pediu um cigarro e encerrou uma ausência.
o fumo acre impulsionado pelo reaprender da língua tocou o céu da boca.
amargo. amargo. não podia cegar de novo. o refúgio da nicotina;
o redondo do filtro na volta dos dedos, o ajeitar consequente no tampo da mesa,
o movimento entre os cantos dos lábios conduzido pela ardência dos dentes.
lembrou Humphrey in Casablanca e Gainsborough junto de Brigitte,
preferia o último, a canção proibida, tão antiga;
um slow numa cave escondida, a memória inflamada dos sentidos -
o cigarro parou incompleto, não atingiu o fim.
o fumo espaçava, subia,
perdia-se, incompreensível.
os olhos tornaram-se fixos
e o cigarro não tinha qualquer importância,
afundou-se num caixote de lixo -
o chapéu, o guarda-chuva, a gabardine.
a gare nublada, um silvo agudo, a locomotiva.
as malas silenciosas no banco escuro.
um rosto na parede branca
insubstituível-
a noite adquiriu contornos de veludo.
sentar-se-iam no café Majestic
falariam de novo sobre os poemas e alguns livros
sobre os gatos siameses, tão ariscos
os pretos, de olhos verdes,
os brancos, de olhos azuis, os preferidos -
um aroma de incenso percorria o quarto
quando pousaram as malas.
Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos
Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom.
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão
Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:
um namorado sem falar
de amor
(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão;
no mesmo corredor)
Ana Luísa Amaral Poesia Reunida 1990-2005 Quasi, 2005
procurei em todos os 366 poemas aquele que melhor
definisse hoje o amor, palavra difícil.
o amor em si representa uma forma insegura uma dualidade incerta
as duas faces da moeda -
lembro-me do soneto quarenta e quatro de Neruda:
A palavra é uma asa de silêncio,
E o fogo tem a sua metade de frio. compreendes.
o dia decorreu límpido, molhei os pés no mar.
coloquei um pouco de água nos lábios.
secaram ínfimos sinais de sal por sobre a pele
e recordei Cesário:
Eu que sou feio, sólido, leal,
A ti que és bela, frágil, assustada,… quantas vezes te disse: não tenhas medo.
de calções verdes demorei-me junto às rochas
enquanto nos cabelos curtos por trás dos ouvidos
uma barcarola entoava a melodia, amolecia a alma
mas de uma forma boa, como um embalo
e os versos de Vinicius:
Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
a diversidade, o condimento, as brasas acesas.
no fim do dia o minimercado e o voltar a casa
a salada de alface, algumas notícias, a crise
um atentado para os lados do Egipto.
não fixo nada de bonito, frases feitas, falta de poesia.
será que há algum poema perfeito sobre o amor?
aquele que possa colocar numa bandeja
em papel beige perfumado e em letras de caligrafia
de cantos queimados, forma ingénua e decorativa?
um poema ideal, completo e que te ilumine o rosto?
são duas da madrugada. porfio na procura
mas há sempre algo a mais e algo a menos
nas palavras dos outros, procuro também as minhas.
ocorre-me de novo Pablo e o mesmo soneto:
…amo-te para começar a amar-te
Para recomeçar o infinito…
versos que tudo definem
o permanente recomeço, a surpresa,
o início que pode ser pequeno mas a que sempre se deve
acrescentar outro tanto, e mais ainda, tornando-o grande
cintilante, brilho e mais brilho …
concluo que o amor é uma palavra exigente
multifilamento como uma cor única e branca
escrita no arco-íris, construída de tantas -
encontro de novo Vinicius:
Amo-te tanto, meu amor…
E de te amar assim muito e amíude
É que um dia em teu corpo de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.
a hipérbole, o Amor Total
uma ponte simbólica e magnífica -
desculpa-me. não encontrei ainda o mais completo. mas vislumbro caminhos -
e como num poema A súplica a Eros:
A minha vida está suspensa.
O tempo arde.
A noite é imensa.
Conto os minutos pelo espelho.
escrevo-te sobre o que escrevo. não te assustes com a cor das letras. há muitos anos só usava o azul e aderi inconscientemente às calças de ganga, às riscas largas junto à praia.
as ondas dos segredos nas baías escondidas da Foz aproximaram as mãos -
tudo mudou. o tempo fixa só aromas, a cor despida das algas e já não falamos do que era bom; um carioca de limão, nada de álcool e o gás na água a rodela e o mar, na frente o horizonte descaindo escondendo lentamente o dia -
e como era triste o fim do crepúsculo o afastamento do pulso, o cessar do batimento cardíaco e os lábios sem palavras, juntos -
escrevo-te sobre o que escrevo hoje na tarde que se elimina. uma cerveja fresca sobre a mesa, uma água vulgar nem sequer fria e na frente a morada do sal e o sol quente que alimenta a cor morena.
