sábado, 14 de julho de 2012

Kiss


                                  Gustav Klimt

Nunca escrevi  sobre aquele beijo que mudou o mundo
Não que a rotação fosse interrompida
Ou o globo girasse de forma inadvertida, contrariamente ou invertido
Para espanto do Sol e das constelações quietas do universo.
Refiro-me à cor preciosa e à forma de segurar o rosto
Refiro-me a  uma vida longa para além do humano
E para quem o artista criou o nome : Kiss

josé ferreira 14 julho 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

queria muito falar-te da evidência



queria muito falar-te da evidência
de se viver pela luz dos dias até à imensidão da noite
porque se de um lado se encontra a finitude das horas acordadas
de um outro nascem sequências complexas,  inexplicadas
e sob velaturas, descansa o infinito, o segredo e o desconhecido –

bem sei, e é repetido todos os dias
na teoria do símbolo químico, tudo se explica. um exemplo:
o rodar dos olhos dentro das pálpebras como a rememoração de realidades
uma conversa inacabada ou a nova roupagem de um mero acaso de cidade  –

mas se assim for não o digas

deixa-me  proteger a sombra dos sonhos
como o verde alto das árvores na tarde mais quente
deixa-me proteger a sombra dos sonhos
como as vinhas estendidas em arco para que se suspendam os bagos;
esse  uso de casas antigas pelos caminhos de Camilo, pelas envolvências do Minho –

se assim for não o digas

engana-me com todos os espelhos
 fecha-me os silogismos de todas as ciências
para que desperte
para que adormeça –

queria muito falar-te da evidência:
o olhar vermelho  –

josé ferreira 13 julho 2012

Escrevia à mão a cidade - um poema de Filipa Leal


                                 Jaime Isidoro


Habitava da cidade
os lugares mais pequenos.

Limpava-lhe o pó,
pintava-lhe os cabelos,
escondia-lhe as rugas
(chegava mesmo a deitar-se
ou a deitar areia sobre as ruas
abertas).

Às vezes chorava-lhe no centro
a ausência,
ou matava-lhe os homens
que corrompiam os homens.
Por fim,
esquecia-lhe as feridas.

Escrevia à mão a cidade
e a cidade escrevia-se
sobretudo
no cinzento
no esquecimento.

Eram tão simples as palavras
da cidade,
mas complexos os amigos
que dela habitavam
os lugares mais pequenos.



Filipa Leal

Talvez os Lírios Compreendam
Cadernos do Campo Alegre, 2004  lido aqui

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Uma laranja para Alberto Caeiro - um poema de Natália Correia




Venho simplesmente dizer
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave

se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.

Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas e diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.

Sei que depois de laranja
a laranja poderá ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exacta fome inadiável.

De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo como se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce.

 
 in «O Vinho e a Lira»O Diário de Cynthia
Poesia Completa

terça-feira, 10 de julho de 2012

desenho




tenho tentado todos os desenhos, risco após risco
após o lugar do pensamento.
a proximidade é possível, reflicto , risco após risco
e risco
e completo a forma, um adereço, a conhecida cor do cabelo
a trança, a luminosidade errante pelos campos e pela lira
que lança músicas e arredonda o risco, risco após risco
e risco
um desenho
que apenas se aproxima –

josé ferreira 10 julho 2012

segunda-feira, 9 de julho de 2012

"Il n'a pas à se plaindre celui qui attend un sentiment plus ardent et plus généreux.
Il n'a pas à se plaindre celui qui attend le désir d'un peu plus de bonheur, d'un peu plus de beauté, d'un peu plus de justice."

Maurice Maeterlinck, La sagesse et la destinée.

domingo, 8 de julho de 2012

o vento de passagem nos cabelos




o vento invade os cabelos longos das mulheres
e coloca riscos finos na frente dos olhos
levanta as mãos e faz descer as pálpebras
para que subam de novo na maior abertura do rosto;
o oval luminoso e não a silhueta incompleta.
todas as sombras  se desiludem
iluminas-te –

fico por um minuto com a alma presa
na imagem precisa, na clarividência, na lisura
do teu movimento –

o vento é passageiro de um vento nómada
de um vento imenso que nos leva sempre
ao lugar do intangível nas noites viajantes
junto das areias
junto das luas, junto das águas mais profundas
até ao sonho emaranhado de um caminho
o interior da concha, o lugar lúcido –

josé ferreira 8 julho 2012

sábado, 7 de julho de 2012

nirvana




abro-me  como as corolas
com o perfume imediato das manhãs
sempre na direcção da luz.
surge primeiro o sol com um pensamento nas mãos
nas palmas abertas, nos dedos despertos
nos olhos lampião na cor do ébano.
as estrelas cintilantes dão lugar ao esquecimento da noite
recuperam a memória do sonho, a sua lucidez
e anoto a existência de cristais transparentes em julho
orvalhos decrescentes até à absorção das gotas
até á limpidez das folhas, até ao imenso poder do silêncio
que se instala  neste acordar na natureza, no profundo campo
e separa o espaço,  desde a superfície da terra, pelos troncos enrugados
até ao  verde das árvores –

