domingo, 27 de fevereiro de 2011

XXVIII - Li hoje quase duas páginas


Harald Solberg

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

Alberto Caeiro " Guardador de Rebanhos"

a pintura de Wassily


Wassily Kandinsky


É à luz de uma pintura de Wassily
que admiro o amarelo súbito
o azul intenso na forma elíptica.

Na manhã de um distúrbio adormecido
é insustentável o fragmento do sonho
que em traços distintos guarda indícios
nas bolsas dos olhos no incontornável do espelho.

É à luz de uma atmosfera de Kandinsky
que procuro entender a génese e o verbo
o afirmativo de uma dualidade
o lado simétrico
a intensidade da cor e o labirinto -

José Ferreira 27 de Fev 2011

sábado, 26 de fevereiro de 2011

(escrita pouco inocente)


Richard Avedon


No livro do imaginário a lua é verde de morrer, as cadeiras brancas, e a terra amarela começa a dormir - gosto de poetas obscuros.
Não há poetas obscuros.
Se alguém diz - esta atenção é minha - não é um poeta obscuro?, e se diz - esta não é a minha atenção - não é um poeta claro?
Não.
É preciso encontrar as chaves - às vezes é fácil, às vezes é difícil.
Não.
Cada imagem é a chave de outra imagem e e elas abrem-se umas às outras, as imagens.
Não.
Tudo são chaves para abrir tudo.
Não.
A chave entra na fechadura, a porta abre-se sobre uma nova porta.
Não.
Portas sobre portas até que a porta final abra sobre a luz que atravessa o espaço aberto de todas as portas.
Não.
Os poetas são metafísicos.
Não.
A metafísica é uma distância de onde os poetas vêem, em perspectiva, a realidade.
Não.
Não há realidade?
Não, não há realidade - todos os poetas são claros a esse respeito.
Se eles dizem - atenção - cria-se a realidade da atenção.
Se eles dizem - atenção - anulam a atenção, criam um espaço vazio.
A imagem não é uma realidade?
O que os poetas provam é que é preciso uma imagem para revelar que a realidade não existe.
No livro do imaginário a lua é verde de morrer, as cadeiras brancas, e a terra amarela começa a dormir - gosto de poetas claros.
Não, ainda não.

Herberto Hélder " Photomaton & Vox" Assírio & Alvim 4ªed. 2006

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Porto

moro nela até me sentir daqui,

cidade macho ainda sem namorada.

escrevo o teu lugar na palma das mãos


Guy Bourdin


escrevo o teu lugar na palma das mãos
ao longo de muros projecto sombras gestos
o voo de pássaros e corro
pertenço às noites de rios que amam e cantam
que se escondem em poços mais profundos
precipitando-se em direcção ao inverno

sem regresso toco a música que fica
mais perto da distância
a minha partida estava já nos nós dos teus dedos
nos anéis dos teus cabelos

no teu sorrir que fios de música
teceram para que se desperdiçasse


Tatiana Faia Revista Ítaca nº 1

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

tarde longa


Marc Chagall

naquela tarde de algarve tarde longa
assomava a leve temperatura das gaivotas
de asas brisadas e penas brancas.
arcos redondos guardavam
as costumadas setas.

a estética de silêncios delineava a intermitência de azul
na não intensidade das ondas
e as areias eram de olhos fechados
um deserto de almas.

naquela tarde de algarve tarde longa
não houve nomes nem memórias na voz dos lábios
nas cores soletradas pela música dos dedos
e adormeceram sem a pressa do sal e dos cinzentos
ao som dos búzios pelo mar adentro.

José Ferreira 24 Fev 2011

Emily


David Hamilton


A word is dead
When it is said,
Some say.

I say it just
Begins to live
That day.


Está morta a palavra
Dizem alguns
Mal é proferida.

Eu digo que só
Então nesse dia,
Ela começa a vida.


Emily Dickinson "Cem Poemas" Trad. Ana Luísa Amaral, Relógio d'Água 2010

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

as metáforas sensíveis




apenas uma frase anotada numa página branca
perseguindo o uníssono dos dias
como um símbolo como um símbolo -


apenas uma frase na folha em branco
de tinta sem a continuidade de um texto
versos ou estudo analítico de células
de artérias como rios de sangue e ser vivo
como agulhas muito finas agulhas de trigo
ondulantes ondulantes como os dias -

apenas uma frase na folha em branco
por concluir irresoluta e indeterminada
sob as leis dos números as convenções humanas
não reportando para identidades definidas
tautologias círculos arbitários de signos
actos de homem como se rígidos
explicados na miopia de óculos de meia lua
na ponta do nariz óculos de cientista

a frase isolada e única na página em branco
um símbolo um símbolo
uma fita partida de um cinematógrafo antigo
em pausa um corte ultrapassável e substituível
a acertar a relevância de ter sido escrita
e ter a griffe de um dia
no mês das flores mais bonitas

a frase na página branca não não se explica
e reporta a uma realidade em fragmentos escondida
na irreversibilidade das fotografias a sua vida
o reconhecimento do preto do branco
naquele e naqueles dias -

a frase na página branca é um liame sensível
que liga o agora com o indeterminante de um tempo
sem saber quando
um símbolo um símbolo perseguindo perseguindo
o uníssono dos dias -

