Encho os olhos de terra.
No Alentejo há muita e é de graça.
Dou-lhes esta fartura,
Antes que um só torrão, na sepultura,
Os cegue e satisfaça.
Monforte do Alentejo, 29 de Novembro de 1964.
Miguel Torga (S. Martinho de Anta, 1907-1995
in Antologia Poética 3ª ed. aumentada Coimbra
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Sobre o conto e um abismo
.jpg)
Andy Warhol " Sem título" 1985
Não sei até que ponto os meus olhos são de vidro
Até que ponto abrem as margens e salgam os rios.
As palavras que lançaste naquele ringue
Deixaram-me a boca em sangue, os dentes todos partidos;
Pendurado numa corda, num pelourinho, condenado
Oscilante na ponte sem nunca chegar à água.
Porque é disso que se trata. O incumprimento do desejo:
Não atingiste nem foste o que era preciso, o impossível
A impossível realidade da psicanálise. Uma semente
Que se lança e cresce, e cresce, e cresce, e aumenta
Na procura do sol, no sabor dos nutrientes e depois não acontece.
Não acrescenta. Esmorece e definha como erva mole.
Sem frutos nem sumo. E eram tantos os caminhos.
Não sei até que ponto os meus olhos são de vidro
Um aquário onde circulam peixes vermelhos.
Ponho pregos demasiado pequenos nas tábuas.
E são frágeis de pedras ovais os muros fracos.
Porque é disso que se trata. A ambiguidade. Os limites.
A derrota dos silêncios nos passeios da cidade.
As almas paradas. As trindades e os sinos do desconforto.
O desejo. O desejo de um cimo do mundo, longe de tudo.
O cume. O cúmulo de um salto com a luz de “eureka”
E não ser mais proveta, a experiência repleta de problemas.
As palavras que lançaste são assassinas.
Nunca mas mesmo nunca se diz a um náufrago
Que está sózinho. Não tem amigos. Não tem família.
Porque é disso que se trata. De farpas que magoam.
Os espelhos não perdoam. São assassinos à solta
Em todas as esquinas. Os espelhos não perdoam.
Partem. Partem-se. Fragmentam-se em bocados.
Apagam as imagens. São como as noites escuras.
Sem lua, essa âncora que segura os barcos
Nem que cheios de buracos, sem remos
Virados ao contrário. A lua segura os sonhos.
E é disso que se trata, a impertinência de ser
De querer ser pássaro. Um pássaro parado nos telhados.
E porque voam os pássaros e depois param?
Nos telhados, nas agulhas dos pinheiros, nos cabelos
dos salgueiros, na resistência líquida das canas da Índia?
E porque param? E é disso que se trata. Para ouvir as águas?
Para interrogar o vento? Apenas o cansaço, o descanso
A procura de alimento? Para tornar diferentes os fins de tarde?
Essas brisas fortes de mudança? Vem aí a tempestade!
As palavras que lançaste foram uma camisa suja
de vinho e colarinhos sem graça. Lavei-a no rio.
Pendurei-a cheia de vincos (que nenhum ferro esmaga)
nos bicos dos pássaros. Doze, como horas marcadas
De um relógio. Enquanto seca, corro à volta do lago
E não vislumbro nos patos pequenos a diferença.
São todos iguais. Não há qualquer surpresa. Corro.
Corro como um louco. Fujo da sombra estendida.
Descalço. De pés estridentes no lodo. Corro.
Aquelas palavras nunca existiram. Um eco. Um eco
Medonho de uma peça de teatro. Um palco de Tchekov.
Que fala de mujiques e estalagens. Uma tragédia
Bolchevique, subterrânea e triste. Não existe.
Não existem mais palavras. E é disso que se trata.
Amanhã quero um canário de penas amarelas
Uma tela do tamanho de um palácio
E milhares de folhas brancas -
Sobre o caminho
Guarda-Rios
Este sangue é por te amar
João Aguardela
A ti devo a imagem fresca dos Guarda-rios da Lua,
que velam com os seus calções apertados, o leite gordo
que em cada cratera desagua, Obliquamente enrolam os seus cabelos
feitos de espera marítima e molham os pés no leite gordo que adormece,
trazem na lapela a sua enchada e na expressão o viso cansado,
dão doces sonhos à avó do guarda-discotecas, contam anedotas aos piratas,
apertam com todas as suas pontas tudo aquilo que acende e mata,
A ti devo a doçura de ser só coisa que pinga e prata queimada,
A fuga do Egipto, cada navio que parte, a ti devo as ninfas que jogam Playstation no fundo dos poços da lua, a ti devo o tudo e o nada,
O querer ser Só Coisa tua.
