quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
suzana, temos mil razões para calar as fotografias
temos mil razões para calar as fotografias
na gaveta de madeira, a quarta a contar de cima
da secretária antiga onde preencho folhas, uma a uma
folhas de um livro, poemas compridos -
as últimas notícias são repetitivas
falam do naufrágio, um grande barco de muitas janelas
como um queijo suiço, e o comandante, e os heróis
e a falta de vida de algumas vidas -
o contemporâneo prende-se no subterfúgio
economias líquidas, as reformas e o umbigo
do presidente, dos directores e dos amigos
a importância ilógica de ser o mais importante
o nosso cantinho, o territóriozinho, a nossa vidinha
quando está em causa o oxigénio limitado de um planeta
quando há o perigo de um excesso de fumo
como um furo no cabedal do mundo
a esvaziar o conteúdo
a tornar-se mudo perante uma coleira
que aperta muito -
é preciso uma estrela mais abrangente, não tão pequena
não tão miúda, mais refulgente, que oriente
que dê um rumo
é preciso denunciar a inclinação recorrente dos colarinhos
brancos na superfície e de negros fios por dentro
muito escondidos -
seremos atentos perante as garras do milhafre
os voos picados da águia e a impaciência do abutre -
porque este é o quotidiano da politiquice que emaranha os dias -
quanto a nós temos mil razões para calar as fotografias
na quarta gaveta a contar de cima
menos uma
a que mais observo e ganha vida
como um quadro na fractura caiada
como uma parede branca impregnada de filme -
josé ferreira 26 Janeiro 2012
abre o sol, não há náufragos nas ilhas -

Bill Brandt
abre o sol como luz obrigatória para que corra o dia.
abre na forma de um arco a longitude clara
na metade do mundo, e é normal a rotação das rotinas
em si
e este sol que abre único e original, sempre
como estrela porosa dos frios
colocando sobre o rosto
uma dúzia de raios ou mais –
quando adormecemos lembramos o sol e fechamos a lua dentro de nós
uma lua aprisionada pelo metabolismo dos fluxos
dos labirintos e das claridades sobrepostas
as respostas daqueles limbos que espantam
quando de repente um ruído abre os olhos
e nos conta uma história, letras que ganham consistência;
frases com sentido ou pedaços náufragos de ilhas
existências antigas ou um episódio que não era assim –
foi assim na manhã dois de um amanhecer de campismo
em Espinho
onde uma tenda abria sobre uma linha de água a sua cor azul
e um rádio na estrutura de alumínio soltava um fluido de sons
teclas recolhidas na polpa dos dedos
resilientes no levantar suspenso que suportava o tempo –
foi assim no cimo da serra quando um cobertor de lã grossa
era um manto que incendiava o corpo
antes de uma correria pelas neves e tombos suaves sobre o branco;
as luvas resistiam –
foi assim pelas ruas de Madrid numa ostentação feliz de sorrisos
pelos museus de Sofia sem as indefinições de Mona Lisa
nos grandes copos de um retiro, onde não havia nuvens
apesar do frio -
é estranho este sol nesta manhã de dia de semana
um rosto distante que não se afirma
não tem olhos, nariz, lábios, ombros e pescoço
nasce na incontinuidade absoluta de sempre se despedir
como as folhas que se escrevem ou as páginas de um livro
nas capas grossas de fenómenos que se redescobrem
com um outro significado como um filme repetido –
e não há metáforas determinantes neste poema de linhas
é um discorrer de fim de inverno como se deve ver a vida
a surpreender como cor e como os rios
na direcção objectiva.
rios apertados para se libertarem e abrirem
nos lagos provisórios
ou em mares onde há ondas fortes
que os empurram de novo pelas encostas da cabeça
até aos fragmentos da memória
para rever as margens mais distantes
lugares incisivos incandescentes vivos
um pouco depois das nascentes
e de novo novos como este sol nos caminhos:
fogo, fios de chama e raízes
de essência subtil
nesta manhã de dia de semana
que podia ser domingo -
abre o sol e bate nas pedras
que viram fogueiras e se perdem dos frios
no afirmar de incidências e sem perigos
quentes, no envolvimento que vem de longe
- um afecto uterino
quentes e navegantes
do tamanho de sermos grandes e diferentes
de sermos únicos e juntos no uníssono
neste ou num qualquer dia
através de um sonho ou de um cruzar de caminhos
seguros
decididos -
precisamos procurar as certezas
o sol é bússola
e procuramos e conseguimos
não há náufragos nas ilhas -
josé ferreira 25 janeiro 2012
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Mulheres correndo, correndo pela noite - um poema de Herberto Helder

Picasso "Guernica"
Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredores magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.
