quarta-feira, 17 de outubro de 2012
silêncio
por vezes pelo excesso de ruído há uma sede de silêncio
como um pêndulo, suspenso, marcando o tempo
embalando os pensamentos -
o silêncio flui e torna-se seda
os olhos fecham a cabeça pende
e em espírito
as mãos viajam, viajam por dentro, pelas artérias
como barcos em afluentes
afluentes de um rio vermelho -
o silêncio oscila de um e de outro lado do centro
e sem atrito não se imobiliza o pêndulo
não há frio nem há vento -
o tempo e o espaço soam em uníssono
e no silêncio os romanos podem ir à lua
nada é improvável, tudo pode ser pensado como único
a realidade e o infinito -
o silêncio liberta e pousa a pena e o chumbo -
a sede de silêncio
é uma urgência de equilíbrio -
josé ferreira 16 outubro 2012
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
não há sal nem nuvens
Tanya Gramatikova
o tempo como nascimento de segundos é um novo espaço
reinventado por todos os caminhos, milhares de milhões
sete dizem.
a terra é a morada física, as árvores e as raízes
o espírito ninguém o define –
quando nos deitamos no escuro ou na luz do dia
pode haver o fumo dos carros, o ar poluído
os prédios altos, a cidade e os ruídos
ou pode ser se for no campo
as asas dos pássaros, a leveza das borboletas, o zumbido das
abelhas
pode ser o silêncio da natureza e o silêncio dos pensamentos
e um leito cheio de sentidos –
guardo-te na memória fluida dos rios
nos seus murmúrios quando encontram os saltos das rãs
e os voos suspensos das libelinhas –
sei que o tempo é de negrume, dizem nas notícias
mas não se apagam os olhos
quando voam, quando sonham
com horizontes de espelhos d’água
que se tornam mais mexidos quando se formam ondas
as ondas amigas –
os teus olhos estão suaves como magnólias e brilham
não há sal nem nuvens –
josé ferreira 15 Outubro 2012
domingo, 14 de outubro de 2012
Partida, largada, fugida!
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
o desejo e a geometria
acordo com a música de leonard
hoje é o dia, o dia plácido, sereno, sossegado –
o teu rosto ainda descansa no berço dos braços
um louro luminoso em raios de sol
a tranquilidade de um
sonho –
acordo calmo, na brevidade de sons de leonard
a manhã é um laço apertado, uma rotina de espaços
migalhas sobre o mármore,
as torradas -
não sei se sais, não sei a cor dos sapatos
qual a seda que te envolve –
parto no estado encoberto
pelo interstício entre o corpo e a sombra inelutável
entre cada um dos dedos e o que os separa
parto pelo indefinível, pelo desejo e pela geometria
parto sempre
pela arquitectura da alma –
terça-feira, 9 de outubro de 2012
o mar e as histórias mágicas
John Wiliam Waterhouse
pode ter a pele eriçada de ondas que se aproximam da praia
e pode ter ao mesmo tempo o sol, o céu, o vento
escrevendo histórias
mágicas
de peixes, algas e
águas
e sereias –
sábado, 6 de outubro de 2012
É por ti que escrevo
É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso
António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto'
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Assinalo para não repetir
Foi como se não tivesse aprendido que não volto, deixei rasgar-me, e levantei-me todos os dias por não querer sentir quase nada.
Por terra queria deixar a mágoa, queria também viver.
Icei as velas do que tinha, pareceu pouco. Mas houve quem me disse ter tudo, quem me ama. E que me perdoem ter sido eu cruel, tentarei depois resgatar alegria para a partilhar, pois, larguei-me a deriva. Lancei-me à tempestade.
E era, é, navegar sem destino no deserto do mar. Aí eu senti quase tudo, até não ter palavras. Os dias foram noites, as noites claras como dias.
Foi como fome. Da dor, essa lâmina, sobrou sofrer. Às vezes disse, Que puta de vida. Não foi bonito, por tudo que deixou de ser bonito. Também não houve qualquer distorção.
E das vezes que chegara a ânsia de dias claros, de terra firma sob os pés, vinham também palavras à cabeça, palavras que me ditaram mal. Tenho eu de afastar certas palavras todos os dias, estou completamente só. A solidão não faz bem, ela só pode ser uma passagem.
