segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Poesia contemporânea

Resolvi publicar este poema do Nuno Júdice recordando a noite de lançamento do disco maravilhoso da Clara Ghimel "Entre Mares", totalmente dedicado à poesia portuguesa musicada num embalo Bossa Nova que a todos recomendo.
Espero que gostem!






Natureza Morta sem Paradoxo

Se tivesse um copo para encher,
dá-lo-ia ao verso que se estende pela sede de o beber.

Se tivesse uma faca para abrir a romã,
trocá-la-ia pela serpente que preferiu a maçã.

Se tivesse um vaso oonde plantar flores,
enchê-lo-ia com a terra que o céu vestiu com as suas cores.

Assim, poderia beber-se o poema
pelo copo do verso,

cortar a fruta
com a lâmina da serpente

e pisar o céu
à luz da terra.


Nuno Júdice 2008

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Tarde laranja

Na caixa de cartão colada de surpresa
o telefone negro na luz parda do sótão
não houve mola de susto mas só
o disco sujo o mecanismo surdo.

Sentado no banco pequeno antigo
(palha lustrada nas noites de aldeia)
espanto os pós submissos
na pele activa de camurça
lâmpsda de cintilos e esquiços.

Tarde laranja em Paris
perco-me depressa dos amigos:
"Uma hora...volto! Uma hora já
volto!"

Na espera crescem picos na relva
no jardim das Tulherias
provável no Sena o bateau
tempo lento precioso.
Os minutos caem no ponteiro Swatch
mostrador de vidro plástico
riscas bordeaux.


Aperto o botão da camisa "Califa"
também de risca manga curta
um ritmo incerto de batuta
(en)luta crente na hora de luz
que o Sol segure.

Surges de seda verde à cintura
calças de azul espantado roliça
cobre-se de (aguar)ela a pintura:

"Heléne!Heléne! Je t'aime!
Oui c'est ças! C'est à cause de tois
que je parle trés bas!"


O telefone cega de brilho limpo
termina em fios separados
um deles fino aguçado
picos na ponta dos dedos
relva seca amarela:

"Heléne!Heléne!
C'est moi le poéte des secrets.
Le cadeau des yeux rondes
des cheveux noirs... c'est toi!
Rentre dans mes rêves... ci belle!
Je t'aime!"

Uma pequena gota vermelha
no filamento de agulha
compara a tonalidade dos lábios.
Uma voz distante rosa adormecida
atravessa doce
as rédeas do tempo:

"Vê um filme! Adormece...
não esperes por mim..."

A altura exacta da dor

Hora só
Só uma hora neste desencontro de ti
O ramo alto da árvore alta onde sorris
A janela do teu rosto
Toda ela luz e vento
Como uma torre alta junto ao mar

O mar não espera por mim
A torre não mexe, não dança nem sente
Alta, bela e vazia
O mar dissolve esta dúvida mascarada de ausência
A escuridão do mar embala-me
Sem saudade

A torre parada não se move
Espera o tempo
Toda ela luz e vento
Ri da tempestade vã que empurra a pedra
Imóvel
É noite
Só uma hora neste desencontro de ti
Aspiro à torre mais alta
Alta, bela e vazia
Como se fosse todo o meu ar.

sábado, 31 de janeiro de 2009

O Nosso Mundo- O limbo invertido

Este foi o poema que ilustrei ontem para o encontro baseado nas impressões que ficaram de um filme "Caramel" e das contrariedades de um mundo preso na insistência das diferenças esquecendo a origem comum - o átomo. Árabes ou judeus, negros ou brancos, amarelos mulatos todos neste "Nosso Mundo" somos feitos de mistura, um cozinhado original que tem o condão de nos tornar únicos entre iguais - seres humanos.

Não há culpa que resista quando a poesia nos invade, uma névoa calma que nos transporta no sonho real dentro, fora, de mãos dadas na sensibilidade própria
de ser poeta - um voo de Peter Pan.

