Antes de mais nada, quero dizer:
Bem-vindas e bem-vindos à nova edição do Curso de Escrita Criativa! E o meu abraço. A quem não pôde vir, mas está aqui no blogue, na alegria da escrita e da partilha, e para sempre na minha memória, o meu abraço também!
Depois, dizer ainda:
Peço muita desculpa por não ter feito comentários aos trabalhos, mas tenho estado doente. Vou tentar fazê-lo amanhã, se conseguir, mas tenho um dia complicado... Se não me for possível, imprimo os textos e falamos sobre eles na primeira meia hora.
Bem-vindos a uns, pois. Bem-permaneçam aos outros. E a todos e todas: bem-hajam!
Outro abraço,
ana luísa
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
terça-feira, 25 de novembro de 2008
FUNDAÇÃO EUGÉNIO DE ANDRADE
DEBATE SOBRE BLOGUES DE POESIA
No próximo sábado, dia 29, pelas 18h30, os poetas Inês Lourenço, João Luís Barreto Guimarães e Jorge Reis-Sá, que têm estado ligados a blogues de poesia, irão falar na Fundação Eugénio de Andrade da sua experiência bloguística e discorrer sobre a importância e as funções dos blogues de literatura.
A entrada é livre.
FUNDAÇÃO EUGÉNIO DE ANDRADE
Rua do Passeio Alegre, 584
4150-573 Porto
No próximo sábado, dia 29, pelas 18h30, os poetas Inês Lourenço, João Luís Barreto Guimarães e Jorge Reis-Sá, que têm estado ligados a blogues de poesia, irão falar na Fundação Eugénio de Andrade da sua experiência bloguística e discorrer sobre a importância e as funções dos blogues de literatura.
A entrada é livre.
FUNDAÇÃO EUGÉNIO DE ANDRADE
Rua do Passeio Alegre, 584
4150-573 Porto
Clube Literário do Porto

“Cafés da minha preguiça”
Dia 26 de Novembro, pelas 22:00, no Piano Bar do Clube Literário do Porto, a
próxima sessão das Quartas Mal Ditas de Anthero Monteiro está subordinada ao
tema “Cafés da minha preguiça”.
Com leituras por António Pinheiro, Isabel Marcolino, Joana Padrão, Luís Carvalho,
Mário Vale Lima , Marta Tormenta e Rafael Tormenta.
Na sessão vão estar ainda presentes os escritores convidados Manuel António Pina,
Álvaro Magalhães e Tomás Carneiro (editor da Revista Um Café).
.
c l u b e l i t e r á r i o d o p o r t o aberto de segunda a domingo, das 13h à 1h
Rua Nova da Alfândega, 22 4050-430 PORTO Telefone 222 089 228
Rua Nova da Alfândega, 22 4050-430 PORTO Telefone 222 089 228
Nove Versos Soltos Mais Três Acrescentados
O meu olhar é nítido como um girassol,
e o meu amor não tem
importância nenhuma…
vi-o através de uns olhos que não me pertenciam.1
Nunca são as coisas mais simples que aparecem
no interior do meu peito,
onde até a voz do mar se torna exílio, de
homens que são como lugares mal situados.2
Recusando o que é desfeito,
e a luz que nos rodeia é como grades
quando as esperamos.
Sempre o impossível tão estúpido como o real.3
1 Partida, Manuel António Pina
2 Homens que são como lugares mal situados, Daniel Faria
3 Tabacaria, Álvaro de Campos
Raquel Patriarca
vinteecinco.novembro.doismileoito
e o meu amor não tem
importância nenhuma…
vi-o através de uns olhos que não me pertenciam.1
Nunca são as coisas mais simples que aparecem
no interior do meu peito,
onde até a voz do mar se torna exílio, de
homens que são como lugares mal situados.2
Recusando o que é desfeito,
e a luz que nos rodeia é como grades
quando as esperamos.
