Junto à berma dos caminhos
tufos solares de giestas,
urze e violetas,
o carmim, o rosmaninho!
A menina das sandálias,
saia curta subida,
estendia,
mãos de concha
junto à àgua cristalina!
A infância descia
as curvas zonzas da estrada;
olhos fechados,
junto à minha,
tua alma dormia!
domingo, 9 de novembro de 2008
sábado, 8 de novembro de 2008
Um poema de que gosto
Hoje recolhi numa 1ª edição de 1944 este poema de Miguel Tora que quero partilhar convosco:
VOZ
Era uma voz que doía,
Mas ensinava.
Descobria,
Mal o seu timbre se ouvia
No silêncio que escutava.
Paraísos, não havia.
Purgatórios, não mostrava.
Limbos, sim, é que dizia
Que os sentia,
Pesados de covardia,
Lá na terra onde morava.
E morava neste mundo
Aquela voz.
Morava mesmo no fundo
Dum poço dentro de nós.
Miguel Torga " Libertação "
VOZ
Era uma voz que doía,
Mas ensinava.
Descobria,
Mal o seu timbre se ouvia
No silêncio que escutava.
Paraísos, não havia.
Purgatórios, não mostrava.
Limbos, sim, é que dizia
Que os sentia,
Pesados de covardia,
Lá na terra onde morava.
E morava neste mundo
Aquela voz.
Morava mesmo no fundo
Dum poço dentro de nós.
Miguel Torga " Libertação "
Um outro olhar...(1)
Nota Prévia - Vários colegas do "marpareceazeite" têm partilhado, e muito bem, a sua poesia, os seus momentos de inspiração. Penso mesmo que este é um caminho muito interessante que nos poderá ajudar a continuar a alimentar a partilha neste blogue. Esta ideia de "publiquem-se", "mostrem-se", de que falamos em algumas sessões... é um passo interessante... sobretudo para quem guarda tanta coisa há tanto tempo na gaveta...
Assim, vou também dar esse passo, tantas vezes adiado... e começar por explicar em síntese a origem deste meu projecto que intitulei de "um outro olhar"...
Numas férias, há bastante tempo, comecei por fazer pequenas construções (esculturas??) com "pedaços da natureza" que se cruzavam comigo (madeira, pedras, conchas, troncos... pedaços da natureza trazidos pelo mar ou encontrados numa qualquer mata). Certo dia, olhando para cada uma dessas construções (esculturas??), comecei a escrever pequenos textos (poesia??)... e assim nasceu este projecto com pedaços de natureza e palavras que fui juntando.
No nosso workshop fizemos poesia com base em palavras, textos, inspiração do momento.... eu faço os meus pequenos textos inspirado por pedaços de natureza que juntei. Vou então começar (devagarinho) a mostrar-vos alguns (tenho vinte e tal) desses pedaços de natureza e palavras que estavam soltos e dispersos... e um dia ganharam uma nova vida...
Este é o texto de abertura...
“um outro olhar...”
palavras e coisas que estavam soltas... dispersas
todas elas lindas... mas todas elas sós
tristemente sós… à espera de um outro olhar
começaram a juntar-se
ganharam uma nova vida
e tudo começou a fazer mais sentido
as palavras... as coisas... nós... todos nós
fazemos mais sentido quando estamos juntos
depois de estarmos sós... soltos... e dispersos
E este é o segundo texto, ainda antes das construções...
"imperfeitas e desordenadas... mas juntas...”
não faço métricas, simplesmente porque não sei fazer métricas
e se quando escrevo, naturalmente, não saem métricas
então é porque as métricas não têm nada a ver com o que eu sinto
ligar ar com mar, amor com dor... até que é fácil
será?
mas não é isso que eu quero dizer
(por isso os meus textos são tão desordenados)
nem é isso que eu quero fazer
(daí fazer construções tão imperfeitas)
que importam as assimetrias e as imperfeições?
o importante são as palavras e as coisas que estavam soltas e dispersas
e agora estão juntas... imperfeitas e desordenadas... mas juntas
(não será também o mundo, sobretudo ele, tão imperfeito e desordenado?)
Nuno CA (o "outro" Nuno)
Assim, vou também dar esse passo, tantas vezes adiado... e começar por explicar em síntese a origem deste meu projecto que intitulei de "um outro olhar"...
