Languidez:estado subtil do desejo do amor, experimentado na ausência deste, fora de todo o querer-para-si
«...pois desde que te sinto um instante, não consigo articular mais nenhuma palavra: mas a minha língua quebra-se e, sob a minha pele, desliza entretanto um fogo subtil: os meus olhos não têm olhar, as minhas orelhas zumbem, o suor corre-me pelo corpo, um calafrio apodera-se de mim: fico mais verde do que a erva e pouco falta para me sentir morrer.»
...
«...todo o meu eu é retirado, transferido para o objecto amado que fica em seu lugar: a languidez seria esta passagem extenuante da líbido narcisista para a líbido objectiva. ( Desejo do ser ausente e do ser presente: a languidez sobreimprime os dois desejos, coloca a ausência na presença. Daí um estado de contradição: é a "queimadura suave" »
Roland Barthes "Fragmentos do discurso amoroso" Ed. 70,
Encho a minha boca com o teu intenso odor sagrado: azul de pavões azuis, cordilheira e búzios volutas de anéis. Falas comigo ao ritmo da tua respiração. Tornas-te exacta, cascata de mel e de meio-dia. Respeito a tua atenção.
Gérard de Cortanze "O movimento das coisas", Campo de Letras, 2002
o verso de que partimos começa em luz. é errado pensar que só da água a génese só da água a forma inicial da vida complexa.
a luz na condição humana navega por vezes na suposta leveza de um mar que se preenche sem surpresas uma mansidão de azeite ou de mel na vastidão plana do horizonte mas em grande movimento, desapercebido pela superfície dos ponteiros embora como o plâncton pela boca aberta dos peixes bem seguro pelo filtro das guelras –
mas vou ser breve. não pretendo estender as palavras como bosque sempre ou seara extensa embora de um lado se ondeie o brilho dos cabelos, um espelho e de um outro o mistério, o segredo e as sombras, as sombras e a vida, sim, a vida complexa das células, as mais destemidas –
prometi que não te cansava os olhos e termino junto às portas da distância enquanto as mãos se encontram perdidas, e sensíveis, sim mas perdidas, pousadas sobre a razão como num rugoso muro um muro que divide –
o verso de que partimos começa em luz uma luz singular e imbatível, e tantos anos e tantos anos –
neste mar de chão em que pousamos como na divisibilidade de água e plâncton nem tudo passou nem tudo foi filtrado –
permanece o verso de que partimos a luz a luz, sim, a luz, e este pó nos lábios –
Eu te peço perdão por te amar de repente Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos Das horas que passei à sombra dos teus gestos Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos Das noites que vivi acalentado Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo Não trai o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas Nem as misteriosas palavras dos véus da alma... É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias E só te pede que te repouses quieta, muito quieta E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o [olhar extático da aurora.
admiro a tua resistência ao frio e conheço um pouco da tua vida.
o Canadá sobrevive na pele de um urso branco, a cor do teu cabelo
mas a voz não perdeu a força, talvez menos límpida nas cordas tangidas
uma garganta um pouco mais gasta, de um violoncelo ao contrabaixo
mas profunda, um veludo, uma manta por sobre o silêncio
de onde surgem outros e outras que fazem coro, ao lado e por cima
de muitos burning violin –
viajas nas Babilónias modernas e nas montanhas cálidas e mudas
pelas tuas ondas e longe de Suzana
embora a ames como nunca.
não consegues apreender este mundo
falta-lhe o feminino, a longitude solta dos cabelos
mais e mais, a parte sensível –
por vezes pareces triste.
mas outras em brasa abrindo os braços
na forma de um corpo luminoso
de uma lava imensa, acesa
e ao mesmo tempo com o musgo nos olhos
em milhares de pontos verdes –
sabes Leonardo há um charme completo que te veste o casaco
no entanto descubro um barco, uma segunda pele, uma barba rala
um cabelo despenteado num palco de 60
e acho possível, porque sinto
que houve o desconforto, o imprevisível
partidas e chegadas
portas e janelas, a ventania branca
o hibernar
e o descanso do urso em placas de oceano
para de novo mergulhar no azul das águas
pelo espaço do plâncton, ágil como os golfinhos –
a mão desliza-te no bolso como um gato que procura um peixe
uma magia e o corpo inclina por partes:
de um lado a voz projectada, profunda
e de um outro a outra mão, cheia de rugas, esticada
separando o ar e ouvindo o vento
esse teu amigo que te sopra versos pelos ouvidos
como se os teus tímpanos fossem ramos de uma árvore
grossa de raízes, e escutassem uivos, lamentos
mas também vozes femininas e a suavidade dos carinhos –
o chapéu é um adereço, por vezes também penso nele
não no mesmo formato, menos formal, já não uso a gravata –
fica-te bem e pousa-te no tempo.
