quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

abre o sol, não há náufragos nas ilhas -


Bill Brandt

abre o sol como luz obrigatória para que corra o dia.
abre na forma de um arco a longitude clara
na metade do mundo, e é normal a rotação das rotinas
em si
e este sol que abre único e original, sempre
como estrela porosa dos frios
colocando sobre o rosto
uma dúzia de raios ou mais –

quando adormecemos lembramos o sol e fechamos a lua dentro de nós
uma lua aprisionada pelo metabolismo dos fluxos
dos labirintos e das claridades sobrepostas
as respostas daqueles limbos que espantam
quando de repente um ruído abre os olhos
e nos conta uma história, letras que ganham consistência;
frases com sentido ou pedaços náufragos de ilhas
existências antigas ou um episódio que não era assim –

foi assim na manhã dois de um amanhecer de campismo
em Espinho
onde uma tenda abria sobre uma linha de água a sua cor azul
e um rádio na estrutura de alumínio soltava um fluido de sons
teclas recolhidas na polpa dos dedos
resilientes no levantar suspenso que suportava o tempo –

foi assim no cimo da serra quando um cobertor de lã grossa
era um manto que incendiava o corpo
antes de uma correria pelas neves e tombos suaves sobre o branco;
as luvas resistiam –

foi assim pelas ruas de Madrid numa ostentação feliz de sorrisos
pelos museus de Sofia sem as indefinições de Mona Lisa
nos grandes copos de um retiro, onde não havia nuvens
apesar do frio -

é estranho este sol nesta manhã de dia de semana
um rosto distante que não se afirma
não tem olhos, nariz, lábios, ombros e pescoço
nasce na incontinuidade absoluta de sempre se despedir
como as folhas que se escrevem ou as páginas de um livro
nas capas grossas de fenómenos que se redescobrem
com um outro significado como um filme repetido –

e não há metáforas determinantes neste poema de linhas
é um discorrer de fim de inverno como se deve ver a vida
a surpreender como cor e como os rios
na direcção objectiva.
rios apertados para se libertarem e abrirem
nos lagos provisórios
ou em mares onde há ondas fortes
que os empurram de novo pelas encostas da cabeça
até aos fragmentos da memória
para rever as margens mais distantes
lugares incisivos incandescentes vivos
um pouco depois das nascentes
e de novo novos como este sol nos caminhos:
fogo, fios de chama e raízes
de essência subtil
nesta manhã de dia de semana
que podia ser domingo -

abre o sol e bate nas pedras
que viram fogueiras e se perdem dos frios
no afirmar de incidências e sem perigos
quentes, no envolvimento que vem de longe
- um afecto uterino
quentes e navegantes
do tamanho de sermos grandes e diferentes
de sermos únicos e juntos no uníssono
neste ou num qualquer dia
através de um sonho ou de um cruzar de caminhos
seguros
decididos -

precisamos procurar as certezas
o sol é bússola
e procuramos e conseguimos

não há náufragos nas ilhas -



josé ferreira 25 janeiro 2012

1 comentário:

Leonardo B. disse...

[refaz o astro a sua rota,

dentro da palavra que o rascunha, traça, vinca
vincado na terra onde papel se fez ilha]

um abraço, José

Leonardo B.