quinta-feira, 20 de maio de 2010

música

linhares da beira - serra da estrela
.© raquel patriarca

há uma música bonita
que me inunda a
memória
de gestos serenos
e dias de sol

uma melopeia de coisas simples

o encanto de uma
história
contada de cor

‘era uma vez
há muitos muitos anos
numa terra distante...’

o murmúrio de uma oração
e o toque das contas
do terço
o abrir -
- vagaroso
de uma manga
à procura de um lenço

o som da água
a correr no ribeiro
empurrado pelo vento
e o bailar da roupa
que se mergulha e esfrega
ao ritmo
sincopado
de uma cantiga sem tempo

o burburinho
dos dias de feira
o tamborilar das compras
na cesta
o toque dos sinos tão perto
o encadeado dos cumprimentos
‘como está?
vamos indo obrigada
até amanhã
se deus quiser’

o flautear de uma
gargalhada
no fim da brincadeira

o compasso do
caminhar
em direcção a casa

o estalar do
pão de trigo
à hora da merenda

o suspiro cansado e
fundo
ao pousar
as mãos nodosas
no colo
alisando
resignadamente
as rugas da pele
as pontas do avental

o sussurro doce de uma
canção
de embalar
o soluço de
um afago e de um
beijo
antes de deitar



há um silêncio surdo
que me ensopa a
alma
de ecos vazios
e ausências doridas

‘era uma vez
há muitos muitos anos
numa terra distante...’

aos avós

raquel patriarca
dezanove.maio.doismiledez

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Coisas que servem para ver mais longe

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1.

Sonhei que Santo Agostinho emergia de uma piscina de etanol, a mesma do nosso colégio. Tinha uma touca às riscas, a mesma que usávamos nas competições de natação. O Santo olhava para mim com uns binóculos antigos, notou a minha erecção, que fazia nos calções justos um chumaço torto. A minha boca sabia ainda lixívia doce. O Bispo de Hipona voltou a mergulhar com os binóculos como se procurasse no fundo da piscina uma relíquia da cruz de Cristo.

2.

Vinha da piscina em direcção aos balneários, todos os outros estavam a jogar futebol, no balneário estava o monge, sentado e nu, apenas com uma toalha azul-marinho pelas pernas, que lhe escondia o sexo, a toalha tinha uma ânfora dourada.

3.

Disse que eu era um bom rapaz e convidou-me a sentar ao lado dele, enquanto se ia esfregando, senti aumentar o estampado da toalha, uma ânfora em fio dourado erguia-se com a erecção do monge, parecia triste. Senti necessidade de lhe dizer qualquer coisa, que cantava bem por exemplo, que tinha sido com ele que tinha aprendido a decorar e solfejar os salmos mais belos dos livros antigos. Ele sabia a minha paixão por hagiografias e sobretudo do meu interesse pela obra de Santo Agostinho, e muitas vezes pedia ao monge bibliotecário para me deixar ficar mais tempo com os volumes da “A Cidade de Deus” que eu lia muito devagar, tirando algumas citações do Santo para o meu caderno porque não os podia sublinhar.

4.

A toalha estava quente, o monge guiava a minha mão para cima e para baixo, tive vergonha de olhar para ele. Tirou a toalha e vi o seu sexo erecto, guiou-me a mão até ao sexo e voltou-me a falar dos binóculos, que tinham sido do seu avô, e falava-me de “A Cidade de Deus”. Corrigiu-me a postura da mão, depois disse – um bocado mais depressa – Os binóculos são bons – Eu disse que aquilo era porco e podia aparecer alguém. Ele disse que não e voltou a falar dos binóculos. Eu adorava ter aquele livro, por isso, quando me pôs a mão na cabeça e ma baixou devagarinho, não me atrevi a negar.

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5.