É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.
De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras - nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.
Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.
Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
Herberto Helder, A faca não corta o fogo, Assírio &Alvim,2008
A preguiça
A alma adora nadar. Para nadar, há que deitar-se de barriga. A alma despega-se e parte. Parte a nadar. (Se a vossa alma parte quando estais de pé, ou sentados, ou de joelhos, ou apoiados nos cotovelos, para cada posição corporal diferente a alma partira com uma locomoção e uma forma diferentes, segundo concluirei mais tarde).
Fala-se muito em voar. Não é isso. O que ela faz é nadar. E nada como as serpentes e as enguias, nunca de outro modo. Há imensa gente que tem assim uma alma que adora nadar. Chamam-lhes vulgarmente preguiçosos. Quando a alma deixa o corpo pelo ventre para nadar, produz-se uma tal libertação de sei lá o quê, é um abandono, um gozo, uma descontracção tão íntima.
A alma parte a nadar no vão das escadas, ou na rua, consoante a timidez ou a audácia do homem, porque ela conserva sempre um fio que a une a ele, e se esse fio se quebrasse (às vezes é muito fino, mas só uma força terrível o poderia romper) seria terrível para eles (para ela e para ele).
Então, quando ela está entretida a nadar ao longe, escoam-se, por esse simples fio que liga o homem à alma, volumes de uma espécie de matéria espiritual, como lama, como mercúrio, ou como gás – gozo interminável.
É por isso que o preguiçoso é incorrigível. Nunca mudará. É por isso que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Pois acaso haverá coisa mais egoísta do que a preguiça?
Tem fundamentos que o orgulho não tem.
Mas as pessoas irritam-se com os preguiçosos.
Quando os vêm deitados, batem-lhes, mandam-lhes água fria à cabeça, eles têm de recolher a alma imediatamente. Olham-vos então com esse olhar de ódio, bem conhecido, que se vê sobretudo nas crianças.
HENRI MICHAUX
Fala-se muito em voar. Não é isso. O que ela faz é nadar. E nada como as serpentes e as enguias, nunca de outro modo. Há imensa gente que tem assim uma alma que adora nadar. Chamam-lhes vulgarmente preguiçosos. Quando a alma deixa o corpo pelo ventre para nadar, produz-se uma tal libertação de sei lá o quê, é um abandono, um gozo, uma descontracção tão íntima.
A alma parte a nadar no vão das escadas, ou na rua, consoante a timidez ou a audácia do homem, porque ela conserva sempre um fio que a une a ele, e se esse fio se quebrasse (às vezes é muito fino, mas só uma força terrível o poderia romper) seria terrível para eles (para ela e para ele).
Então, quando ela está entretida a nadar ao longe, escoam-se, por esse simples fio que liga o homem à alma, volumes de uma espécie de matéria espiritual, como lama, como mercúrio, ou como gás – gozo interminável.
É por isso que o preguiçoso é incorrigível. Nunca mudará. É por isso que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Pois acaso haverá coisa mais egoísta do que a preguiça?
Tem fundamentos que o orgulho não tem.
Mas as pessoas irritam-se com os preguiçosos.
Quando os vêm deitados, batem-lhes, mandam-lhes água fria à cabeça, eles têm de recolher a alma imediatamente. Olham-vos então com esse olhar de ódio, bem conhecido, que se vê sobretudo nas crianças.
HENRI MICHAUX
Fragmentos XIV - mexerico

Manet "O Bar de Folies Bergéres" 1882
Mexerico.Dor experimentada pelo sujeito apaixonado quando verifica que o ser amado está envolvido num «mexerico» e ouve falar dele de um modo vulgar.
(...)
O mexerico reduz o outro a ele/ela e uma tal redução é-me insuportável. O outro não é para mim nem ele nem ela ; apenas tem o seu próprio nome. O terceiro pronome é um pronome mau: é o pronome da não pessoa, afasta, anula.
(...)
