quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Num monumento à aspirina


Joana Vasconcelos " Sofá Aspirina "

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis da meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

João Cabral de Melo Neto "A educação pela pedra" (1966)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

História sem importância

Fui esquecida, tão simplesmente isso. Enquanto, não há problemas no paraíso.
E sem notícias, também fiz de conta que não se despedia. Foi a única vez que fiz de conta, para não dar explicações, ou perguntar-lhe, achas mesmo que não arranjaria maneira de nunca chegares aqui?
Também não me apetece discutir sobre a vida não ser linear, quando o que interessava mesmo, era eu nem tentar decifrar mentiras.
Podia dizer, ok, faço a vontade a toda a gente, e pensar noutra coisa, mas não digo nada.
É tão simples quanto isso, deixei, fui depois esquecida, e é tão simples quanto isso para ele.
Se calhar apetecia-me contar uma história... A história de uma mulher que rouba uma jóia e pensa que, da mesma maneira que a roubou, alguém a pode roubar outra vez. Há uma desconhecida que passa, e só lhe interessam coisas com valor sentimental. Nem mesmo a mulher desesperada, nem mesmo que a jóia não fosse posse, poderiam uma coisa e outra entender, ofuscados pelo brilho mas na sombra.
Há um letreiro na entrada de um prédio por onde a desconhecida passa, posse = amor. Na porta ela escreve Posse = Posse, e como não lhe interessam contas, também escreve, Liberdade é o primeiro passo, sabe quem ama..
E a desconhecida foi para longe, não por lhe parecer que incomodava, estava apenas cansada de acreditar nos homens, outra vez!

Auto-retrato com fantasmas e mamíferos



Eu e tu: o resto são fantasmas. Fábricas de lençóis aflitos. Empresas inadequadas ao mundo visível. A disfunção eréctil da promessa de aparição.
A sociedade aquosa e secreta dos fantasmas. Espécie de produto catabólico do omisso, que é o distintivo do amor e a pistola impalpável do mortal, que por mais amar o próximo se tornou efectivamente longínquo.

A casa deserta, continuamente adiada, sem episódios de maior relevo ou directrizes. Horas mais que malignas escoam do espaço interior a sua manutenção inevitável. A invertebrada mobília da noite. Os moluscos da insónia. A escuridão adesiva. O silêncio adesivo. A música da água morta nas canalizações. Passos imperceptíveis, dados em falso num plano sem gravidade nem resolução.
Tudo parece evitar-se a custos baixíssimos. Um aquário cheio de instantes destruídos, adaptados entretanto com as guelras da memória vã.

Eu e tu, dois mamíferos elegantemente despidos, maravilhados com as suas imperfeições ideais.
A luz da Lua que atravessa o postigo e descola imagens e desloca olhares. Técnicas nulas e mistas para acender a audácia, para ascender à audácia, como se estivéssemos mergulhados na pré-historia do ânimo e do aviso, no futuro trémulo da hesitação.
E no entanto, passeiam-se à nossa volta as formas plenas da desobediência em lingerie, influentes flores do interlúdio, os dejectos delicados da insensatez que já não nos assustam com a sua epilepsia de província.

por tudo aquilo que ofertas desviado do humano




por tudo aquilo que ofertas desviado do humano
não reconheço margens nem limites –
abres as raízes em crescimento dentro de um rio
rodeada de líquen, itinerante e vaga
de olhos agudos e sensoriais retinas
na mistura de músicas e distintas melancolias –

e em cada dia que termina, conforme os quartos da Lua
mudas e mergulhas e vês o Mundo
na dilatada iluminação de íris e pupilas -

e iluminas -

terça-feira, 28 de setembro de 2010

discursos de sobrevivência


Paul Klee


anunciado o fim de Estio
a vindima e a recolha apressada de últimos frutos.
alguns dos figos caíram. espalhados.

tal o estendido calor
que não faz qualquer sentido acreditar o calendário
o encurtar dos dias, a movimentação tardia
de um Sol à procura da noite
cedo, a cedência das estrelas, o ocaso –

quase no fim de Setembro – o Outono
o lobo seco – este ano sendo
um cordeiro de pés de lã, lento
e paciente, de passos pequenos
um relógio manual
em atrasos
um sino adormecido
visível, na longitude longa de superfícies.