Continuemos a tomar conta dos momentos que nos tocam e a transformá-los em danças de palavras, em melodias. Ontem fomos alguns que puderam estar, da próxima seremos mais, mas principalmente não esqueçamos os conselhos da nossa prezada Ana Luísa - publiquem-se!

Segue-se só o poema porque ainda não sei publicar as imagens:

Nosso Mundo - O limbo invertido

O país original separa o véu
olhares largos de azeviche
esconde limites na auréola
de um tecido interdito
apelo hirto de leito de rio
no anteparo alto da barragem
soltando soluços de água
- energia sufocada.

O meio caminho de Darwin
o preconceito do sagrado, proibido
do estado hipnótico ao óbvio
sentido "emociobiológico" celular
divisão múltipla orgânica
do minúsculo átomo- igual origem.

Admito complexo este mundo, este ser
onde a fala determina o resultado;
o gato, o cão, a águia, o abutre.
A flor, o bago, o puro malte, a seara
outro falar: a cor, o sabor, a semente.
A árvore a presença, o mocho quietude
o galo o acordar, a serpente o ciciar
-todos espécie e símbolo.

Nesta sequência aprecio o brinco
azul safira, cobalto, claro, marinho
e desta forma sigo a rota do leme
das águas claras de superfícies
aos profundos de sombra
o viajar ao contrário no pecado original
- ritmo sonar seguro.

Atrevo a definição
o nosso mundo:
"um limbo invertido"
judeu, árabe, europeu
amarelo, negro, filisteu
grego, romano, plebeu
- o jogo ocaso que é luz
no DNA da incógnita
contagem infinita de areias
- o novo ser que nasceu.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O pôr do sol em espinho

Conforme o prometido, aqui fica o poema ao pôr-do-sol de Espinho, ilustrado por um dos ditos.

LITERATURA EXPLICATIVA

O pôr do sol em espinho não é o pôr do sol
nem mesmo o pôr do sol é bem o pôr do sol
É não morrermos mais é irmos de mãos dadas
com alguém ou com nós mesmos anos antes
é lermos leibniz conviver com os medicis
onze quilometros ao sul de florença
sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico
Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar
ou antero junto da ermida?
O sol que aqui se põe onde nasce? A quem
passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?
O pôr do sol em espinho é termos sido felizes
é sentir como nosso o braço esquerdo
Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém
mulheres recortadas nas vidraças
oliveiras à chuva homens a trabalhar
coisas todas as coisas deixadas a si mesmas
Não mais restos de vozes solidão dos vidros
não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas
não mais o pôr do sol apenas pôr do sol

RUY BELO in Homem de Palavra(s)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Nem tudo me dizes

Nada te pergunto
tudo me dizes
erguendo fantasmas brancos
lívidos em sons guturais...
e o silêncio indiferente
dentro.

A meu lado
ramos fustigados de tempestades
acima das folhas crepitantes
crateras de dor
no eu impotente.

Nada do que sei
quero por companhia.
Onde está a concha
que afasta o grito
devolve as asas
o dia azul?

Qual o oceano longe
desconhecido
a Nova Atlântida?
Sinto-me ilha submergida
bóia bamboleante de maré alta
revoltosa que aparta e destrói;
impulsão dos sentidos.

Aguardo o dia
em que o que sei
será o que dizes
e nesse dia
não serei mais o eu
apenas o ponto final
sem intervalos exageros
interjeição...
cingido a meio
entre o que fica
e o que ...
não sei-

Um texto poético

Resolvi publicar um texto de um livro de Jiménez, autor espanhol do principio do século XX , com um nome sugestivo "Platero e eu". Convém desde já dizer que o Platero era um jumento que sempre acompanhava o escritor nos seus passeios e interrogações na Natureza. O livro tem um autor e o seu auditor (Platero) e uma sequência de pequenos textos poéticos dos quais aqui vos deixo um.