prolonga e afia-te o rosto e no negro tolda um contrário
e abre um novo sabor de mosto, uma delicadeza, um apreço
um afecto quando o levantas e juntas as mãos e os olhos
os olhos soberanos, abrindo o externo num golpe extenso
e navegando por entre os seios
navegando, dentro de naked gente –
perdeste esse ar selvagem de adolescente, do
don’t care about all the man that look the same
only with love I can be a slave –
mas acredito que ainda pensas o mesmo
não pareces perdido, há uma tranquilidade infinita;
cresci contigo, e hoje escuto de um outro modo a circunstância aflita -
quando se abrem muitas brechas e se escoam alguns rios
encontro os teus poemas como ombro e como jangada de troncos
qualquer que seja o caminho, mar ou cidade de asfalto sombrio
e subo acima, no ar, acima, acima
na pele de um imitador que descobre as palavras de um mestre.
diriges pelo leme de baladas múltiplas
e conduzes com a compreensão dos anos, como só tu sabes
pelo intervalo escondido das melodias;
confundo os nomes, folk com um pouco de indie?
Leonardo tu és um artista, constróis poemas
notas e claves numa pauta de letras
apontas as chaves dentro de muitas cabeças
para abrir os quartos da mudança
da casa flexível
por vezes como cabana, por vezes como abrigo
e por vezes
como uma margem de lírios, lily
e como um rio
inesgotável e fluido -
.........The troubles came I saved what I could save .....a thread of light a particle a wave L.Cohen
recupero um poema e deito-me sobre ele como se falasse e tivesse mãos, dedos, cabelos longos a ideia antiga –
um poema de mulher a mulher de olhos ternos, eternos -
em Abril corriam os rios pelos sinais das nuvens a janela estava fechada e os vidros tracejados de gotas; escrevi-o como se cada palavra fosse um pedaço de roupa a cair, a desnudar o corpo, o teu, o meu, ao mesmo tempo e à distância:
- serás sempre, disse-o. não chovia -
reli-o na última hora de um dia. Janeiro, não estava frio - caiu-me no colo como Freud, o gato branco de olho azul, não na cor de safira mas mais claro encolhido na curva quieta da cauda e ronronando como um motor de barco abrindo as águas e olhando o rio - caiu-me no colo como se fosse uma canção de gôndola um sole mio num canal de Veneza; um remo longo uma camisola de algodão, às riscas - caiu-me no colo e pronto, o inevitável morno rodopio de um crepúsculo laranja macio e persistente que pode ser miragem, pode ser desvario pode ser tudo porque sentido -
é curioso observar a ladeira do tempo o escorregar nas folhas dos versos como se de um Outono e o ultrapassar dos frios polares conservando o fluir do pêndulo –
batem intensamente os batimentos de fogo e mergulho no acaso do poema a ideia antiga para sentir o presente e o futuro
sei que te cansas quando pára o vento quando cessa o movimento e pára o dia sei que te cansas quando pára a cor quando se perde o girassol e os campos são nítidos de vazio –
os círculos não podem perder a velocidade, dizes não podem perder a tontura centrífuga, dizes precisam do arco das penas e do ar de suporte, dizes a subida a um lugar de onde se vê tudo sem chão e sem a gravidade do cinzento o insustentável desvanecimento o azul é o caminho –
o lugar é único e moves-te como ninfa; um lugar sem cartografias, de nuvens sem linhas um algodão suspenso a meio caminho soprado pelo vento para cima sempre para cima –
e depois a promessa e o eterno afastamento; um leão de ausência, a selva no vazio -
como nos noves meses de um parto assim não se explica o rosto, a cor dos olhos a inclinação do nariz. como no parto antes de ser o rosto surge como inanimado, de cera, resistindo à água e não cresce, não abre os lábios, não faz nascer a palavra.