Nuno Brito
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
O Mar parece Azeite (poema de Sylvia Beirute)

O MAR PARECE AZEITE
trago sinceridade no gozo e nas cenas definidas,
vivo no risco dos outros,
e por isso não sou feliz.
nada escondo nos poros das respostas.
nada me alcança do outro lado,
nada me sonha porque uma segunda adolescência
me não vaga uma angústia.
tudo sonho com psicologia quantitativa,
com o extravio propositado
de um silêncio que devora outro silêncio,
com o cultivo da nitidez
sobre a dogmática difusa de uma consciência
que gira sobre o seu eixo.
quero tirar-te todos os silêncios, meu auto-intruso
e caçador involuntário,
para entender a espessura deste acidente externo
de palavras
e ser transeunte no limite transfeito,
nas auto-promessas, tão frias de sentir e esquecer,
sem-tir e esque-cer, sentir-esquecer,
no meu infinito sustenido e directamente alheio.
hoje, às oito e quarenta, horário nobre, o mar
parece azeite,
transmudo o riso contabilístico e áspero, e
sou um miolo de frase feliz
na longinquidade que um estranho me reservaria.
Sylvia Beirute
inédito
domingo, 17 de janeiro de 2010
À beleza
.jpg)
Edward Hooper "Nu deitado" 1927
Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.
Miguel Torga, in 'Odes'
Sunset Boullevard
Ode Gente*
………………………………………………………………………………………
O tempo, perverso em não existir, conjunto de limões em fuga,
com a sua saia de séculos, a masturbar-se lentamente,
A vir-se Em todas as direcções:
Depois mais rápido moldando a cara dos lavradores
Ofegante na sua vontade circular
Cilíndrico na espera – a subir o Chiado a descer o Chiado,
A entrar em cada casa, a passear na Afurada – a saber-se coisa-nada
ele
dá-te a mão, Espera,
Pinta frescos na sala, detiora os frescos da sala
tacteia nas tuas costas uma vontade nova, muda essa vontade
cria uma nova e uma nova e uma Nova
Escreve a lápis número 3 na sua sebenta:
“Este país não é para velhos” E masturba-se devagar e
depois Rápido: E adora Cláudio Magris e toda a Antena –
e acorda com Sebald e deita-se com Sebald, viola as filhas da revolução
e é manhã e insónia a entrar em todas as tabernas
a tingir de amarelo os calendários Michelin
a crucificar este, a encher de prazeres aquele, a masturbar-se
ciclicamente até ser só Vontade de ter passado:
Tempo-Cidade, tempo-cavalo, tempo-proletário,
tempo-homem, tempo-mulher, tempo camponês que dá a mão, tempo que escreve ensaios, tempo que canoniza –
Tempo que chora leite condensado para
cima da Sebenta, com o seu rosto quadriculado que é só medo e está passado –
………………………………………………………………………………………………………...
Tempo que é União e fala por nós, que tenta chorar mas só lhe sai musgo dos olhos, fresco e verde como o que cresce nas fontes de Raguzza, que dão uma água carregada de ferro (Resta-me a Sinceridade e a Saliva de todo o mundo)
***
O Tempo a cavalgar com Zaratrusta, trusta trusta,, a procurar um efeito sonoro nos seus versos: Em busca deste ou daquele recurso estilístico que dê profundidade à rima imperfeita – a Injectar no peito uma vontade nova, um Sol líquido entre dois seios que são também montanha, onde descansa o olhar –
vários olhos que vêm os estorninhos dançarem numa nuvem única, que parece uma cabeça de Medusa, em permanente mutação: Criando novas formas do cabelo, novas expressões no sorriso …………….. Uma nuvem única que faz amor consigo própria, como se fosse com um filho por cima dos Campos de Marte - uma nuvem-estorninho a acompanhar Grieg na subida e a acompanhar Grieg na descida: Nasceu uma Estrela com baton a mais –
A Torre de Babel, as torres do Aleixo
A torre latina que só espera,
a doçura do
teu queixo – À procura da T-mésis per-fei-ta
Um triângulo com as suas três pontas acesas, que bebe demais e tem medo de cair na entropia, um triângulo-cio com problemas de erecção.
É só doçura a torre latina que cai, Gémea do silêncio e da solidão;
A nossa língua não é esquecida: Evoluirá até à deformação perfeita –
O Tempo a acender todos os interruptores da Calábria, a fechar os olhos aos missionários que merecem o descanso: A dar-lhes um sentido porque todas as coisas devem ter sentido, seja ele único ou múltiplo: Seja ele cavalo, cidade-industrial, pastor alemão, vidro, sebenta, aguardente, erecção, uma viagem a Nova York, a Grécia Inteira; seja ele vento, microscópio, lixívia de marca branca, rebanho de ovelhas, medo do escuro, uma canção de amigo, uns olhos verdes e tristes – Seja ele, fazer obras num talho, mudar de instalações o sapateiro, o preço da gasolina, o preço do trigo, o que o colhe, ou o que o come…
***
Aqui não há espera: Come o teu queijo gordo e guarda que o teu lamento não seja eterno ………. Abre todas as janelas e deixa que o mar entre em tua casa – Nasceu do lodo, a simetria, a Vontade nova, em tudo nova; Não lhe quis dar um nome. Por superstição, deixei-a também flutuar como fumo de um cigarro que desaparece e é só instante. Deixei-o ir acordar os camionistas que seguem por estradas sem curvas, e precisam de dormir ……………………………… O que nos é estranho é adocicado e múltiplo, o que nos é estranho é o que Entra … Digo Entrar. Entrar Verdadeiramente::
Fomos alguém à janela com as suas pernas de cimento, fomos o pão negro que comia, um país na direcção do vento: O meu trabalho é partir diamante com a boca e encher de calmantes toda a Escócia e a gente austral. O meu país é só vento e aproxima o bem do mal: O meu país faz compotas de petróleo cristalizado, compotas de moral e de cimento que acordam os seus filhos pela manhã, compotas que indicam uma rota nova, que pedem boleia aos camionista, que têm medo de não passar bem a mensagem – É sua missão passá-la … Dizem - Bom dia! – A este e aquele que passa, que tiram o chapéu educadamente; Que abrem os seus corações aos estranhos nas estações de comboio. Compotas que desejam mesmo um bom dia, a este e aquele viajante e só esperam que a sua rota seja perfeita.