Sempre o impossível tão estúpido como o real.3
1 Partida, Manuel António Pina
2 Homens que são como lugares mal situados, Daniel Faria
3 Tabacaria, Álvaro de Campos
Raquel Patriarca
vinteecinco.novembro.doismileoito
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Diário repetido
Procurei a caneta de tinta permanente
sem a querer encontrar... de frases
provavelmente tristes, sempre tristes,
cansadas de serem tristes..
encontrei-a no pôr-de-sol da vila flácida,
deserta, num final de jogo de bola...
as vozes de uma rádio festival
lançavam ruídos estridentes,
minhotos, amassavam as dores
expandidas, maiores, mais sentidas
no lado esquerdo do bolso
da camisa.
Um diário repetido, sem surpresas,
reflexo dos sentidos contrários,
cinzentos, nublados que me cruzaste
sem o calor dos lábios, na despedida.
Cada um no seu caminho, qual o certo?
o necessário? o verdadeiro?
E que interessa afinal, se o resultado
já é cravado, na pele, num martírio
apertando sempre, o ventre vazio?
Guardo de novo a caneta de tinta permanente
no lado esquerdo do peito
no bolso da camisa...
e nada escrevo
tudo é aquilo que tem que ser!
Não há "fórmula de Deus", não existe.
poderá ser energia o Universo?...
um bater de asas de borboleta
no campo recatado, escondido...
dilúvio no oposto Oceano, um tsunami
de casas de papel, de tornados,
de ventos revoltados... e porque não
só, um bater de asas parecendo simples,
sem nenhuma consequência, ou então...
talvez...tão permanente... no outro lado
do destino, na meia-lua terrena,
algo de diferente, voando nós,
sem a graça, no mesmo ar da borboleta?
Saí como entrei no café antes vazio,
agora cheio de gente...e eu
de alma perdida...
Pés de chumbo, desaperto o cadeado,
guardo a chave, liberto a roda,
de bicicleta parto à procura do mar...
Levo a caneta de tinta permanente,
no bolso da camisa
junto ao peito,
e dentro uma alma de poeta,
atenta!
sem a querer encontrar... de frases
provavelmente tristes, sempre tristes,
cansadas de serem tristes..
encontrei-a no pôr-de-sol da vila flácida,
deserta, num final de jogo de bola...
as vozes de uma rádio festival
lançavam ruídos estridentes,
minhotos, amassavam as dores
expandidas, maiores, mais sentidas
no lado esquerdo do bolso
da camisa.
Um diário repetido, sem surpresas,
reflexo dos sentidos contrários,
cinzentos, nublados que me cruzaste
sem o calor dos lábios, na despedida.
Cada um no seu caminho, qual o certo?
o necessário? o verdadeiro?
E que interessa afinal, se o resultado
já é cravado, na pele, num martírio
apertando sempre, o ventre vazio?
Guardo de novo a caneta de tinta permanente
no lado esquerdo do peito
no bolso da camisa...
e nada escrevo
tudo é aquilo que tem que ser!
Não há "fórmula de Deus", não existe.
poderá ser energia o Universo?...
um bater de asas de borboleta
no campo recatado, escondido...
dilúvio no oposto Oceano, um tsunami
de casas de papel, de tornados,
de ventos revoltados... e porque não
só, um bater de asas parecendo simples,
sem nenhuma consequência, ou então...
talvez...tão permanente... no outro lado
do destino, na meia-lua terrena,
algo de diferente, voando nós,
sem a graça, no mesmo ar da borboleta?
Saí como entrei no café antes vazio,
agora cheio de gente...e eu
de alma perdida...
Pés de chumbo, desaperto o cadeado,
guardo a chave, liberto a roda,
de bicicleta parto à procura do mar...
Levo a caneta de tinta permanente,
no bolso da camisa
junto ao peito,
e dentro uma alma de poeta,
atenta!