Numas férias, há bastante tempo, comecei por fazer pequenas construções (esculturas??) com "pedaços da natureza" que se cruzavam comigo (madeira, pedras, conchas, troncos... pedaços da natureza trazidos pelo mar ou encontrados numa qualquer mata). Certo dia, olhando para cada uma dessas construções (esculturas??), comecei a escrever pequenos textos (poesia??)... e assim nasceu este projecto com pedaços de natureza e palavras que fui juntando.
No nosso workshop fizemos poesia com base em palavras, textos, inspiração do momento.... eu faço os meus pequenos textos inspirado por pedaços de natureza que juntei. Vou então começar (devagarinho) a mostrar-vos alguns (tenho vinte e tal) desses pedaços de natureza e palavras que estavam soltos e dispersos... e um dia ganharam uma nova vida...
Este é o texto de abertura...
“um outro olhar...”
palavras e coisas que estavam soltas... dispersas
todas elas lindas... mas todas elas sós
tristemente sós… à espera de um outro olhar
começaram a juntar-se
ganharam uma nova vida
e tudo começou a fazer mais sentido
as palavras... as coisas... nós... todos nós
fazemos mais sentido quando estamos juntos
depois de estarmos sós... soltos... e dispersos
E este é o segundo texto, ainda antes das construções...
"imperfeitas e desordenadas... mas juntas...”
não faço métricas, simplesmente porque não sei fazer métricas
e se quando escrevo, naturalmente, não saem métricas
então é porque as métricas não têm nada a ver com o que eu sinto
ligar ar com mar, amor com dor... até que é fácil
será?
mas não é isso que eu quero dizer
(por isso os meus textos são tão desordenados)
nem é isso que eu quero fazer
(daí fazer construções tão imperfeitas)
que importam as assimetrias e as imperfeições?
o importante são as palavras e as coisas que estavam soltas e dispersas
e agora estão juntas... imperfeitas e desordenadas... mas juntas
(não será também o mundo, sobretudo ele, tão imperfeito e desordenado?)
Nuno CA (o "outro" Nuno)
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Vapores do éter
Enganei Morfeu quando corri
as persianas
dos labirintos escuros da íris.
Parti à aventura
antecipando a madrugada.
Mosquitos imaginários
em voos rasantes;
na barra da cama,
no fio do candeeiro...
ali tão perto...
asas de suásticas
atiçando fornalhas!
Ombros descobertos,
braços em cruz,
um peito batente,
não sei de quê,
não sei porquê...se
o ruído de vassouras
junta cacos,
espalha pós;
valsa de torcionários!
No premente soltar de águas
do Danúbio
é manhã.
Lâminas duplas mergulham
no mar de espuma branca,
barulhos de cataratas
nos dedos sujos de sabão.
Mussorgsky na antena,
nos vapores do éter...
fugidios...
E eu Pinóquio de calções,
marionete de alças
nos fios dos outros,
preso aos nós de seda
na mentira dos dias!
as persianas
dos labirintos escuros da íris.
Parti à aventura
antecipando a madrugada.
Mosquitos imaginários
em voos rasantes;
na barra da cama,
no fio do candeeiro...
ali tão perto...
asas de suásticas
atiçando fornalhas!
Ombros descobertos,
braços em cruz,
um peito batente,
não sei de quê,
não sei porquê...se
o ruído de vassouras
junta cacos,
espalha pós;
valsa de torcionários!
No premente soltar de águas
do Danúbio
é manhã.
Lâminas duplas mergulham
no mar de espuma branca,
barulhos de cataratas
nos dedos sujos de sabão.
Mussorgsky na antena,
nos vapores do éter...
fugidios...
E eu Pinóquio de calções,
marionete de alças
nos fios dos outros,
preso aos nós de seda
na mentira dos dias!
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Ela é bailarina
Ela é bailarina
Na rua olham-na delgada e fina
Os ossos quase lhe rasgam a pele
Lisa e translúcida que lhe veste o peito.
No palco os mesmos olhares
Vêem-na bonita.
Traz o pescoço esguio desnudo
Vestiu o fato coleante e o tule
Flutua num pas de deux com doçura
Com seu par forte que a segura.
