o sintoma era aquele bater de asas querendo ganhar o espaço com o peso pesado do tronco o chumbo dos ossos, o lastro dos pés colados na calçada sem sair para qualquer lado -
desactualizado estava o divã vermelho, a poltrona escondida o bloco aberto na ponta do lápis, o cofiar da barba. desejado era o face-a-face, o desfolhar associado de palavras recolhidas no fundo da alma.
e de que é feita a alma? feita de dúvidas plenas ? de nuvens largas? de histórias e viagens?
aquele incessante bater de asas -
qual o segredo das células? o verdadeiro estado? a identidade rodopiante sem catarse?
o disco sol girava no amarelo forte, um princípio tardio depois da enublada manhã cinza. corria um ar grave sobre os cravos brancos sem a cor rubra de setenta e quatro. as mãos alimentavam uma música de blues na suspensão de teclas que estendiam as tonalidades à companhia de uma voz rouca, de cordas gastas no excesso de horas sem intervalo, horas repetidas. os dedos de pontas quadradas reflectiam atrasos no tempo ternário e suportavam o resumo de textos que se misturavam em indecisas palavras. o peso insubmisso da inconsciência traçou o fim do caminho a queda forte sobre a melodia, a cabeça, sobre as mãos lentas num acorde de sustenidos, fá menor, Simon, sound of silence. um ruído imenso. a queda de um granito denso, a cabeça. desde a madrugada, antes mesmo do nascimento de uma luz baça conseguira povoar de passos os círculos da sala transformando as ideias num fumo vago, até ao cansaço até ao sentar-se , exausto, no banco novo do piano de mecânica sensível, precisa, na regulação das alturas. recordou obsessivo todas as canções que sabia. doze horas. doze horas seguidas, doze horas seguidas; o inverso da sublimação, o estado sólido, o peso metálico de chumbo. mais não. calava o cansaço nos olhos raiados de vermelho. calava e calava-se sobre as teclas do piano
enquanto o canário compreensivo, no alto da gaiola, desafiava o gato negro e assente sobre as patas, de ar convicto, incandescia o ar de uma outra melodia-
ao acordar podes apontar a arma dispara, não falhes. todo o poeta deveria provavelmente saber que as palavras têm um duplo sentido um branco e um preto e quando as escreve, frequentemente afunda-se no subjectivo, uma ilha e alinha a caneta com as raízes, por vezes pequenas do seu pensamento.
portanto não há lugar à desculpa fraca. ser poeta não é ser idiota. é interdito magoar as folhas que pousam na erva. por isso não desistas, verifica o número de balas e ao acordar podes apontar a arma não hesites não esperes pela abertura perigosa dos olhos dispara, não falhes.
estas luzes inomináveis que se prendem constantes em lugares múltiplos, físicos tão próximas quanto o ar que respiramos - luzes diferentes, clarões operantes, em fragmentos extremando os limites do pulmão, oxigenizando os dióxidos de uma tosse intermitente um desequilíbrio do impossível -
estas luzes insistentes de um olhar de fogo sem cedências, permanentes qual final de opereta descendo o pano, alargando o sorriso líquido impedindo a desistência de sentir, a afluência rubra, luzes… …luzes, incondicionáveis, inomináveis, tuas provocando os caminhos aerográficos da consequência; palavras, palavras flutuantes, palavras insinuantes palavras navegantes, nuas como pétalas caídas da profundidade dos dedos, tuas qual espuma flexível de luvas brancas música de sílabas, música de luas na opacidade de esconder o tempo que se aproxima -
La marée je l'ai dans le coeur Qui me remonte comme un signe Je meurs de ma petite soeur De mon enfant et de mon cygne Un bateau ça dépend comment On l'arrime au port de justesse Il pleure de mon firmament Des années-lumière et j'en laisse Je suis le fantôme Jersey Celui qui vient les soirs de frime Te lancer la brume en baisers Et te ramasser dans ses rimes Comme le trémail de juillet Où luisait le loup solitaire Celui que je voyais briller Aux doigts du sable de la terre
Rappelle-toi ce chien de mer Que nous libérions sur parole Et qui gueule dans le désert Des goémons de nécropole Je suis sûr que la vie est là Avec ses poumons de flanelle Quand il pleure de ces temps-là Le froid tout gris qui nous appelle Je me souviens des soirs là-bas Et des sprints gagnés sur l'écume Cette bave des chevaux ras Au ras des rocs qui se consument Ô l'ange des plaisirs perdus Ô rumeurs d'une autre habitude Mes désirs dès lors ne sont plus Qu'un chagrin de ma solitude
Et le diable des soirs conquis Avec ses pâleurs de rescousse Et le squale des paradis Dans le milieu mouillé de mousse Reviens fille verte des fjords Reviens violon des violonades Dans le port fanfarent les cors Pour le retour des camarades Ô parfum rare des salants Dans le poivre feu des gerçures Quand j'allais géométrisant Mon âme au creux de ta blessure Dans le désordre de ton cul Poissé dans les draps d'aube fine Je voyais un vitrail de plus
