sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

António Ramos Rosa (Faro, 1924-)

Não posso adiar o coração

Não posso adiar o amor

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa (Faro, 1924-)

Serenata Sintética

Rua
Torta

Lua
Morta

Tua
Porta

Cassiano Ricardo (S. J. dos Campos, SP, Brasil, 1895-1974)

Um outro olhar...(9)











“no topo do mundo...”

é tão bom subir às montanhas mais altas
sentir que estamos no topo do mundo
ver como somos tão insignificantes
e como tudo é tão efémero nesta vida

no topo do mundo
vemos tudo
vemos homens grandes que se julgam pequeninos
e tantos, tantos homens pequeninos que se julgam grandes

daqui, vemos as casas, os carros e as pessoas
os sorrisos e as tristezas
tanta riqueza no meio de tanta pobreza
daqui vemos tudo

ou, se calhar, não vemos nada
apenas sonhamos que vemos
e, às vezes
é melhor sonhar do que viver

viver dói... porque é real
sonhar... é ir ao topo do mundo
aquele sítio onde tudo acontece
aquele sítio onde nada acontece

Lábios mosto o brinco madrepérola

Lábios mosto o brinco madrepérola


"que farei quando tudo arde?"


Não havia razão no dia certo.
Mota capacete o cabelo
a esquina do passeio o parapeito
onde se guardam orquídeas o desejo
a ternura o sopro o amor inteiro.

Braço na abertura brilho
vídrico reflexo do rosto
lábios mosto o brinco madrepérola
em argola pendurado descomposto.

A chave circular de cor anil
o rimel o perfume a pele lisa
a tarde escondida. No pêndulo misto
o urso branco polar e a Petruska
bordada a lã liberta na asa aberta
da mala atrevida a saída fugitiva.

O trinado; fechadura rangido
espera do destino. Outro mundo
sem ruído. Passos leves no tapete
bordeaux gasto sapatos lestos.
Costas delicadas nas formas
linha recta à primeira escada
degraus modestos pose de Rainha.

O patamar antes da porta no
primeiro andar e a frincha
convite abrindo a hora a ousadia.
Pequeno toque o vazio outro lado.
A carta na mesa a mensagem
uma pétala de Atenas a luz acesa.

Susto medo não não não! Má surpresa
envelope de bico levantado a letra
dele mesma caligrafia ainda
sem ser lida.

Outra frincha desliza
sombra vulto olhar sorriso
corrida abraços na medida
a lágrima sem siso a alegria.

Dois a demorar
línguas doces mãos de flama
dança de figuras chinesas
às rodas na parede.

O jacarandá.
Melodia de folhas verdes.
Frutos maduros nas rendas
"wonderbra" e as peças repartidas
camisas algodões sapatos
meias cordões
lençol fímbria num rodilho.
Àguas no Tamisa amor moderno
trémitos no calor de um suspiro.

O brinco descaído sem mágoa
a posição do invertido rosto dela
perna dele
rosto dele no umbigo.

Na sala deserta
a carta na mesa a mala aberta
a caligrafia sem ser lida.

No quarto ao lado: a vida.
Violinos de Paganini Pianos de Chopin
Liedes de Liszt génios em sintonia
e um sonho que imagina
o meridiano no mesmo sítio;
na mesma hora
no mesmo dia.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Cá estamos nós outra vez

Desculpem tomar conta do espaço para "postar" (não gosto nada desta palavra, mas não sei como substitui-la) alguma coisa que não é poesia.
Ou será? Para mim esta música é poesia, mas eu pouco sei (apeteciam-me mesmo, mesmo umas reticências por todo o lado - contenho-me).

Sei apenas que gosto muito de estar com vocês nas nossas fugas da 4a feira. Por isso, a música em dádiva, como uma magnólia arrancada pelo pé ao cocuruto de um poeta. Está fresca ainda, e pronta a devorar, juntamente com o resto do blog. O monstro precisa de alimento!

Beijinhos e obrigada



Olá (cá estamos nós outra vez) - Jorge Palma

Convite

.
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é com todo o prazer e imbuídos do mais profundo espírito poético, que vimos fazer o seguinte anúncio:

no próximo dia 22 de Dezembro pelas 19.45h na Reitoria da Universidade do Porto

terá lugar uma
sessão de extra do
curso de escrita criativa em poesia

à qual poderão comparecer todos os alunos aprendizes de poetas da primeira e/ou segunda edição do supracitado curso

a sessão decorrerá sob a orientação da poeta mestre de todos nós
Ana Luísa Amaral

e será seguida de uma ceia em lírico e saudável convívio
em local a definir que será oportunamente indicado
.
.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Apetece comer este blogue!

