sábado, 8 de novembro de 2008

Um outro olhar...(1)

Nota Prévia - Vários colegas do "marpareceazeite" têm partilhado, e muito bem, a sua poesia, os seus momentos de inspiração. Penso mesmo que este é um caminho muito interessante que nos poderá ajudar a continuar a alimentar a partilha neste blogue. Esta ideia de "publiquem-se", "mostrem-se", de que falamos em algumas sessões... é um passo interessante... sobretudo para quem guarda tanta coisa há tanto tempo na gaveta...
Assim, vou também dar esse passo, tantas vezes adiado... e começar por explicar em síntese a origem deste meu projecto que intitulei de "um outro olhar"...
Numas férias, há bastante tempo, comecei por fazer pequenas construções (esculturas??) com "pedaços da natureza" que se cruzavam comigo (madeira, pedras, conchas, troncos... pedaços da natureza trazidos pelo mar ou encontrados numa qualquer mata). Certo dia, olhando para cada uma dessas construções (esculturas??), comecei a escrever pequenos textos (poesia??)... e assim nasceu este projecto com pedaços de natureza e palavras que fui juntando.
No nosso workshop fizemos poesia com base em palavras, textos, inspiração do momento.... eu faço os meus pequenos textos inspirado por pedaços de natureza que juntei. Vou então começar (devagarinho) a mostrar-vos alguns (tenho vinte e tal) desses pedaços de natureza e palavras que estavam soltos e dispersos... e um dia ganharam uma nova vida...

Este é o texto de abertura...

“um outro olhar...”

palavras e coisas que estavam soltas... dispersas
todas elas lindas... mas todas elas sós
tristemente sós… à espera de um outro olhar

começaram a juntar-se
ganharam uma nova vida
e tudo começou a fazer mais sentido

as palavras... as coisas... nós... todos nós
fazemos mais sentido quando estamos juntos
depois de estarmos sós... soltos... e dispersos


E este é o segundo texto, ainda antes das construções...

"imperfeitas e desordenadas... mas juntas...”

não faço métricas, simplesmente porque não sei fazer métricas
e se quando escrevo, naturalmente, não saem métricas
então é porque as métricas não têm nada a ver com o que eu sinto

ligar ar com mar, amor com dor... até que é fácil
será?
mas não é isso que eu quero dizer
(por isso os meus textos são tão desordenados)
nem é isso que eu quero fazer
(daí fazer construções tão imperfeitas)

que importam as assimetrias e as imperfeições?
o importante são as palavras e as coisas que estavam soltas e dispersas
e agora estão juntas... imperfeitas e desordenadas... mas juntas

(não será também o mundo, sobretudo ele, tão imperfeito e desordenado?)

Nuno CA (o "outro" Nuno)

5 comentários:

josé ferreira disse...

Há muito tempo já, li um livro de de Salman Rushdie ( o escritor de olhos oblíquos fugido aos tapumes das métricas religiões ) que se chamava "Haroun e o Mar de histórias", ocorreu-me o título e o livro enquanto lia o que o Nuno CA escrevia. O que não será a vida senão um mar de histórias? Se pensarmos no mar, nas suas profundidades rolam sempre, em movimentos vários, areias que se transformam, no entanto por mais que procuremos não haverá nenhuma entre os milhões de milhões, na milésima da milésima exactamente iguais. De outra forma, para melhor explicar, pego nos seus perfeitos e claros versos:
"As palavras... as coisas...nós...
todos nós/fazemos mais sentido quando estamos juntos/ depois de estarmos sós..." o que não é isto senão a poesia, a história de cada um de nós no mar de histórias de todos . Valeu a pena publicar-se "porque a alma não é pequena". Se de alguma forma contribuí para ouvir as seus poemas e me enriquecer com um outro olhar que se junta a este mar fico muito contente.
Parabéns gostei do que li e acho que ficamos todos à espera de mais!

José Almeida da Silva disse...

Uma belíssima reflexão sobre o fazer Poesia!

A Poesia não está nas rimas (embora a rima seja um dos processos expressivos que lhe confere ritmo, harmonia, musicalidade), muito provavelmente, está na forma como associamos as palavras para dizermos o nosso entendimento da vida que vamos experienciando e os modos como a olhamos. Se desta inusitada associação das palavras surge o "belo", há necessariamente Poesia. E os seus textos caminharam pelo "belo.

Parabéns e é bom que volte à "mesa" da reflexão

imensa disse...

não existe nada como iniciar...

gostei imenso.

auxília disse...

A ordem, a perfeição são relativas.
"que importam as assimetrias e as imperfeições?" sim, que importam, se soubermos exactamente como deixar de "estarmos sós"?...
Continuaremos à espera de mais "pedaços de natureza". Porque gostei destas duas "esculturas".

Elza disse...

Gosto de algumas rimas por causa da musica que fica junto ao coração. Mas gosto também, talvez ainda mais, das divagações que, como numa explosão do cosmos, largam particulas que ficam no coração, na mente, na pele, em todos os lugares. Como no seu texto. Parabéns!