É um cisne riscando as águas do palco
Esbelto.
Mil luzes e cores a fixam ao centro
Como numa tela colorida de Degas
Num ensaio mágico e luminoso de um bailado.
E ao som ora doce ora furioso de Tchaikovsky
Rodopia em mil piruetas sem fim
No palco, como na vida.
Leva toda a dor do seu coração
Oculta na ponta de gesso da sapatilha
Rosada de cetim a brilhar.
Traz um sorriso na face e os olhos de cristal
Absorvem os aplausos
Dobra-se enfim
Numa vénia.
É o último instante em palco
E o veludo escuro vai fechar-se
É arte sua vida tão dura?
Do outro lado do pano o vazio,
A solidão, uma lágrima, uma noite sem cor.
Em nós o coração a transbordar
Ela é bailarina
Deixou-nos um conto, mil sonhos
Pedaços de amor.
Elza
Na rua olham-na delgada e fina
Os ossos quase lhe rasgam a pele
Lisa e translúcida que lhe veste o peito.
No palco os mesmos olhares
Vêem-na bonita.
Traz o pescoço esguio desnudo
Vestiu o fato coleante e o tule
Flutua num pas de deux com doçura
Com seu par forte que a segura.
É um cisne riscando as águas do palco
Esbelto.
Mil luzes e cores a fixam ao centro
Como numa tela colorida de Degas
Num ensaio mágico e luminoso de um bailado.
E ao som ora doce ora furioso de Tchaikovsky
Rodopia em mil piruetas sem fim
No palco, como na vida.
Leva toda a dor do seu coração
Oculta na ponta de gesso da sapatilha
Rosada de cetim a brilhar.
Traz um sorriso na face e os olhos de cristal
Absorvem os aplausos
Dobra-se enfim
Numa vénia.
É o último instante em palco
E o veludo escuro vai fechar-se
É arte sua vida tão dura?
Do outro lado do pano o vazio,
A solidão, uma lágrima, uma noite sem cor.
Em nós o coração a transbordar
Ela é bailarina
Deixou-nos um conto, mil sonhos
Pedaços de amor.
Elza
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Alteração do 4º trabalho de casa: O maltrato
O MALTRATO
Levanta, amor, levanta
São horas de jantar
Tira a faca daí!
Por que não me respondes?
Diz,
Onde estavas?
Tu sabes que eu adoro ver-te em casa
quando chego da rua.
Sabes que o teu corpo no chão
atinge os ângulos mais belos...
Sabes, meu bem, como eu gosto de ti...
Que estaremos neste laço para sempre
E que a minha força eterna e excessiva te protege.
A expressão que tens nos olhos mete medo
Anda, levanta-te.
São horas de jantar, não ouves?
Mexe-te.
Foi só um empurrão
Trouxe-te o pão e o vinho
Há trinta que casamos, lembras?
E continuas
cosmeticamente atraente
em formas , volumes e conversas.
E és tão desejável.
Acorda, amor, acorda.
São horas de jantar
Limpa o sangue do teu corpo.
Ángeles Sanz
Levanta, amor, levanta
São horas de jantar
Tira a faca daí!
Por que não me respondes?
Diz,
Onde estavas?
Tu sabes que eu adoro ver-te em casa
quando chego da rua.
Sabes que o teu corpo no chão
atinge os ângulos mais belos...
Sabes, meu bem, como eu gosto de ti...
Que estaremos neste laço para sempre
E que a minha força eterna e excessiva te protege.
A expressão que tens nos olhos mete medo
Anda, levanta-te.
São horas de jantar, não ouves?
Mexe-te.
Foi só um empurrão
Trouxe-te o pão e o vinho
Há trinta que casamos, lembras?
E continuas
cosmeticamente atraente
em formas , volumes e conversas.
E és tão desejável.
Acorda, amor, acorda.
São horas de jantar
Limpa o sangue do teu corpo.
Ángeles Sanz
domingo, 2 de novembro de 2008
O pouf vermelho de esferovite
Um mar de velas triangulares
estende o horizonte ao casco longo
da distinta torre de guindastes...
contei-os... vinte são de um tamanho
menino de três primaveras,
um lenço dobrado pelo bico das gaivotas!