e a planície fingida como um trapo onde se notam vincos
a necessidade abrupta de dificuldades, sílicas
uma chuva de quartzos
e na mesma linha em contraste
além, do lado esquerdo
os espaços onde ainda as cores
breves, no nascimento de amarelos
e azuis , misturados, amores perfeitos, águas
cataratas a quebrar fronteiras, tensões
falíveis, de corpo e esconderijos emotivos –

o fim do solstício unido de enigmas
indeterminado no suposto possível
na surpreendente e particular ânsia
de absoluta revolta de espírito –

e não conseguir avançar. ver . ver o horizonte
a segurar num cordame de sisal, o veleiro, no mar alto
onde as gaivotas em discursos de sobrevivência
porque os ventos, os sopros e os silêncios
permanecem como os climas, suspensos
de fios de nylon, alinhavados de alterações
intemperados, excessivos e plenos
de fermentos
apontando conforme as ordens excelsas
azuis e aéreas
um porto de abrigo
ou as fragas, nas ondas do tumulto, carregadas de lapas
e altos murmúrios nas casas habitadas dos búzios;

perigos, marítimos, perigos
a gravidade escorregadia das algas
o naufrágio –

ignorar a desordem não é construir a paz interior e luminosa.
nas artérias cheias há ausências, ausências mudas, surdas
e o corpo é um planador de folhas secas
rasgando a atmosfera circundante de ruídos
em queda que ensombra as gravilhas –

quem procura a memória fácil quebra o aro encantado.
cego e sem recompensa
arrasta a âncora e mantêm a distância.

está atento, suporta a dor, aceita a queimadura
abre o peito e o flanco para quando
em fragmentos, a hora aberta e as romãs

não te descuides na rigidez –

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Inebriada de Ar - eu sou


Toulouse Lautrec "La toilette" 1889

Provo bebida jamais fermentada –
De Canecas em Pérola esculpidas –
Nem os Tonéis todos que há no Reno
Conseguem produzir um Álcool tal!

Inebriada de Ar – eu sou –
E Devassa de Orvalho –
Tonta – em dias de Verão que nunca findam –
Saindo de tabernas de Azul da Cor do céu –

Quando os «Taberneiros» expulsarem
Da Dedaleira a Abelha embriagada –
E as Borboletas – seu «trago» recusarem –
Hei-de beber e beber sem parar!

Até que os Serafins acenem os Chapéus de neve
E os Santos todos – corram as janelas –
Para verem a pequena Ébria
Escorando-se no – Sol –

Emily Dickinson "Cem poemas" Relógio d'Água Trad. Ana Luísa Amaral

sim,é um livro



sim, é um livro, não mais de que um livro
dos que saem de oferta num jornal
a história de um sonho
no dia certo, sem tempo marcado.
um livro. não mais de que um livro
de capas pobres e folhas enceradas
um pouco brihantes, mal coladas

mas o que interessa são as palavras –

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

basta que te dispas até doeres todo


Salvador Dali " A alegoria da Primavera" 1978


basta que te dispas até doeres todo
retoma-te no tocado, no aceso,
e fica cego e,
por memória do tacto, desfaz os nós,
muitos, muito
atados uns nos outros,
e que inteiramente te alcance o ar e,
depois de te haver abraçado de alto a baixo, apareça já
inextricável, ar
falado, a fino ouvido: cacofónico,
mas de um modo exacto, acho,
música inquieta, inconjunta, impura,
isso: essa música

Herberto Helder “ A faca não corta o fogo” Assírio & Alvim 2008

sal ou magma





fecha os olhos cansados e permanentes
e imagina as penas, as gotas e os aparos
a mente de quem escreve, em voz alta
a aconchegar frases, as metáforas,
a pontuá-las: lentas, rápidas ou graves
dentro da tua casa, uma gaveta de letras,
segredos de psicanálise.

mantêm os olhos fechados, aguenta, não os abras
que importa a hora, a retaguarda do mundo
se para ser apreendido, despedido do inútil
reconvertido em densidade, precisa muitíssimo
do livro, do poema, da palavra;
a caligrafia hormonal de uma carta
de rumo, bússola que interage.

abre agora a vista. faz o hiato. pousa o livro
sobre a secretária. repara nas linhas das folhas
que se fecham. a marca. vais a meio.
nem tu nem o livro existem na mesma quantidade.