Última sesta

Que triste beleza, amarela e descolorida, a do sol da tarde, quando acordo debaixo da figueira!
Uma brisa seca, embalsamada de esteva derretida, acaricia-me o despertar suado. As grandes folhas da branda velha árvore, mexendo-se de leve, enlutam-me e deslumbram-me. Parece que me embalam suavemente num berço que fosse do sol à sombra, da sombra ao sol.
Lá longe, na aldeia deserta, os sinos das três tocam as trindades, atrás das vagas cristalinas do ar. Ao ouvi-las Platero, que me tinha roubado uma grande melancia de doce gelo escarlate, em pé, imóvel, olha para mim com os seus enormes olhos vacilantes, onde anda uma pegajosa mosca verde.
Perante os seus olhos cansados, os meus olhos cansam-se outra vez...Volta a brisa, como a uma borboleta que quisesse voar e a que, subitamente, se dobrassem as asas...
as asas... as minhas pálpebras frouxas, que, rapidamente, se fecharam...

Juan Jiménez "Platero e eu"

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

APELO DE UM AMOR FERIDO

Eu sonhei louca felicidade
com um amor doce, abençoado,
mas perdi minha liberdade,
é inutil meu grito amordaçado.

Meu sonho vive em ruína,
tão manchado pela maldição,
não m' esforces ter-te em surdina,
- liberta-me! e ter-te-ei com paixão.

Não me cries mais ansiedade,
quero de novo o chilrear de passarinhos,
... que deles hei tanta saudade.

Não me subjugues a teus desvarios,
inunda-me d' amor e de gestos mansinhos,
... e nossas lágrimas não desenharão mais rios!


António Luíz , 25.01.2009
Prezados,

O primeiro "encontro à margem" das sessões clandestinas de poesia criativa terá lugar no Guarany pelas 21:30 no dia 29 de Janeiro de 2009.

Um poeta que se preze não faltará.

Azul cobalto- os dois rostos num aperto

Este poema foi escrito em paralelo com o que publiquei anteriormente da "Maria"
e pretende criar um ambiente a que chamei " Díptico do desencontro"


Azul cobalto- os dois rostos num aperto

Acordei preso de pétalas
amarelo malmequer
rodeado de cabelos em ogiva
os dois rostos num aperto.

Diria o sonho extinto
não fosse a flor na jarra
azul cobalto
que rodava crendo-se viva
sorrindo na volta do vidro
caule esguio de uma linha
na mesinha onde sopra
seiva verde de permeio
entre o linho do tecido
e o mármore cinza um pouco frio.

A luz ténue matinal
película fina
qual imperativa razão
desce lenta a persiana
adormeço de novo
no mesmo sonho

e
sinto-me de ti como o crepúsculo
prisioneiro na longínqua serrania
num rubor rosa de nuvens

os dois rostos num aperto
e um bailado
dos teus braços de alimento
ao meu corpo em desconcerto
tonto ao sê-lo.

É sonho bem sei
e planeio
bem mais do que um simples devaneio
poemas de palavras
que te toquem os cabelos
com ternura
as mãos dadas e os passeios
de aromas silvestres sabor de amoras
que te troquem os jeitos a postura
a miragem de um oásis
nos sossegos do teu seio

e ser eu o jardineiro
de ganga e saco de juta
na procura das sementes
no canteiro dos teus lábios
doce rosa de Alladin.

É sonho bem sei
mas a flor diz o contrário
na jarra côr azul
azul cobalto

os dois rostos num aperto
tontos dois tontos
sem sê-lo

O voo frágil do colibri

Abraço a árvore da selva amazónica
cara ao lado nas unhas de casca

a árvore e eu sózinha.

Pelo caminho das gangas sobe um esquilo
descansa no cinto castanho irmão de côr
segue grávido de noz ao redondo lugar
da toca na altura do cabelo.

Qual o nome destino que desponta
o ritmo batuque pulsante
que alimento de sabrinas
pés distantes no calor liso das raizes
milenar fluído de liras capilares
circular música sina dos sentidos

a árvore e eu sózinhas.