Sol de Inverno (escuras são as lentes)
areal grosso de pequenas dunas
deserto beige que escurece nas rochas
abraçadas de pequenas linhas de espuma
quando águas murmuram segredos marinhos
ao som de escorrerem pelas mãos
segredos de sereias num ruído longe de lentilhas!
Um pouf vermelho acondiciona as costas,
deslizar de bolas brancas esferovite
e não é "vite" a vida nas manhãs de Domingo
nos resto da cafeína, no caramelo fundo
doce das areias...
uma calma sem pastilhas invade a alma...
um vidro rachado de alto abaixo na divisória
contorna um busto improvável surrealista
de pescoço alto esticado
na transparência falta a cor
no olhar
recolho traço o rápido esquiço
de cartolina dura... o choque
é...ali está...irrepetível, não pode voltar!
Um triciclo de três rodas, um amparo de mãe,
corta o desenho levanta o olhar
corta a divagação de técnicas...
pastel?óleo?tintas fortes?gouache?...
não...
uma pomba de Picasso em flocos de nuvem
e azuis leves, claros... mansos
dilui as gotas de aguarela... ténue...subtil!
Antes de sair passeei o olhar no portal
perdi-me de amores nos versos suaves,
nas líquidas àguas de um poema a baloiçar
invadido, extasiado, remexido, agradecido,
abracei um volante tripartido
desaguei na Foz
na esplanada do pouf vermelho
entre brisa sol e mar...
não tinha folhas, caderno, papel
recolhi nos guardanapos
as frases soltas
de um poema a falar!
estende o horizonte ao casco longo
da distinta torre de guindastes...
contei-os... vinte são de um tamanho
menino de três primaveras,
um lenço dobrado pelo bico das gaivotas!
Sol de Inverno (escuras são as lentes)
areal grosso de pequenas dunas
deserto beige que escurece nas rochas
abraçadas de pequenas linhas de espuma
quando águas murmuram segredos marinhos
ao som de escorrerem pelas mãos
segredos de sereias num ruído longe de lentilhas!
Um pouf vermelho acondiciona as costas,
deslizar de bolas brancas esferovite
e não é "vite" a vida nas manhãs de Domingo
nos resto da cafeína, no caramelo fundo
doce das areias...
uma calma sem pastilhas invade a alma...
um vidro rachado de alto abaixo na divisória
contorna um busto improvável surrealista
de pescoço alto esticado
na transparência falta a cor
no olhar
recolho traço o rápido esquiço
de cartolina dura... o choque
é...ali está...irrepetível, não pode voltar!
Um triciclo de três rodas, um amparo de mãe,
corta o desenho levanta o olhar
corta a divagação de técnicas...
pastel?óleo?tintas fortes?gouache?...
não...
uma pomba de Picasso em flocos de nuvem
e azuis leves, claros... mansos
dilui as gotas de aguarela... ténue...subtil!
Antes de sair passeei o olhar no portal
perdi-me de amores nos versos suaves,
nas líquidas àguas de um poema a baloiçar
invadido, extasiado, remexido, agradecido,
abracei um volante tripartido
desaguei na Foz
na esplanada do pouf vermelho
entre brisa sol e mar...
não tinha folhas, caderno, papel
recolhi nos guardanapos
as frases soltas
de um poema a falar!
Poesia de que gosto
Aliança
Na folhagem de um quarto um ovo azul murmura
a aliança da noite com as mãos
nas tuas veias acende-se de uma só vez a seda
és um bosque inerte e vivo no meu abraço
um só perfume de água nos cabelos
Sossego a tua nuca uma haste desliza no tapete
o teu dorso completa-se à volta do teu colo
e eu oiço-te sobre os olhos oiço-te sobre os ombros
a vertente que desce ao silêncio de um lago
a sombra de um barco no último muro da cidade
Nas tuas faces vejo duas linhas
uma de fogo outra de cinza
um verde cimo de música negro e congelado
um nome suave de chama e de sussurro
Ò longa meia-noite em que oscilo nó fluído
equilíbrio tão alto sobre um rosto tão límpido!