uma brisa sopra e invade as aberturas do chapéu de Florença. abunda uma maquilhagem como disfarce e há a necessidade de pintar as unhas com um traço branco nunca de vermelho. tantos anos e no entanto sou o mesmo agora na melancolia do silêncio -
escrevo-te sobre o que escrevo na esplanada, mesmo por cima da areia. as tábuas rangem como um riso que se escapa, que passa e volta. rostos e passos atrás das costas. e o desejo de numa fracção extraordinária do imparável tempo ser uma rocha rodeada de água, ar, sol e vento. não demora. apenas um momento. a necessidade de ser sólido sem a cor transcendente da emoção, do sentimento.
escrevo-te sobre o que escrevo em Agosto. é verão, dizem. alguém um dia. nada tem a ver com a natureza. uma maneira de dizer. e em frente, mesmo em frente, junto à água, uma família. a mãe de cabelo vermelho, comprido, ondulante. a criança ao colo, dois anos, nos braços redondos carrega a ingenuidade e um ligeiro choro de inocência.
atrás alguma turista na língua de Shakespeare. as tábuas rangem. ao lado, a rapariga adolescente esquece os pais, não olha o mar envia mensagens, as pupilas acendem, as palavras ardem as mãos viajam rápidas, por sobre as teclas. não há música -
no bordo do copo, laivos de espuma, seca seca. o vidro limpo e transparente é uma miragem. a luz é forte. o sol aquece as pernas. as lentes dos óculos escurecem. alguém passa. a língua de Céline. sinto saudades de Paris; as escadas junto ao rio, as pontes que levam à ilha.
escrevo-te sobre o que escrevo sem o peso da culpa nas letras. a praia esvazia-se. indiferentes, as ondas labutam a rotina e disputam a areia; um pouco mais atrás, um pouco mais à frente, sucessivas assim como as linhas desta carta, indetermináveis como o destino apenas com a ordem de partida, e depois param ou avançam aparecem escritas -
uma marca na página 54, alguém fecha o livro, de prosa não de poesia e dois pardais pequenos saltitam entre as aberturas das mesas. procuram a possível migalha. nunca escreveram um poema -
escrevo-te sobre o que escrevo e sobre algumas coisas antigas. o imutável. não mudes nada. Ne changes rien! e mesmo que quisesses era impossível. digo-te! escreve se te apetece, ou não escrevas, mas sobrevive. faz como o poeta, guardador de recantos e esquinas que dentro do corpo falam e se afirmam impondo a força das linhas, o correr das águas em regatos, em rios e por vezes em sossego, quase adormecido em lagos límpidos -
e depois há os morangos e as veredas e os caminhos e o céu, quase me esquecia sabes, o céu à noite é um banquete de estrelas -
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…
Maleável aos meus movimentos subconscientes no volante,
Galga sob mim comigo, o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo!
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto que me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero…
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo
sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…
as duas da madrugada corriam céleres. era sábado.
a mente absorta permanecia absolutamente imaculada.
cataratas lançavam multidões de brancos.
as curvas das margens reflectiam musgos
e recebiam águas -
as palavras sibilinas circularam como pedras
pedras grossas
pedras grossas de lágrimas.
ponderou esquecer os dedos
que seguravam com ternura as letras.
esquecer a textura branca das folhas incompletas
que revestia amiúde de tulipas gladíolos e versos.
ponderou fechar cortinas e janelas
apagar a lua e as estrelas. não pensou nos outros.
porque a dor lhe quebrava a testa e iludia os sonhos
como se fossem teias de aranha, frágeis, leves
facilmente ultrapassáveis pelo vento vasto e agreste
enviado na fúria dos ares
no sopro do equívoco
inclinando ramos destruindo raízes;
os lírios da intimidade.
a inverdade pesa como um bloco de cimento aramado
a gaiola do peito segura a pele rasgada
segura os olhos dentro de um muro escuro
na memória dos recantos
esse voo seguro de palavras como águias.
a inverdade mata, realmente cria a espada
e contrariando o magnânimo poeta*
no fio da lâmina corta o fogo
cria o foco da desistência
grita, é falso! -
essas palavras sibilinas eram magoadas e húmidas
mas eram fruto do que importa, células de densidade
espinhos sobre o ninho que se torna frio
como as aves que rumam ao sul
mas voltam -
as palavras sibilinas eram a subjectividade de passos
sobre a dualidade incompreensível que atrapalha
as duas faces da moeda pálida
as dúvidas sobre um mar de palha.
as palavras sibilinas eram fruto da inexistência de pele e chão
um regaço de rosas
um milagre de mãos -
disse: - porque não páras? porque não olhas de olhos abertos?
porque não escutas o azul reflectido
como uma seda impossível de ser ambígua?
observa a verdade nas faces rubras dos espelhos naturais
segue a voz dos violinos das concertinas
Tiersen e Paganini -
sabia que tudo não passava de uma afirmação cíclica
mas injusta e dessa forma sibilina
mas não havia perigo
mesmo que a escala de Richter atinjisse os pólos elevados
a canção segura seguiria como um som longínquo de búzios
que chega e que se afasta que chega e que se afasta
sem desistir sem desistir nunca
da luz do sossego
nos ruídos do mar -
José Ferreira 16 Agosto 2011
*Herberto Helder e o título do seu livro "A faca não corta o fogo"
E não queiras depois fazer amor.