Roland Barthes "Fragmentos do discurso amoroso", ed. 70, 1981
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
uma vaga no mar de Renoir

Renoir "La vague" 1879
não se deve usar a trovoada da razão
na rotação colada de todos os dias.
impreterível a propriedade do acto
como surpresa
como rasgo imediato
pequena porta do sonho –
tudo aconteceu como um pano largo de um teatro
o levantar no silêncio de pontas de agulha
interrogações afiadas
perante os olhos e as vozes
o movimento dos corpos
os cenários vestidos de décor e depois modernos
vazios e cheios de simbólicos
na ausência
que apenas se sugestiona
e abre o ponto por detrás da cabeça
exactamente nesse lugar incerebral
impenetrável e invulgar
como um fragmento
que mostra a parte
o visível do azul
ondas que se aproximam devagar
e uma vaga no mar de Renoir –
tudo aconteceu no imprevisível lugar
nem cedo nem tarde
a hora exacta
escrita pelo desenho na areia
como um braço de árvore
uma oliveira de paz
que escreve e apaga
e apaga e escreve
os teus olhos a tua voz a tua pele
como linhas brancas
caminhando sem pressas
sem revoltas inconfortos ou vinganças
em direcção ao areal
o visível azul
e o branco
de uma vaga no mar de Renoir -
tudo aconteceu porque era primavera
e procurávamos o sol
talvez seja vulgar de dizer
mas um sol pode ter mais valor que um mundo
mesmo que cegue e enlouqueça
na possibilidade -
não houve na pacificidade das asas que sobrevoavam
as palavras fortes que desejavas
um Herberto Hélder de garras e fluxos intermináveis
incontidos como um poema imparável que nos leva atrás
presos por uma corda no pescoço
entre a falta de ar e uma tesoura de pontas afiadas
que desce certa e corta
mesmo antes de chocar com o muro as rochas o precipício
e um corpo desfeito por todos os lados entre sensações
e dúvidas terrenas ou superstições -
tudo aconteceu
porque não há ponteiros de tempo dentro dos nossos olhos
tudo aconteceu na forma de uma insígnia de liras
uma música de cordas na voz dos búzios
tudo aconteceu porque merecíamos e fomos capazes
sem palavras
entre os ombros e os abraços
na cor azul
de um mar indizível-
josé ferreira 23 Janeiro 2012
Maria Sousa
começa-se pelo início
e há quem diga que chegar ao fim é simples
uma frase é a melhor medida
para juntar os fragmentos
e se a noite a subir pela voz
é um método de fazer silêncios
e o coração é um órgão que
espreita pelos buracos da gramática
no fundo é porque têm um corpo como fronteira
Maria Sousa, Exercícios para endurecimento de lágrimas, Língua Morta, 2010.
domingo, 22 de janeiro de 2012
Blanc et Blanc
I.
O
pastor alemão veio morar para o Centro,
Onde
a releitura do ódio parece a releitura do amor
trouxe
na viagem e na língua ainda o sabor das lágrimas de Heidi
elas
nunca tocaram o chão -
a
meio da queda ele bebia-as
como
um limite, doces e citrinas, sabiam a gin tónico com muito limão
O
caminho em direcção ao centro, a carreira de professor que ensina as estações
o
medo vem a seguir ao Outono e o desejo a seguir ao Inverno
mas
os ciclos são interiores: como as estações
a
meio da queda, o frio congela as lágrimas,
são agora flocos de neve que caem dos olhos de
Heidi, parecem estrelas
cobrem
os soldadinhos de chumbo de um manto branco
II.
despe
Sebald… alguém
não
é homem nem mulher
porque
os géneros mentem –
A
sua cara é feita de traição,
de
traição os nervos, o contorno do queixo,
o contorno das orelhas,
de
traição os nervos,
o viso, a expressão,
de traição também o vento quente que lhe bate
na cara.
Tem
um derrame nos olhos por ter visto de mais,
e
em todos os glóbulos a febre: Vermelha e branca -
Branca
e Branca, como a ficha dos homens que fugiram -
desenha a lápis um fundo onde morar
na
expressão um afogamento interior
Desaparece
como personagem, Heidi
No lugar dela: uma memória magnética
Que
acende os olhos, o derrame do centro
para
onde a memória foi morar
Ele ou ela disfarçado de noite porque os
géneros mentem
Congelam
na descida,
o cair decidido no chão – rotundo,
Os
nervos coloridos disfarçados de noite.
III.
