de votos, mas acreditamos que é possível concretizarmos este feito histórico de termos duas canções portuguesas a vencer um concurso mundial.

Muito obrigado!"

naquela casa habita


                                  imagem retirada da internet

naquela casa habita a princesa dos alpes,  as árvores e os pássaros,
rodeada de pinheiros de agulhas apertadas,
o tecido verde, a sua erva  numa tela de terra
por vezes um caminho, despida –

naquela casa habita o cinzento da distância
de um outro monte e de uma outra casa
e o rosa na inclinação da bússola –

se olhares o sul encontras o sol
 a sua luz na testa e a sua sombra nas costas, nocturna, a sua lua –

se olhares o sul, encontras a viagem dos raios que trazem o céu
esse mar de avesso, em cima, sem gotas de algumas nuvens  –

se olhares o sul encontras um outro mundo
e um outro tempo, na sua asa de andorinha
na sua possibilidade, como Dickinson
e habitas, a casa como um ninho,
e a primavera como um aroma e uma luz de flores, um jardim,
seja de magnólias, orquídeas, jasmins, ou mesmo de dálias e jacintos,
e a orquídea, a rainha das ilhas entre foguetes de fim de ano
levada e em levadas pelo odor de buganvílias –

naquela casa entre a relva de um verde salsa e o caminho habita a princesa dos alpes
habita o síncrono advento, a possibilidade de uma janela grande aberta num alpendre,
num luar quente, numa rede que oscila em gestos pequenos –

naquela casa habita a melodia dos violinos, um quarteto de som
 o eco que prolonga o braço e ergue uma varinha, a magia da madrinha
a humanidade das estátuas de Sofia, a fonte  de uma nascença de águas
o seu rumor contínuo, a transparência em fio
o seu linho invisível –

naquela casa habita o embalo da serra, a sua tranquilidade
o seu búzio sem ruídos –


josé ferreira


terça-feira, 15 de maio de 2012

esta carta que te escrevo ( XX )




escrevo-te esta carta para que a guardes
como um soneto de Camões ou uma poesia anónima e imprevista
uma interrogação, uma surpresa de quatro cantos, por debaixo da porta
como se o teu nome fosse Leonor e habitasses uma aldeia
 de flores nas árvores, de sinos calados e pássaros de fim de tarde
de fontes e de cântaros de barro.
vou-te contar, começa assim:

a temperatura sobe intelectualmente e sobre a pele.
completa-se um círculo, forma-se uma espiral que amplifica
e sente-se um cântico de mel –

as cidades vestem-se de paredes abandonadas e de outras de papel
de betão e de mármores, conforme os locais
de pedras de sal se junto do mar –

as cidades vestem-se de movimentos, que te rodeiam de ruídos
de ponteiros, de colarinhos brancos, de sedas, de sarjas, de gangas
de camisas soltas, de cabelos minuciosos, presos num laço -

as cidades vestem-se de ideias quando te sentas,  cruzas as pernas
e tomas o pequeno-almoço; uma torrada, um copo de sumo de laranja
e um guardanapo de papel onde secas os lábios, o castanho claro
de um copo de café com leite depois do click das migalhas
pela toalha, pelo joelho e pelo chão  –

deste lado do universo, na metade incompleta
um copo de leite branco por vezes basta, sem cereais nem pão
por vezes basta, depois da rádio,  smooth,  de notícias ou clássica
depois de um éter antes do néctar, antes do  negro do café –

deste lado, quando acordo, trago os olhos cobertos com a noite sem galápagos,
habitada, no teu corpo, no teu sonho, esse um espelho mágico que antecipo
nas muitas cartas que te escrevo -

já passou a febre do Domingo, escondeu-se o primeiro dia da semana
ainda dorme a madrugada. as persianas não tem espaços, não se ouvem os carros
a noite é plana, não sei se já o disse antes, mas não é notícia de jornal, as últimas
que falam da Gécia, das crises mediáticas, do Rock in Rio
e de um neurocientista nos jogos olímpicos -

acordo extenuado, devo ter subido cinquenta vezes o Evereste
para te trazer um pedaço de neve, para que ele se derreta
e seja breve. como prova de aromas e de claridade, como prova única e singular
e como prova cinquenta  vezes máxima –

acordo com os olhos empolados com as íris raiadas, uma luz ao fundo
e uma dor de fogo , uma dor de brasas.
acordo com os rins impressionados de gestos
de ginásticas, de braços e de um corpo que se percorre, lado a lado
e acordo guardando sempre palavras, aquelas que eram mais
as palavras sadias, de rubor, ainda gordas e ainda fortes  de uma outra carta –