Tem de haver a serra onde viver, por onde andar descalça sobre chão de terra, sobre chão de erva. Fazer fogueira com as tábuas, do barco partido onde correm águas do mar.
E só estou eu, para as compor enquanto tento que passe a saudade do bater do meu coração tranquilo. Caí no logro por isso esta horrível parte da viagem, a saber que é melhor não estar ninguém.
Que quero eu chegar, meu corpo largar o barco, a nado alcançar a praia, subir a serra. Desejo o calor da fogueira, gente que festeja à volta. Honrar a terra, que sou terra, para depois adormecer e acordar abraçada a quem de ser generoso.
Já estou eu... partida, largada, fugida! Por sorte não volta. Nem sei se chegará, mas dá-me tempo para conseguir seguir comigo em frente. Ainda sinto a contrariedade de não querer que estas últimas palavras sejam verdade. Ainda estou no barco, e confio que esteja só e apenas por mais algum tempo.
("dou" este escrito ao Zémanel, claro!)
Por terra queria deixar a mágoa, queria também viver.
Icei as velas do que tinha, pareceu pouco. Mas houve quem me disse ter tudo, quem me ama. E que me perdoem ter sido eu cruel, tentarei depois resgatar alegria para a partilhar, pois, larguei-me a deriva. Lancei-me à tempestade.
E era, é, navegar sem destino no deserto do mar. Aí eu senti quase tudo, até não ter palavras. Os dias foram noites, as noites claras como dias.
Foi como fome. Da dor, essa lâmina, sobrou sofrer. Às vezes disse, Que puta de vida. Não foi bonito, por tudo que deixou de ser bonito. Também não houve qualquer distorção.
E das vezes que chegara a ânsia de dias claros, de terra firma sob os pés, vinham também palavras à cabeça, palavras que me ditaram mal. Tenho eu de afastar certas palavras todos os dias, estou completamente só. A solidão não faz bem, ela só pode ser uma passagem.
Tem de haver a serra onde viver, por onde andar descalça sobre chão de terra, sobre chão de erva. Fazer fogueira com as tábuas, do barco partido onde correm águas do mar.
E só estou eu, para as compor enquanto tento que passe a saudade do bater do meu coração tranquilo. Caí no logro por isso esta horrível parte da viagem, a saber que é melhor não estar ninguém.
Que quero eu chegar, meu corpo largar o barco, a nado alcançar a praia, subir a serra. Desejo o calor da fogueira, gente que festeja à volta. Honrar a terra, que sou terra, para depois adormecer e acordar abraçada a quem de ser generoso.
Já estou eu... partida, largada, fugida! Por sorte não volta. Nem sei se chegará, mas dá-me tempo para conseguir seguir comigo em frente. Ainda sinto a contrariedade de não querer que estas últimas palavras sejam verdade. Ainda estou no barco, e confio que esteja só e apenas por mais algum tempo.
("dou" este escrito ao Zémanel, claro!)
domingo, 30 de setembro de 2012
De ironias
De ironias

É que no mundo das aparências... que é o mundo em geral!
Umas vezes se passa por ser a melhor pessoa;
outras, pela pior... isto na maior parte do tempo!
Vão reciclando.
E pondo de um lado os que falam, e do outro quem é falado,
como acha que foi quem é falado?
Quando do outro lado estava, desse onde ninguém é meigo (depois inofensivos se acham), onde afirmam tanto ter razão, mas escondem a cara o melhor que podem se sozinhos;
e ainda, onde cada um, achará que terá cuidado, e nunca passará a ser falado!
É extraordinário pensar ser-se assim tão especial...
assim como a surpresa de como foi possível, ser a mim que chamou caprichosa!