Et toi fille verte mon spleen
Les coquillages figurants Sous les sunlights cassés liquides Jouent de la castagnette tant Qu'on dirait l'Espagne livide Dieu des granits ayez pitié De leur vocation de parure Quand le couteau vient s'immiscer Dans leur castagnette figure Et je voyais ce qu'on pressent Quand on pressent l'entrevoyure Entre les persiennes du sang Et que les globules figurent Une mathématique bleue Dans cette mer jamais étale D'où nous remonte peu à peu Cette mémoire des étoiles
Cette rumeur qui vient de là Sous l'arc copain où je m'aveugle Ces mains qui me font du flafla Ces mains ruminantes qui meuglent Cette rumeur me suit longtemps Comme un mendiant sous l'anathème Comme l'ombre qui perd son temps À dessiner mon théorème Et sur mon maquillage roux S'en vient battre comme une porte Cette rumeur qui va debout Dans la rue aux musiques mortes C'est fini la mer c'est fini Sur la plage le sable bêle Comme des moutons d'infini Quand la mer bergère m'appelle
O sonho tem estas árias misteriosas que acompanham as manhãs frias músicas muito antigas numa voz rouca e sensível com andas de mãos grandes encaminhando os pés uma corrida num monte limpo na fuga imprevidente de uma aula incompleta um abecedário esquecido, um pó sem origem um filtro de realidade, filtro branco gotejante de segundos, nos ponteiros pálidos da nebulosidade.
os passeios são os mesmos na cidade, a inexistência de garças os vapores na frente dos lábios, os mesmos, breves transformados no próprio ar químico, vaga irrealidade repetindo, repetindo sempre sem dar lugar à consistência porque é essa a natureza, o lugar escondido o lugar escondido.
são os mesmos os passeios da cidade na manhã fria e não consta que cheguem hoje, segunda-feira os extraterrestres do destino desenrolando papiros afirmando cronologias definidas, passos certos de uma dança atrás à frente, de lado, vira agora, não consta. e o café, que é o mesmo, preto de anfetamina, vibrando as células ainda adormecidas, surgindo como vício, o vício dos dias solta as livres letras como um fumo desprendido uma associação livre, uma leve transparência de um mundo inconsciente sem a percepção de o quanto a dosagem, a mistura, a percentagem de açúcar e farinha que sobe de dentro, conduzindo empurrando o aparo, soltando a tinta, tisnando um pouco as figuras de estilo.
hoje, segunda feira, 24 de Janeiro, os passeios são os mesmos e não ouso interromper esta ária de segredos, dentro, os sonhos não ouso desapertar totalmente os laços de uma fita semi-aberta, semi-fechada, dourada e brilhante observo-os na felicidade constante de uma oferenda de um outro dia vinte e quatro, dentro de uma meia junto a pedras ainda ofegantes de cinza, a lareira e o entusiasmo de saber que existem e estão lá dentro -
os sonhos não são como os passeios da cidade nem sempre são os mesmos, às vezes surpreendem quando surgem como um quadro naïf, uma ingenuidade na cor verde do exagero, originais, provocando o sorriso na realidade dos dias -
…………………………………………………. Amei-te quando te abriste Como um lírio com o calor Sou apenas um homem de neve De pé à chuva e ao granizo Mas não tens de me ouvir agora E cada palavra que digo Há-de contar contra mim À profundidade de mil beijos
Correm os póneis as raparigas são jovens As probabilidades são para ser batidas Ganhas por um momento depois termina A tua sequência de vitórias E convocado agora para lidares Com a tua invencível derrota Vives a tua vida como se fosse de verdade À profundidade de mil beijos
Ando a dar ao corpo ando a pôr-me na linha Estou de volta a Boogie Street Perdes o controlo da coisa e depois escorregas Para a Obra Prima E talvez eu tivesse muito que viajar E promessas a cumprir Desfazes-te de tudo para poder viver À profundidade de mil beijos …………………………..
Leonard Cohen " O Livro do Desejo" Trad Vasco Gato Ed. Quasi 2008
doi
quando só encontro a concha
o aglomerado de ossos
a trama de músculos
o lençol de pele
a forma física
e objectiva
e tocável
e visível
de seres tu
doi
quando só encontro o vazio
frio e húmido
de casa desventrada
onde esfolo os nós e a alma
de tanto bater
onde enrouqueço a voz
e a perco de tanto chamar
doi
uma dor fina e funda
de consciência quase desmaia
fim de tarde
e de passeio
o dia já vai longo
rocha urbana
procura o céu de cimento
em sobrepostas camadas
paredes nuas, duras
de emoções e formas cruas
transforma-se
em laivos de brilho quente
reflexos de ouro
poiso do olhar de longínquo astro
vejo, não reconheço
o invertido espelho
brinca
em jogos de luz e sombra
formas redondas e esguias
buracos negros
para além da matéria
abrem-se portas
de silêncio
um novo mundo
salto no desconhecido