***
Espero que alguém se deite comigo, e não saiba já se está acordado ou a dormir e que a fronteira entre a vigília e o descanso seja só um novelo com que brinca um gato, em tudo exílio e olhos verdes, um gato negro que entra e sai das torres latinas. Um gato com o sonho Americano e a Dormir por si adentro.
Manter vivas todas as Frentes e velar para que nunca se apaguem – Calcar um triângulo de espera - gelatinoso como o cancro da mama - Um Triângulo que incomoda os séculos, um triângulo que minga quando as pessoas se abraçam: um triângulo que acorda e cavalga, um triângulo que sabe três línguas e assassina por trás. Um triângulo-Solidão.
***
Em métrica antiga abrimos todas as portas para que o rio passasse, negro e gorduroso no seu leito, a dizer que o país não se mete em sarilhos, em cada esquina um tétrico coro canta. Em cada esquina essa perda de cabelos dourados, wireless latino e agudo, entra em todos os jardins, come os teus figos maduros, Quê?
Com uma flor na lapela que é o seu lamento,
A criar estilos, a passear o cão, a ouvir o concelho de todos, a dançar regeton
O Tempo a ouvir Sitiados
A talhar a pedra - a ser já só pedra e dados
a construir sólidos telhados num labirinto guloso
……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
O Coro tétrico canta:
Tudo é febre e mudança
Panteão e virilha a arder,
Tudo é promessa líquida que muda,
e manequim a ferver
Tudo é perspectiva múltipla e
nos exige a atenção,
Tudo é língua, tudo boca ,
Ode como um cão!
Esculpe-me o cabelo, o sexo e o antebraço,
Recheia de chocolate os ouriços do mar, Dá-me a solução num único abraço,
Adoça e esculpe-me os limites: Faz deles, nenhum.
*******
Acende um Farol em cada praia. Não esperes os navios. Entra em todos os seus porões sem aviso - Recheia os capitães de Susto – Enche os Porões de riso e espasmo… Penteia-os com gel de golfinho. Sempre estive perto da loucura, se não fui ela própria, sempre quis ter bigodes púrpura e ser só a chuva lá fora –
Nunca quis ser um poeta, só quis ser um navio em chamas: Um navio violado pelo seu tio, todas as manhãs e todas as tardes, um navio que há noite lê Bataille - Um Navio que se afasta dos outros navios se não tiver cuidado, um navio que só quer ser ponte, limite e União. Um navio que com os seus óculos de Sol, escreve na sua rota: - Não existe o que se escreve nas rotas -
Um navio que mesmo assim escreve e insiste em escrever, seja no osso de uma namorada morta, seja no computador, seja em rolo de papiro, em pergaminho, em papel, em folha de gelatina, em mármore, em porta de casa de banho, em quadro (pode ser com unhas ou com dentes) em areia molhada, no braço em tatuagem, nas costas em tatuagem, num deserto mexicano, num campo relvado, a chantilly num bolo de chocolate, no lodo, na lama, no gelo com patins, na cerâmica, na argila, no fogo, desenhando um rasto de gasolina, com urina num ladrilho seco – Não interessa o suporte, mais ou menos perene, ele só prova a nossa inocência, a nossa necessidade de partilhar - A literatura, só pode ser União …………… Um navio que escreve rápido no ar e em fumo de cigarro (são precisos bons reflexos e ante-braço forte) – A Literatura tem de ser União –
Nunca quis ser um poeta, sempre quis ser um espelho colocado no centro da Austrália, sempre quis ser a “fome de gente” que os espelhos têm - Pequenos fios dourados, Guardar uma coisa qualquer, um hipermercado, um segredo, proteger essa coisa dos lobos; Ser vários cangurus espalhados pelo deserto reflectidos na minha cara fosca, de um e do outro lado, uma cara fosca que é só deserto espelhado carregado de nuvens vermelhas no vidro e na sede de ter Muitas Línguas - Deserto Compositor a Criar um Requiem em Braille para que os cegos cantem uma Osana Perfeita – Para que os cegos a vejam multiforme a Afastar todas as nuvens carregadas – Para que a Fuga seja só ficar – Deserto a vestir as suas cuequitas com motivos ursinhos, a olhar para mim, espelho que não dorme porque abre todas as gavetas, todas as vontades para tirar de lá meias de licra – Sou só a vontade dos teus olhos. A Escócia a abrir trincheiras cor de rosa, África a sonhar com um incesto – Em tudo Maior –
A calçar as All-Stars - A jogar playstaition com a boca cheia de limão* Deserto a cavalgar a abrir portas – Não interessa a escolha do caminho, mas a intensidade com que se o percorre, seja ele um ou em tudo múltiplo e comprido. Deserto a abraçar deserto, deserto a espalhar-se vermelho na perda por deserto e deserto, deserto com sede de pessoas.