António Ramos Rosa "matéria de amor"
Na folhagem de um quarto um ovo azul murmura
a aliança da noite com as mãos
nas tuas veias acende-se de uma só vez a seda
és um bosque inerte e vivo no meu abraço
um só perfume de água nos cabelos
Sossego a tua nuca uma haste desliza no tapete
o teu dorso completa-se à volta do teu colo
e eu oiço-te sobre os olhos oiço-te sobre os ombros
a vertente que desce ao silêncio de um lago
a sombra de um barco no último muro da cidade
Nas tuas faces vejo duas linhas
uma de fogo outra de cinza
um verde cimo de música negro e congelado
um nome suave de chama e de sussurro
Ò longa meia-noite em que oscilo nó fluído
equilíbrio tão alto sobre um rosto tão límpido!
António Ramos Rosa "matéria de amor"
sábado, 1 de novembro de 2008
Sobre a vida
Trago a vida debaixo dos pés
Caminho a destino incerto
Vou colhendo abraços e amassos
Enchendo o deserto
Esvaziando marés e sonhos
Recortando os pedaços do tempo
Apanhando peças de puzzle em segundos
Trago a vida debaixo da pele
disfarçada na calma tranquila com que te olho
um espelho onde se esconde a metamorfose
o vazio espaço do teu colo
Trago a vida em cima dos ombros
na rotina que carrego sem pensar
nas cargas que eu abraço e me afundam
a vida adormecida
o teu abraço dentro de mim
o cheiro quente dos biscoitos da minha mãe
o sorriso infantil da minha mãe
trago a vida debaixo dos sonhos
trago os sonhos debaixo da vida
a minha mãe dá biscoitos aos meus sonhos
corro parada de vida
a vida é essa mistura de seiva e terra
de morte e tédio
de gente
muita gente em nós
somos tanta gente
trago a vida em caixas e em fotografias
debaixo da minha retina
inundo os receptores da vida num copo de vinho
os nossos cérebros são memórias
abro as caixas aos poucos
vou dando presentes e abraços
guardo o sol da minha infância em caixas
guardo os meus nomes em faixas
as listas de nomes e rostos
gente
muita gente em nós
somos muita gente
é isto a vida
o encontro
da gente com gente
sempre eu e a minha vida e a minha gente
Trago gente debaixo da pele
Trago vida em cima da gente
A vida é um abraço do cosmos
Uma matéria que se uniu em poesia de gente
Fragmentos de sombra e luz
Embalados num ventre de estrelas e sonhos
Um sono irrealmente desperto
Uma fantasia concreta
O sabor salgado das lágrimas
As emoções invisíveis que se palpam
Escrevem-se no corpo
Trago a vida no corpo
O corpo estéril que se enterra
A terra
Os caixões dobrados do sofrimento
Trago a vida em caixões
Trago a vida em caixas
Amo a vida crua que trago debaixo da pele
Os ramos, o tronco e as flores
Somos árvores com muitas raízes
Muita gente
Tanta gente em nós
Trago a vida em sorrisos
A vida é um sorriso sem razão
Um mistério sem segredos
A objectividade da chuva
Trago a vida em palavras
Num rumo incerto como a vida
Num poema grávido de incerteza
Trago a vida debaixo do céu
Debaixo de abraços
A vida somos nós a dizer os nossos poemas
A encontrar os nossos lemas e as nossas verdades
Somos nós a escolher
Sempre a escolher
Mesmo quando não sabemos
Escolhe a vida
Ou ela escolhe-te a ti
Trago a vida debaixo de jornais
A vida vem em jornais
Vende-se em revistas
Não!
A vida não se vende!
A vida inventa-se
E reinventa-se
Volta-se
Revolta-se
Dá voltas
E revoltas
A vida é tão grande que nunca vai caber neste poema.