Convida-me só para jantar
num restaurante sossegado
numa mesa de canto
e fala devagar
e fala devagar
eu quero comer uma sopa quente
não quero comer mariscos
os mariscos atravancam-me o prato
e estou cansada para os afastar
fala assim devagar
devagar
não é preciso dizeres que sou bonita
mas não me fales de economia e de política
fala assim devagar
devagar
deita-me o vinho devagar
quando o meu copo estiver vazio.
Estou convalescente
sou convalescente
não é preciso que o percebas
mas por favor não faças força em mim.
Fala, estás-me a dar de jantar
estás-me a pôr recostada à almofada
estás-me a fazer sorrir ao longe
fala assim devagar
devagar
devagar
Ana Goêsin 366 poemas que falam de amor , Quetzal Editores, 2004
Man Ray
Julguei que podia quebrar a profundeza a imensidade
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido por amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue
Queria desunir a vida
Queria partilhar a morte com a morte
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro nem o orvalho
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro
Havia eliminado o gelo das mãos postas
Havia eliminado a invernal ossatura
Do voto de viver que se anula
Tu vieste o fogo então reanimou-se
A sombra cedeu o frio de baixo iluminou-se de estrelas
E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente para a luz
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava as suas velas
O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros tempos
Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite
A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.
Paul Eluard,"Algumas das Palavras",(trad. António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge) Dom Quixote 1977
Enternece-me pensar que estás aí,
não força de trabalho desigual
nem vida à pressa,
mas minha amiga.
Talvez as palavras que te digo
me transpareçam classe,
talvez nem te devesse dizer nada.
Porque és a mão que ampara o meu silêncio,
a minha filha, o meu cansaço
— à custa do teu cansaço, da tua filha,
do teu silêncio.
Não há homens-a-dias neste mundo,
mas tantas como tu,
a segurar nas mãos e no sorriso
algumas como eu.
Entraste há pouco a perguntar
se eu tinha febre
— a louça por lavar nas tuas mãos,
aspirando o cansaço dos meus ombros,
nos teus ombros o cansaço de mim
e o cansaço de ti.
Desculpa os meus silêncios,
o falar-me contigo como com mais ninguém,
desculpa o tom sem pressa
— e o meu dinheiro que não chega a nada,
comprando o teu trabalho
(o teu sorriso)
ANA LUÍSA AMARAL, Às Vezes o Paraíso, (2ª edição), Quetzal Editores, Lisboa, 1998: 72, 73
Se alargas os braços desencadeia-se uma estrela de mão
a mão transparente, e atrás,
nas embocaduras da noite,
o mundo completo treme como uma árvore
luzindo
com a respiração. E ofereces,
das unhas à garganta
talhada, a deslumbrante queimadura do sono.
- Em teu próprio torvelhinho se afundam
as coisas. Porque és um vergão raiando entre
esses braços
que irrompem da minha morte se durmo, da loucura
se a veia
violenta que me atravessa a cabeça se torna
ígnea como
um rio abrupto num mapa. Quando as salas
negras fotogáfricas
imprimem a sensível trama das estações
com as paisagens por cima. E
jorras
desde as costas dos espelhos, seu coração
arrancado pelos dedos todos de que se escreve
o movimento inteiro.
Nunca digas o meu nome se esse nome
não for o do medo. Ou se rapidamente o lume se não repartir
nas formas
lavradas como chamas à tua volta. Os animais
que essa labareda ilumina
na boca. Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.
E da fronte aos quadris em tuas linhas, és
cega, fechada.
A minha força é a desordem. Reluzes
na têm pera enxuta - queima-te.