quando sedentário e táctil descansar na prateleira
não será igual a tantos outros
e nem sequer saberás até que ponto
se inscreveu na alma

sal ou magma de diamante claro -

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

não conseguir acordar a inconsciência - seguir o rio


Cartas de Albert Einstein a Margarita

a pouca luz anterior de um fim de tarde
onde rolaram rostos vagos de cidade
trajectos de passos sucessivos ao lado das estradas
nos passeios, nas paragens, sem mistério
cronometrados.

o quiosque – o maço de tabaco, o diário
o café ocasional – as vozes dispersas em argolas
o almoço chinês – asas de pássaro e dificuldades
o banco – véus de números e sorrisos de contabilidade
a reunião fleumática – garças altas e nós de gravatas
o trabalho – folhas A4 e conversas fechadas
o supermercado – iogurtes, chocolate e congelados.

a pouca luz interior de um fim de tarde no hall,
na entrada. a correspondência aguarda.
nada de envelopes quadrados, postais,
letras sem computadores, caligrafias de aparo
ouros raros, há quanto tempo não escreves uma carta?

sem hesitar esqueceu as roupas em qualquer lado
no suporte da banheira, na esfera do porta toalhas
na cadeira mais pequena, nas costas do sofá
onde água, uma gota de água desliza e perde densidade.

sem mais que a parte de baixo, deitou-se gasto
de olhos rasgados e húmidos como Rubens, um dia
em Madrid, no museu do Prado, uma tela a óleo
um quadro, onde as peles claras, os penteados
não lembra bem, não interessa, já não sabe.

deitou-se cedo sem cumprir horários
muito perto daquele outro corpo deitado;
um campo de searas no Alentejo longe
onde a dança solta de aves no céu
onde os ninhos de cegonha, as espigas
agudas e risonhas.

não conseguiu acordar a inconsciência.
de olhos abertos como um mocho, mas sentado,
pensou nos jardins escondidos do Palácio.

a mão como um navio desceu do joelho
ao ângulo do ilíaco, passou o diafragma
até ao oriente oposto e diagonal de um ombro.
repetiu o gesto como quem completa uma oração
as mãos, as costelas flutuantes, passando
ao oposto ombro, diafragma, coração.
a cruzada dos braços e os sons do rádio
na hora das notícias. não interessa. não interessa.


obscura a luz do quarto e as duas almofadas
dunas brancas de algodão, anatómicas em socalco.
os lábios entreabertos, entrada sibilante
de uma ilha sem continentes, um lugar de silêncios;
porque não escreveste?
a alma sem asas, em arco, em queda.

apenas e agora a música cardíaca –
como a pedra grande expandindo os círculos,
a música – uma valsa longa e longínqua
nas margens nocturnas do Danúbio.

de madrugada o astro enviou os raios, miríades,
e as pálpebras já tontas encostaram os remos
e seguiram o rio –

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sala de pequenas cirurgias




Há sempre uma infecção no insondado que atrai as multidões e faz um brinde com a nossa serenidade adolescente e míope. E é possível ver-se daqui o insondado - e a sua capital a arder – e mais não fazer do que a descrição atormentada do obstáculo da vida, entre mim e o insondado, entre dois tempos rivais mas reconhecíveis na pestilência do séquito, no inferno dos seus desejos sem sentido e sem vez, na trágica pulsação de ninguém. Nus e dirimidos.
Mais não fazer, ou fazer tudo talvez para que o insondado permaneça insondado, contraindo assim o vírus da timidez tipo 1,
a gripe dos diminuídos por sua própria conta e risco,
uma hérnia no dizer
e um cancro no único pulmão da iniciativa.

O último prognóstico era muito reservado também
e recusou-se a prestar quaisquer depoimentos
aos jornalistas.

aquela parábola de um livro de Jacob




aquela parábola de um livro de Jacob
por um prato de lentilhas Esaú
guloso ou faminto ou exausto
ou simplesmente na condição de um nome
exemplo no tempo e no espaço.

na essência do caso debruço-me no abismo
e imagino o cansaço os trajes gastos
só as poeiras na cor das sandálias.

os olhos azuis e estrábicos
talvez um cajado um encosto
um suporte de músculos mártires
e o aroma ondulante cinzelado e curvo
pelo ar como uma serpente
vem. vem. vem. o alimento.

pois e se e talvez antes do pai a morte.