Pensei nos binóculos e na edição nova da “A Cidade de Deus”. Pediu só que eu tocasse na toalha, na parte da ânfora, a que estava mais levantada, eu toquei, e ele pôs a mão por cima da minha, e disse – Faz assim devagar – Eu disse que aquilo era porco e não se devia fazer – Ele não respondeu e começou a contar a história da nossa Instituição, dizia que se lembrava de cor da cara de todos os meninos abandonados que passaram nesta casa, meninos que cresceram e têm agora um futuro pela frente podíamos ter nesta Santa Casa um abrigo, uma esperança e um futuro. Falou-me de um menino que era agora deputado e de um outro professor Universitário em Inglaterra. Enquanto eu continuava no ritmo regular, ajudado pela sua mão, que corrigia por vezes os meus movimentos, fazendo acelerar ou abrandar a intensidade do gesto contou-me que foi ele que pressionou o director a montar a piscina e o pequeno ginásio, porque é bom para nós e para os monges fazer-mos desporto, e o campo de terra batida só dava para os jogos de atletismo, a ginástica e o futebol quando não chovia.

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6.

- Meti a boca e chupei, tentando pensar nas imagens de um livro de milagres ilustrado que tinha no meu quarto. Segurou-me na cabeça, e pediu que continuasse, esquecendo-se de falar. O sexo ficava cada vez mais duro, e ele pediu para eu continuar até que grunhiu e a minha boca encheu-se de um jacto quente. Ele disse que depois passava no meu quarto e foi tomar banho.
Fui lavar a boca, o esperma quente estava-me nas covas dos dentes, no fundo e debaixo da língua, algum nas amígdalas, e durante vários dias parecia que tudo o que comia no refeitório me sabia a lixívia adocicada.

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O monge boiava numa piscina de etanol, Depois voltou à superfície com uma touca igual às riscas, e Santo Agostinho ficou lá em baixo durante muito tempo. Depois o monge grunhiu de prazer, o mesmo som que tinha feito comigo, imaginei a mancha de esperma a boiar no fundo da piscina. Os espermatozóides em dança eléctrica, nadando uns bruços imperfeitos: procurando um útero, que lhes garantisse a sobrevivência, inexistente na piscina do Etanol.

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No sonho tive medo que pensassem que a mancha branca na piscina fosse minha, de fazer coisas porcas na piscina e sai a correr para o pátio. Entrei na igreja e rezei em frente ao altar de Santa Helena. No etanol a mancha, por um efeito químico, tornava-se fluorescente, como se fosse uma mensagem que o colégio devia acolher.
À noite voltei à piscina para me certificar se a mancha ainda lá estava, procurando o intervalo em que o funcionário do ginásio estava a fumar um cigarro.
Da água escura voltou a emergir Santo Agostinho com a sua touca às riscas, trazia na mão um pedaço de madeira e um espinho. Saiu da água e deu-me as relíquias para a mão, ainda com os binóculos ao peito. A minha boca ainda sabia a lixívia doce, e o arroz na cantina sabia a lixívia doce, e os rissóis pareciam ser de lixívia doce. Embrulhei as relíquias na minha toalha.


Nuno Brito

Cidade-ponto (poema de Sylvia Beirute)



















CIDADE-PONTO


{ao tiago gomes, com amizade}

não escrevi um livro em miniatura sob uma lupa falsa.
não pedi qualidade aos clássicos.
não pretendi reparar a eficácia de qualquer sistema humano.
não endossei poemas porque os poemas não são cartas.
não tenho um cativeiro de poetas.
não visitei cidades-poema.
não segui preceitos que se vejam.
não azuleci por pertencer ao céu.
não tive ilusão e coragem para crer na desistência.
não escrevi que o fingimento pode ser um ódio com casca.
não tenho maneiras puramente estéticas.
não tenho processos literários.
não tenho dois corações.
não li masaoka shiki ou matsuo bashō.
não li a crítica para não perder a liberdade e o meu
dom impreparado.
não peguei no tempo e o atirei para dentro do corpo
como células estaminais.
não escrevi sobre a revolução industrial.
não respeitei o meu passado enquanto índice temático.
não estimulei diagnósticos de subtileza grosseira.
não recuperei emoções com a cabeça.
não coloquei questões delicadas no campo da poesia suprema.
não transferi permissões de mim para mim.
não imaginei versos paralelos para prender significados.