não temos falado é certo e hesitas decidididamente, digo –
o momento, a hora marcada, hás-de ouvir-lhe os passos, dizes. os vidros, a janela, o corpo deitado numa cama desarrumada e os gatos, sempre os gatos, de olhos esticados talvez um dia, dizes –
não é possível deduzir e não se explica o azul o intocável céu e o mar que parece impossível o horizonte longínquo e o equador de linha invisível a sedutora mania que se afirma o simbolismo de um gesto, o improviso –
não é possível deduzir não se explica porque apertamos cordas de nós que parecem infalíveis e porque se desprendem. qual o momento definido?
será que existe o fogo que escreves como clic? não eternizes, digo. a eternidade pode não existir. não coloques o éter nos sentidos e ilumina o insustentável azul e a nitidez do caminho -
Entrei em Londres num café manhoso (não é só entre nós que há cafés manhosos, os ingleses também, e eles até tiveram mais coisas, agora é só a Escócia e parte da Irlanda e aquelas ilhotazitas, mais adiante)
Entrei em Londres num café manhoso, pior ainda que um nosso bar de praia (isto é só para quem não sabe fazer uma pequena ideia do que eles por lá têm), era mesmo muito manhoso, não é que fosse mal intencionado, era manhoso na nossa gíria, muito cheio de tapumes e de cozinha suja. Muito rasca.
Claro que os meus preconceitos todos de mulher me vieram ao de cima, porque o café só tinha homens a comer bacon e ovos e tomate (se fosse em Portugal era sandes de queijo), mas pensei: Estou em Londres, estou sozinha, quero lá saber dos homens, os ingleses até nem se metem como os nossos, e por aí fora...
E lá entrei no café manhoso, de árvore de plástico ao canto. Foi só depois de entrar que vi uma mulher sentada a ler uma coisa qualquer. E senti-me mais forte, não sei porquê, mas senti-me mais forte. Era uma tribo de vinte e três homens e ela sozinha e depois eu
Lá pedi o café, que não era nada mau para café manhoso como aquele e o homem que me serviu disse: There you are, love. Apeteceu-me responder: I’m not your bloody love ou Go to hell ou qualquer coisa assim, mas depois pensei: Já lhes está tão entranhado nas culturas e a intenção não era má, e também vou-me embora daqui a pouco, tenho avião quero lá saber
E paguei o café, que não era nada mau, e fiquei um bocado assim a olhar à minha volta a ver a tribo toda a comer ovos e presunto e depois vi as horas e pensei que o táxi estava a chegar e eu tinha que sair. E quando me ia levantar, a mulher sorriu Como quem diz: That’s it
e olhou assim à sua volta para o presunto e os ovos e os homens todos a comer e eu senti-me mais forte, não sei porquê, mas senti-me mais forte e pensei que afinal não interessa Londres ou nós, que em toda a parte as mesmas coisas são
temos mil razões para calar as fotografias na gaveta de madeira, a quarta a contar de cima da secretária antiga onde preencho folhas, uma a uma folhas de um livro, poemas compridos -
as últimas notícias são repetitivas falam do naufrágio, um grande barco de muitas janelas como um queijo suiço, e o comandante, e os heróis e a falta de vida de algumas vidas -
o contemporâneo prende-se no subterfúgio economias líquidas, as reformas e o umbigo do presidente, dos directores e dos amigos a importância ilógica de ser o mais importante o nosso cantinho, o territóriozinho, a nossa vidinha quando está em causa o oxigénio limitado de um planeta quando há o perigo de um excesso de fumo como um furo no cabedal do mundo a esvaziar o conteúdo a tornar-se mudo perante uma coleira que aperta muito -
é preciso uma estrela mais abrangente, não tão pequena não tão miúda, mais refulgente, que oriente que dê um rumo é preciso denunciar a inclinação recorrente dos colarinhos brancos na superfície e de negros fios por dentro muito escondidos -
seremos atentos perante as garras do milhafre os voos picados da águia e a impaciência do abutre -
porque este é o quotidiano da politiquice que emaranha os dias -
quanto a nós temos mil razões para calar as fotografias na quarta gaveta a contar de cima menos uma a que mais observo e ganha vida como um quadro na fractura caiada como uma parede branca impregnada de filme -
