sábado, 14 de fevereiro de 2009

O dia 14 de Fevereiro

Está previsto um dia de Sol amanhã
por isso não se cuidem
não se cuidem da cor

dos lírios das orquídeas da romã
dos "fruit de la passion"
nos bosques "du lendemain"
numa praia de Itapuã

e não se cuidem por isso
dos aromas de uma rosa
em pétalas cor de maçã
do travo sabor picante
de uma folha de hortelã

e por isso
o poema é só isso uma rima
de um feitiço
para o dia de amanhã!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Narimbá

Narimbá quebrado no barco sai para o mar
a pele morena sabe a destinos de Sol e sal
e Narimbá parte, os dias todos pela manhã.

Leva farnel, uma sardinha o pão de maná
olha as ondas em héxagono sisal
espera o tempo largo medindo o céu
descaindo de luz nas pratas do seu mar.

Houve um dia o barco no areal.

Nesse dia o Sol subiu mais alto
soltou gotas escondeu o olhar
de nuvens cinzas ondas sentidas.

Foi o dia mais triste na praia de Iemanjá:
14 de Fevereiro - o dia da sereia

Narimbá entrou no mar.

Convictos

Das manhãs laminares
que deslizam pelo útero
escolho aquela
vermelha suspensa
em os olhos se espalharam
grandes e convictos
e nunca mais te viram.

As paredes do meu ser

AS paredes dos meus dias são feitas de vidro
sujeitas aos sinais do clima;
sol intenso, águas de chuva, gotas de grizo
intenso frio:
três camisolas, um anorak, meias de lã
mas sobrevive o brilho
de um sorriso hortelã no ar adverso
e as formigas seguem o seu caminho
tão escuro, tão espesso, nas rotinas
da cidade.

Quando era menino minha mãe
via dias num aquário de neve
prédios de pernas ao contrário
dentro de paredes líquidas.
Respirava água a alta torre, a casa mais bonita
e as mãos pequenas de criança à roda fixa
do mesmo cristal, sem renas, feitas de pedaços
de penas, estrelas brancas, ora em cima
ora em baixo.

A minha cidade tem paredes cor de tela
escrevo nelas palavras anónimas de grafites
de pastel, na forma perene de gravuras
ilustradas, serpentinas de pincel.

Por vezes no Carnaval
quando era menino minha mãe
fazia chapéus de listas, de fitas coloridas
mas um dia disse uma asneira picante
pediu-me a língua e pôs
pós de cor gengibre, especiaria opalina
pimenta, ardia ardia ardia
guardei as lágrimas numa bolsa pequenina.

As paredes dos meus sonhos são feitos de névoa fina
são rios ou areias movediças
mas não os sei
nem qual é o seu destino
guardo risos guardo lágrimas
numa bolsa pequenina
a bolsa de minha mãe
aquela que viu nascer
os meus sonhos de menino
as paredes do meu ser.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Ambos nos olhares

Quero-te de olhares noutro sentido
aberta aos sons que o vento traz
descruzando a lira de mensagem
que sendo minha no silêncio
da tua como onda se desfaz

em chuva persistente de morrinha
gotas de discurso tão fugaz
como ruído de granizo impertinente
sem frases belas palavras ternas;
folhas e maçãs de um Paraíso.

Quebrem-se os arames
as pelúcias dos ditames
e frente a frente ao som das águas
falemos sem qualquer medo
nas mãos das fragas
dos olhares noutro sentido
sem outras mágoas.

Dizem do homem ser mais muralha
preso de nós e de lugares
Dizem da mulher ser mais profundo
o sentir e a chama de acendalha
embora a mesma lógica- o ideal
a metade do divino
o meio caminho
a lima e o mel doce
a flor e o espinho.

Por isso em ti me fundo de liana
em palmas oscilantes de passeio
no teu ombro nada vejo
cego em florestas de cabelo
nas lágrimas mágicas de brilhos
ambos nos olhares
unos sentidos.

Poema

Uma pequena pérola de poema que começa numa frase muito conhecida, muito utilizada.


Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Onde há ondas

Não engole, digere,

é planeta, dimensiona-nos,

espaço e lógica do nosso papel.

Ama-se assim,

em abandono, sem força,

à música que o manipula com um sopro

numa dança contemporânea, onde se cai e rebola,

onde se pára no silêncio e se mexe só os olhos devagar.

E como se deseja,

se espalha e se abre na pele de todos, sempre nua para ele

que despimos, novos e velhos, e lançamos em sentida oferenda,

numa troca bem pensada, onde pelo nada de quem nada teme ao nadar

em ondas que nem sempre vemos crescer, já sem fôlego, se recebe o sabor de todo o ser,

não refinado, não mutilado, em ferida aberta

que dói, mói, arde e sara

salga a humanidade.

O Mercador de Veneza

Tarde parda de domingo
algumas gotas de chuva
poucas na praça.

Desafio de segredos e espantos
nas falsas modéstias de um balcão
cadeiras soltas veludos gastos
de cor rubi junto à coluna
pessoas muitas.

O Mercador de Veneza época áurea
o fosco judeu brilho de usura
alguns mais personagens no cenário.
História de anos talvez trezentos
os tormentos deduções e aventuras
nem tantos talvez minutos.
Nas luzes do presente
nas rotinas escuras de
cidades consequentes
homens tantos mulheres várias
amores pedintes riquezas raras
são intermitentes raízes sempre
em séculos de idades.