Sylvia Beirute
inédito

terça-feira, 18 de maio de 2010

Quando o amor era som

Compasso binário
pé ante pé
numa manta de colcheias
ao teu ritmo

ao meu ritmo
notas na pele
pausas nos lábios
abraços em semibreve

no teu cabelo
pautas desalinhadas
de tons dourados

mínimas de ausência
as nossas mãos unem-se
apertam-se em sol maior

o teu coração
metrónomo exacto
orienta o meu descompassado
extasiado na dança rítmica dos corpos

o som fica
depois da música
dentro
dentro
dentro
em eterna vibração
em clave de si

Música arrepia ossos

Cuidado!

Se me tocas o esqueleto
a perônio
não quero ais

Estalo-te o osso
se te bato com os metatarsais

Cuidadinho com os meus ossículos!
Vai o martelo à bigorna
salta-me o estribo
parto-te os óculos
esborro-te partitura

Vai Lá tocar para o teu corpo e tem Dó de Mi, Si?

Ana Janeiro

Für Elisa




A repartição repartia processos de Kafka
Omnipresente de ruas douradas de Praga
Sem ser praga em viagem de searas;
Que não havia nem espigas nem voagens
Apenas uma minúscula formiga ou seria bicho?

No mesmo banco na altura indevida de um ouvido
Em roupagens de um vestido ; flores de poliamida
A música, os acordes de Für Elisa
Audível, audível .

No teclado dos dedos seguia na aurora neuronal
As claves andantes, as notas brancas, as sustenidas
Que não são tantas mas sobressaem no piano.

Tan taran tan tan taria a an. Taria a an. Taria a an -
Tan taran tan tan taria a an. Taria a an. Taria a an -


Como no interior original de um autista
A neblina, a nebulosa, um fumo de nuvem
Os marfins fugitivos, o corpo inclina
A cabeça sublima a sublime melodia;
O som dos sons tão colorido: o azul
O fuchsia magenta violeta e o verde rio.

Tan taran tan tan taria a an. Taria a an. Taria a an –
Tan taran tan tan taria a an. Taria a an. Taria a an -

A repartição repartia os lugares disponíveis.
De Kafka: metamorfose de lagartas
A crescer de borboletas.
Número trinta e três. Número trinta e três.
Só dois ouvintes no estampido de processos.
As folhas inflamadas caem duas de cada vez
Número trinta e três.

Os vidros reflectiam a voz do funcionário
Mas de olhos fechados a alma voava;
O maldito gafanhoto na seara.
O leve toque na palma onde o papel amarrotado.
Desculpe. Chamam. Por acaso –

Não não.Obrigado. o meu é trinta e quatro –

Tan taran tan tan taria a an. Taria a an. Taria a an-
Tan taran tan tan taria a an. Taria a an. Taria a an-
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segunda-feira, 17 de maio de 2010

o canto dos pássaros no mar


òleo de Marynete Martins retirado da internet "Prímulas numa tarde de domingo"

no horto da avenida respira-se um sossego de aurora.
nove horas e a névoa de uma certa nostalgia fixa as rosas
cor de rosa de santa teresinha junto a dois vasos de prímulas;
estas pétalas tão pequenas de pequenos aromas chamam
com uma certa alegria os momentos bons ; comovem
e tocam o rumo da alma como barco de águas calmas.
um rumor de mar, de onda, de onda no mar. adormecem
adormeço as pálpebras como dobras de um lenço
fino de transparência e os olhos, os olhos castanhos
como ramos de uma árvore que flutua e anda
em águas sólidas, em pés de raízes levando o canto
o canto dos pássaros em direcções de horizonte.