abre o sol como luz obrigatória para que corra o dia. abre na forma de um arco a longitude clara na metade do mundo, e é normal a rotação das rotinas em si e este sol que abre único e original, sempre como estrela porosa dos frios colocando sobre o rosto uma dúzia de raios ou mais –
quando adormecemos lembramos o sol e fechamos a lua dentro de nós uma lua aprisionada pelo metabolismo dos fluxos dos labirintos e das claridades sobrepostas as respostas daqueles limbos que espantam quando de repente um ruído abre os olhos e nos conta uma história, letras que ganham consistência; frases com sentido ou pedaços náufragos de ilhas existências antigas ou um episódio que não era assim –
foi assim na manhã dois de um amanhecer de campismo em Espinho onde uma tenda abria sobre uma linha de água a sua cor azul e um rádio na estrutura de alumínio soltava um fluido de sons teclas recolhidas na polpa dos dedos resilientes no levantar suspenso que suportava o tempo –
foi assim no cimo da serra quando um cobertor de lã grossa era um manto que incendiava o corpo antes de uma correria pelas neves e tombos suaves sobre o branco; as luvas resistiam –
foi assim pelas ruas de Madrid numa ostentação feliz de sorrisos pelos museus de Sofia sem as indefinições de Mona Lisa nos grandes copos de um retiro, onde não havia nuvens apesar do frio -
é estranho este sol nesta manhã de dia de semana um rosto distante que não se afirma não tem olhos, nariz, lábios, ombros e pescoço nasce na incontinuidade absoluta de sempre se despedir como as folhas que se escrevem ou as páginas de um livro nas capas grossas de fenómenos que se redescobrem com um outro significado como um filme repetido –
e não há metáforas determinantes neste poema de linhas é um discorrer de fim de inverno como se deve ver a vida a surpreender como cor e como os rios na direcção objectiva. rios apertados para se libertarem e abrirem nos lagos provisórios ou em mares onde há ondas fortes que os empurram de novo pelas encostas da cabeça até aos fragmentos da memória para rever as margens mais distantes lugares incisivos incandescentes vivos um pouco depois das nascentes e de novo novos como este sol nos caminhos: fogo, fios de chama e raízes de essência subtil nesta manhã de dia de semana que podia ser domingo -
abre o sol e bate nas pedras que viram fogueiras e se perdem dos frios no afirmar de incidências e sem perigos quentes, no envolvimento que vem de longe - um afecto uterino quentes e navegantes do tamanho de sermos grandes e diferentes de sermos únicos e juntos no uníssono neste ou num qualquer dia através de um sonho ou de um cruzar de caminhos seguros decididos -
precisamos procurar as certezas o sol é bússola e procuramos e conseguimos
Mulheres correndo, correndo pela noite. O som de mulheres correndo, lembradas, correndo como éguas abertas, como sonoras corredores magnólias. Mulheres pela noite dentro levando nas patas grandiosos lenços brancos. Correndo com lenços muito vivos nas patas pela noite dentro. Lenços vivos com suas patas abertas como magnólias correndo, lembradas, patas pela noite viva. Levando, lembrando, correndo.
É o som delas batendo como estrelas nas portas. O céu por cima, as crinas negras batendo: é o som delas. Lembradas, correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando. As grandiosas patas brancas abertas no som, à porta, com o céu lembrando. Crinas correndo pela noite, lenços vivos batendo como magnólias levadas pela noite, abertas, correndo, lembrando.
De repente, as letras. O rosto sufocado como se fosse abril num canto da noite. O rosto no meio das letras, sufocado a um canto, de repente. Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços sufocados, lembrando letras, levando lenços, letras - nas patas negras, grandiosamente abertas. Como se fosse abril, sufocadas no meio. Era o som delas, como se fosse abril a um canto da noite, lembrando.
Ouço: são elas que partem. E levam o sangue cheio de letras, as patas floridas sobre a cabeça, correndo, pensando. Atiram-se para a noite com o sonho terrível de um lenço vivo. E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre a cabeça branca, as patas lembrando pela noite dentro. O rosto sufocado, o som abrindo, muito lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço: são elas que partem, pensando.
