segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A luz que se perdeu quando a mulher a deu

De olhar longo ao açúcar
esguio entre panelas flácidas
Ela fia o ninho e espera
suspensa cumpre e prolifera

Atrás do avental de ferro
de lado na terra em guerra
Ela suga o mel da serra
e cura o bicho que lhe chega

Às vozes surdas de medo
que gritam atrás dos muros
Ela sempre foi dando à luz
trilhos lentos e seguros

Hoje da espera delibera e
até a voz do mar se torna exílio
da raiva que aos gatos confessa
à hora do chá de concílio:

“A lua que nos rodeia é como grades
fluímos em extensões do sol e
tal como os das minhas irmãs
o meu olhar é nítido como um girassol!

Mas a visão que é nossa e dos gatos
não tem importância nenhuma
recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

E o meu amor não tem
dessa luz a que te dei no leito
para ti que és de entre cegos
o que se sente mais que perfeito.”



Joana Espain

4 comentários:

josé ferreira disse...

Gostei imenso do teu poema, as metáforas são fortes e sente-se a força de uma mulher a falar, o poder da decisão de quem determina. um poema de "era", que "prolifera" e não "espera". óptimo e diferente!
Parabéns!

Marlene disse...

Joana, gosto muito desse teu recurso de troca de adjectivação (panelas flácidas/avental de ferro) e todo o uso invulgar da linguagem: "ela sempre foi dando à luz trilhos lentos e seguros" que remete para o título: "a luz que se perdeu quando a mulher a deu". Remete-me a linguagem para a penumbra da noite onde pardos gatos se alimentam de versos!

Betomenezes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Luísa Amaral disse...

Concordo em absoluto com a Marlene sobre o "uso invulgar da linguagem". Gostei muito da ideia de colocar uma voz de mulher no poema, "à hora do chá de concílio"...