A luz que se perdeu quando a mulher a deu
De olhar longo ao açúcar
esguio entre panelas flácidas
Ela fia o ninho e espera
suspensa cumpre e prolifera
Atrás do avental de ferro
de lado na terra em guerra
Ela suga o mel da serra
e cura o bicho que lhe chega
Às vozes surdas de medo
que gritam atrás dos muros
Ela sempre foi dando à luz
trilhos lentos e seguros
Hoje da espera delibera e
até a voz do mar se torna exílio
da raiva que aos gatos confessa
à hora do chá de concílio:
“A lua que nos rodeia é como grades
fluímos em extensões do sol e
tal como os das minhas irmãs
o meu olhar é nítido como um girassol!
Mas a visão que é nossa e dos gatos
não tem importância nenhuma
recusando o que é desfeito
no interior do meu peito
E o meu amor não tem
dessa luz a que te dei no leito
para ti que és de entre cegos
o que se sente mais que perfeito.”
Joana Espain
esguio entre panelas flácidas
Ela fia o ninho e espera
suspensa cumpre e prolifera
Atrás do avental de ferro
de lado na terra em guerra
Ela suga o mel da serra
e cura o bicho que lhe chega
Às vozes surdas de medo
que gritam atrás dos muros
Ela sempre foi dando à luz
trilhos lentos e seguros
Hoje da espera delibera e
até a voz do mar se torna exílio
da raiva que aos gatos confessa
à hora do chá de concílio:
“A lua que nos rodeia é como grades
fluímos em extensões do sol e
tal como os das minhas irmãs
o meu olhar é nítido como um girassol!
Mas a visão que é nossa e dos gatos
não tem importância nenhuma
recusando o que é desfeito
no interior do meu peito
E o meu amor não tem
dessa luz a que te dei no leito
para ti que és de entre cegos
o que se sente mais que perfeito.”
Joana Espain
Um outro olhar...(6)
Tonto de amor
Cantavas à janela de Maio florido
Olhando o céu de luz inebriado
E, por fundo, um imenso azul de alegria.
Do canto me ficou em suspenso o que dizia:
“O meu olhar é nítido como um girassol”
– Talvez um eco da alma que te habita!
Sustendo a minha solidão indesejada,
Ouvia-te cantar, distanciada, sonhos
Onde eu já não cabia, e cuidava:
“Nunca são as coisas mais simples que aparecem
Quando as esperamos”.
Eu anseio, meu amor, as rosas do coração,
Rosas fortes como as mãos e sangue da emoção,
“recusando o que é desfeito
No interior do meu peito”.
Mas foi-se o teu canto para dentro
E tu seguiste-lhe os passos, ficando-me a luz assim
No horizonte lá longe como um muro de cetim –
Um rumoroso silêncio dentro de mim a ecoar:
“Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades”
– Coisa, meu amor, que tu não sabes.
E eu desfiei as memórias, tão felizes, uma a uma,
E fiquei triste e fiquei só como fica um girassol
Tonto de amor pelo Sol escondido atrás das nuvens,
Tudo porque descobri, e sem mo dizer ninguém,
Que “O meu amor não tem
Importância nenhuma”.
Até mesmo para ti!...
2008.11.20
José Almeida da Silva
Olhando o céu de luz inebriado
E, por fundo, um imenso azul de alegria.
Do canto me ficou em suspenso o que dizia:
“O meu olhar é nítido como um girassol”
– Talvez um eco da alma que te habita!
Sustendo a minha solidão indesejada,
Ouvia-te cantar, distanciada, sonhos
Onde eu já não cabia, e cuidava:
“Nunca são as coisas mais simples que aparecem
Quando as esperamos”.
Eu anseio, meu amor, as rosas do coração,
Rosas fortes como as mãos e sangue da emoção,
“recusando o que é desfeito
No interior do meu peito”.
Mas foi-se o teu canto para dentro
E tu seguiste-lhe os passos, ficando-me a luz assim
No horizonte lá longe como um muro de cetim –
Um rumoroso silêncio dentro de mim a ecoar:
“Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades”
– Coisa, meu amor, que tu não sabes.