Puseram
uns patins no pónei branco
e
empurram-no para cima do lago congelado
os seus
movimentos numa dança de susto,
O
arfar do potro, o medo preso aos tendões
Uma
respiração nervosa diz-lhe que sobreviva
O
sangue a correr rápido
o chão a fugir-lhe por baixo das patas
o
espectador era só um: Toda a Gente.
O
desenho que ficou no gelo, as marcas dos patins,
Da
tracção, do espasmo, da dança dos reflexos,
as
asas de uma borboleta
no meio
de um livro
o último leitor fecha-o,
noutra página um trevo de quatro folhas,
outros amuletos ainda
ganham
vida dentro da Montanha Mágica – Não
será mais aberta.
Falo de um entrar verdadeiro, um Entrar
Magnético
IV.
Se
nas mãos o mensageiro traz uma vela acesa
e
se o mensageiro sofre de insensibilidade motora,
não
dá conta que ela lhe queima as mãos
e de arder todo o mensageiro se faz nova
mensagem –
a
expressão feita de muitas somas,
uma
sede de novo - foi toda para os olhos,
desenha a linha da vida, o lápis, o pulso, o
traço seguro
O
fotógrafo da realidade pousa a máquina, sinal de abandono
tem só agora a retina e no branco da parte de
trás dos olhos,
as
duas asas da borboleta, invertidas,
afogadas
na representação da órbita
O
coleccionador desta realidade faz uma nova cartografia do espaço,
mas tem de ser ágil, a terra treme e muda
muito rápido,
Surgem
novas penínsulas, novas ilhas, novos medos onde antes era terra,
e ao cartógrafo são exigidos reflexos rápidos,
porque
também o mapa lhe foge por baixo das mãos.
O
pulso seguro desenha a terra que treme
Só
a velocidade lhe é permitida, como salvação e nela
a
releitura do ódio parece-se com a releitura do amor.
Agudizam-se,
chega-se logo aos pólos,
Talvez
por isso ele foi morar para o centro.
O
fotógrafo da realidade está desempregado, não porque não haja realidade
(trabalho não falta) – mas porque o nosso século não permite mais a
representação.
Também
o cartógrafo. Resta-lhes o precário mas doce ofício de criar novos medos e
neles entrarem
Dos
teus olhos destilo uma Vontade Nova,
Todo
o Desejo, toda a Viagem em nova anatomia
a minha obsessão por braços, destilo das tuas
mãos o caminho.
Da
tua sede, a minha sede, da tua língua a minha vigília
V.
De
todos os frutos se destila o prazer e o esquecimento
De
todos os medos se destila a Crença – procuramos novas formas de beber
A
viagem
não
admite géneros, só procura -
de
viagem a nova anatomia que rasga o universo à escala humana
Os
dentes alinhados transmitindo coragem
os
nervos tão seguros, os braços a remarem
por
canais que abrimos e não se fecham
VI.
Na
anatomia a minha obsessão por braços
Na
geografia a minha obsessão por penínsulas:
Aquilo
que entra –
E
depois dos braços, as mãos, e depois os dedos
extremidades, pontas que recebem e dão, por
isso perecíveis, vulneráveis.
E
depois penínsulas cada vez mais finas e estreitas,
paredões, finíssimas línguas de areia que entram
pelo mar:
parecem
dedos, os Faróis,
pescadores
solitários com a lancheira ao lado, namorados –
Aqui nas pontas recebe-se e leva-se para o
centro.
Ali
um caminho ou uma artéria fina,
em
direcção ao coração,
ao
núcleo
Ele
pede a sensação que as pontas lhes dão.
As
flores roxas fecham-se à noite e as flores amarelas fecham-se à noite.
é
no fundo das pessoas e não debaixo das botas
que
se calcam os esqueletos das folhas de Outono -
VII.
os
soldadinhos de chumbo que o pastor alemão deixou no chão
cobertos
pelo manto branco da neve que continua ainda a cair
O
frio foi todo morar para dentro, nos ossos, nas pontas dos dedos
Não
é só a máquina que filtra, mas também os olhos
Deles
nevam as lágrimas ou as estrelas
E
elas voltam a subir para desenhar as nuvens do fundo
também
da queda se faz subida:
Já
não vertical – mas um espalhar-se contínuo, infiltra-se em todo o lado
Não
sei de que ângulo a vi partir
Subia,
subia
branca
e branca era a montanha
Um
moinho no cimo, um novelo dentro do moinho
Um
cão a guardar o moinho – um pastor alemão
A
cauda a abanar a assim que a viu, o riso foi todo para os homens
O
resto da natureza ajuda a desenhá-lo
O
que vi na tua cara – Mais Deus que qualquer outra coisa
Mais
Criador do que tudo… o Branco cruza o Branco
Alguém
me perguntou - De que falamos? De que falamos desde que nos conhecemos?