………………………………………………………………………………………………………...
Nunca quis ser um deserto, sempre quis ser um espelho ou um conjunto de limões _ Se fosse uma mulher, paria um espelho de espuma – Sei que a espera é o próprio Inferno, senão o Diabo Inteiro, sou o arquitecto de um labirinto:
Comer o labirinto
Sair
Ficar dentro – O Arquitecto é uma sombra e quer-se perder e espalhar pela praia ao fim da tarde, Criar a Sua Perda, um labirinto doce com muros que são folhas de gelatina, um arquitecto que só te quer a ti, todas as saídas e todas as entradas. A mais doce ária que é o azeite negro a escorrer pela boca de um paralítico. Esculpe-me o cabelo, o sexo, o antebraço, dá-me um abraço triplo, tira-me todo o ar, dá-me todo o Ar:
A noite com as suas cuequitas apertadas uiva por Maiakovsky
a língua da noite adormece os pescadores
Gosto de te ver sorrir*
******
O Riso é o Gerador Único do Universo,
só ele, quando, tudo o resto falha, permite que as estrelas,
(infanticidas por natureza), se mantenham vivas e não cortem as suas pontas,
Que as ligações frágeis, não percam vida e se extingam até à anorexia, perdendo luz e força,
ou se arrebentem por dentro sobre o seu próprio eixo desatinado (desatinando para aqui e para ali) Só o Riso é Deus, só ele cavalga e Molda verdadeiramente as caras,
só ele cria luz e espelhos de espuma, só ele goza a poesia, só ele fica sozinho, só ele dá vida.
Quem escreve “O Fim da História”, mais não faz do que a começar. Sou um recurso estilístico a olhar-se ao espelho, a beber chá verde pela manhã, a empapar o cabelo em gel …
Sou a vontade, em tudo malhada, de te ver sorrir*
………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………
Lambi o sexo a um relâmpago de virilhas acesas
os seus pintelhos tornaram-me a boca da cor do azeite,
alguns engoli e escorri para os pulmões, vi o relâmpago a lavar os dentes e a cair por cima de uma biblioteca
a literatura (a primeira morte) só serve para unir – os fios que usa são dourados,
é também dourada a sua paciência e a sua vontade de conhecer o inferno.
Ode em mutação, poema recheado de vento, poema que cavalga e é lusitano - Que é só sede e é só vento, (vontade de rir de tudo) - Poema em rima cruzada a atravessar todos os rios, relâmpago a guiar numa auto-estrada em direcção ao sul – Poema a ouvir Belle Chase Hotel com a boca cheia de cerejas negras – Ode que canta um país que não quer amanhecer, e que é brisa e triste lamento, poema que é olhos teus e se alimenta de riso. Ode cão Ode cimento.
Sempre quis ser uma cidade industrial escocesa que Turner não conseguiu pintar, sempre quis ser o acordar dos operários, que calçam as suas ceroulas, afastam o medo (Criação Absoluta e único Motor de tudo) Todos os mails não enviados que recheiam a Rede de pontas gelatinosas e fazem explodir as estrelas – De tudo o que deve ser dito com o palato aceso.
Ode Gente, Ode canção
Ode lixívia que limpa uma campa
Ode-saia e alexandrina na rima, ode com dentes podres
viciada em cocaína – Ode Gente dentro de Gente, Ode cantina,
Ode canção, perfeita no gesto – Ode hospedeira da Easy jet, Ode-gente que chove, Ode-Nuvem que tapa e destapa as cidades Belgas, Ode a abrir os frascos de mel todos, a meter-te pirilampos nos cabelos, a acender de escuridão a noite – Ode que chora quando morre o seu amigo, Ode que brilha quando morre – O Mundo começou agora e já está na sua varanda de Susto uma rapariga com a sua saia carregada de vermelho – Ode Saída a encher os pulmões de relâmpagos - Um país Ocidental que nasceu numa paralítica dança em construção.