Caminho a destino incerto
Vou colhendo abraços e amassos
Enchendo o deserto
Esvaziando marés e sonhos
Recortando os pedaços do tempo
Apanhando peças de puzzle em segundos
Trago a vida debaixo da pele
disfarçada na calma tranquila com que te olho
um espelho onde se esconde a metamorfose
o vazio espaço do teu colo
Trago a vida em cima dos ombros
na rotina que carrego sem pensar
nas cargas que eu abraço e me afundam
a vida adormecida
o teu abraço dentro de mim
o cheiro quente dos biscoitos da minha mãe
o sorriso infantil da minha mãe
trago a vida debaixo dos sonhos
trago os sonhos debaixo da vida
a minha mãe dá biscoitos aos meus sonhos
corro parada de vida
a vida é essa mistura de seiva e terra
de morte e tédio
de gente
muita gente em nós
somos tanta gente
trago a vida em caixas e em fotografias
debaixo da minha retina
inundo os receptores da vida num copo de vinho
os nossos cérebros são memórias
abro as caixas aos poucos
vou dando presentes e abraços
guardo o sol da minha infância em caixas
guardo os meus nomes em faixas
as listas de nomes e rostos
gente
muita gente em nós
somos muita gente
é isto a vida
o encontro
da gente com gente
sempre eu e a minha vida e a minha gente
Trago gente debaixo da pele
Trago vida em cima da gente
A vida é um abraço do cosmos
Uma matéria que se uniu em poesia de gente
Fragmentos de sombra e luz
Embalados num ventre de estrelas e sonhos
Um sono irrealmente desperto
Uma fantasia concreta
O sabor salgado das lágrimas
As emoções invisíveis que se palpam
Escrevem-se no corpo
Trago a vida no corpo
O corpo estéril que se enterra
A terra
Os caixões dobrados do sofrimento
Trago a vida em caixões
Trago a vida em caixas
Amo a vida crua que trago debaixo da pele
Os ramos, o tronco e as flores
Somos árvores com muitas raízes
Muita gente
Tanta gente em nós
Trago a vida em sorrisos
A vida é um sorriso sem razão
Um mistério sem segredos
A objectividade da chuva
Trago a vida em palavras
Num rumo incerto como a vida
Num poema grávido de incerteza
Trago a vida debaixo do céu
Debaixo de abraços
A vida somos nós a dizer os nossos poemas
A encontrar os nossos lemas e as nossas verdades
Somos nós a escolher
Sempre a escolher
Mesmo quando não sabemos
Escolhe a vida
Ou ela escolhe-te a ti
Trago a vida debaixo de jornais
A vida vem em jornais
Vende-se em revistas
Não!
A vida não se vende!
A vida inventa-se
E reinventa-se
Volta-se
Revolta-se
Dá voltas
E revoltas
A vida é tão grande que nunca vai caber neste poema.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Quentes mercúrios
Tlim-Tlão!
Bigorna metálica, ferraduras virgens em brasa
nos bicos de uma tenaz, atiçando o martelo
que sobe e desce cravando tachas
em golpes largos de mão!
Sinusóide de períodos, vermelhos, laranjas
verdes; semáforos de emoções, alteando
faúlhas míopes nos fumos da extinção...
retomando os pequenos espaços incertos
nessas máculas de ferros machos
que pisam, marcam... e femininos
abrem arcos, esticam as cordas das setas
dos meninos nus, espaçando ventos
nas pressas da direcção!
Tlim-Tlão!
Cavalos alados de crinas à solta
nas oficinas dos infernos, dos paraísos
dos intermédios destinos, cavalgando à vez
musselines de sonhos, quentes mercúrios!
Sobe o martelo segue a canção:
Tlim-Tlão!
esmagando os vazios avaros sentidos,
determinativos desfechos sem reticências,
silogismos, lógicas gregas sem dedução...
pílulas àureas entre dentes brancos,
barrigas ocas sem voltas torcidas,
sem tremores, Himalaias de limites...Não!
Tlim-Tlão!
Nós sim, colunas de pedras gastas, usadas,
rugas paralelas das viagens,
moldados de magmas, de lavas, dos raios
das tempestades,ressarcindo dos cílicios
das paixões, sobreviventes, navegantes,
das Atlântidas perdidas, abrindo
as guelras das pulsões...
de olhos imersos de peitos abertos
aos suplícios dos martelos
em luta, desafio...revolução!
Tlim-Tlão!
Bigorna metálica, ferraduras virgens em brasa
nos bicos de uma tenaz, atiçando o martelo
que sobe e desce cravando tachas
em golpes largos de mão!
Sinusóide de períodos, vermelhos, laranjas
verdes; semáforos de emoções, alteando
faúlhas míopes nos fumos da extinção...
retomando os pequenos espaços incertos
nessas máculas de ferros machos
que pisam, marcam... e femininos
abrem arcos, esticam as cordas das setas
dos meninos nus, espaçando ventos
nas pressas da direcção!