sabes, faço-te uma promessa, uma promessa que nunca acabem , as palavras
na forma simbólica de uma eternidade, mesmo mudas nas pontas dos dedos
nas pontas dos lábios e dentro de ti para que ninguém veja –

sabes, e faço-te uma promessa, o cuidado com os teus ombros
e com a face esquerda do rosto quando a direita se apoia.
desculpa o meu corpo magro, as pontas dos meus ossos, esta curva redonda
este meu corpo de pêlos, este meu cabelo, pequeno e cortado
desculpa tudo o que te incomode e abre os teus braços, o teu diamante rosa
o tua cor de mulher, as tuas ondas perfeitas quando se esquecem os segundos -

dá-me o milésimo contínuo e depois um descanso e depois um sossego
a quietude do vento –

desculpa-me de novo.  depois destas palavras sinto a brisa e a leveza, depois
depois da febre, depois da promessa e da temperatura Celsius, quarenta –

continuaria pelas amarras distantes da noite, nadando
 nadando na proximidade, sempre nadando, e na esperança, nadando –
não temo as espumas, as ondas, a sua altura
mesmo de barca à vela ou de prancha –

e guardo continuamente, as outras palavras, as que ainda não escrevo
e guardo
para que ganhem luz, uma luz de pólos brancos, sem a separação do horizonte –

quando te escrevo esta carta para que a guardes
recebo a dádiva dos astros, dos mais longínquos e das nebulosas
da sua elipse e reenvio o seu pó mais tranquilo
a sua face mais íntima para que adormeças
devagarinho, e desculpa-me o diminuitivo
como uma criança num meio de um conto alisando as pálpebras
sentindo o sono, os preâmbulos do sonho –

 descansa, meu anjo, na vigésima, a vigésima ode da primavera
a vigésima que te adormece com o queixo no pescoço
e a mão como memória dos trevos, os de quatro folhas
na curva do umbigo. –

sleep, sleep well –





domingo, 13 de maio de 2012

Poema para Galileo - um poema de António Gedeão



Galileo Galilei, Galeria Uffizi, Florença

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.

sábado, 12 de maio de 2012

esta carta que te escrevo ( XIX )




escrevo-te esta carta para que a guardes
como um papiro enrolado e teimoso, numa cor de cera
e de duplo sentido,  de barco e vela acesa
de mar e areia, de cor clara  e noite, de sonho e folhas estendidas, numa mesa.
vou-te contar, começa assim:

está um dia luminoso com raios parados e quentes.
 num rádio próximo, as ondas do éter, a música.
uma Tracy Chapman soa de  voz cheia e funda
e por vezes ausente e acústica no solo tarã-rã-rã, tarã-rã-rã
e sinto-me oscilar em  mãos invisíveis
sobre os ombros, os ombros da camisa,  azul como o céu morno –

repetem-se as cores, digo-te, é uma revolução por dentro
uma revolta que me nasce nas raízes  e sobe bem por dentro
um poder do intangível, uma hipérbole de um coração aflito
um batuque, um batuque de sinais, sem limite, “a bout de soufle”.
 repito-me, e canso-te –

a tua paciência esgota-se, não sei, digo, não sei , e preciso dos teus olhos
preciso dos teus olhos para os colocar junto dos meus, tão simples e tão perfeito
para os saciar de lábios, de mãos de roda, numa volta
e de outra volta. e depois encostados no meu peito, um conforto tão perfeito
e os braços, os braços e o abraço
os braços, dos dois lados, e um sossego, um sossego perpendicular
perpendicular ao areal, à linha do mar
e depois o laranja do crepúsculo, um incêndio a subir por dentro
até que horizonte arda, se vista de cinza e nos ofereça a lua
a lua branca sem distância e o mar ao fundo –

está um calor de assalto, tão forte que me dá forças
está um calor de dia, é isso que quero dizer, um calor de Roma, italiano
sobre uma toga branca e pura apenas porque não te encontro
agora, neste momento, voando num pés de sabrinas , soltando os cabelos
recebendo as carícias anónimas das brisas, as carícias que também são minhas
porque é lá onde se junta, esta minha espada de versos, a afastar inimigos.
 agora
no sítio em que sigas, eu  caminho –

desculpa, não quero ser obsessivo, respira, respira sempre, como quiseres
venero os teus passos e dispo-me do artifício, é tal o teu poder, tornas-me um anjo
e um  cupido atingido de seta, a despir-se e a tapar o umbigo –

