quinta-feira, 16 de junho de 2011

sementes que nascem em terra queimada

sementes que nascem em terra queimada I

anteontem.
inquietude tão imprudente
rasga-me.
apetece demais bulir
agarro-me.

ontem.
da paralisia
não resvalou repouso

antes fosse sono.

sementes que nascem em terra queimada II

o tempo que acabaste
diluísse barulho
cassou calma por dentro
às vezes para sempre.

traste.

se o amor morre não se cuida.

não evocadas imagens, luto é luta

espuma de tristeza, dias

por mim passam mal.
não voltaste.

adormeci rápido, acordei bem
não sabia em falso abraço.
quero paz.

sementes que nascem em terra queimada IV

a verdadeira terra, essa
sem lume queimada
sempre, tarde percebo
de muito antes o negado

tarde percebo sem remédio
como a morte, só que
é loucura não te amar.

eternidade.
apenas uma, a semente.

ainda a, ainda proibida a palavra...


Apresentação de "Créme de la Creme"




Convido-vos a todos a participarem na apresentação do meu novo livro: "Créme de la Creme" que se irá realizar este Sábado pelas 16h30 na Cooperativa Árvore


Abraço a todos

Nuno Brito

quarta-feira, 15 de junho de 2011

- Que as andorinhas não choram

I
É uma porta de ferro
Alta, larga, densa – Não se lhe conhece o fim.
O bando já foi
As andorinhas nasceram para rasgar o céu
Voou, mais uma vez, de uma investida,
Conforme lhe ditava o coração
A porta não se abriu.
Como num bailado, duas piruetas
Uma andorinha no chão, duas asas partidas
- Éeee – Um eco – Dois miúdos jogavam à bola
- Iuiui – Passou o amolador das facas
- Pic pic pic – As primeiras gotas batem no vidro
Entra o cheiro da terra molhada
E começou a chover
- Que as andorinhas não choram.
Primavera Verão Outono Inverno

II
- Então não estamos aqui? – Perguntou ele.
- O corpo sim – Disse ela nua – Mas, tu não abriste a porta. E eu estou morta.
No palco também chovia
Sobre o olhar atento de Pina
E a rapariga de branco
Dançava como andorinha e gritava
- Eu sou jovem!
Primavera Verão Outono Inverno

Cansei-me desta chuva miudinha



















"Golconde", René Magritte, 1898-1967
.
Cansei-me desta chuva miudinha,
Teimosa e poalha venenosa –
Molha sempre a minha poesia
E enruga a folha lisa onde mora.
.
Fechei a janela e a gelosia,
Mesmo assim aquela miudinha
Entra-me em casa sem pedir
Licença, curiosa e atrevida.
.
Pousa-se logo ali na mesa
De trabalho e olha a tinta
Como uma rival – as palavras
Entende-as como quer e pode.
.
Afinal, tanto lhe faz se estão
Deitadas ou se estão de pé,
O que ela quer é encharcá-las
Todas. Sim, mesmo até à alma
.
E fá-lo sempre com a calma
De um crítico de literatura.
A criatura lê tudo a direito
Sem respeito por quem
.
A pensou e escreveu. Enfim,
Presunção e água benta,
Tem-na ela à flor dos olhos:
Lê e insensível diz – não presta.
.
E esgueira-se de aresta em aresta
Feliz e rindo da patifaria. Eu fico,
Já se vê, como o sol no deserto
Capaz de a matar de insolação.
.
Mas sem demora guardei a poesia
Enrugada na gaveta, e fui para a janela
Exorcizar a chuva para que fosse embora.
.
E mesmo tímido, o sol iluminou-lhe o caminho –
.
2011-06-06
José Almeida da Silva
.

Reflexão à chuva

.
Foi de chuva intensa esta manhã, eu sei,
E a noite de caudalosas lágrimas.
.
Não sei que te diga. Tu sabes, a chuva
Aborrece e depura, apesar da lama a correr
Pelas ruas [é verdade, as sarjetas entopem,
Não são limpas – o verão distrai quem é já
Propenso à distracção e à monotonia]
Enlameando os degraus das casas e as caves.
.
Às vezes, nutre a chuva, sobretudo
Se surpreende as pessoas que a não
Esperavam, distraídas, e que correm
Às lojas chinesas que pululam na
Cidade como os cogumelos nas terras
Húmidas e quentes, e compram baratos
Guarda-chuvas de qualidade duvidosa.
A lama é também aluvião, fertiliza a terra.
.
Queixas-te muito de que a chuva incomoda.
E as lágrimas desassossegam-me ainda mais,
Brotam do magoado coração como a elegia,
Um coração que pensa somente em remoinho,
Sempre a mesma ideia, sempre a mesma força
Centrípeta confundindo a lucidez do espírito.
.
Melhor teria sido ir para a rua festejar
Como as crianças chapinando nas poças
E molhando os sapatos e as meias, rindo –
.
[Vejo-me no espelho de uma poça a brincar,
Sapatos encharcados até aos pés, e as calças
Molhadas nas bainhas, tudo uma emoção,
E felicidade por esses momentos de alegria.
.
Sei bem o que custa assim a liberdade,
A minha mãe vem lá de mãos atrás das costas –
.
E tu sorriste ao sol do meu sorriso –
.
2011-06-04
José Almeida da Silva
.