adormecem e adormeço num outro mundo –

e o horto é só miragem e as plantas saltam
em crinas de algas junto das árvores, dos ramos
dos olhos castanhos e povoam o oceano
de um novo êxodo onde ninguém se afoga.
e as águas são calçadas cheias de passos verdes
que tornam verdes os mares;
milhares de folhas que tocam o ar de musgo
no céu ainda branco -

adormeço e adormecem
as rosas pequenas e dois vasos de prímulas -

domingo, 16 de maio de 2010

estado liquido do som

há bichos na rua
de pulsar azul

o pulso
entra pelos olhos
e pendura-os pela nuca

concentrados
pousam o centro no chão
e contam pedras
com os dedos dos pés

em cuidada vertical

pilhas de pedras
por baixo dos dedos
para aliviar a nuca

sopram canudos de pulsos
quase oblíquos
com canetas demasiado estreitas

não chegam
não sabem do pulsar

mas há entre eles
um liquido azul
muito próximo ao pulsar
que adivinham pelos ouvidos

o liquido é horizontal
e quando os enrola por dentro
entre pulsos e pedras

há bichos a dançar

sábado, 15 de maio de 2010

Créme de la Creme

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O mar é aquela coisa bela,
Azul e profunda onde os homens se afogam

Anónimo Português século XXI


Não sou o tempo que demoram as ametistas a chegar ao fundo do mar,
Sou só uma pessoa que quer mergulhar em todos os olhos e não sair, uma ametista
Ansiosa que as pessoas se abracem; e ser também esse abraço para que as estrelas se venham, e que os olhos tristes da minha amiga nevem
Ando pelas ruas à espera que dois olhos me violem o metaplasma, Acendam a espinha;
Adoro lamber lágrimas e caras inteiras, as pequenas estrias e nódoas negras que Bernini esculpiu nos tornozelos da estátua A Verdade, são iguais às dos teus tornozelos, estrias, veias finas e azuladas, nódoas negras, hematonas, nas pernas / na pedra / bem torneados de um veio de mármore um pouco mais azulado
O amor é como carne
sabe a mar e a limão, a parte de trás das orelhas – disseste
Que as estrelas-do-mar são virtualmente eternas, porque são só pontas e sensação,
e quando uma ponta é cortada dá origem a uma estrela nova, e isso pode demorar séculos, inquisições, guerras mundiais, guerras nucleares, holocaustos africanos, eclipses totais do sol,
As estrelas-do-mar são virtualmente eternas
se me pedem para escrever um texto de cariz social, lembro-me da imagem do Rodas, a ingerir os pacotes de coca e heroína, poucos segundos antes da polícia aparecer no início da rua e de alguém lhe assobiar, vinte minutos depois de ser revistado a ir à banca beber água quente e azeite, e meter os dedos dentro da boca para vomitar - Tudo antes que os sacos rebentem: Na esquadra, diz-me o Rodas, levam alguns que não têm produto nos bolsos, ou enfiado nas meias para o hospital,
E no hospital metem-nos o caga-rápido, e descobrem as embalagens – Já esteve preso seis meses, mas as coisas correm bem, mesmo com duas noites seguidas que passou na esquadra, e depois olha-me febril, a dizer que tem de sair da cidade, no dia anterior à visita do Papa, noite em que não é seguro vender, porque anda muita polícia na rua, e pensa sair, ir para o sul onde tem família. E lembro-me do discurso sobre a dignidade do homem de Giovanni Pico della Mirandola, e da responsabilidade total do homem de Jean Paul Sartre, e isso dá-me vontade de rir, e de ser abraçado pelo Sol, e dar Vida, nos braços, de um beco escuro ao lado da rua Mouzinho, dois injectam o sol líquido nos braços e tombam para a frente, e o sol aparece mais acima carregado de um esperma, gerado em chamas pela vitalidade e loucura dos homens: que lhe permite brilhar, num cio de estrela dependente de emoções

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atravesso a nado os teus braços, as tuas pernas, a tua nuca, a parte de trás das orelhas sujas de café, de uma lambidela suja: por ti, (e vemos de todos os olhos) – O que foi visto e se há-de ver: abraço-te a mim, num corpo único que há- de rebentar recheado de sol, sinto o teu corpo pelas minhas mãos, pelos teus olhos vejo entrarem todos os mares, e acenderem¬-te de desejo e resignação, como se uma orquestra que tocasse Mahler fosse enviada para Neptuno, os músicos unidos por fios dourados, coisas que ligam – pessoas a pessoas – tudo se acende à minha volta, assobiam do fundo da rua, o Rodas corre. A travesti canta para nós. A orquestra faz o planeta vir-se, e uma chuva de néon cai sobre a terra, da Eurásia à Austrália. Atiramo-nos para uma piscina, e no fundo, descobrimos uma galeria subaquática, que se bifurcava por baixo do solo: saíamos na região do medo, como se saíssemos na estação de Montparnasse