as mãos que estendo são de muitas linhas e histórias e de algumas passagens de ventos
tempestades e trovões de alguns outros, eu acredito
e há um respeito em tudo o que me dizes –

desculpa, não é meu costume esta revolta, ser tão despido
mas é dos raios, os raios que apoquentam, que fulminam
que tanto me traçam a tua figura, como depois me recortam o ar em frente
e abrem um poço escuro, um lugar cheio de vazio        
uma rasteira do tempo, a supressão do linho –

sim, hoje é um dia luminoso e preciso dos teus olhos             
como faróis, faróis brilhantes de um navio, e das tuas mãos e dos teus dedos
para lavar as veias mostrar os aromas das palavras quando se vestem de vermelho
as palavras
que soam do lado de fora e depois entram nos ouvidos, e fazem eco, ressoam
e aproximam e crescem, de um tamanho, de um tamanho
que não seguramos o corpo e subimos o rio
 até à nascente
para descer de novo na seda de pedras que se amaciam
na selva das margens invejosas que quase não acreditam
nas árvores e nos  pássaros que se agitam;  
ramos, folhas e asas e um curso de águas duplas e lisas
um aconchego de infinito  –

abraço-te meu anjo, à minha frente, neste ramo de palavras
onde predominam jasmins e jacintos, os aromas das glicínias
o vermelho das buganvílias, as flores de petúnias, múltiplas cores
e as orquídeas, sim, as orquídeas
e uma união, tão perfeita, tão perfeita dos sentidos –

beijo-te a corda das vértebras, a coluna, e seguro-me
dás-me um mundo
de ombros nos ombros e de cabelos estendidos em trança
de um só lado para emoldurar o rosto, enquadrá-lo melhor, sereno
para que adore a sua inclinação breve, o seu sorriso de mistério e sem mistério
o seu desejo de amoras
o seu desejo de febre –

mas calo-me. como sempre tenho que calar as palavras, a sua platina
que me abre e me torna exausto, em arrepios.  calo-me e guardo-as.
para uma próxima carta.
como sempre é tarde e há um silêncio enorme nas paredes do quarto.
 dorme, descansa, dorme e descansa ao mesmo tempo.
sonha,  corre, sonha e corre  dentro do sonho por uma aurora
por um campo de margaridas de pétalas brancas e olhos amarelos
no dia de todos os pólens
e sonha agora, agora –

por onde sonhares, eu caminho, sonho contigo –

sonho contigo –
dorme, descansa e sonha
agora, agora  –


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Então sento-me à tua mesa - um poema de Herberto Helder


                              Renoir

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua sombra e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém,
teu sinal de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor.

Herberto Helder

quinta-feira, 10 de maio de 2012

esta carta que te escrevo ( XVIII )


                                    Margarida Cepeda


escrevo-te esta carta para que a guardes
sobre o teu colo, de pernas esticadas, olhando o mar
o infinito das ondas, o seu brilho num dia de sol
quando se espera a cor laranja ou o rosa de um crepúsculo
o adormecer  diurno, sem vento nem saliências, brando.
vou-te contar, começa assim:

começo pelo desejo, pelo que anda mais perto:
o estar de mãos dadas na nossa cidade, a cidade que tem barcos
a cidade que tem jardins imensos, de tílias e plátanos
que tem riachos a correr escondidos e braços inatendidos e suaves
que tem metros velozes, várias linhas e muitos caminhos
nem sempre direitos, de algumas curvas mas de muita alma –

a cidade, a nossa cidade, granitos e basaltos
muros e ruas de muitos carros,  e um desejo
a nossa cidade, de mãos dadas–

sopram as mesmas brisas de outros dias, não é o dia diferente.
como sempre,  escuto o teu rosto mesmo que longe
mesmo que pousado num outro lugar
e há tempo, muito tempo, para tornar a nascer
para ver o mar –

resumo da forma mais simples o correr dos segundos, o estreitar de um abraço
que passa pela proximidade, que passa pelas cartas e que passa  pelos poemas;
 a sua forma inaudita, a forma inaudita como chegam,
como uma corrida de borboletas,  persistentes, em todos os momentos –

 ofereço-te os poemas,  ofereço-te os poemas, cuida deles, não me pertencem.