Ode tinta num copo de espasmos, Ode de boca ao lado que precisa de um amigo,
perversa na fuga e na chegada
- O amor é como carne …
Nuno Brito
………………………………………………………………………………………
O tempo, perverso em não existir, conjunto de limões em fuga,
com a sua saia de séculos, a masturbar-se lentamente,
A vir-se Em todas as direcções:
Depois mais rápido moldando a cara dos lavradores
Ofegante na sua vontade circular
Cilíndrico na espera – a subir o Chiado a descer o Chiado,
A entrar em cada casa, a passear na Afurada – a saber-se coisa-nada
ele
dá-te a mão, Espera,
Pinta frescos na sala, detiora os frescos da sala
tacteia nas tuas costas uma vontade nova, muda essa vontade
cria uma nova e uma nova e uma Nova
Escreve a lápis número 3 na sua sebenta:
“Este país não é para velhos” E masturba-se devagar e
depois Rápido: E adora Cláudio Magris e toda a Antena –
e acorda com Sebald e deita-se com Sebald, viola as filhas da revolução
e é manhã e insónia a entrar em todas as tabernas
a tingir de amarelo os calendários Michelin
a crucificar este, a encher de prazeres aquele, a masturbar-se
ciclicamente até ser só Vontade de ter passado:
Tempo-Cidade, tempo-cavalo, tempo-proletário,
tempo-homem, tempo-mulher, tempo camponês que dá a mão, tempo que escreve ensaios, tempo que canoniza –
Tempo que chora leite condensado para
cima da Sebenta, com o seu rosto quadriculado que é só medo e está passado –
………………………………………………………………………………………………………...
Tempo que é União e fala por nós, que tenta chorar mas só lhe sai musgo dos olhos, fresco e verde como o que cresce nas fontes de Raguzza, que dão uma água carregada de ferro (Resta-me a Sinceridade e a Saliva de todo o mundo)
***
O Tempo a cavalgar com Zaratrusta, trusta trusta,, a procurar um efeito sonoro nos seus versos: Em busca deste ou daquele recurso estilístico que dê profundidade à rima imperfeita – a Injectar no peito uma vontade nova, um Sol líquido entre dois seios que são também montanha, onde descansa o olhar –
vários olhos que vêm os estorninhos dançarem numa nuvem única, que parece uma cabeça de Medusa, em permanente mutação: Criando novas formas do cabelo, novas expressões no sorriso …………….. Uma nuvem única que faz amor consigo própria, como se fosse com um filho por cima dos Campos de Marte - uma nuvem-estorninho a acompanhar Grieg na subida e a acompanhar Grieg na descida: Nasceu uma Estrela com baton a mais –
A Torre de Babel, as torres do Aleixo
A torre latina que só espera,
a doçura do
teu queixo – À procura da T-mésis per-fei-ta
Um triângulo com as suas três pontas acesas, que bebe demais e tem medo de cair na entropia, um triângulo-cio com problemas de erecção.
É só doçura a torre latina que cai, Gémea do silêncio e da solidão;
A nossa língua não é esquecida: Evoluirá até à deformação perfeita –
O Tempo a acender todos os interruptores da Calábria, a fechar os olhos aos missionários que merecem o descanso: A dar-lhes um sentido porque todas as coisas devem ter sentido, seja ele único ou múltiplo: Seja ele cavalo, cidade-industrial, pastor alemão, vidro, sebenta, aguardente, erecção, uma viagem a Nova York, a Grécia Inteira; seja ele vento, microscópio, lixívia de marca branca, rebanho de ovelhas, medo do escuro, uma canção de amigo, uns olhos verdes e tristes – Seja ele, fazer obras num talho, mudar de instalações o sapateiro, o preço da gasolina, o preço do trigo, o que o colhe, ou o que o come…
***
Aqui não há espera: Come o teu queijo gordo e guarda que o teu lamento não seja eterno ………. Abre todas as janelas e deixa que o mar entre em tua casa – Nasceu do lodo, a simetria, a Vontade nova, em tudo nova; Não lhe quis dar um nome. Por superstição, deixei-a também flutuar como fumo de um cigarro que desaparece e é só instante. Deixei-o ir acordar os camionistas que seguem por estradas sem curvas, e precisam de dormir ……………………………… O que nos é estranho é adocicado e múltiplo, o que nos é estranho é o que Entra … Digo Entrar. Entrar Verdadeiramente::
Fomos alguém à janela com as suas pernas de cimento, fomos o pão negro que comia, um país na direcção do vento: O meu trabalho é partir diamante com a boca e encher de calmantes toda a Escócia e a gente austral. O meu país é só vento e aproxima o bem do mal: O meu país faz compotas de petróleo cristalizado, compotas de moral e de cimento que acordam os seus filhos pela manhã, compotas que indicam uma rota nova, que pedem boleia aos camionista, que têm medo de não passar bem a mensagem – É sua missão passá-la … Dizem - Bom dia! – A este e aquele que passa, que tiram o chapéu educadamente; Que abrem os seus corações aos estranhos nas estações de comboio. Compotas que desejam mesmo um bom dia, a este e aquele viajante e só esperam que a sua rota seja perfeita.