Toquei de leve a chuva

.
Toquei de leve a chuva
Caída no teu rosto
.
Somente à transparência
O teu olhar de luz
Era frágil inocência
.
Abandonada a beleza
É ainda mais bela
E iluminada
.
Repousa a chuva
Na manhã de rosas
E tu resplandeces
.
Afrodite não estaria
Mais sublime –
.
2011-06-08
José Almeida da Silva
.

Borges e a chuva


Renée Magritte


La lluvia



Bruscamente la tarde se ha aclarado
porque ya cae la lluvia minuciosa.
Cae o cayó. La lluvia es una cosa
que sin duda sucede en el pasado.

Quien la oye caer ha recobrado
el tiempo en que la suerte venturosa
le reveló una flor llamada rosa
y el curioso color del colorado.

Esta lluvia que ciega los cristales
alegrará en perdidos arrabales
las negras uvas de una parra en cierto

patio que ya no existe. La mojada
tarde me trae la voz, la voz deseada,
de mi padre que vuelve y que no ha muerto.

Jorge Luís Borges



A Chuva

Bruscamente a tarde se há desanuviado
Porque já cai uma chuva minuciosa
Cai ou caiu. A chuva é uma coisa
Que, sem dúvida, sucede no passado.

Quem a ouve cair há recobrado
O tempo em que a sorte venturosa
Lhe revelou uma flor de nome rosa
De tão peculiar avermelhado.

Esta chuva que escurece os vidros
Há de alegrar os subúrbios perdidos
As uvas pretas de uma parra em certo

Pátio que já não existe. A molhada
Tarde me traz a voz, a voz desejada,
De meu pai que volta e que não morreu.


lido aqui

terça-feira, 14 de junho de 2011

Meditação do Duque de Gândia

a propósito da chuva (um poema republicado)


fotografia de um filme de Godard


......................................"o eu é um movimento na multidão
.........................................................Henri Michaux


o prédio no meio dos outros prédios
tem paredes tem alicerces
mas não tem braços.

por vezes assim a noite
de um lado e de outro lado
os ombros férreos apertados.

o prédio no meio dos outros prédios
tem janelas e uma porta clara iluminada
- nas costas o tijolo cego
de costas um outro prédio.

por vezes assim são os lugares do medo
cintilantes na claridade frontal
sombras de cera e chama ténue
no interior de um quarto vasto.

o prédio no meio dos outros prédios
quando chove conduz as águas nas telhas
para o espaço contínuo de um pequeno rio
- é esse o objectivo
que as águas se juntem se tornem maciças
no som no ritmo na procura dos caminhos.

por vezes assim é o pensamento
que acrescenta esta e aquela sequência
e a consequência de um sentido uma linha
feita de asfalto granito ou terra batida.

há uma mão gigante atrás de cada indivíduo
recolhendo a linha como um fio
enrola enrola agarra o novelo
como um muro sem porta
aponta o caminho em frente sem reverso
- não há regresso continua!

o prédio no meio de outros prédios
pode ganhar braços como as árvores
arrancar raízes no orgulho de ter pernas
abrir janelas e andar pelo meio das ruas
dos carros autocarros e bicicletas
até encontrar um parque, muitas árvores
desfolhar cortinas –