E eu desfiei as memórias, tão felizes, uma a uma,
E fiquei triste e fiquei só como fica um girassol
Tonto de amor pelo Sol escondido atrás das nuvens,
Tudo porque descobri, e sem mo dizer ninguém,
Que “O meu amor não tem
Importância nenhuma”.
Até mesmo para ti!...
2008.11.20
José Almeida da Silva
1º Trabalho de casa II
O meu olhar é nítido como um girassol;
surpresas e confusas só as folhas
nos gestos recusando o que é desfeito,
flor de círculos descompondo a Natureza
revirando rosto de abelhas,
pétalas chama de cabelos,
no crepúsculo deciso dos poentes!
Nunca são as coisas mais simples que aparecem,
aos futeis, vulgares, distraídos,
imaturos eremitas parasitas de sinais...
redondos, concretos, cinzentos, inequívocos de ocasos
nos limites, nas fronteiras dos Invernos, dos Estios;
frios, muito frios... quentes, calores demais!
Quando não se conhece a Primavera
nada se escuta, nada se vê ...
até a voz do mar se torna exílio!
Belas são as flores, os rosas dos flamingos,
os bagos de romã, os voos da cotovia,
os restos dos ramos nas camas dos ninhos
das aves, quando as esperamos
antes dos frutos, nas beiras dos caminhos.
Nos campos de girassol
o meu amor não tem o medo dos grãos,
das mãos terra de raízes;
afasta as mousses dos vestidos
descobre-se na descida dos caules
transparece sorrisos de semente
no interior do meu peito.
Belos são os ventos, as melodias, os bailados
das folhas, dos ouriços dos castanhos...
e os dois corpos, longe dos olhos
estranhos, presos nos seus
sussurros de ventres, desejos repartidos...
e o sabor silvestre das amoras,
os figos de mel por entre filtros
de caruma...
a brisa do fundo da terra
que inebria de sopros, apruma,
a nitidez do girassol...
Nada mais tem
importância nenhuma!
surpresas e confusas só as folhas
nos gestos recusando o que é desfeito,
flor de círculos descompondo a Natureza
revirando rosto de abelhas,
pétalas chama de cabelos,
no crepúsculo deciso dos poentes!
Nunca são as coisas mais simples que aparecem,
aos futeis, vulgares, distraídos,
imaturos eremitas parasitas de sinais...
redondos, concretos, cinzentos, inequívocos de ocasos
nos limites, nas fronteiras dos Invernos, dos Estios;
frios, muito frios... quentes, calores demais!
Quando não se conhece a Primavera
nada se escuta, nada se vê ...
até a voz do mar se torna exílio!
Belas são as flores, os rosas dos flamingos,
os bagos de romã, os voos da cotovia,
os restos dos ramos nas camas dos ninhos
das aves, quando as esperamos
antes dos frutos, nas beiras dos caminhos.
Nos campos de girassol
o meu amor não tem o medo dos grãos,
das mãos terra de raízes;
afasta as mousses dos vestidos
descobre-se na descida dos caules
transparece sorrisos de semente
no interior do meu peito.
Belos são os ventos, as melodias, os bailados
das folhas, dos ouriços dos castanhos...
e os dois corpos, longe dos olhos
estranhos, presos nos seus
sussurros de ventres, desejos repartidos...
e o sabor silvestre das amoras,
os figos de mel por entre filtros
de caruma...
a brisa do fundo da terra
que inebria de sopros, apruma,
a nitidez do girassol...
Nada mais tem
importância nenhuma!
domingo, 23 de novembro de 2008
A poesia não se explica...
Aos meus amigos poetas, deixo o testemunho de um grande poeta...