Os
faróis parecem dedos.
Nuno Brito
palavras de prefácio de um livro que se chama abraço

Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, aqui, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhes tanto, até a loucura, até os pesadelos, até a esperança em todas as suas formas
José Luís Peixoto
sábado, 21 de janeiro de 2012
Capital humano...
Capital humano…
“Tu, que me traças o
perfil e me desenhas o fundo, ensina-me a cair nele, porque estás mais perdido
do que eu”.
Pastor Alemão
I.
Eram doze os irmãos do
Renascimento português.
Onze deles: os irmãos do
amolador romeno, estão à porta de hipermercados, cada um à frente de um
supermercado do grupo Jerónimo Martins. Desceram a Europa. Ocuparam o lugar que
antes pertencia aos lobos. Vão fumando os cigarros que o segurança lhes enrola.
À noite juntam-se à volta da sopa e do pouco pão que há, o vinho fica todo para
o pai que é doente e não pode trabalhar e quando não há vinho há problemas e os
vizinhos chamam a polícia. Mas o amolador optou por outro caminho, outro canal
de comunicação com a realidade portuguesa, um trabalho mais técnico. A de
amolador de facas. Na Roménia tinha estudado música, mas o violoncelo já há
muito vendido ocupava agora uma vitrina de uma loja de artigos em segunda mão
em Constança. Levava o seu cão atrás e a bicicleta que foi roubando às
peças e construindo, só teve de esperar dois dias até encontrar o guiador que
formava o conjunto. Foi trabalhar para o aeroporto e no amplo espaço vazio onde
se cruzavam viajantes, o amolador oferecia os seus serviços. Era raro alguém
ter uma faca, mas alguns iam com facas na mão, mas ainda mais raro era que
aqueles que as traziam, não as levassem suficientemente afiadas para os
serviços que delas pretendiam (cortar o pão, o queijo – para as sandes da
viagem, golpear um homem na barriga, descascar um ananás trazido da Madeira).
Mas era compensador este trabalho sem remuneração, era especializado e nem só
do local certo se faz o destino.
II.
À entrada de
um aeroporto lusitano está o pastor alemão – os aeroportos lusitanos são os
mais asseados, de longe os mais limpos e os melhores – São um espelho fiel da
realidade do país e por isso o pastor alemão escolheu um destes (e não outro do
continente europeu) para a sua partida. O pastor alemão encontrava-se cá fora,
táxis, grupos a fumar à pressa, relógios nos pulsos.
Ele não tinha
a certeza se ia começar uma viagem ou se tinha acabado de a fazer. Estava cá
fora o herói desta narrativa, sem saber se entrava num avião ou se tinha
acabado de chegar – Na verdade isso era um pormenor, porque a viagem é sempre
contínua e nem sempre é feita de movimento mas de uma simples motivação do
fundo. O pastor alemão olhou para o fundo, mas não havia fundo – Nenhuma rota
traçada – Nenhum sinal de destino, apenas uma certa apatia feita de muitas
pegadas, um delírio controlado que lhe deu vontade de beber. Na sua mala que
abriu apenas havia búzios pequeninos e um livro verde e grande – Talvez a Montanha Mágica … Foi até aos quartos
de banho, e ao seu lado um homem urinava – reparou que o urinol dele era de
prata, o seu não. Era de cerâmica das Caldas – importada do interior para
Lisboa onde outros estrangeiros a colocaram com todo o cuidado – O homem trazia
uma mala – Na mala tinha búzios pequenos e dentro dos búzios novas histórias –
Isso permitia-lhe construir um novo passado assim que chegasse ao Brasil –
Construir uma vida nova – com um passado limpo – A “ficha limpa” era a sua
obsessão, como se a a ficha fosse uma entidade paralela ao processo que corria
no tribunal. Demoraria 10 anos a resolver e prescrevia – Mesmo assim era
necessário ter todo o cuidado. Os aeroportos lusitanos são seguros para quem
foge - têm urinóis de prata para quem os merece – O processo de branqueamento
de capitais, o tráfico de relíquias de Cristo – sudários, dentinhos, rótulas
recheadas de musgo – Era mais seguro ir para o Brasil que é grande, muito
grande e depois as autoridades perdem o rasto e a ficha fica limpa, limpa e
branca como um lençol.