Cofres ouro prata chumbo
alegoria cristalina de mensagem
súmula do conforto no posfácio
prémio defesa subtil que destina
o suspenso final que oscila
entre um quilo de carne humana
e a suprema entrega da sua amada!

Ganham os bons julgados fracos.
Sem a filha, as moedas, a vingança
perdem os fortes que no fim
se tornam fracos.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Quatro quadras

Inventário


De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de ondas vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.


José Saramago

Retirado do livro oferta do Jornal de Letras

Poesia curta

Alguns poetas têm o condão de escrever em poucos versos grandes mensagens
daquelas que ficam na memória como uma estrofe de pauta, uma canção.


A história da moral


Você tem-me cavalgado,
seu safado!

Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo!

Alexandre O'Neill

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O prisioneiro da liberdade

Não é suportável todos os dias
a gota pinga a alma ferida
o negrume tão escuro de uma vida
putrefacta de destino. O não sentir
a pele amiga que nos cobre e amacia.

Dez anos de exílio na escura prisão
grades de quem ousou denunciar o
opressor. Entrega ingénua de liberdade
a própria, una, pura, princípio singular
de cruzada, sina frágil. A dor só
que gira na roleta dos duros cardos
permanente e forte, imensa tortura
na rotação de globo, cela profunda.

Quatro paredes medidas de mãos
junto ao catre- dez por cinco palmos-
vinte livros ao alto um copo de lata
a janela de carvão uma algema desenhada.
Luz de velas em escada de ceras
o espelho torto de tábua na moldura
um prego e um nagalho discreto
o prisioneiro à solta olhos fechados
a alma ferida na almofada.

A terra do nunca

Mais um poema do Nuno Júdice um poeta que muito admiro desde que me chegou às mãos o livro "Cartografia de Emoções".
Hoje deixo-vos um poema que vem publicado num livro oferta com o Jornal de Letras. Chamou-me à atenção o nome e o síndrome "Peter Pan" que por vezes me seduz no desejo de elevar um pouco os braços e em magia de "Sininho" tocar as estrelas, conversar na Lua e espreguiçar-me coçando lentamente os olhos aos primeiros raios de Sol, ou seja cobrir-me de um sentir de girassol na direcção exacta da Luz.



A terra do nunca

Se eu fosse para a terra do nunca,
teria tudo o que quisesse numa cama de nada:

os sonhos que ninguém teve quando
o sol se punha de manhã;

a rapariga que cantava num canteiro
de flores vivas;

a água que sabia a vinho na boca
de todos os bêbedos.

Iria de bicicleta sem ter de pedalar
numa estrada de nuvens.

E quando chegasse ao céu, pisaria
as estrelas caídas num chão de nebulosas.

A terra do nunca é onde nunca
chegaria se eu fosse para a terra do nunca.

E é por isso que a apanho do chão,
e a meto em sacos de terra do nunca.

Um dia quando alguém me pedir a terra do nunca
despejarei todos os sacos à sua porta.

E a rapariga que cantava sairá da terra
com um canteiro de flores vivas.

E os bêbedos encherão os copos
com a água que sabia a vinho.

Na terra do nunca, com o sol a pôr-se
quando nasce o dia.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Heterónimos de Fernando Pessoa

Segue o teu destino
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-votos aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis (1916)
Poesia Heterónimos Porto Editora
(introdução e organização de
Auxília Ramos e Zaida Braga)

O Olhar Diagonal das Coisas

Caros amigos,
a ASSéDIO tem o prazer de informar que vai estar presente nas Correntes d'Escritas 2009, na Póvoa do Varzim, no Novotel (Aver-o-Mar) no dia 9 de Fevereiro, pelas 22:00h, com o espectáculo:

A partir da poesia de Ana Luísa Amaral
Com direcção de Nuno Carinhas
Apoio dramatúrgico Rosa Martelo
Figurinos Bernardo Monteiro
Vídeo Paulo Américo
Interpretação João Cardoso, Micaela Cardoso,
Pedro Frias e Rosa Quiroga
Produção executiva Rosário Romão
Produção ASSéDIO



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Água em nós

A lenta dança da chuva
Neste sussurrar cinzento de neblina
Manhã ténue
Vento e chuva
O verde escuro da árvore parada
Danço com o vento esta chuva interior
Dói-me a chuva
Ritmo cinzento cardíaco
Bate lenta a chuva
Bate lento o peito adormecido
A lenta dança da chuva
Rouba o vento as minhas folhas
Neste sussurrar cinzento de neblina
Ouço água imensa que me inunda
A árvore é indiferente
Ao vento, à chuva, ao céu
Interna árvore parada
As pernas imóveis num tronco
Os ramos braços inertes
A lenta dança da chuva na minha face
As folhas verdes caindo
A minha face em água
Dói-me a chuva
Danço com o vento esta chuva interior
As lágrimas
Só gotas de chuva
Água interna parada
Árvore interna parada
Eu inteira parada
Choro chuva
Sou a árvore mais parada da rua nesta manhã
Rouba o vento as minhas folhas
Ouço água imensa que me inunda
Parada
Eu chuva.