"Não sei falar de literatura. Não sei falar de poesia. Sobretudo não sei se a poesia tem alguma coisa a ver com a literatura. Talvez esteja antes ou depois da literatura. Sei que a poesia não se explica, a poesia implica, como costuma dizer a minha amiga Sophia de Mello Breyner. Sei que a energia, como diz o meu amigo Herberto Hélder, é a essência do mundo e que “os ritmos em que se exprime constituem a forma do mundo". Sei, como o poeta russo Mandelstam, que "escrever é um acontecimento cósmico". E que cada palavra é um pedaço de universo. Ou como dizia Klebnikov: "Na natureza da palavra viva, esconde-se a matéria luminosa do universo." Talvez tudo isto seja a poesia. Ou talvez ela não seja mais do que o primeiro verso, aquele que nos é dado, como sempre dizia Miguel Torga, porque os outros têm de ser conquistados. Talvez tudo esteja nesse primeiro verso, que é o instante da revelação e da relação mágica com o mundo através da palavra poética. Talvez o poeta, afinal, não seja muito diferente daquele sujeito que vemos nas tribos primitivas, de plumas na cabeça, repetindo palavras mágicas enquanto dança e pula ao ritmo de um tambor. O poeta é esse feiticeiro. Dança com palavras ao som de um ritmo que só ele entende. Ou é talvez o adivinho. Como já não pode ler nas vísceras das vítimas, procura decifrar os sinais dos tempos através de múltiplos sentidos ou dos semi-sentidos da palavra. De qualquer modo, como nas sociedades primitivas, que tinham uma concepção mágica do mundo, o poeta de hoje é como esse xamã antigo que, através da repetição rítmica de palavras e imagens, convoca as forças benfazejas ou tenta exorcizar as forcas maléficas.
A poesia é, assim, antes de tudo, uma forma de medição. Um presságio do sul, como diz o meu amigo José Manuel Mendes. Uma encantada, encantatória e desesperada tentativa de captar a essência do mundo e de, através da palavra, "mudar a vida", como queria Rimbaud. Uma forma de alquimia. Que procura o impossível. Ou seja: o verso que não há.
A poesia é também a língua. E para mim a língua começa em Camões, que tinha uma flauta mágica. A música secreta da língua. A arte e o ofício da língua e da linguagem.. Nem foi por acaso que Dante chamou a Arnaut Daniel "il migiior fabbro". O poeta, dizia Cioran, "é aquele que leva a sério a linguagem". E o que é levar a sério a linguagem? Eu creio que é estar atento aos sinais. Os sinais mágicos da palavra. Os sinais da essência do mundo que por vezes se revelam na palavra poética. Ou talvez o duende e aquela ferida de que falava Lorca. Porque o poeta traz em si uma ferida e o duende por vezes ouve "sonidos negros". É então que a poesia acontece.
Isto é o que sei de poesia. Talvez seja muito pouco. Mas não sei se é possível saber mais."
Manuel Alegre
"Não sei falar de literatura. Não sei falar de poesia. Sobretudo não sei se a poesia tem alguma coisa a ver com a literatura. Talvez esteja antes ou depois da literatura. Sei que a poesia não se explica, a poesia implica, como costuma dizer a minha amiga Sophia de Mello Breyner. Sei que a energia, como diz o meu amigo Herberto Hélder, é a essência do mundo e que “os ritmos em que se exprime constituem a forma do mundo". Sei, como o poeta russo Mandelstam, que "escrever é um acontecimento cósmico". E que cada palavra é um pedaço de universo. Ou como dizia Klebnikov: "Na natureza da palavra viva, esconde-se a matéria luminosa do universo." Talvez tudo isto seja a poesia. Ou talvez ela não seja mais do que o primeiro verso, aquele que nos é dado, como sempre dizia Miguel Torga, porque os outros têm de ser conquistados. Talvez tudo esteja nesse primeiro verso, que é o instante da revelação e da relação mágica com o mundo através da palavra poética. Talvez o poeta, afinal, não seja muito diferente daquele sujeito que vemos nas tribos primitivas, de plumas na cabeça, repetindo palavras mágicas enquanto dança e pula ao ritmo de um tambor. O poeta é esse feiticeiro. Dança com palavras ao som de um ritmo que só ele entende. Ou é talvez o adivinho. Como já não pode ler nas vísceras das vítimas, procura decifrar os sinais dos tempos através de múltiplos sentidos ou dos semi-sentidos da palavra. De qualquer modo, como nas sociedades primitivas, que tinham uma concepção mágica do mundo, o poeta de hoje é como esse xamã antigo que, através da repetição rítmica de palavras e imagens, convoca as forças benfazejas ou tenta exorcizar as forcas maléficas.