Adeus.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
só as árvores sabem
Felix Mas
os raios de sol de novo sobre a testa e as palavras.
o outono entrou pela chuva e espalhou as folhas.
mas há luminosidades
os teus olhos, os teus lábios –
escrevo-te na mágoa da ausência
na página branca
através de dedos coloridos e tinta permanente
e escrevo-te para
construir a seiva, sempre
para que ela circule e se liberte
na expansão mais célebre –
só os ouvidos das estátuas, sabem
só os versos quando escritos, sabem
só as músicas , sabem
só as cores espalhadas nas mesmas margens, sabem
só as árvores, só as árvores
sabem –
A Mulher
Matisse
Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
António Ramos Rosa, in "Volante Verde" lido aqui
Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
António Ramos Rosa, in "Volante Verde" lido aqui
terça-feira, 25 de setembro de 2012
o urgente azul
Felix Mas
é urgente
fazer crescer os
braços de uma árvore para te abraçar os cabelos
é urgente
uma girândola de aromas
a árvore e os cabelos
as flores brancas de Trás os Montes é urgente
é urgente
fazer crescer
cogumelos tão altos que se tornem seguros
um tronco alto e macio, é urgente
para proteger das poeiras e não fechar o paraíso é urgente
o céu, a lua e a incandescência das estrelas é urgente –
é urgente a urgência de navegar no lado esquerdo –
terça-feira, 18 de setembro de 2012
o frágil vidro
por vezes
pelo interstício das células faz-se o caminho
como se colocasses os pés dentro de água, impermeável
ao líquido e à escama que desliza –
a cidade não te surge como destino.
por vezes, a cidade é
uma rua deserta
não tem qualquer significado
quando caminhas sozinho –
há um banco no jardim do universo
há uma física emoldurada de tílias
há um horizonte que se constrói na planície do sonho
e uma realidade difícil
que se ultrapassa todos os dias.
sempre que a parede, muro, líquen ou vidro
se ergue como a Babel do incompreensível
procura o fio, a curiosidade de descobrir o infinito
procura o linho, a mão unida, a sede dos olhos
a luz no caminho
há sempre uma saída –
josé ferreira 18 de setembro 2012
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
luas,marfins, instrumentos e rosas
El enamorado
Lunas, marfiles, instrumentos, rosas,
lámparas y la línea de Durero,
las nueve cifras y el cambiante cero,
debo fingir que existen esas cosas.
Debo fingir que en el pasado fueron
Persépolis y Roma y que una arena
sutil midió la suerte de la almena
que los siglos de hierro deshicieron.
Debo fingir las armas y la pira
de la epopeya y los pesados mares
que roen de la tierra los pilares.
Debo fingir que hay otros. Es mentira.
Sólo tú eres. Tú, mi desventura
y mi ventura, inagotable y pura.
Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de Dürer, lampiões austeros,
Traços de Dürer, lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persópolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persópolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.
Jorge Luís Borges
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
azul
Matisse Le Cirque 1947
"Cheirava a maresia e a fruta.
Longas músicas pareciam suspensas das árvores e das estrelas.
E entre as casas brancas, na noite escura e azul, passava o rolar do mar."
Sophia Mello Breyner Andresen
azul, sempre azul, digo-te
como num circo de Matisse
ou numa fantasia de Chagall;
onde os peixes podem ter asas
onde a lua sabe tocar guitarra
e onde em vez de sapatos posso ter crina e ser um cavalo
que te leve no dorso nu pelas descobertas
pelos lugares e não lugares do mundo
pelos prados virgens e pelas paisagens imprevisíveis do sonho:
o sonho azul, inteiro, sem fragmentos
que faça esquecer todos os medos –
azul, sempre azul, digo-te
para que o céu exista nos ponteiros soltos do relógio
para que as estrelas sejam reais no espelho das faces
e queimem as mãos com a pele que arde
nessa pressa dolorosa do amor que não esmorece
e acontece de cada vez mais para se tornar maior –
e acontece
como células brilhantes que se acrescem
para serem enormes e únicas, de seda, sede e febre
para que se tornem doença, doce vício e urgência
a boa urgência e o sossego –
azul, sempre azul, digo-te
como o flamejante álcool de um laboratório
que flutua e inebria na destilação dos fluidos mais leves
para que as temperaturas evidenciem as essências
e ciciem poemas na ebulição mais importante –
azul, sempre azul, digo-te
com os braços distendidos e a galope
até que o mar nos leve juntos pela praias de Sofia –
josé ferreira
Marc Chagall Le Cirque Bleu 1950
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