Só para dizer que apetece comer este blogue

Cito a Natália Correia para quem "a poesia é de comer" - Mas estou atento e de facto adoro o que aqui é dito - Aliás - "O Mar parece azeite" é o acontecimento do milénio - Não vai demorar a uma História da Literatura do século XXI português reconhecer este blogue como Essencial -
Porque é activo, é dinâmico , É BOM - Este é o argumento -

Este bolgue apetece comer!


Continuem a conspirar na Reitoria para criar um MONSTRO POÉTICO indomável.

Eu estou de fora, mas estou atento qual Trotsky de pena na mão pronto para lutar contra as touperias inimigas do literário!

Marquem o jantar! É necessário que a conspiração tenha um lugar físico também!


Saudações poéticas!

Chegaste-me em linhas precisas

ah esqueci-me do epígrafo!

Aqui vai direito:

"What's in a name?"
(Williame Shakespeare, in Romeo and Juliet)



Chegaste-me em linhas precisas.
Ousara balançar-te as letras,
como se em traços espiralados os encontrasse.
Os nomes.
As denominações inconstantes, distantes,
os nomes deselegantes.
Procurava as cotovias e escrevia os elefantes.
Haveria talvez traços de ti nas palavras.
Sonografias amenas.
O som das palavras serenas
em ti.
Se na poeira dos esboços partiste, nada ficou.
Chegaste-me em notas pequenas.
Não por rompantes de luas mas em grafites e penas.
Tracei-te o rosto.
Não serias a curva solta ou o plano interrompido.
De ti a liberdade,
O ponto não definido!
Pois para quê pontuar-te se em desconcerto me abarcas?
Não procuro agora definir-te paredes, se em tectos foste feito para soltar.
Em linha te abrigo, sem nome,
Sem a sede de te traçar.
Pois em ti de perto o traço e a linha por terminar.
E se em ponto de quem termina
A palavra ainda faltar
Abraçarei a tinta-da-china
(ou na tinta que me restar)
o traço de quem assina
o prazer de não nomear.

Maria Inês Beires


(peço imensas desculpas pela demora, mas foi-me mesmo impossível vir cá antes!)

Não passa nada

Saí noite fora de olhos no chão.
Ridículo tropecei no tapete,
no degrau, no fecho da porta
automático- ruído de grilo
aos pedaços no hall vazio!

As caixas dos correios etiquetas
"não obrigado" publicitário
o riso do silêncio atrás das orelhas!
Quiz sair para a noite escura.
Na bofetada poros à pressa
na defesa espantada das navalhas
gélida aragem!

"Não falas! Não falas!"
Nos balões dos meus desenhos:
"Não quero! Não quero as minhas palavras!"
De novo:" Não falas! Nâo falas!"
Mais alto:"Não falas! Não falas!"
Eu mais baixo, coberto de almofadas:
"Não quero! Não posso! Já basta!
Não passa nada!"

Saí porta fora olhos compridos
o chão da entrada o hall vazio!

Gostei do frio.Ajustou os invernos
corpo de cruzeta no varão da escada,
descendo o passeio de bengala
fato e gravata e os pés ao alto
foragido na noite errada!

O céu lá fora! Estrelas nada!

Pingos de vidro nos telhados
um grande iglo gelado
as vidas miudinhas e Gulliver
Poppins a voar de nuvem
e as vidas miudinhas
as cabeças pequeninas!

"Não falas! Não dizes nada!"
Fundo bem fundo no obscuro
circuito do meu mundo:
"Não posso! Não quero! Não passa nada!"
Mais alto:"Não falas! Não falas!"
Fervendo gelos na calçada
"Não posso! Não quero!
Logo volta a madrugada!"

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Um poema de que gosto

Um dos primeiros livros que li há muitos anos atrás numa
mesa partilhada da Biblioteca Municipal do Porto,
chamava-se "A secreta viagem" de David Mourão Ferreira.
Guardo na memória essas descobertas e alguma propensão
para nem tudo desvendar, dar lugar ao segredo.
Em homenagem a esse lugar, que pode ser a cadeira e
a mesa larga onde me sentei para descobrir o encanto da
poesia, deixo-vos um poema deste autor.

A escada sem corrimão

È uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quantos mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

O berço

Enterneci-me com o poema da Sara, o poema
de mãe e filha, o poema de filha e mãe.
Lembrei-me de misturar estas sensações
com os lugares especiais em que alguns de nós
se descobrem, revelando sentimentos, emoções
e ao mesmo tempo resguardando-se numa
certa névoa de mistério.
Este poema coloca dois lugares especiais
de uma outra forma, os lugares dentro das
pessoas. Por isso fala de forma simples e
singela, do berço que embala
e do colo de mãe!



O berço

O berço é de pau-santo;
uma perna mais pequena.
Treme o bébé de surpresa
no jeito que lhe dá
transforma em brincadeira
num baloiço o problema!