Tlim-Tlão!
Cavalos alados de crinas à solta
nas oficinas dos infernos, dos paraísos
dos intermédios destinos, cavalgando à vez
musselines de sonhos, quentes mercúrios!
Sobe o martelo segue a canção:
Tlim-Tlão!
esmagando os vazios avaros sentidos,
determinativos desfechos sem reticências,
silogismos, lógicas gregas sem dedução...
pílulas àureas entre dentes brancos,
barrigas ocas sem voltas torcidas,
sem tremores, Himalaias de limites...Não!
Tlim-Tlão!
Nós sim, colunas de pedras gastas, usadas,
rugas paralelas das viagens,
moldados de magmas, de lavas, dos raios
das tempestades,ressarcindo dos cílicios
das paixões, sobreviventes, navegantes,
das Atlântidas perdidas, abrindo
as guelras das pulsões...
de olhos imersos de peitos abertos
aos suplícios dos martelos
em luta, desafio...revolução!
Tlim-Tlão!
Palavras
Trago apenas palavras semeadas nestes versos
São estruturas faladas por dentro do carmesim
Com que tu pintas a vida e constróis os universos
Da tristeza ou da alegria com que tu passas por mim.
As palavras são tão simples como os gestos que te vi,
Mas a vida que viveram renasce a todo o momento
Na bonança e no tormento do mar do conhecimento
Que em ti se constitui e que longe eu descobri.
As palavras que dormiam sonhando no dicionário
São as mesmas que te trago, agora despenteadas
Porém já bem acordadas para outro abecedário
E certas do que sonharam trazem novas caminhadas
De terras desconhecidas, universos encantados
Que os ventos lhes legaram lá no sul e lá no norte:
E são histórias de encantar as vidas desencantadas
E são sonho e são vida para combater a morte.
Trago palavras avulsas que de tão inusitadas
Tecem teias e toalhas e lenços de puro linho
Em que se inscrevem as vozes e o puro desalinho
(riso e choro e sentimento, e emoção magoada).
Em pensamento claro, em linguagem lavada,
Trago palavras em fio para teceres a meada.
2008.10.31
José Almeida da Silva
São estruturas faladas por dentro do carmesim
Com que tu pintas a vida e constróis os universos
Da tristeza ou da alegria com que tu passas por mim.
As palavras são tão simples como os gestos que te vi,
Mas a vida que viveram renasce a todo o momento
Na bonança e no tormento do mar do conhecimento
Que em ti se constitui e que longe eu descobri.
As palavras que dormiam sonhando no dicionário
São as mesmas que te trago, agora despenteadas
Porém já bem acordadas para outro abecedário
E certas do que sonharam trazem novas caminhadas
De terras desconhecidas, universos encantados
Que os ventos lhes legaram lá no sul e lá no norte:
E são histórias de encantar as vidas desencantadas
E são sonho e são vida para combater a morte.
Trago palavras avulsas que de tão inusitadas
Tecem teias e toalhas e lenços de puro linho
Em que se inscrevem as vozes e o puro desalinho
(riso e choro e sentimento, e emoção magoada).
Em pensamento claro, em linguagem lavada,
Trago palavras em fio para teceres a meada.
2008.10.31
José Almeida da Silva
Reflexão
Hoje fui com uns poucos (Liliana, Elza, Nuno e Raquel) ao café progresso, ouvir declamação de poesia de Jorge de Sena. Fomos brindados com uma hora de atraso e uma introdução googleana à poesia do dito autor. Quando eu pensei que não podia piorar, ouço uma voz orgástica a declamar - diria melhor, a esfrangalhar - um poema. A pachorra não aguentou e pouco depois viemo-nos embora.
Falo disto aqui agora e aqui porque já não é a primeira vez que vou a este tipo de tertúlias e encontro, da parte de quem declama, uma certa pedantice de pseudo intelectual que me dá uma certa urticária. Como se se julgassem o centro do mundo, a classe pensante da sociedade.