por vezes assim são os quadros os poemas a escrita
a revolta de um grito -

José Ferreira 30 Abril 2010

segunda-feira, 13 de junho de 2011

chove muito imenso

.
.
chove.
chove muito imenso.
uma chuva intencional e substantiva que – mais do que
desprender-se do céu abandonada a um guião pré aprendido
nos ciclos genéticos secretos da água –
vem precipitada em franjas gordas e verticais a ver se esmaga
as planícies e as ondas do mar.
.
tenho saudades de uma chuva andadeira e confortável,
que venha regar-me as magnólias e as ervas de cheiro.
uma água chuvente sossegada e silenciosa,
sem dúvidas e sem perguntas. falta-me essa atmosfera húmida,
pálida e plácida, com cheiros castanhos que me fazem dormente.
preguiçosa.
.
chove tanto que sinto a cidade ceder e afundar, os telhados
perto da calçada, numa bidimensionalidade forçada
em que as superfícies visíveis das coisas não têm volume
porque não importam. e sobra só a chuva em forma de muitas
águas. caídas em muitos ciclos de tempo.
não sei de onde lhe vem a autoridade e a força incondicionais.
um carácter que assusta e faz inveja
porque toma conta de mim. mesmo sendo água e nada mais.
.
chove muito imenso e o cantar descompassado nas telhas
e nas janelas, traz contos antigos em testemunhos de outras
monções. chovem gotas que um dia rolaram da pele
escamosa de um dinossauro e que caíram em cidades perdidas.
chovem as legendas líquidas de milhares de milhões de vidas.
.
chove tanto que me chove por dentro. a água cobre e ensopa as
máscaras e os figurinos que me ocupam os corredores
que não quero ter à mostra. depois escorre-se e lava tudo
na enxurrada. fica o vazio onde ecoam os
silêncios inconvenientes das perguntas que se fazem
quando não está ninguém a ver.
ensurdecem-me as dúvidas e incomoda-me a inocência de não saber
o que serei quando crescer. ensurdece-me a chuva que não pára,
e fico presa à convicção que não há nada a fazer,
e que hoje o único verbo com propriedade de acção, é chover.
.
pouso o lápis, abro as portadas grandes da varanda e saio.
estou descalça. e o chão está seco.
.
r.p.|oito.junho.doismileonze

domingo, 12 de junho de 2011

Boletim Meteorológico

Pela manhã espera-se um arfar de orvalho brando,
que deslizará em surdina, entre nuvens.
Há-de segredar gotas envergonhadas
e qualquer coisa de chuvisco, quase arrependido

Pela tarde prevê-se a revolta.

O gotejar vai fazer-se trovão, fazer-se dragão.
Incendiará de dilúvios as cidades e as terras semeadas.
Absolutamente imperioso, há-de rasgar o azul do dia,
apagar qualquer possibilidade de sol,
e dissolver o horizonte.

Aconselha-se que fique em casa
Agasalhe-se
e leia poesia.

Lá fora há chuva.

Dorme bem




Dorme bem. A porta fechou
No ruído doce dos teus lábios e uma passagem leve de ar.
Dorme bem. Não farei a barba. Algumas gotas de água
Desfeitas, de almofariz, nos restos da noite, nos cantos da boca
Nos restos de noite, nos cantos dos olhos, colados por dentro na imagem.
Dorme bem. Fechou a noite depois do silêncio, no lado de fora do quarto
Até que parto, depois das gotas de água, para a nebulosa raiada de luz forte
No passeio da cidade -
Dorme bem. Levo a marca no lado esquerdo do rosto, uma linha grossa
Mais cinzenta, depois dos teus braços lavados de branco, dos teus …
Nem digo nome, belos e quentes como sedas nascentes, em descanso -

É cedo e a rua é apenas uma chávena opaca de gotas de orvalho -

Os pés recuam no tempo. Os anos são asas aceleradas, rápidas, rompendo décadas -
Será sonho?

José Ferreira 12 Junho 2011

sábado, 11 de junho de 2011

Le mal du pays




Às vezes, é só a cabeça de um leopardo doente.
O rancor musical de uma cesta de fruta, à cabeceira.
Um silêncio apócrifo, puro, pouco higiénico até,
a matemática mórbida da chuva contra a inconveniência
que volta e a saga cega de alguns insectos terrivelmente felizes
pela morte recente do teu sexo,
e do teu peito, satélite natural da armadilha,
onde a manhã apagou mal o seu cigarro desaparecido.
Depois, a calma suja e pulmonar do dia seguinte.
O teu corpo, cheio de espadas e sequelas,
atirado à baba lenta da permanência,
à luz que lhe dá de beber
e que, ao mesmo tempo, aprende lentamente a destituí-lo.
Nove exactos segundos de apneia, para no décimo apenas meio mundo emergir.
Como um país, cuja capital ficara devastada por gritos e agora renascesse
na exausta arquitectura das suas antecedências
o equívoco.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A Palavra sobre a Palavra

A Palavra sobre a Palavra - Encontros com Escritores


Ciclo em homenagem a
Eduardo Prado Coelho
Uma iniciativa do P. E. N. Clube Português
.
.

Clube Literário do Porto
Dia 7, terça-feira, Auditório, 21h30
.
.

Convidada: Ana Luísa Amaral
Apresentada por: Maria Irene Ramalho
Sessão moderada por: Maria João Reynaud
Leitura de poemas pela autora
.
.
Organizadores:
Maria João Reynaud e José Rui Teixeira
Em colaboração com:
Clube Literário do Porto /2011

domingo, 5 de junho de 2011

um poema de Emily


Isabelle Adjani

By a departing light
We see acuter, quite,
Than by a wick that stays.
There's something in the flight
That clarifies the sight
And decks the rays.

Emily Dickinson

A uma luz evanescente
Vemos mais agudamente
Que à da candeia que fica.
Algo há na fuga silente
Que aclara a vista da gente
E aos raios afia.

(Trad. Ana Luísa Amaral)