segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Tonto de amor

Cantavas à janela de Maio florido
Olhando o céu de luz inebriado
E, por fundo, um imenso azul de alegria.

Do canto me ficou em suspenso o que dizia:
“O meu olhar é nítido como um girassol”
– Talvez um eco da alma que te habita!

Sustendo a minha solidão indesejada,
Ouvia-te cantar, distanciada, sonhos
Onde eu já não cabia, e cuidava:
“Nunca são as coisas mais simples que aparecem
Quando as esperamos”.

Eu anseio, meu amor, as rosas do coração,
Rosas fortes como as mãos e sangue da emoção,
“recusando o que é desfeito
No interior do meu peito”.

Mas foi-se o teu canto para dentro
E tu seguiste-lhe os passos, ficando-me a luz assim
No horizonte lá longe como um muro de cetim –
Um rumoroso silêncio dentro de mim a ecoar:
“Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades”
– Coisa, meu amor, que tu não sabes.

E eu desfiei as memórias, tão felizes, uma a uma,
E fiquei triste e fiquei só como fica um girassol
Tonto de amor pelo Sol escondido atrás das nuvens,
Tudo porque descobri, e sem mo dizer ninguém,
Que “O meu amor não tem
Importância nenhuma”.
Até mesmo para ti!...


2008.11.20
José Almeida da Silva

5 comentários:

josé ferreira disse...

Uma história de amor cantada e ao mesmo tempo desencantada. gostei em especial da forma como termina a poesia.
Parabéns!

auxília disse...

Gosto do poema, mas muito particularmente da última estrofe. Parabéns!

Marlene disse...

Gostei especialmente da passagem:

"Um rumoroso silêncio dentro de mim a ecoar:
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades
– Coisa, meu amor, que tu não sabes."

Por vários motivos, porque "rumoroso silêncio" é bonito e invulgar...e tão verdadeiro, pois há tantos silêncios que não se calam! E depois porque esta passagem faz um contraponto entre o canto amado, que afinal só murmura, e o silêncio que entoa mais alto escurecendo tudo.

Joana Espain disse...

Gostei muito da respiração do poema. Ela é sustida nas três primeiras três estrofes ('suspenso', 'sustendo') depois há um ligeiro suspiro de anseio e a seguir a total expiração desiludida. Ouve-se a respiração. Parabéns.

Ana Luísa Amaral disse...

Excelente a forma como cruza as várias referências textuais! Achei óptima a solução:

"Um rumoroso silêncio dentro de mim a ecoar:
«Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades»
– Coisa, meu amor, que tu não sabes."