Nestes momentos, vem-me à memória o que uma vez alguém me disse: que aqueles que escrevem sem terem qualquer tipo de formação superior na área da Literatura acabam tornando-se mais humildes, escudando-se assim da sua (suposta) ignorância. Como todas as generalizações, contém a sua margem de erro e espaço para excepções (a Ana, por exemplo). E dei por mim a agradecer baixinho, no meio dos berros da personagem, o ter-vos conhecido. Porque somos humildes, despretensiosos, sem malícia ou falsos pudores; porque temos a coragem de mostrar a nossa intimidade na poesia e a boa vontade de criticar o trabalho dos outros. no fundo, por sermos pessoas com um enorme respeito e amor à poesia, um amor simples, que não se reveste de trejeitos ou cigarros de angulo recto na mão.
Um bem haja a nós, companheiros de viagem, de descobrimento, de partilha.
Falo disto aqui agora e aqui porque já não é a primeira vez que vou a este tipo de tertúlias e encontro, da parte de quem declama, uma certa pedantice de pseudo intelectual que me dá uma certa urticária. Como se se julgassem o centro do mundo, a classe pensante da sociedade.
Nestes momentos, vem-me à memória o que uma vez alguém me disse: que aqueles que escrevem sem terem qualquer tipo de formação superior na área da Literatura acabam tornando-se mais humildes, escudando-se assim da sua (suposta) ignorância. Como todas as generalizações, contém a sua margem de erro e espaço para excepções (a Ana, por exemplo). E dei por mim a agradecer baixinho, no meio dos berros da personagem, o ter-vos conhecido. Porque somos humildes, despretensiosos, sem malícia ou falsos pudores; porque temos a coragem de mostrar a nossa intimidade na poesia e a boa vontade de criticar o trabalho dos outros. no fundo, por sermos pessoas com um enorme respeito e amor à poesia, um amor simples, que não se reveste de trejeitos ou cigarros de angulo recto na mão.
Um bem haja a nós, companheiros de viagem, de descobrimento, de partilha.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
"NÃO NOS DESLARGUEMOS", DISSE -
Minhas amigas e meus amigos,
As minhas desculpas pelo silêncio de mais de uma semana, mas ando aflita a escrever uma conferência e uma comunicação para o Brasil. Parto no Sábado logo de manhã e ainda não acabei. Também por isso não consegui comentar os trabalhos: preciso de tempo, e tenho tido muito pouco nestes dias. Por isso também peço desculpa. Mas todos os dias espreito o blogue e leio os textos, e fico feliz e grata por termos criado um espaço de partilha, de amizade, de confiança - e de qualidade.
Não nos "deslarguemos", como diz a Teresa! Eu, por mim, prometo não o fazer.
Um abraço para todas e para todos. E obrigada.
ana luísa
P.S. Dia 19 de Novembro está óptimo! Não sei o que acham.
As minhas desculpas pelo silêncio de mais de uma semana, mas ando aflita a escrever uma conferência e uma comunicação para o Brasil. Parto no Sábado logo de manhã e ainda não acabei. Também por isso não consegui comentar os trabalhos: preciso de tempo, e tenho tido muito pouco nestes dias. Por isso também peço desculpa. Mas todos os dias espreito o blogue e leio os textos, e fico feliz e grata por termos criado um espaço de partilha, de amizade, de confiança - e de qualidade.
Não nos "deslarguemos", como diz a Teresa! Eu, por mim, prometo não o fazer.
Um abraço para todas e para todos. E obrigada.
ana luísa
P.S. Dia 19 de Novembro está óptimo! Não sei o que acham.
Espantos
Sinto que te encontrei
no fim de semana passado
na casa da praia dos ventos,
das memórias soltas!
O planar das mãos
que nas tuas terminava,
tornava leves os passos,
aliviava cansaços,
causava de novo,
riso, alegria, espantos...
na cor laranja das flores,
nos brancos violetas
agapantos!
p.s. com muita pena não me foi possível ouvir o Sax do Nuno, nem rever
os sensíveis companheiros das poesias emergentes, fica para a próxima!
Cheers to you all!!
no fim de semana passado
na casa da praia dos ventos,
das memórias soltas!
O planar das mãos
que nas tuas terminava,
tornava leves os passos,
aliviava cansaços,
causava de novo,
riso, alegria, espantos...
na cor laranja das flores,
nos brancos violetas
agapantos!
p.s. com muita pena não me foi possível ouvir o Sax do Nuno, nem rever
os sensíveis companheiros das poesias emergentes, fica para a próxima!
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