***
Espero que alguém se deite comigo, e não saiba já se está acordado ou a dormir e que a fronteira entre a vigília e o descanso seja só um novelo com que brinca um gato, em tudo exílio e olhos verdes, um gato negro que entra e sai das torres latinas. Um gato com o sonho Americano e a Dormir por si adentro.
Manter vivas todas as Frentes e velar para que nunca se apaguem – Calcar um triângulo de espera - gelatinoso como o cancro da mama - Um Triângulo que incomoda os séculos, um triângulo que minga quando as pessoas se abraçam: um triângulo que acorda e cavalga, um triângulo que sabe três línguas e assassina por trás. Um triângulo-Solidão.
***
Em métrica antiga abrimos todas as portas para que o rio passasse, negro e gorduroso no seu leito, a dizer que o país não se mete em sarilhos, em cada esquina um tétrico coro canta. Em cada esquina essa perda de cabelos dourados, wireless latino e agudo, entra em todos os jardins, come os teus figos maduros, Quê?
Com uma flor na lapela que é o seu lamento,
A criar estilos, a passear o cão, a ouvir o concelho de todos, a dançar regeton
O Tempo a ouvir Sitiados
A talhar a pedra - a ser já só pedra e dados
a construir sólidos telhados num labirinto guloso
……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
O Coro tétrico canta:
Tudo é febre e mudança
Panteão e virilha a arder,
Tudo é promessa líquida que muda,
e manequim a ferver
Tudo é perspectiva múltipla e
nos exige a atenção,
Tudo é língua, tudo boca ,
Ode como um cão!
Esculpe-me o cabelo, o sexo e o antebraço,
Recheia de chocolate os ouriços do mar, Dá-me a solução num único abraço,
Adoça e esculpe-me os limites: Faz deles, nenhum.
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Acende um Farol em cada praia. Não esperes os navios. Entra em todos os seus porões sem aviso - Recheia os capitães de Susto – Enche os Porões de riso e espasmo… Penteia-os com gel de golfinho. Sempre estive perto da loucura, se não fui ela própria, sempre quis ter bigodes púrpura e ser só a chuva lá fora –
Nunca quis ser um poeta, só quis ser um navio em chamas: Um navio violado pelo seu tio, todas as manhãs e todas as tardes, um navio que há noite lê Bataille - Um Navio que se afasta dos outros navios se não tiver cuidado, um navio que só quer ser ponte, limite e União. Um navio que com os seus óculos de Sol, escreve na sua rota: - Não existe o que se escreve nas rotas -
Um navio que mesmo assim escreve e insiste em escrever, seja no osso de uma namorada morta, seja no computador, seja em rolo de papiro, em pergaminho, em papel, em folha de gelatina, em mármore, em porta de casa de banho, em quadro (pode ser com unhas ou com dentes) em areia molhada, no braço em tatuagem, nas costas em tatuagem, num deserto mexicano, num campo relvado, a chantilly num bolo de chocolate, no lodo, na lama, no gelo com patins, na cerâmica, na argila, no fogo, desenhando um rasto de gasolina, com urina num ladrilho seco – Não interessa o suporte, mais ou menos perene, ele só prova a nossa inocência, a nossa necessidade de partilhar - A literatura, só pode ser União …………… Um navio que escreve rápido no ar e em fumo de cigarro (são precisos bons reflexos e ante-braço forte) – A Literatura tem de ser União –
Nunca quis ser um poeta, sempre quis ser um espelho colocado no centro da Austrália, sempre quis ser a “fome de gente” que os espelhos têm - Pequenos fios dourados, Guardar uma coisa qualquer, um hipermercado, um segredo, proteger essa coisa dos lobos; Ser vários cangurus espalhados pelo deserto reflectidos na minha cara fosca, de um e do outro lado, uma cara fosca que é só deserto espelhado carregado de nuvens vermelhas no vidro e na sede de ter Muitas Línguas - Deserto Compositor a Criar um Requiem em Braille para que os cegos cantem uma Osana Perfeita – Para que os cegos a vejam multiforme a Afastar todas as nuvens carregadas – Para que a Fuga seja só ficar – Deserto a vestir as suas cuequitas com motivos ursinhos, a olhar para mim, espelho que não dorme porque abre todas as gavetas, todas as vontades para tirar de lá meias de licra – Sou só a vontade dos teus olhos. A Escócia a abrir trincheiras cor de rosa, África a sonhar com um incesto – Em tudo Maior –
A calçar as All-Stars - A jogar playstaition com a boca cheia de limão* Deserto a cavalgar a abrir portas – Não interessa a escolha do caminho, mas a intensidade com que se o percorre, seja ele um ou em tudo múltiplo e comprido. Deserto a abraçar deserto, deserto a espalhar-se vermelho na perda por deserto e deserto, deserto com sede de pessoas.
………………………………………………………………………………………………………...