Mostrou-me um livro – Eu escrevi um livro sobre a droga – Corrigiu: Eu ditei para um escritor a minha experiência com a droga, Rodas! Rodas! – O Rodas chegou do quarto – Sabes onde está o livro sobre a droga que ajudei o escritor a escrever? – Está aí naquela gaveta – O Rodas foi à gaveta e tirou de lá um livro com a capa de um cor-de-laranja muito carregado e mostrou-me:
O título era “Como evitar a droga?” – A capa estava geometricamente cortada em cima, faltava um bom bocado – O Rodas disse que tinha sido para fazer uns filtros – Abri ao acaso e surgiu-me uma página marcada com uma prata queimada na página 120, não decorei a que capítulo pertencia. O Rodas ligou a aparelhagem e acendeu um cigarro.

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Continuámos pelas galerias que a piscina nos oferecia, encontramos Cronos de calções, dois semideuses sem os dentes da frente nadavam em sentido contrário como Neptunos. Mais à frente descia o nível das águas, e passámos a caminhar no lodo, apareceu um guia da América central com um microfone preso ao pescoço, guiou-nos pelo Inferno com a sua voz de sopinha de massas – Em que círculo estamos? – Perguntei ao meu amigo, que era uma puma, e outras vezes uma mulher – Não estamos em nenhum círculo – Estamos por baixo da casa onde mora o Rodas: E mais à frente ali os ratos – Não são ratos, são homens que desceram na condição social – Disse o guia – A pirâmide, está a ver, aqui vemos pirâmides, pensamos em triângulos, vemo-los por todos os lados, ainda não somos capazes de assumir a natureza humana, sem hierarquias verticais – Mas o planeta é uma linha horizontal da qual o homem se aproxima na sua subida. Assim, não são ratos, são homens: Vivem como ratos mas são homens. Pedi um cigarro ao meu guia e ele falou-me de um homem sábio.

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Qualquer rato tem a sua mãe, e as mães dos ratos vão visitá-los à prisão e as namoradas dos ratos vão à prisão e fazem sexo com os ratos, e levam os filhos mais tarde para que os ratos vejam os seus filhos – E os ratos olham-se ao espelho – ansiosos por descobrir os mais Fundos Limites humanos e não vêm o espelho, vêm só um homem que são eles, obrigados a ter dignidade.

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O homem sábio era David Foster Wallace, disse-me o guia, que como qualquer homem é sábio: E isto deu-me vontade de rir, e não sei porquê imaginei os músicos ainda ligados por fios dourados em Neptuno a tocarem agora Bethoven – e lembrei-me da palavra “húmido” como adoro a palavra “húmido” como adoro tudo o que está húmido no corpo humano – como amo – tal como Milton – Tudo quanto fluí – e senti-me escorregar pelas galerias sem rumo e sem escolha do caminho entrando por umas saindo por outras auxiliado pela música:
A forma mais evoluída de literatura – David Foster Wallace escreveu em “raparigas de cabelos estranhos” uma pequena história sobre um grupo de amigos que vão assistir a um concerto de jazz, na segunda parte do espectáculo, dois deles saem (um deles é a personagem principal do conto) E o outro rapaz que tinha tomado LSD antes do concerto diz à personagem principal: De onde advém a tua felicidade natural? --- Se me explicares de onde advêm a tua felicidade natural deixo-te esporrar para cima de mim e da minha namorada – No conto a personagem principal sente-se embaraçada com a pergunta mas começa a responder, são cinco páginas completas a resposta dele, uma resposta insegura que não convence o outro que lhe diz – Falas-te muito, mas não me disseste de onde provêm a tua felicidade natural. A personagem principal sente-se derrotado na capacidade de diálogo, mas tenta uma última tentativa: Se eu te der 1000 dólares deixas-me ir com a tua namorada? – O amigo aceita. O conto acaba pouco depois, ficando em aberto essa hipótese que o fim da narrativa não permite saber se se concretiza.