A poesia é, assim, antes de tudo, uma forma de medição. Um presságio do sul, como diz o meu amigo José Manuel Mendes. Uma encantada, encantatória e desesperada tentativa de captar a essência do mundo e de, através da palavra, "mudar a vida", como queria Rimbaud. Uma forma de alquimia. Que procura o impossível. Ou seja: o verso que não há.
A poesia é também a língua. E para mim a língua começa em Camões, que tinha uma flauta mágica. A música secreta da língua. A arte e o ofício da língua e da linguagem.. Nem foi por acaso que Dante chamou a Arnaut Daniel "il migiior fabbro". O poeta, dizia Cioran, "é aquele que leva a sério a linguagem". E o que é levar a sério a linguagem? Eu creio que é estar atento aos sinais. Os sinais mágicos da palavra. Os sinais da essência do mundo que por vezes se revelam na palavra poética. Ou talvez o duende e aquela ferida de que falava Lorca. Porque o poeta traz em si uma ferida e o duende por vezes ouve "sonidos negros". É então que a poesia acontece.
Isto é o que sei de poesia. Talvez seja muito pouco. Mas não sei se é possível saber mais."
Manuel Alegre
1º Trabalho de Casa II - Renascer
Ecoam gritos de nós no silêncio
E a luz que nos rodeia é como grades
O sol mergulhou ao fundo nas águas
Escondeu-se
Como eu de ti.
As sombras crescem
Levam-me para longe de nós
A natureza lá fora adormecida
É testemunha
Até a voz do mar se torna exílio.
Quero correr para ti
Mas…
O meu amor não tem
Importância nenhuma
E nunca são as coisas mais simples que aparecem
Quando as esperamos.
Agarro-me a essa muleta que é o tempo
Que tudo cura, tudo desfaz
E perco-me na imensidão do escuro
Aguardo o passar das horas
Esse remédio
Adormeço.
A luz do sol ergueu-se, límpida
Cravou-se em mim
Não sei onde estás
Mas eu renasço
O meu olhar é nítido como um girassol
Enterro os pés nos grãos de areia das dunas
Caminho sem destino
Sem ti, sem mim
Caminho,
Sorrindo
Recusando o que é desfeito
No interior do meu peito.
E a luz que nos rodeia é como grades
O sol mergulhou ao fundo nas águas
Escondeu-se
Como eu de ti.
As sombras crescem
Levam-me para longe de nós
A natureza lá fora adormecida
É testemunha
Até a voz do mar se torna exílio.
Quero correr para ti
Mas…
O meu amor não tem
Importância nenhuma
E nunca são as coisas mais simples que aparecem
Quando as esperamos.
Agarro-me a essa muleta que é o tempo
Que tudo cura, tudo desfaz
E perco-me na imensidão do escuro
Aguardo o passar das horas
Esse remédio
Adormeço.
A luz do sol ergueu-se, límpida
Cravou-se em mim
Não sei onde estás
Mas eu renasço
O meu olhar é nítido como um girassol
Enterro os pés nos grãos de areia das dunas
Caminho sem destino
Sem ti, sem mim
Caminho,
Sorrindo
Recusando o que é desfeito
No interior do meu peito.
Poesia de grupo
O meu olhar é nítido como um girassol
Olhando o sol a divertir-se
Iluminando o campo docemente
E em mim correndo como a lua.
É olhar translúcido, e não te vê.