Nunca quis ser um deserto, sempre quis ser um espelho ou um conjunto de limões _ Se fosse uma mulher, paria um espelho de espuma – Sei que a espera é o próprio Inferno, senão o Diabo Inteiro, sou o arquitecto de um labirinto:
Comer o labirinto
Sair
Ficar dentro – O Arquitecto é uma sombra e quer-se perder e espalhar pela praia ao fim da tarde, Criar a Sua Perda, um labirinto doce com muros que são folhas de gelatina, um arquitecto que só te quer a ti, todas as saídas e todas as entradas. A mais doce ária que é o azeite negro a escorrer pela boca de um paralítico. Esculpe-me o cabelo, o sexo, o antebraço, dá-me um abraço triplo, tira-me todo o ar, dá-me todo o Ar:
A noite com as suas cuequitas apertadas uiva por Maiakovsky
a língua da noite adormece os pescadores
Gosto de te ver sorrir*
******
O Riso é o Gerador Único do Universo,
só ele, quando, tudo o resto falha, permite que as estrelas,
(infanticidas por natureza), se mantenham vivas e não cortem as suas pontas,
Que as ligações frágeis, não percam vida e se extingam até à anorexia, perdendo luz e força,
ou se arrebentem por dentro sobre o seu próprio eixo desatinado (desatinando para aqui e para ali) Só o Riso é Deus, só ele cavalga e Molda verdadeiramente as caras,
só ele cria luz e espelhos de espuma, só ele goza a poesia, só ele fica sozinho, só ele dá vida.
Quem escreve “O Fim da História”, mais não faz do que a começar. Sou um recurso estilístico a olhar-se ao espelho, a beber chá verde pela manhã, a empapar o cabelo em gel …
Sou a vontade, em tudo malhada, de te ver sorrir*
………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………
Lambi o sexo a um relâmpago de virilhas acesas
os seus pintelhos tornaram-me a boca da cor do azeite,
alguns engoli e escorri para os pulmões, vi o relâmpago a lavar os dentes e a cair por cima de uma biblioteca
a literatura (a primeira morte) só serve para unir – os fios que usa são dourados,
é também dourada a sua paciência e a sua vontade de conhecer o inferno.
Ode em mutação, poema recheado de vento, poema que cavalga e é lusitano - Que é só sede e é só vento, (vontade de rir de tudo) - Poema em rima cruzada a atravessar todos os rios, relâmpago a guiar numa auto-estrada em direcção ao sul – Poema a ouvir Belle Chase Hotel com a boca cheia de cerejas negras – Ode que canta um país que não quer amanhecer, e que é brisa e triste lamento, poema que é olhos teus e se alimenta de riso. Ode cão Ode cimento.
Sempre quis ser uma cidade industrial escocesa que Turner não conseguiu pintar, sempre quis ser o acordar dos operários, que calçam as suas ceroulas, afastam o medo (Criação Absoluta e único Motor de tudo) Todos os mails não enviados que recheiam a Rede de pontas gelatinosas e fazem explodir as estrelas – De tudo o que deve ser dito com o palato aceso.
Ode Gente, Ode canção
Ode lixívia que limpa uma campa
Ode-saia e alexandrina na rima, ode com dentes podres
viciada em cocaína – Ode Gente dentro de Gente, Ode cantina,
Ode canção, perfeita no gesto – Ode hospedeira da Easy jet, Ode-gente que chove, Ode-Nuvem que tapa e destapa as cidades Belgas, Ode a abrir os frascos de mel todos, a meter-te pirilampos nos cabelos, a acender de escuridão a noite – Ode que chora quando morre o seu amigo, Ode que brilha quando morre – O Mundo começou agora e já está na sua varanda de Susto uma rapariga com a sua saia carregada de vermelho – Ode Saída a encher os pulmões de relâmpagos - Um país Ocidental que nasceu numa paralítica dança em construção.
Ode tinta num copo de espasmos, Ode de boca ao lado que precisa de um amigo,
perversa na fuga e na chegada
- O amor é como carne …
Nuno Brito
sábado, 16 de janeiro de 2010
A poética de Beethoven
Um auditório com um piano grande
De cauda , ligeiramente em cima, inclinada
E rodas de carrinhos de chá tão pequenas
Que devem ter durezas de diamantes
Para segurar as cordas, as madeiras nobres
A elegância das notas pesadas e longas
E a brilhante cor dourada dos metais.
O programa de uma única folha fala em Beethoven
Anuncia um rosto jovem na fotografia.
Quando entra o artista comenta-se a semelhança
Estica-se a fisionomia e adivinha-se a idade;
Se é moderna ou já antiga a referida fotografia.
Coincide. Tem três dias. Quatro no máximo.
Julgo que está a usar a mesma camisa.
O artista, o programa, a mesma camisa
A pose característica, em frente ao piano
A mão pousada sobre uma aresta azeviche
A vénia, as palmas, sem pressas, lentamente.
Quando há uma casaca de grilo, mais um gesto
Aquele que atira asas inuteis em bico
Para o lugar que escuta o ruído de tábuas,
A acústica de um ranger mal apertado.