na mais completa sedução Jacob
de colher de pau . provando.
saboreando. de novo sorvendo.
olhos vermelhos e inflamados
falas de diabo e ausências de remorso
desculpando a culpa aceitando toda a justiça
de uma mais que aceitável troca . que bom!

um prato de lentilhas mil moedas para um faminto.


de qualquer forma estava predestinado
talvez os astros pois sonhou anteriormente
de voltas e revoltas nos sonos encobertos
primogénito. primogénito. primogénito.
um dia. um dia. um dia.

o alcance egoísta o objecto a coisa o material
e não será concerteza um só caso singular
tantas e tantas vezes por um prato de lentilhas
se atiram os sonhos longe muito longe

como pérolas ao mar –

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Arco Iris





A veces
por supuesto
usted sonríe
y no importa lo linda
o lo fea
lo vieja
o lo joven
lo mucho
o lo poco
que usted realmente
sea

sonríe
cual si fuese
una revelación
y su sonrisa anula
todas las anteriores
caducan al instante
sus rostros como máscaras
sus ojos duros
frágiles
como espejos en óvalo
su boca de morder
su mentón de capricho
sus pómulos fragantes
sus párpados
su miedo

sonríe
y usted nace
asume el mundo
mira
sin mirar
indefensa
desnuda
transparente

y a lo mejor
si la sonrisa viene
de muy
de muy adentro
usted puede llorar
sencillamente
sin desgarrarse
sin deseperarse
sin convocar la muerte
ni sentirse vacía

llorar
sólo llorar

entonces su sonrisa
si todavia existe
se vuelve un arco iris.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

incorporal e ausente


Robert Doisneau


passei por elas sem nada dizer.
não corria a mais pequena aragem.
era meio dia e escaldava a hora.
a hora escondia a sombra.

não sei de quem a culpa o pecado
desta intimidade assim ferida
se assente estava que sempre
sempre que por elas passasse
falaria e elas as árvores comigo.

mas distraído de cabeça leve
em ramo mais alto e invisível
- para além das ceras caídas que um dia
as asas e o céu e o sol em suma a mitologia -
subia longe num sonho muito além desta terra
de cascalho e pós e folhas em suma naturezas
sem textura tão sem importância se naquele instante
apenas o rosto e a voz e o corpo em suma o desejo
fazia esquecer de transparente o matiz apreciado
da pele de uma árvore grande e larga e alta – o plátano
e de por ela passar e outras que não consigo recordar
sem nada dizer se estava assente que sempre
sempre que por elas passasse
falaria e elas as árvores comigo.

lembro-me de não ser e não pertencer
a qualquer mar ou continente
alucinado de sentir naquele estado
todo o excesso e a possibilidade
de sermos
sem paredes de silêncio e incerteza de sinais
sem calçados de couro e tecidos desiguais
anjos de branco anjos de branco
abstractos e sem tempo
de ser gente e ser mortal –

distraído na mais complexa e inédita metafísica
de reinventar a lua como casa
e dança e música e literatura -

distraído naquele estado incorporal e ausente de
esquecer as árvores e de nada dizer
apesar de assente que sempre
sempre que por elas passasse
falaria e elas as árvores comigo –

domingo, 19 de setembro de 2010

Invictus ( o poema que inspirou uma Nação)


Um filme notável sobre Nelson Mandela, uma mensagem de coragem e resistência. A poesia foi arma e âncora.


Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.


Invictus (trad.)


De dentro da noite que me cobre,
Negra como a cova, de ponta a ponta,
Agradeço a quaisquer deuses que sejam,
Pela minha alma inconquistável.

Na cruel garra da situação,
Não estremeci, nem gritei alto.
Sob a pancada do acaso,
A minha cabeça está ensanguentada,
Mas não curvada.

Além deste lugar de ira e lágrimas
Agiganta-se apenas o Horror das sombras.
E apesar da ameaça dos anos,
Encontra-me, e me encontrará sem medo.

Não importa como é estreita a porta,
Quanto carregada de punições a lista,
Sou o senhor do meu destino:
Sou o capitão da minha alma.

(Depois de não ficar satisfeito com as traduções que encontrei na net acrescentei alterações ao que encontrei. Mas o que conta é o poema original de Henley escrito na dor, com determinação e coragem no hospital. Este poema foi escrito em 1875.)