O caso do pastor alemão não
tinha paralelismo possível com o deste homem determinado e consciente do seu
caminho, que já ia a meio (No Céu, dentro do avião da TAP a ler o Capital). O
Pastor não. Não sabia do que fugia, nem se fugia, e muitas vezes fugimos sem
saber que o estamos a fazer, é quase mecânico, tão mecânico como um espasmo,
muitas vezes estamos realmente longe, realmente longe de tudo.
III.
Na actual
conjuntura económica o grupo Jerónimo Martins trava uma luta enorme com uma
cadeia de hipermercados rival, é então que um grande grupo de peritos em
marketing é contratado e esse grupo reúne-se e decide-se por uma campanha
promocional: vários cabazes de produtos a preços económicos – É feita uma lista
de trinta cabazes de produtos, a preços muito baixos, um desses cabazes incluí
50 facas de cozinha, todas elas mal afiadas, mas a um preço compensador. O
anúncio passa na televisão e o amolador romeno que estava num snack-bar ao lado
do aeroporto vê-o e decide-se pela viagem até um Pingo Doce da capital; aí cria
a sua pequena banca, a bicicleta, o som do aboio, com um pequeno organino chama
os clientes, a música está recheada de um magnetismo animal que atrai os
clientes para fora do supermercado, todos eles muito contentes com os seus
cabazes optam pela primeira solução que lhes aparece: afiar as facas ali logo,
e compensa porque o preço do cabaz com as 50 facas mal afiadas mais o preço que
o amolador leva para as afiar não chega a 60% do preço dessas facas. E há
esperança que um dia haja pão em casa e aí vão ser precisas facas para o
cortar. O grupo Jerónimo Martins pensou nisso e começou a levar uma pequena
percentagem ao amolador pelo serviço prestado, 40% do lucro do romeno era
metido num pequeno saco e esvaziado nas seis registadoras do supermercado.
Facilitava os trocos.
IV.
O pastor
alemão lembra-se subitamente da sua namorada – Dá-lhe um baque tremendo esta
recordação magnética – Puxa-o para o fundo – Várias cordas – Sente necessidade
de uma ponta, uma ponta segura que o ligue aos canais da realidade, BAQUE, é
violento o que uma memória-fêmea pode trazer, um tornado-menina a calçar-se, a
percorrer todo o aeroporto lusitano de um susto maior que por o ser, não deixa
de ser doce. Os seus olhos iluminam-se, o branco dos olhos desaparece. Foi todo
para as nuvens que os aviões rasgam, numa dessas viagens podia já estar ele,
mas está de certo o fugitivo da justiça portuguesa a pensar na ficha limpa que
associa ao branco. Se calhar já chegou e começou uma vida nova, gere um vasto
capital humano. O pastor alemão não tem ficha e nisso lembra-se, as fichas são
caras, tudo tem o seu preço. E novamente a recordação da namorada e o sangue a
correr todo ao coração onde uma aparição mariana lhe desperta todos os
sentidos, lhe bombeia a música para as extremidades. E ele lembra-se – Não
estou aqui pela viagem, mas para saber um pouco mais sobre a morte. E por isso
vim. Não porque vou ou porque acabo de regressar. Mas para saber mais, o
amolador de facas sabe muito sobre a morte e é com ele que devo falar.
V.
