segunda-feira, 10 de setembro de 2012

azul



                                                            Matisse Le Cirque 1947

     "Cheirava a maresia e a fruta. 
     Longas músicas pareciam suspensas das árvores e das estrelas. 
     E entre as casas brancas, na noite escura e azul, passava o rolar do mar."
                                                                                                                                                       Sophia Mello Breyner Andresen


azul,  sempre azul, digo-te
como num circo de Matisse
ou numa fantasia de Chagall;
onde os peixes podem ter asas 
onde a lua sabe tocar guitarra
e onde em vez de sapatos posso ter crina e ser um cavalo
que te leve no dorso nu pelas descobertas 
pelos lugares e não lugares do mundo
pelos prados virgens e pelas paisagens  imprevisíveis do sonho:
o sonho azul, inteiro, sem fragmentos  
 que faça esquecer todos os medos –

azul, sempre azul, digo-te
para que o céu exista nos ponteiros soltos do relógio
para que as estrelas sejam reais no espelho das faces
e queimem as mãos com a pele que arde
nessa pressa dolorosa do amor que não esmorece
e acontece de cada vez mais para se tornar maior –

e acontece
como células brilhantes que se acrescem
para serem enormes  e únicas, de seda, sede e febre
para que se tornem doença, doce vício e urgência
a boa urgência e o sossego –

azul, sempre azul, digo-te
como o flamejante álcool de um laboratório
que flutua e inebria na destilação dos fluidos mais leves
para que as temperaturas evidenciem as essências
e ciciem poemas na ebulição mais importante –

azul, sempre azul, digo-te
com os braços distendidos e a galope
até  que o mar nos leve juntos pela praias de Sofia –

josé ferreira




                                       Marc Chagall  Le Cirque Bleu 1950

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