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As estrelas do mar são virtualmente eternas
As medusas são virtualmente eternas
(Porque não têm sistema central, não pensam, sobretudo não reflectem, são só nervos e sensação, ponta e electricidade)

A capa estava geometricamente cortada em cima, faltava um bom bocado – O Rodas disse que tinha sido para fazer uns filtros – Abri ao acaso e surgiu-me uma página marcada com uma prata queimada na página 120, não decorei a que capítulo pertencia. O Rodas ligou a aparelhagem.


Nuno Brito

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Chelsea


Gerhard Richter "fuga"

------------------------------------- I don’t mean to suggest
------------------------------------ that I loved you the best
-------------------------------------------------Leonard Cohen

eram tuas essas gotas caindo no rosto branco
o gesto meu de frente como um espelho
pousou as suas dentro de um copo de bolso às riscas;
a camisa azul, a preferida.

as fontes que brotaram frente a frente
conheceram outros dias, primaveras
corridas pelos prados verdes das nossas ilhas
kiss e kisses enroscados nas águas mornas de um rio
tardes quentes nas frescas ondas de linho.

o receio é demasia, determina. seja.
embora se diga que nada se perde
quando e se há sentido
a intensidade do vulcão jaz adormecida
a tal metade de frio que aplaina o desejo
que se reconstrói sem despedida.

guardam-se as cartas
de palavras indescritas e faz-se a noite
de muitas luas, de manchas escuras
de crateras abertas, ausências adormecidas.

não se lembra o tempo, a distância
desde aquele primeiro instante
em que se fez a concordância
a urgência de lábios géminos, mistos
mãos de veias, desvairadas no alívio.

quando? quando e porquê
a desistência de corpo e chama
que nos torna mais pequenos?


quando? quando
o reconhecimento de que nunca fomos crescidos?
não são as fotografias mas sim os olhos que guardam
a importância das imagens , interiormente
na outra intensidade, máxima e mínima.

as cordas ressoam no círculo rígido, cds
discos de espiral na força de melodias;
os quartos, os quartos fechados de Id
aonde vais? aonde ides baladas
inscritas de sede e sumo de mangas descosidas
em milhares de artérias e labirintos
na velocidade ultrarápida de ruídos?

aonde ides ? até que param no silêncio.
os silêncios de uma cabana feita de musgo e sombra
de paredes brancas imperativas. corridas de tectos
as campânulas. as campânulas. o deserto.
os desertos que se tornam divididos.

um dia as diferenças líquidas são dois mundos
partes sem íman, derretidas, dois rios.
nas margens cortam-se as árvores
e plantam-se eucaliptos;
o esquecimento de um poder de raízes
que trabalham escondidas, invisíveis
secam as grandes planícies.

ecos e ecos nos ouvidos
a insubmissão dos búzios
os ecos reflectidos no Id que divide
mas resiste a lamparina não se extingue

não se sente a fúria.
é certo que o desgaste roeu o alicerce
mas o inferno não é mau
quase um imperfeito paraíso, um intervalo
a necessidade de um repouso inconsciente

não se apaga o profícuo, o bom
há uma lei que contesta a total dissolução
a desordem , a total desordem
a presença de um maior perigo - a anarquia

a descoberta da gravidade, o equilíbrio
que respira, inspira, expira e permanece
de pés no chão como plátanos de troncos largos
cobertos de manchas verdes, verdes claras
e ouriços lá em cima em torturas de vento.

penso e pensas logo somos. não há posse
possessiva, estrangulada e triste.
é preciso compreender a natureza
empresta-nos uma vida.

nada nunca termina quando faz sentido;
recordamos as ruas largas como Santa Catarina
os cafés mais distintos como o Majestic
as praias de pequenos nichos
pequenos mariscos na Boa Nova de Siza.
recorda-se os passeios nas aldeias
e as asas que desejámos por cima das montanhas
as areias, as mãos dadas, as águas
as setas escondidas em canas ocas e sibilantes
das sereias de neptuno, as ondas, as ondas
que subiam e subíamos mantendo níveis
de altos risos pelo risco picotado de adrenalina.