José Ferreira 23 Fev 2011

Correntes D'Escrita 2011

de sítio


em sítio de película
ligeiramente ao lado do desenho
por onde passam casas com sede
a bocejar cores às marés de cana verde
um fumo muito antigo
dentro dos olhos de toda a gente
e circos a desfilar
transformados em orla do mar
à marcha à venda
o milho verde em mãos abertas
e a outra história pirata
e crianças sem saia
de carne de coco
ao chorinho mais verde
da estrada
fumos calados
e paredes que suspiram (Deus é Fiel)
quando as varandas incham ao mar
a regressar
(a quem) a orla é uma rede de brisa a balançar devagar
entre um mar verde velho
e um chão ainda mimado
ainda esverdeado

antes que tudo amadureça

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

se não existisse a noção de cinza



se não existisse a noção de cinza
a ardência completa a fogueira acesa
não encontraríamos nunca o azul
o paradigma
mesmo que incompleto
de atingir o paraíso -

José Ferreira 22 Fev 2011

Amor


David Hamilton

o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

José Luís Peixoto "A Casa, A Escuridão"

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Emily 657


David Hamilton


657

I dwell in Possibility—
A fairer House than Prose—
More numerous of Windows—
Superior—for Doors—

Of Chambers as the Cedars—
Impregnable of Eye—
And for an Everlasting Roof
The Gambrels of the Sky—

Of Visitors—the fairest—
For Occupation—This—
The spreading wide of narrow Hands
To gather Paradise—

Emily Dickinson


Habito na possibilidade -
Uma Casa mais bela do que a Prosa -
Em Janelas mais numerosa -
Em Portas - superior -

De Quartos como Cedros -
Impregnáveis ao Olhar -
E por Telhado Duradouro
Os Telhados do Céu -

De Visitantes - a mais bela -
Isto - para a Ocupar -
O abrir largo as minhas Mãos estreitas -
Para colher o Paraíso -

"Cem Poemas" Trad. Ana Luísa Amaral Relógio D'Água 2010

domingo, 20 de fevereiro de 2011

a luz branca


Richard Avedon 1987


supuz um vidro escuro inquebrável que chegava à lua
que dividia as estrelas que impedia a mistura do céu -

pura ilusão
quanto mais observo
a transparência subtil das cortinas
os desenhos de luz branca
delineando o corpo
na forma de não-distância
melhor compreendo
que o vidro nunca aconteceu -

e o quadro mudou
reacendeu de calor o pleno inverno
na paisagem magnífica de um alto monte
onde as mãos insinuantes sobre as rendas
onde a brisa
e onde suavemente
se ouve o deslizar da melodia
dedos que caminham
nas cordas de um violino -

José Ferreira 20 Fev. 2011

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

música e poesia


Richard Avedon


habitualmente a música empresta-nos os braços
e dança sozinha como as borboletas.
perante a exigência de um universo azul
de um universo rosa de um universo multicolorido
sublima os dias como um livro aberto
uma janela pousada no presente do destino
um lugar sentado nas cadeiras de orquestra do cérebro
descobrindo os signos as letras despidas
e os sons que dançam por vezes
no negro das avenidas
nos prados mais verdes
nos bosques mais escondidos.

habitualmente a música empresta-nos o lugar das fitas
num cinematógrafo sobre paredes brancas e vazias
desenrolando cenas implícitas, explícitas sobre os desígnios
e a subjectividade do sentir
revelando por vezes os vestidos secretos
de uma invasão de prímulas ou quadros múltiplos
reinterpretando a ausente realidade dos artistas.

e a música dança sozinha como as borboletas
sem braços nas pautas dos dias
na sua cor clara
nas suas asas de graffiti
a colorir espaços depois do éter
circulando intensamente na elegância dos desvios
nos loopings como se objectos invisíveis.

e a música empresta-nos os braços como linhas
em palavras rectas como setas ou enroladas como pétalas
nas quais por vezes se endoidece
sem lhes dizer dos medos e dos desafios
quando alteram as desordens infinitas
como árvores ladeando azinhagas longínquas
fronteiras de salgueiros margens indefinidas.

e a música coloca os dedos e encerra os olhos
e dança dança sozinha como as borboletas

e a música pode ser uma poesia
que não desafina nem se explica
apenas levita numa dança de brilhos
e decompõe o silêncio em fragmentos
fragmentos e harmonias -

José Ferreira 18 Fevereiro 2011