chegam na vontade dos anjos
como a seta suave e a gota mais límpida;
o belo lugar onde se dirige
o lugar onde adormeces, o lugar onde estás adormecida –

não me pertencem as palavras. recebe-as puras como uma flor que desponta
uma seiva persistente, uma corrida de fotossíntese
um tudo junto, a completude de um mundo, junto –

na ausência desses olhos, dessas mãos, desses braços, desses dedos
sem a caligrafia azul  da tinta
seria difícil que as palavras subissem a escada, os degraus de tábuas
a escada de degraus pendurada no ar em direcção à atmosfera
o lugar das estrelas –

seria difícil, e não seria eu este cantor das ruas, este ser impressionado
este ser de folhas e folhas e folhas, de poemas intensos
e um fluxo contínuo, um fluxo contínuo, um fluxo contínuo –

se não fosse esse teu modo, esse teu afago, esse teu sonho
este meu sonho, seria impossível
e não seria o poeta das noites perdidas
seria apenas um outono monótono, uma árvore só de braços
sem as folhas e sem milhares de palavras
assinadas com a pele, com afectos, com cordas e teclas
nesta música de existência, como o mundo, como o magma e como a lua –

desculpa, por vezes tenho que deixar cair a caneta para que repousem as letras
são muitas,  correm sem nunca se sentarem, correm na força de um braço distante
que me agarra os pulsos e levanta,  mas não quero que te canses
não quero que te canses, e deixo cair a caneta.
com as duas mãos tapo a boca
e indico-lhes um trajecto de veias na direcção das prateleiras
a biblioteca do pensamento
para que repousem, para que não te cansem, e para que não as esqueça –

sabes, a lua é clara e as pálpebras estão pesadas, não sossegam.
mesmo fechadas, continuam a surgir quadros, aguarelas
o aconchego de um ninho, um suave sussurro nos ouvidos
 ecos em todos os quartos, os quartos da lua
que podem ser as minhas mãos, as duas, segurando as faces
o teu rosto redondo, os teus olhos de ninfa, abrindo e fechando janelas
como se, uma serenata de rua, como se, um boomerang das alturas –

um boomerang que lança perfume
uma iluminação nas ondas, uma claridade nas espumas -


e espero que sorrias, que sorrias agora, espero que sorrias,sempre -

espero ouvir os teus olhos e o levantar dos lábios
os olhos e a boca, a brancura dos dentes
como janelas num palácio de Julieta
que se fecham e que se abrem –

sabes, não quero que te canses,  calo-me.
fecho esta metade de conchas para que sejas a descoberta
a pérola mais profunda, a maior de todas as luas, a magnífica, a dupla
e quero que adormeças
tranquila, calma, sempre, e no maior sossego –

hoje tenho uma lágrima no rosto, cai de forma muito lenta
não devia dizê-lo, desculpa -

e queria fazer-te festas no cabelo –

quarta-feira, 9 de maio de 2012

um poema pequeno


                        Royal Ballet de Londres

apenas quero escrever um poema pequeno
para que não esqueças que te escrevo sempre
mesmo quando é Inverno e há chuva lá fora –

um poema pequeno
porque não posso adormecer assim de repente
sem que te diga para adormeceres,  lentamente –

um poema pequeno
sem palavras complicadas e em gestos de seda;
aqueles que me vestem os dias, os únicos límpidos –

 gestos naturais, leves e lentos;
 um muro de brisas quando o vento se levanta e sopra o frio –

e para que nada te magoe
nenhuma pergunta e nenhum mistério
quando a lua pousa, nos teus olhos de mundo –

terça-feira, 8 de maio de 2012

esta carta que te escrevo ( XVII )


                                       imagem retirada da internet



escrevo-te esta carta para que a guardes
como a fina pele de flores dentro de um livro
para encontrares assim de repente junto de um sublinhado
uma marca de lápis de uma frase ou um verso importante
mas sem tempo nem hora marcada, assim de surpresa.
vou-te contar, começa assim:

águas mil e não é abril, um maio de flores, um maio aberto
como se não fosse a cidade e antes um cimo de um monte-
um maio bravo que se veste de muitas cores e um maio terno.
nunca ninguém se cansa do afecto quando ele nos abre a alma.
é verdade, é uma poção que nasce sem invenção de objecto
é um calor de pele e um incenso que arde;
uma mão de terra que de repente desperta e solta  uma semente
uma terra que liberta e na libertação explode a parte mais frágil
que sobe, de passos lentos, e procura o sol, de passos lentos
e segura o húmus numa raiz profunda para que migre por aí acima
ganhando o corpo e a força, o volume de braços de folhas e flores
e frutos de cor vermelha –

maio é um mês de cerejas, brincos de cor brilhante, rubras de rompante
a rodar dentro da boca, na sonoridade que se abre e dispara doce
sobre a língua, o sabor intenso –

hoje cai um mar de água sobre a cidade
e as terras recebem de novo a humidade abundante
a agricultura respira de uma seca precoce, cessa  o perigo de desertos.
a chuva não me incomoda, porque há uma grande claridade.
sinto que sentes,  e ao sentir faço mais desenhos
penso de novo nas aguarelas na forma de procurar 300 gramas
a composição adequada de algodão para que a transparência
e o inusitado azul seja um céu, completo, completamente perfeito
um céu de um celeiro, em construção, uma obra, a composição –