O ouro desloca a tua cara. Um nervo
atravessa as frementes, delicadas massas
das imagens:
como uma ferida límpida desde a nascença pela carne
fora. És alta em mim por essa
cicatriz que se abre ao dormir e quando
se acorda fica aberta.
jazz no aeroporto. três elementos.
as rodas de silêncio pousaram lentas
no preenchimento de um espaço vazio; malas e homens
malas e mulheres nas medidas certas da cabine;
low-cost dizem. concerteza há lugar na dimensão reduzida
a t-shirts, pólos, calções de banho,
curtos ou de perna comprida, mais modernos
billabong, deeply ou quick silver
ou então copas de seios onde as seivas dos meninos
triumph, women's secret, intimissi
e as camisas de renda, os tecidos da índia, os bikinis
e alguma toilette de intimidade feminina.
após uma hora, na esquina Formosa
um tocador de olhos de névoa
abre a voz da concertina.
uma melodia aberta,popular e divertida.
o tocador não vê a intensidade das pernas, a qualidade dos decotes
a luminosidade dos sorrisos, a inclinação do meio dia.
o tocador tem todas as imagens no poder dos sentidos
sente dois que passam mas não apercebe os gémeos
não vê o piquet dos tecidos, a imobilidade dos crocodilos
nem mesmo os óculos escuros
de uma filha dos fiordes, a cor dos olhos que se adivinha
azul, sim, azul, outra cor é impossível, pelo ruivo das sardas
pela cor branca das axilas.
o tocador solta a música sentado na cadeirinha
e acompanha o ritmo com o ponteiro da cabeça,
marca o tempo de forma idêntica como alguém que dança
que eleva os braços, que estreita a dançarina
antevê-se no levantar dos lábios
enquanto as notas rodeiam as ancas de quem passa.
mais abaixo, na livraria, pousa-se o fascínio das memórias
na ansiedade dos poemas, o desenho das letras, a cor das tintas
na mão que escreve e liberta
o osso maciço do corpo, a fantasia acesa, as asas de borboleta.
ocorreram milhares de vinte quatro horas, a imensidão dos minutos,
passaram anos
e um dia definiste de forma precisa, o tamanho das pálpebras, as rugas
e os seus sulcos mais profundos, para além do visível, do habitual sorriso.
sob a luz de um foco de cinema surgiu óbvia a actualidade escura
o filme antigo, a poeira das feridas
para além das veias largas, guerreiras, destemidas
onde as enfermeiras colocam as agulhas, elogiando a facilidade vermelha
do grupo sanguíneo, o seu comportamento amplo e compatível
rubro e rápido, um mar vivo -
sabes, como um cego sonho, preciso da música e da liberdade dos sentidos
da premonição do risco, o arame, a falta de equilíbrio
a tontura da queda sem a submissão de linhas
a hipnose, o pêndulo
a inexistência de gravidade nos dedos dos dias
a inconsciência aos gritos
e bagos de uva rolando pelas ruas
em madrugadas sucessivas -
É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem
É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora
nenhum
nem um dos cinquenta e três versos enrolados em letras curvas.
jazem como bolas de papel, amarrotados na clareza, na intenção
no óbvio, na vulgaridade de não serem admissíveis como únicos;
fracos e símiles como o compromisso antigo riscado nas uniões de reis
imperadores e rainhas, austríacas -
resta a música -
nenhum
nem um dos cinquenta e três versos poderia significar o edifício
a sólida cidade organizada que risco na côdea das árvores.
nem um merece a luz, porque lasso, sem chama, horizontal, rouco
sem espanto -
resta o azul de uma aguarela
a parede branca sem mácula, antes assim -
nenhum
nem um dos cinquenta e três versos representa a pétala, a sépala
a flor uníssona de caule vertical
o cálice de mosto
a carícia na pedra
que a transforme em água clara, minuciosa, sem pressa
que a transforme em líquido de prata
como às vezes, os lagos, os rios pouco inclinados -
nenhum
nem um que estabeleça a ilusão e um braço de certeza -
cinquenta e três
e os olhos adormeceram, rasos, cansados sobre a mesa;
o papel em algazarra de grossos lábios discute a impossibilidade
de reorganizar as letras -
é tarde, muito tarde para o poema -
em tempos, sem a ousadia de um físico correr da tinta
escreveste o verso mais poderoso sobre todos os meus trajectos
sobre as mil águas de chuva e os duzentos caminhos tortos
simples e magnífico
como sempre o é o inato e a sabedoria
era Setembro, olhaste-me nos olhos;
a pele morena
as pálpebras de Agosto -
nenhum
nem um dos cinquenta e três versos te merece, te representa;
rolam sobre a mesa na imensidão da aragem rubra
que invade a dor dos cabelos
os ouvidos calados, a nuca descomposta sobre os dedos -
resta uma escada de liana e uma nuvem a mastigar cinzentos
a tornar-se branca
depois de um dilúvio de excessos perante a fogueira
que ameaça a ruptura no desconforto do sedimento
sem fazer parte
inútil e separado da rocha magenta
que encorpa a mente
e entorna o coração na cor vermelha
escorrente, nas mãos abertas de harpa
oca de invernos
escrevendo as células
inventando a pureza muda das fotografias
retirando uma a uma toda a roupagem efémera;
a nudez esclarecida -