Procura-o, em
todo o lado, e não há sinal dele, uma das empregadas da limpeza diz que não o
vê há muito tempo mas que acha que ele emigrou para o Pingo Doce mais próximo
porque é o que todos fazem a conselho dos nossos ministros. E o pastor corre
com a sede toda nos olhos, avisam-no que o Douro subiu, há muitos anos, na
verdade foi muito tempo a espécie de hibernação no aeroporto, trazia a mala, os
búzios, sem passado dentro. O gondoleiro ajudou-o a subir para a barca, perto
da estação de São Bento, depois seguiram pelos canais estreitos do Porto. Ali
uma torre torta, gémea de uma outra torre torta, ali um barco ambulância a
rasgar as águas, ali uma gôndola funerária a perder-se pelos canais, perto da
Rua das Flores. E é estranho o ideal que os move, os braços seguros do
gondoleiro, o remar forte que cria a rota onde nada se escreve. Não fica
registo de nada, de nada. Mas há ainda a mala com os búzios sem passado e um
desassossego tão português atravessa os canais, contorna a cidade e avisa o
pastor alemão que é impossível ver de cima. O desconforto prende-se aos pulsos,
serve de óculos, uma radical armação que filtra a realidade, são todos os
ângulos dentro da mala, não convém abri-la. O som do organino que o romeno toca
alerta o gondoleiro e o pastor que está para breve o conhecimento da morte. Ele
sabe, como qualquer amolador, muitas coisas sobre ela. O som está cada vez mais
alto. À porta do Pingo Doce muitas gôndolas paradas, e os homens saem com os
seus cabazes. O amolador já lá não estava. Tinha reunido o dinheiro suficiente
para o dia e agora os doze irmãos em casa, uma cegonha no lugar do pai - ela
não bebia. Esperavam o pastor. A assembleia foi honesta, sincera com o seu
próprio fundo, como só um animal paciente pode ser. Discutiu-se o capital
humano, o inumano de tudo isto, estabeleceu-se um plano de fuga. Não passava
pelo aeroporto.
Nuno Brito
Poema inútil com montanha
Vejo a montanha à minha frente pousada
Sobre a água sempre verde, e penso na inutilidade
De tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto,
Quando um pensamento inútil me sugere
Que a montanha pode ser
Um pormenor pensado por ela
Na paisagem do meu próprio pensamento, para
Com isto me levar a pensar sobre pensamentos,
E não sobre montanhas, ficando ela, como antes,
Pousada na água sempre verde, sem ser
Pensada por ninguém.
Rui Costa
em A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (2005)
em A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (2005)
Soneto a uma fotografia do calendário Pirelli

(fotografia do Calendário Pirelli 2012)
O seu cabelo preto parece escutar,
sua forma prendida em concha,
a praia nua espreita o véu na onda
escurecida na areia tremeluzente.
É o vazio que ajusta a própria luz
e na calma dobrada o banho adorna.
O fio de espera nos lábios agarrando-se,
contendo em recuo o som da corrente.
A rebentação nasce como arrepio e sal,
retém o centro, como rocha, rodeada
pelas vénias de rastejamento aquático.
A música que ela escuta e não vês
é barco que gela quando naufraga a tal,
batendo na espiral que talha o teu mar.
um poema para adormecer - freud conhece as linhas da mão

imagem daqui
freud conhece as linhas da mão
fala sempre que me aproximo e ergue olhos de céu
na exigência de muitos dedos, na pele e nos pêlos, que são imensos -
e deita-se sobre as mesas, as cadeiras e os muros mais pequenos;
tudo por causa de um afecto e um pequeno tremor, um sossego
como a cor dos versos de alguns poemas -
e deita-se bem dentro da cama, sobre o colo das pernas
e quando muito quente, espreguiça-se e lento
sobe com toda a ternura pela raiz dos cabelos
e apaga os desertos -
freud compreende bem
e se fosse mesmo grande, tinha um ombro do tamanho do meu
e se fosse mesmo grande, tinha também, cabelos e mãos
e se fosse mesmo grande, era tudo o que sonhei, e sempre
uns lábios grandes de muitas palavras doces, no silêncio dos meus
uns lábios grandes de muitas palavras doces, para contar histórias
antes de adormecer -
e no fim, quando as pestanas caíssem na brancura de uma linha, mesmo branca
se ouviria um som, lá ao longe, um shh…! shh…! shh…! um sonho bom
e um ligeiro tremor, que não seria o seu
um ron-ron…um ron-ron…
um ron-ron que fosse o meu -
josé ferreira 20 Janeiro 2012
Arrepio

imagem daqui
.......................A superstição é a poesia da vida.
....................................................................Goethe
Corro por fora da vida
Pensando que a vivo
Por dentro. Dizem-me
Que não sou livre e sou
Comandado por aqueles
Que já partiram. Eu digo
Que não, que sou eu
Que ando, que penso,
Que falo e que escrevo
Poesia. Às vezes, duvido
Do que afirmo, sim, não
Tenho a certeza se sou eu.
Mesmo quando escrevo.
Não sou supersticioso, não
Sou. Arrepio-me, todavia,
Se me falam em bruxas
Em que não acredito. Não
Sei porquê, mas receio
Que me assombrem a vida.
Era tudo o que não queria –
Ser uma marioneta movida
Por fios invisíveis –
2012.01.13
José Almeida da Silva
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