sábado, 13 de agosto de 2011

Desculpa-me a ternura - um poema de Ana Luísa Amaral


Cindy Sherman


Enternece-me pensar que estás aí,
não força de trabalho desigual
nem vida à pressa,
mas minha amiga.

Talvez as palavras que te digo
me transpareçam classe,
talvez nem te devesse dizer nada.
Porque és a mão que ampara o meu silêncio,
a minha filha, o meu cansaço
— à custa do teu cansaço, da tua filha,
do teu silêncio.

Não há homens-a-dias neste mundo,
mas tantas como tu,
a segurar nas mãos e no sorriso
algumas como eu.

Entraste há pouco a perguntar
se eu tinha febre
— a louça por lavar nas tuas mãos,
aspirando o cansaço dos meus ombros,
nos teus ombros o cansaço de mim
e o cansaço de ti.


Desculpa os meus silêncios,
o falar-me contigo como com mais ninguém,
desculpa o tom sem pressa
— e o meu dinheiro que não chega a nada,
comprando o teu trabalho
(o teu sorriso)

ANA LUÍSA AMARAL, Às Vezes o Paraíso, (2ª edição), Quetzal Editores, Lisboa, 1998: 72, 73

2 comentários:

Michele Santti disse...

Que lindo. Adorei.

Um beijo,
Mih

CCF disse...

Ternura mesmo!
~CC~