Cézanne tem obras de uma naturalidade morta, estudiosa
mas não são essas as que mais me impressionam
porque quando mais jovem subia às árvores e sentava-me nos galhos
roçando as cascas dos frutos  nas gangas e nas sarjas das calças –

sentava-me nos ramos como se fossem cadeiras
como se fossem cadeiras de madeira e palha, as cadeiras das aldeias
cadeiras que cumpriam muitas tarefas:  altas para sentar à mesa
e mais pequenas para acomodar as lenhas nas grandes lareiras;
potes de barro,  potes de ferro, batatas com casca e muitas proteínas.
lareiras grandes onde se queimavam enchidos e se assavam castanhas –

mas falava de Cézanne, Cézanne tem outras obras, obras que aprecio
e vem o tema  a propósito de aguarelas, uma aguarela de um quadro
um pouco mais do meu jeito, as paredes da sala, o azul, um brilho mais vivo
e vem o tema  a propósito de um outro tempo,  sem computadores, na aldeia
onde nas tabernas se juntavam homens para jogarem cartas.
os homens exigiam a presença de copos de vinho e passavam o tempo
com vozes grossas e enroladas
com o lápis a fazer cruzes e de quatro em quatro a fechar bolinhas
a completar um jogo sem match point, uma sueca ou uma bisca de sete ou de cinco –

mas chega, falo muito e assim não adormeces, não te esticas com o rosto de lado
e não aproximas os joelhos; o ângulo agudo do colo, as pregas do pijama
um pijama de tshirt hello kitty e calças às riscas –

abres os olhos e fazes-me perguntas. sossega, não há pressa. agora adormece.
o meu gato branco invade-me as pernas, pisa um bocadinho a pousa as pálpebras
e depois senta-se, escolhe de que  lado arredonda a cauda e assume a posição de esfinge
antes de cair redondo com os bigodes e o seu rosto de linhas,  e adormecer calmo e de mansinho –

sossega. eu calo-me. guardo  alguns segredos para que maio aconteça.
não te quero com os olhos abertos nas portas da madrugada. cansas-te.
prefiro que ouças músicas, músicas suaves ou fortes, acústicas ou de rock
mas sempre com palavras de poros, palavras silvestres, palavras de significados
como as ondas e as praias
que se repetem –

hoje convoco a música das sereias, um búzio gigante
um búzio do tamanho de uma cidade
e a repetição das ondas numa aurora boreal
hoje reclamo o sorriso dos teus olhos , na distância
como um hino puro e a união de duas luas
uma lua cheia e uma lua grande, as duas, uma –

mas não te assustes, não faço barulho, guardo o batuque esquerdino
a liana de selva dentro do peito como um pêndulo
marcando todos os segundos;
o boomerang dos sentidos, que vai e volta, que vai e volta
que te rouba um pouco de creme de noite  da face direita
e que a traz nos lábios para que permaneça
pela noite inteira -
pela noite inteira -
pela noite inteira -

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Poesia

A poesia está nas árvores nuas
Penduradas nos ramos as estrofes maduras
Em ritmos suaves

Rimas abraçadas ao vento
Voam fora do tempo, sem idade

Os versos novos no ninho
Crescem e cantam baixinho

As raízes, longas inspirações
Trazem memórias, canções

Todo o tronco num embalo se enquadra
Dentro as palavras em seiva
O sol namora e verseja
Nas folhas espalha sua luz

Os poemas estão no ar
Entram no sangue em respirar
Directos ao coração

Poema é hemoglobina enlaçada em fita fina
A beijar a emoção.

O amor

O amor quando se enfeita
Com fitas de beijos e asas
Faz em réplica perfeita
A melhor de todas as casas

Faz-me crer que o sol
Nasce em cada teu olhar
Como um grande girassol
Que me embala ao girar

O amor quando se veste
Com estrelas e maresia
Escreve na minha pele
A lápis a tua poesia

Faz-me crer que a lua
É teu quente colo em manto
Que ilumina a noite escura
Com um reflexo branco.