Há montes e vales e planícies,
Há nascentes e rios e mares de prata
Onde os girassóis se banham com o sol
Na nitidez pintada da aguarela.
Vieste assim da cor que te pintei
Olhando para mim como ao sol o girassol
E eu fitei-te no meu deslumbramento.
Elza G.D. e José Almeida Silva
Olhando o sol a divertir-se
Iluminando o campo docemente
E em mim correndo como a lua.
É olhar translúcido, e não te vê.
Há montes e vales e planícies,
Há nascentes e rios e mares de prata
Onde os girassóis se banham com o sol
Na nitidez pintada da aguarela.
Vieste assim da cor que te pintei
Olhando para mim como ao sol o girassol
E eu fitei-te no meu deslumbramento.
Elza G.D. e José Almeida Silva
Coisas que partem e fogem
Quando sem engenho
Em ti me empenho
O verso não pulsa
A imaginação entope
Não há circulação
Há coisas a fugir
Esvaem-se em letras
As palavras mancas
Que tentam pintar
Ideias brancas
O cérebro estanca
O que o alimenta
Recusando o que é desfeito
no interior do meu peito
Joana e Marlene
(20 de Novembro de 2008)
Em ti me empenho
O verso não pulsa
A imaginação entope
Não há circulação
Há coisas a fugir
Esvaem-se em letras
As palavras mancas
Que tentam pintar
Ideias brancas
O cérebro estanca
O que o alimenta
Recusando o que é desfeito
no interior do meu peito
Joana e Marlene
(20 de Novembro de 2008)
um outro olhar...(5)
“as raízes do amor…”
nós somos uma raiz
ou seríamos duas e nos transformamos numa só?
vivemos a nossa vida debaixo de terra
sempre ligadas por este beijo eterno
até que um dia
fomos arrancadas lá do fundo, sem saber porquê
vimos o sol e a lua, os pássaros e as pessoas
demos voltas e mais voltas, mas, apesar de tantas mudanças
estivemos sempre ligadas por este beijo eterno
e de que será feito este beijo?
será um beijo dado olhos nos olhos?
com partilha, afecto… e verdade?
terá nascido de uma pequena semente e foi crescendo?
e terá dado sempre tempo ao tempo?
serão estas as raízes do amor?
nós somos uma raiz
ou seríamos duas e nos transformamos numa só?
vivemos a nossa vida debaixo de terra
sempre ligadas por este beijo eterno
até que um dia
fomos arrancadas lá do fundo, sem saber porquê
vimos o sol e a lua, os pássaros e as pessoas
demos voltas e mais voltas, mas, apesar de tantas mudanças
estivemos sempre ligadas por este beijo eterno
e de que será feito este beijo?
será um beijo dado olhos nos olhos?
com partilha, afecto… e verdade?
terá nascido de uma pequena semente e foi crescendo?
e terá dado sempre tempo ao tempo?
serão estas as raízes do amor?
sábado, 22 de novembro de 2008
"soneto" do anjo

fotógrafo: YOSHIHI TANAKA
Não se deixa de gostar
Em ápices que nos separam
Mesmo quando não me vês
Passando por ti assim tão pequenina.
Como a estrela que vela o norte
Em cada perda do teu olhar
Que me encontra na dita sorte
Encarnada de anjo por saber amar.
Os anjos ficam tristes?
Não, se os souberem cuidar
Para isso preciso que fiques.
Fica enquanto eu te estimar
Um anjo serei a cada anoitecer
Um anjo serás por me amar.
Em ápices que nos separam
Mesmo quando não me vês
Passando por ti assim tão pequenina.
Como a estrela que vela o norte
Em cada perda do teu olhar
Que me encontra na dita sorte
Encarnada de anjo por saber amar.
Os anjos ficam tristes?
Não, se os souberem cuidar
Para isso preciso que fiques.
Fica enquanto eu te estimar
Um anjo serei a cada anoitecer
Um anjo serás por me amar.
filinta martins
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