Vai e vem na nossa alma
nos precalços da vida
um sentir de mais além;
quando se era feliz
nos braços da nossa mãe!

o sucumbir de um isolado centro.

I
Um nome no muro
como fugir se regressa intemporal?
Esconjuro tatuado no fogo
conspira contra o afastamento do drama
Sensorial.

A terra treme - o homem teme,
a falha lendária rediviva
lento manto de arruinadas marcas –
fendas mal remendadas,
lamento de vegetação rasteira

costurado por material inflamável.

Soterrado o muro
escava minúsculos veludos
com luvas de mercúrio
ao encontro de vestígios
de um nome puro.

II
"O fundamental é enterrar os mortos e cuidar dos vivos."
A comunidade internacional providencia meios, e cães
feios treinados para encontrar cadáveres. Multiplicam-se
as declarações de solidariedade pelo mundo. Abrem-se
contas nos bancos de areia. Chegam
à alfândega contentores de ajuda humanitária
provenientes das nações dadoras de castelos e água potável.

A vida continua…
contam-se votos para a melhor foto do terramoto.
Vaticina-se num balanço provisório o número de mortos da terrível tragédia.

Que sorte o dístico salvar-se no tubo de ventilação
do ar condicionado do autopulman acidentado.

O corpo do nome infectado por excesso de pó real
contraía o ar afecto aos pulmões,
aquecia memórias anónimas auto-reguladas e

sobrepostas ao epicentro do sismo actual,
esperava o resgate das equipas de salvamento
especialmente recrutadas para o efeito.

III

Soterrada a inscrição do amor
melhor seja gritar o nome dentro do nome
a derradeira raiz soletra a despedida ao mundo
pequena réplica de última pétada chama-te
ao recolher-se no lodo das ruínas
do escaparate vandalizado.

Antes do apagamento debaixo dos escombros
acena o prolongamento de pesares circunstanciais
no gaguejar trémulo de magnética finitude
de um tartamudeado nome que assuste:
Ma… Ma… Maria Madalena.
A Maria que arrebenta na boca dos mares
A Madalena - memória magna de Proust.

Louvado sejas - nome possível -
levas no colo o mundo sem chão,
pelo menos em ti
não há arrependimentos

nem má loucura.

Ma… Ma… Maria Madalena.

Canto (do lugar especial)

Tenho um canto que me acolhe,
lá na praia do Molhe.

Atrás de um milhão de anos
de uma rocha gladiadora,
uma cova encantada enrola-me,
o mar alisa-me o passado,
o sol aquece-me os pés
e a Terra lambe-me as feridas.

O canto, canta baixinho.

De um jeito caramel

Mãos de medusa em círculos de dedos
casulos de seda nos caraculos cinza
do meu peito;
filigrana fina de fios de chuva
na noite acesa das costuras
rendilhado de luas!

Translúcida de afectos flutuas
de seios plenos
oscilando em quedas de vertigem
trocando fluídos, tontos vapores
firmes desejos, puros deleites!

Brisa...
aragem leve no ondulado das cortinas
o rosto claro, esmeralda nas pupilas
dança de searas, húmido aroma de fenos!

Sou...se...sou...irreal...sela de prazeres
conduzido...ao décimo, centésimo, milésimo
do último segundo...
espaço luz!...os sinos!...a melodia!...
os violinos!...o Ah!final...
quando se cerram lábios
se abrem diques
se invadem margens!

Bom!...bom!...bombom!...teu!...minha!...

Abraça-me de um jeito caramel
espalha nos meus a compota doce dos teus
batons de morango...olhos de faróis
no brilho máximo...em cima...descaindo
o triãngulo rectângulo dos narizes...
felizes...suaves deslizes...quando
os gestos se tornam amenos
se escutam os hinos!

Diminuto, na grinalda de perfumes
dos teus braços, quando
se desmancha o lenço linho das cores
soltas os cabelos...as borboletas...
às dezenas!

No contorno exacto do teu corpo, no encosto
dos meus nas costas dos teus joelhos
desfolhando versos na despedida dos sussurros
sendo eles mais...mais...mais...
e depois menos...menos...menos...
quando
de mãos trocadas nos mesmos dedos
cede a noite exausta dos desejos
à lonjura dos segredos,
emergindo sonhos
e a cúpula de silêncio
dos amantes... sem nome!



Não resisti a deixar-me envolver na atmosfera
insinuante do amor, do erotismo dos corpos, e
invadir os horizontes que Shakespeare nos
deixou há 400 anos.
Também não resisti a abusar um poucochinho de
umas reticências, espero que me perdoem os colegas,
mas o que é que querem era um poema de suspiros e
mais suspiros e se calhar agora o que sabia mesmo
bem era um suspiro dos outros, dos doces, que a hora
já vai adiantada!
Até amanhã!