quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Chegaste-me em linhas precisas

ah esqueci-me do epígrafo!

Aqui vai direito:

"What's in a name?"
(Williame Shakespeare, in Romeo and Juliet)



Chegaste-me em linhas precisas.
Ousara balançar-te as letras,
como se em traços espiralados os encontrasse.
Os nomes.
As denominações inconstantes, distantes,
os nomes deselegantes.
Procurava as cotovias e escrevia os elefantes.
Haveria talvez traços de ti nas palavras.
Sonografias amenas.
O som das palavras serenas
em ti.
Se na poeira dos esboços partiste, nada ficou.
Chegaste-me em notas pequenas.
Não por rompantes de luas mas em grafites e penas.
Tracei-te o rosto.
Não serias a curva solta ou o plano interrompido.
De ti a liberdade,
O ponto não definido!
Pois para quê pontuar-te se em desconcerto me abarcas?
Não procuro agora definir-te paredes, se em tectos foste feito para soltar.
Em linha te abrigo, sem nome,
Sem a sede de te traçar.
Pois em ti de perto o traço e a linha por terminar.
E se em ponto de quem termina
A palavra ainda faltar
Abraçarei a tinta-da-china
(ou na tinta que me restar)
o traço de quem assina
o prazer de não nomear.

Maria Inês Beires


(peço imensas desculpas pela demora, mas foi-me mesmo impossível vir cá antes!)

6 comentários:

Ana Luísa Amaral disse...

Bom poema, Inês! Muito bem! Achei interessantíssimo o cruzamento ao longo do poema entre texto e corpo de texto, de forma a falar da nomeação (ou sua ausência).

blankbluebooker disse...

Inês, gostei muito do teu poema, especialmente das alusões constantes que fazes à tua arte e ao uso de palavras como traço, esboço, linha, curva, tinta... É muito bonito desenhar um poema assim.

Marlene disse...

Inês, que bonito! E essencialmente que fluido este poema, corre elegante, lê-se sem tropeçar em nenhuma palavra. A mestria do uso das palavras espelha a imagem das linhas desenhadas. Gostei muito, muito. Realço o verso tão bonito:"chegaste-me em notas pequenas"
Espero ajudar-te mais numa próxima oportunidade de trabalho em grupo. Falta-me esta fluidez que tu tens, ou pelo menos não a tenho a tempos definidos (nem em frente a muita gente :)...mas ainda assim foi muito divertido!

Elza disse...

Achei o teu poema repleto de beleza! Parabéns!

auxília disse...

Valeu a pena a demora, Inês. Gostei muito do seu texto. "Chegaste-me em notas pequenas.
Não por rompantes de luas mas em grafites e penas." ou "Em linha te abrigo, sem nome,
Sem a sede de te traçar." são versos com musicalidade e cadência notáveis. Parabéns.

josé ferreira disse...

Inês, são bonitos os teus versos e a melodia dos desenhos. no deslizar da grafite delineaste o poema da mesma forma como recordo a facilidade com traçavas figuras nas folhas do primeiro caderno quadriculado no curso anterior.
Voltaste e deslumbraste de novo.
Gostei muito!