essa é também  a condição humana
nascer, crescer, permanecer, e mudar de roupa conforme as rotações
as estações, escutar a voz dos pássaros e a paz sem som
renascer, traçar linhas e rumos em direcção ao azul
a direito ou obliquamente, a noventa graus, caminhando nos dois sentidos
a norte e a sul, a este e a oeste, na clareza do ar e no manto das raízes –

somos tão complexos como a primeira célula, como a nebulosa
como a atmosfera que esconde moléculas, somos e não somos
como a inversão da direcção dos ventos, como um desenho semipintado
um ser e ainda não ser, em movimento, na dinâmica dos tecidos, orgânicos
de alimentos e sinergias, faíscas
um ser em construção, de incompletudes, em formação, de amálgama
no almofariz da química humana, nós e os outros –

mas somos nós, somos únicos
tu,  com os teus olhos âncora, com o cimo das estrelas e os dedos
as polpas de seda, a deslizarem como  barcos na imensidão das costas
 rodeando os obstáculos, das vértebras até ao cerebelo
como se fossem rochas salientes entre as margens de um rio –

eu,  como uma criança, pedindo-te  que sejas a mulher, a essência
que ponhas a mão na minha cabeça
e entregando-te  a concha do corpo, o lume descomposto do rosto
num sorriso luminoso, explosivo, deixando fluir a cor dos afectos
em cada gesto
enquanto te seguro o rosto, enquanto me apoio no teu ombro
e enquanto nos tornamos lisos, esmagando toda a densidade do ar
todas as montanhas, sem precipícios, unidos, como um nirvana -

josé ferreira 7 julho 2012



Leda e o Cisne

Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.

Capturada assim,
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?
 
William Butler Yeats

(trad. de Paulo Vizioli)
 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Quando se Vive a Substância Intacta -um poema de António Ramos Rosa


                                Almada NegreirosVive-se quando se vive a substância intacta 
em estar a ser sua ardente   harmonia 
que se expande em clara atmosfera 
leve e sem delírio ou talvez delirando 
no vértice da frescura onde a imagem treme 
um pouco na visão intensa e fluida 
E tudo o que se vê é a ondeação 
da transparência até aos confins do planeta 
E há um momento em que o pensamento repousa 
numa sílaba de ouro É a hora leve 
do verão a sua correnteza 
azul Há um paladar nas veias 
e uma lisura de estar nas espáduas do dia 
Que respiração tão alta da brisa fluvial! 
Afluem energias de uma violência suave 
Minúcias musicais sobre um fundo de brancura 
A certeza de estar na fluidez animal 

António Ramos Rosa, in"Poemas Inéditos"lido aqu
i

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Se tanto me dói que as coisas passem - um poema de Sophia


                            Wily Roni

Se tanto me dói que as coisas passem É porque cada instante em mim foi vivo Na busca de um bem definitivo Em que as coisas de Amor se eternizassem Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 3 de julho de 2012

escrevo-te



escrevo-te de novo com a ponta dos dedos
como se fosse uma dança, como se fosse um sussurro
um segredo urgente, uma música  distendida e exclusiva
 jazz ou blues de um filme antigo, uma fotografia.
 as fotografias reflectem uma história
um pormenor, a iluminação do alfinete;
lembro-me –

lembro-me do teu laço com um nó azul
um chapéu largo de sombra por cima de uma trança
um bikini de malha que não se usa mais
as sabrinas no saco das riscas
os pés cobertos de algas nas espumas brancas
as marcas das gaivotas a tornarem-se humanas
as asas dos barcos a acenarem distantes
e a  mostrarem horizontes. horizontes.
lembro-me –

lembro-me da tua primeira decisão
uma mão de cada lado de uma barba adolescente
uma coragem de olhos com a boca em frente
o primeiro incêndio, sem fogo, e como arde –

Uma vez…
era Setembro e partiam os carros dos bois com cestos entrançados
cachos de uvas mouriscas, moscatel, e simples, de bagos pequenos.
corremos como se fossemos crianças,  com sandálias tortas e jogos na cabeça
partimos muito depressa, o vestido voava, os calções eram rápidos.
naquela época os torrões da terra eram secos, vários tamanhos
uma capa branca e depois castanhos. corremos muito
corremos como se fossemos crianças.
lembro-me.
era Setembro.
seguraste-me a cabeça
as mãos como setas misturaram cabelos
e depois corremos. corremos muito, como se fossemos crianças
e demorámos cinco minutos
entre a rocha das merendas e o muro das pedras soltas.
era Setembro. lembro-me –

de uma vez…
era junho. a cidade era muito antiga. corria a temperatura do solstício
a queimadura do Verão. saboreámos os gelados de limão.
havia uma fonte de desejo em cada esquina. não se chamava Trevi.
muita gente. era junho.
lembro-me.
lembro-me de um cinema, uma camisa branca, a superfície de renda.  
a minha mão era pequena . passou por cima do ombro
desceu como uma cortina, lenta, a esconder uma janela
 como se fosse um barco, movendo-se na direcção do vento.
a minha mão era pequena
com o interior redondo, em concha, no hemisfério sul do tempo
e o coração batia muito de repente.
os olhos olhavam em frente. lembro-me. no cinema.
a mão era pequena, a renda. lembro-me.

