sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Lábios mosto o brinco madrepérola

Lábios mosto o brinco madrepérola


"que farei quando tudo arde?"


Não havia razão no dia certo.
Mota capacete o cabelo
a esquina do passeio o parapeito
onde se guardam orquídeas o desejo
a ternura o sopro o amor inteiro.

Braço na abertura brilho
vídrico reflexo do rosto
lábios mosto o brinco madrepérola
em argola pendurado descomposto.

A chave circular de cor anil
o rimel o perfume a pele lisa
a tarde escondida. No pêndulo misto
o urso branco polar e a Petruska
bordada a lã liberta na asa aberta
da mala atrevida a saída fugitiva.

O trinado; fechadura rangido
espera do destino. Outro mundo
sem ruído. Passos leves no tapete
bordeaux gasto sapatos lestos.
Costas delicadas nas formas
linha recta à primeira escada
degraus modestos pose de Rainha.

O patamar antes da porta no
primeiro andar e a frincha
convite abrindo a hora a ousadia.
Pequeno toque o vazio outro lado.
A carta na mesa a mensagem
uma pétala de Atenas a luz acesa.

Susto medo não não não! Má surpresa
envelope de bico levantado a letra
dele mesma caligrafia ainda
sem ser lida.

Outra frincha desliza
sombra vulto olhar sorriso
corrida abraços na medida
a lágrima sem siso a alegria.

Dois a demorar
línguas doces mãos de flama
dança de figuras chinesas
às rodas na parede.

O jacarandá.
Melodia de folhas verdes.
Frutos maduros nas rendas
"wonderbra" e as peças repartidas
camisas algodões sapatos
meias cordões
lençol fímbria num rodilho.
Àguas no Tamisa amor moderno
trémitos no calor de um suspiro.

O brinco descaído sem mágoa
a posição do invertido rosto dela
perna dele
rosto dele no umbigo.

Na sala deserta
a carta na mesa a mala aberta
a caligrafia sem ser lida.

No quarto ao lado: a vida.
Violinos de Paganini Pianos de Chopin
Liedes de Liszt génios em sintonia
e um sonho que imagina
o meridiano no mesmo sítio;
na mesma hora
no mesmo dia.

4 comentários:

josé ferreira disse...

Na última sessão contava que num livro de Jostein Gardner havia um personagem pequeno cído de outro planeta, Eljo se chamava habitado por "mumbos"-. Nesse planeta sempre que alguém fazia uma pergunta inteligente fazia-se uma grande vénia.
Só com perguntas se encontram respostas e o "mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança".

O que fazer quando tudo arde?..(grande vénia ao Sá de Miranda) e a resposta:

Escreve-se poesia!

josé ferreira disse...

Só mais uma correcção, leia-se "caído", o personagem já agora chamava-se Mika, o planeta Eljo, os habitantes Mumbos.
"Sorry" pelos erros do costume!

Marlene disse...

Parabéns pelo poema José.
Gostei particularmente da estrofe:"Braço na abertura brilho
vídrico reflexo do rosto
lábios mosto o brinco madrepérola
em argola pendurado descomposto", pela musicalidade e por alguns indícios daquela (pareceu-me) relação escaldante, como por exemplo:os lábios mosto (mosto é uva, vinho que apetece sorver). Também gostei muito do momento já mais concretizado na sequência deste: "O brinco descaído sem mágoa
a posição do invertido rosto dela
perna dele
rosto dele no umbigo."

Ana Luísa Amaral disse...

Um texto surpreendente - muito. Penso em Eliot, penso em O'Neil. Gostei imenso!