a ciência dos afectos quantifica
e conserva grandes massas de pérolas
dentro de um baú de peles castanhas
lustradas de brilhos como se e sempre vivas;
os poros respiram. a vida existe. nada termina -

será sonho, irrealidade em tudo isto?
apenas ilusão e fuga?
Id, Id
nada termina -

VII Encontro de Poetas em Coimbra

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Ana Luísa Amaral

Aquilo em que me posso tornar (assim, de repente)





Posso tornar-me num homem santo:
basta tomar regularmente os comprimidos.
Mas eu desconfio da santidade pálida, pública,
impávida dos comprimidos e detesto as soluções
da ciência quando é a fé que me pede
que desconfie de si mesma e me ensina
a desconfiar de mim mesmo e depois
da ciência, da santidade acelerada
dos compridos para descomprimir.

Posso tornar-me num homem rigorosamente honesto,
medíocre, de tão honesto,
e novamente honesto, de tão medíocre
mas para isso é preciso que a nudez, toda a nudez,
qualquer tipo de nudez, seja abolida
que acabem de vez com as ruas íngremes e desertas,
que a poesia morra na poeira
protestante das prateleiras
das livrarias
que amanhã nasça órfão
de uma mulher ébria
como Maeve
que foi a mulher mais livre
da História
da Irlanda
(e a Irlanda,
neste contexto,
é apenas aquilo que eu sinto
por ti)
só se essa mulher voltar a ser maltratada
pela inveja que é impotência dirigida
só assim – a lista estende-se,
mas não é entendível – só assim
eu posso ser honesto
daquela honestidade
que não interessa a ninguém
nem mesmo às raparigas.

Posso tornar-me num homem tornado
qualquer coisa que não lhe concerne.
Posso provar o obséquio de uma só e sólida
aspirina, mas a dor de cabeça há-de prosseguir:
as suas raízes surpreendem a farmacologia
moderna orientada apenas para pesadelos,
apesar de tudo, permissíveis.
Há uma voz miserável
dentro delas que cospe a aspirina.
Receio que a ciência e a fé não sejam suficientes
para me curar e iludir. Porque curar é iludir
a doença de existir de tal forma que a doença
desista.
Talvez ligue para a polícia e pergunte sucintamente
onde posso eu achar paz às duas e meia de uma manhã
que finge dormir à luz de substâncias irreveladas
na dormência, totalmente ilícita
apenas com o lençol das suas contingências
a destacar um orgulho que não é seu
deitada na cama comovente da despedida.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

a lente do cérebro




a lente sem razão de um cérebro incómodo
revela uma lava que desce e solda os pés
num campo onde só searas sentem companhia.
não possui a leveza, a resiliência, a inclinação
as campânulas que seguram o vento .

rolhas de cortiça selam os ruídos
impedem os rumos de circulação
no céu passam as cinzas e uma chuva fina.
o retículo de redes que apanham borboletas
são macios fios de um espaço parado
um rio seguro na muralha da barragem
ganhando a torrente, a força larga de margem
a catadupa de energia fulminante, a faísca.


o corpo é um barco fraco de pescador
a tinta separa e clareia um castanho beige
infiltrado de humidade. sobressaem
as mãos, os remos inertes e lassos
e um mar em ressaltos de ondas
imenso e aberto
imenso e aberto
imenso e aberto -

A Primavera




A primavera é um efeito de pirotecnia.
Uma performance de pássaros
às portas da ressurgência.
O súbito entusiasmo das flores
do mal pela dor adormecida
dos dias mais longos e mais benevolentes.
Suor vendido como água termal
em garrafinhas de oxigénio
para usar à superfície
todos os dias
e uma rara toxina
completamente apaixonada
pelo sistema nervoso central
da sua melhor tarefa:

paralisar-te, no exacto momento
em que a minha boca já não me obedece
quando as pistolas de pólen fazem pontaria
ao solstício do texto

e disparam sobre as duas personagens
uma branca eterna
e crescem os primeiros cabelos
de novos papeis