escrevo-te com os olhos muito acesos.  com a ponta dos dedos
como se fosse uma dança, um sussurro, um segredo urgente
como se não nos doesse nunca a alma, como se não nos doesse nunca o corpo
e com o sangue a bater, a bater muito, como um mercúrio quente
a bater muito e em todas as paredes –

josé ferreira 2 Julho 2012


segunda-feira, 2 de julho de 2012

low cost



Deve ser verdade que a natureza enche, o vácuo, o zero, o nada, o vazio?!


É que às vezes pensa
Como também precisaria de adormecer

No final desse dia lembrou ter ele dito
Vou por uns dias
Imaginou que no caminho da ponte iria
Ver aquela pouca neve na serra
As poucas nuvens
E também as cores de fim de tarde
(só que ele foi por outro caminho)

Gostaria tanto de descrever por palavras
Ou de outra maneira que fosse
O que via 


Anabela Couto Brasinha
(2011)

sábado, 30 de junho de 2012

amanhã seria notícia


                                               

tenho os olhos ardentes de uma noite curta
não recordo os sonhos e sigo o caminho do mar , das ondas
dos seus frios fundamentais na manhã que desperta.
há um linho na espuma e uma renda que cobre a areia.
vai e volta.
na manhã luminosa há olhos que não existem
e gaivotas que piam com bicos amarelos.
haverá um cais
no interstício da rocha,  na capa escorregadia  de uma lapa
na tessitura verde da pedra, luzidia e lisa esculpida pelas gotas soltas,  pelas mãos do mar –

observo  o meu infinito. o infinito de uma transição. o infinito de nós.
o infinito tem a permanência em cada veia levantada que atravessa o sal,
que atravessa a pedra da calçada, que atravessa o estrado de madeira de uma esplanada
- aquela que grita ao som dos passos e que chia sistematicamente num parafuso gasto –

lembro-me dos gatos.
os meus gatos, sim, os meus gatos, aqueles que me encostam os pêlos brancos, amarelos,
pretos e cinzentos, sem saberem que há contrariedades,
nebulosas para lá da lua que rodou para outro lado, para lá da manhã silenciosa –

os meus gatos aguardam e aguardam sempre que chegue a casa
para que lhes empreste as palmas, para que lhes mostre as pontas das pernas
para que lhes abra o colo
para que elevem o dorso, estiquem a cabeça ou enrolem o corpo
fazendo-se muito pequenos, um novelo que arfa, ritmado –

na praia, o azul é tímido no  último dia de junho, tem a cor de uma aguarela
 improvável para quem carrega sonhos e castelos na areia,
para quem brilha nos espelhos e se constrói de si mesmo
e de muita gente, a do passado, a do agora, a do futuro, e a da cor das vagas
que chegam e partem, entrando de novo naquele mundo
um mar mais calmo, como hoje –

quando muitos chegam à praia, há camisolas e caras tortas
um desespero de ausência de raios nos guarda-sóis
uma orfandade de um momento prescrito, sem remédio
para uma doença de rotinas. falha a luz e a temperatura adequada
para cremes e soluções protectoras, bíceps firmes, cintas curtas
umbigos planos, lábios iluminados, e sentam-se a meu lado
de revistas e jornais, na escuridão das lentes, com a meia-de-leite, o pão torrado –

devo ser uma ave. uma ave com mãos e palavras. queria ser uma ave.
queria fechar –me um instante. fechar-me num som tibetano, muito calmo.
queria ter penas e asas, ser leve, leve, muito leve

e voar –

na mesa, a caneta soltaria a tinta numa mancha preta
a estender-se como uma maré que cresce, assim de repente
envolvendo o infinito, a transição e as letras.

quando chegasse ao cais de uma rocha, ali à frente,
na forma de um pescoço branco que oscila
observaria a sombra, a sombra de um homem
a sombra do homem num espaço vazio
recortado, de uma tela de cinema, de uma realidade
construída,
e observaria o espanto dos turistas, a sua boca aberta, a sua convivência com o ridículo
e o anotável de uma improbabilidade sem sentido. quem explica?

e amanhã seria notícia -

josé ferreira 30 de Junho de 2012