Posição imprópria e singular
acalmia
sinto-me bela adormecida
no berço rutilo titânio das pupilas
braços abertos seios despertos
desejo
a seiva fruta dos lábios
ofereço
o cálice flor de mel
no voo frágil do colibri

a árvore e eu
Aqui.

Maria-

domingo, 25 de janeiro de 2009

O autêntico segundo

Deste-me aquele poema que já foi lido
em feltro azul de traço largo
não saberás que me guio em linhas
de cabelo recém nascido traço fino
fino muito fino.

"Para ti"- como se estrela única
entre mil conchas de Pacífico
mergulho corajoso de rocha alta
ganhando lanço sustendo sopro
no puro engano que abraço como sendo
a luz singular do teu desejo.

Guardo a exigência no saco fundo
como quem se desvia da falsa areia
na toalha de caranguejos e corais
num jogo de crianças junto ao mar

e quando sempre e por acaso
me deixo afundar
nesse buraco demais aberto
guardo o autêntico segundo
a íntima certeza de posse
traço largo;
cinde esse mundo que adivinho
no lento crescer da minha linha
fina muito fina.

poesia de que gosto

é mais conhecido como escritor de prosa, no entanto tem poemas muito interessantes
cortando com o tradicional. Pareceu-me importante trazer ao blogue algumas delas.
hoje deixo-vos uma:

poema das coisas aladas no coração da minha irmã flor

as coisas aladas ensinam o chão. explicam-lhe quanto há entre terra e céu,o
caminho livre de voo, a vista elevada de deus. eu vejo anjos e os anjos são,
das coisas aladas, os sonhos mais completos. erguem-se braçados de asas a
educar o vento, percursos de sopro que se abrem nas dimensões, e luzem nas
nossas cabeças como homens enfim pássaros, como se as árvores pudessem
ser casas nossas e nada nos acordasse na força do frio ou da chuva. como se
nos cumprimentássemos em pleno ar, seres tão leves atarefados com mais
nada. seríamos só pulmões cheios, máquinas de pairar, alegres imprecisões
ao alto

valter hugo mãe "folclore íntimo"



nas palavras do próprio poeta e escritor "as maiúsculas fazem-lhe confusão"
em sua homenagem e respeito todo este texto é minúsculo!
A neve a entrar nos teus olhos de sol
sou eu
a humanidade orgasmática a suar, a vir-se
em quentes frios espasmos,
a neve que te entra nos olhos
Sou eu, o que rejeita a publicação a Joyce,
a que tira as manchas de sémen nas camisas de Proust
a que abraça Rober Diaz, a que chupa Borges
pessoas passo a passo com frio a transpirar
a consolar-se a cada perda
Sou esta humanidade inteira nuclearmente ansiosa de riso e de calor e o meu suicídio será um povo etnicamente puro pegar no seu míssil de prata -
sou o ditador a comer iogurte de morango depois da limpeza étnica
as estrelas brilham para eles
a gente de verdade consola-se à escala humana,
a mais perigosa a Maior
E sou tu, a ler este texto,
e agora no rio está reflectida a nossa cara, a múltipla perspectiva
menina a arder com Messenger ligado

Nuno Brito, 2009

sábado, 24 de janeiro de 2009

Carícia lenta permanente

Assinalo o benigno dia
que é teu
aqui ao lado
disfarçado na sombra
do Sol que te deseja.

Solto o beijo, a mão
ingénuo e cândido;
meu modo de ser.

Deslizo de sonho
no etéreo fumo dos afectos
junto a ti

Evolamos na brisa dos gestos inéditos
poesia reti(s)ente de asas imensas
carícia lenta, doce e permanente
riso sano
e no mesmo instante
o búzio gigante, sussurros,
rumorejo, sossego sim;
assinala o benigno dia
que é teu
nas ondas do mar.