Então acordo de dentro e, lembrando, fico de lado. E ouço correr, levando grandiosos lenços contra a noite com estrelas batendo nas patas como magnólias pensando, abertas, correndo. Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando de lado, com as patas no meio das letras, o rosto sufocado correndo pelas portas grandiosas, as crinas brancas batendo. E eu ouço: é o som delas com as patas negras, com as magnólias negras contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
Herberto Helder, A faca não corta o fogo, Assírio &Alvim,2008
A alma adora nadar. Para nadar, há que deitar-se de barriga. A alma despega-se e parte. Parte a nadar. (Se a vossa alma parte quando estais de pé, ou sentados, ou de joelhos, ou apoiados nos cotovelos, para cada posição corporal diferente a alma partira com uma locomoção e uma forma diferentes, segundo concluirei mais tarde).
Fala-se muito em voar. Não é isso. O que ela faz é nadar. E nada como as serpentes e as enguias, nunca de outro modo. Há imensa gente que tem assim uma alma que adora nadar. Chamam-lhes vulgarmente preguiçosos. Quando a alma deixa o corpo pelo ventre para nadar, produz-se uma tal libertação de sei lá o quê, é um abandono, um gozo, uma descontracção tão íntima.
A alma parte a nadar no vão das escadas, ou na rua, consoante a timidez ou a audácia do homem, porque ela conserva sempre um fio que a une a ele, e se esse fio se quebrasse (às vezes é muito fino, mas só uma força terrível o poderia romper) seria terrível para eles (para ela e para ele).
Então, quando ela está entretida a nadar ao longe, escoam-se, por esse simples fio que liga o homem à alma, volumes de uma espécie de matéria espiritual, como lama, como mercúrio, ou como gás – gozo interminável.
É por isso que o preguiçoso é incorrigível. Nunca mudará. É por isso que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Pois acaso haverá coisa mais egoísta do que a preguiça? Tem fundamentos que o orgulho não tem.
Mas as pessoas irritam-se com os preguiçosos.
Quando os vêm deitados, batem-lhes, mandam-lhes água fria à cabeça, eles têm de recolher a alma imediatamente. Olham-vos então com esse olhar de ódio, bem conhecido, que se vê sobretudo nas crianças.
Mexerico.Dor experimentada pelo sujeito apaixonado quando verifica que o ser amado está envolvido num «mexerico» e ouve falar dele de um modo vulgar.
(...)
O mexerico reduz o outro a ele/ela e uma tal redução é-me insuportável. O outro não é para mim nem ele nem ela ; apenas tem o seu próprio nome. O terceiro pronome é um pronome mau: é o pronome da não pessoa, afasta, anula.
(...)
Roland Barthes "Fragmentos do discurso amoroso", ed. 70, 1981
não se deve usar a trovoada da razão na rotação colada de todos os dias. impreterível a propriedade do acto como surpresa como rasgo imediato pequena porta do sonho –
tudo aconteceu como um pano largo de um teatro o levantar no silêncio de pontas de agulha interrogações afiadas perante os olhos e as vozes o movimento dos corpos os cenários vestidos de décor e depois modernos vazios e cheios de simbólicos na ausência que apenas se sugestiona e abre o ponto por detrás da cabeça exactamente nesse lugar incerebral impenetrável e invulgar como um fragmento que mostra a parte o visível do azul ondas que se aproximam devagar e uma vaga no mar de Renoir –
tudo aconteceu no imprevisível lugar nem cedo nem tarde a hora exacta escrita pelo desenho na areia como um braço de árvore uma oliveira de paz que escreve e apaga e apaga e escreve os teus olhos a tua voz a tua pele como linhas brancas caminhando sem pressas sem revoltas inconfortos ou vinganças em direcção ao areal o visível azul e o branco de uma vaga no mar de Renoir -
tudo aconteceu porque era primavera e procurávamos o sol talvez seja vulgar de dizer mas um sol pode ter mais valor que um mundo mesmo que cegue e enlouqueça na possibilidade -
não houve na pacificidade das asas que sobrevoavam as palavras fortes que desejavas um Herberto Hélder de garras e fluxos intermináveis incontidos como um poema imparável que nos leva atrás presos por uma corda no pescoço entre a falta de ar e uma tesoura de pontas afiadas que desce certa e corta mesmo antes de chocar com o muro as rochas o precipício e um corpo desfeito por todos os lados entre sensações e dúvidas terrenas ou superstições -
tudo aconteceu porque não há ponteiros de tempo dentro dos nossos olhos tudo aconteceu na forma de uma insígnia de liras uma música de cordas na voz dos búzios tudo aconteceu porque merecíamos e fomos capazes sem palavras entre os ombros e os abraços na cor azul de um mar indizível-