Não é o caso. As calças pretas, os sapatos
Na cor de verniz dos casamentos, os dedos
Longos , embora os haja mais pequenos
Não é atributo indispensável. Os dedos
Compridos de articulações notórias
em leves estalidos de acomodação.
O piano de cauda preta, inclinada e
E os dedos leves como folhas na natureza
Ao vento, horizontais, descendo em fragmentos
De linhas e pontos de bússola e cardeais.
A sinfonia de Beethoven “A Patética”
Um nome incómodo sem origem
Pelo menos que eu saiba. Patético
Pateta, porque não “A Poética”
Não soa mais condizente?
Os braços começam de ângulo recto
E as mãos como aves voam , duplificam
O prazer de um intervalo antes de uma nota
A nova nota que intensifica o acto
De pousar no marfim branco e levantar
De novo, o voo e o silêncio e o braço
Em voo , e os meus olhos seguindo
O voo, o voo das aves, dos dedos
Da música de uma sinfonia “Poética”.
Um piano, de cordas, de cauda
E aquele plano do artista que vibra
Que me toca alma, naquela nota
Como um cupido de arco e seta
Naquela morte boa da “Poética”
Uma seta de cordas, a dor no peito
Aquele desfazer por dentro.
Lembro-me do outro filme e um quadro:
Uma sala luminosa e branca
Um rádio com algum solavanco
De ondas ténues, ruídos hertzianos,
Ruídos, a porta fechada. Um ecrã.
Um piano grande. Nós a um canto.
Observando Igor no paraíso de Paris
Que tem um olhar penetrante
Magnânimo, e se perde, perde-se de doçura:
Um doce de coco no aroma de Chanel.
Sacrilégio concerteza.Que pensamentos.
O artista deslizava nas escalas
Na primeira, na oitava, de ar lânguido
Naquela camisa branca, como se fosse fácil
E ainda essa tarde corria desvairado pela casa:
“Ainda não está bem! Que desgraça!
Vai lá estar o maestro, a professora, a D. Teresa
A Manuela, o professor, a Antena 2, o gravador!”
Digo eu. Assim o percebi ! Depois de Beethoven
Depois do Kachaturian, um ar tanto livre.
Falava. Não era só mãos.
O antigo aperto fluía em círculo
Em movimento centrípeto no fim do concerto.
O artista agradecia. As palmas ouviam-se.
As plateias nem sempre estão de acordo
Levanta, não levanta, pousa o casaco, o programa
Bravô, bravô, há sempre uma voz rouca.
Um encore, dois encores ou tantos? Bravô
Bravô, a mesma voz rouca. Acabou. Vamos.
Mas o sacrilégio não abandona. Nós a um canto.
Um centro. Um piano grande e as mãos deslizando.
A sagração da primavera em pleno Inverno
A sinfonia Poética. A imagem de Stravinsky
O perfume nº 5 -
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Amor na frigideira

em fatias miudinhas.
Esse teu refogar vulcânico,
em fogo quente e azeite abundante.
Esse teu perfume basilico, made in Italy.
Uma pitada de sal e derreto-me.
Uma invocação de toque e
aloiro vontades.
Anseio por um copo de vinho branco,
seco.
Ficar bem macio.
Descascar-me.
Anseio por uma colherada de pau
Colher-te
de pé
Comer-te.
Anseio polvilhar-te.
Verte-me em ti,
às postas.
Havemos de trocar revoluções em barra,
testar habilidades balsâmicas,
marinar pele na pele, em lume brando.
Havemos de levantar fervura,
explodir a carne apurada,
untada,
suada.
Havemos de cozinhar probabilidades,
(em 5 decilitros de qualquer coisa),
á deriva com manteiga inexperiente
e arroz bem solto.
Havemos esmorecer condimentos.
Esquecer o confeccionado.
Arrefecer,
até engrossar.
Havemos de concluir que
o amor é uma cebolada.
O robalo

O acaso predomina por volta do meio-dia
hora indistinta de refeição matutina.
Um restaurante vazio. Os últimos talheres
e a mesa ao fundo de chapéus de cozinha,
aventais de bolsos largos, alças limpas;
o último descanso antes de mais um dia.
Apenas meia-hora e chegam as formigas
e algumas cigarras que falam, falam, falam
pelas mãos, pelos cabelos em desassossego.
Um robalo, filetes de pescada, coelho estufado.
Aguardam pacientes as iguarias;
arrefecidas, sózinhas; se tivessem lágrimas
talvez usar toalhas em vez de guardanapos.
Vem a propósito a mesa contígua:
“ Não imaginas o sufoco, o frio, o jeep
um continente de filamentos brancos
uma paisagem de névoas, muitas e finas
como se nem céu nem estrelas
que cintilam, salvam e iluminam.
Tan-tan-tan e nada, avariado o abominável
e nós parados, a despedir vida
na fúria que consumia o convite:
Gostas de neve? Que tal as montanhas da Suíça?
Que frio. Que frio. Que frio. Não imaginas.
No infinito. Tanta sede. Tanto gelo.
Água! Dêem-me água! Não! Não! Whiskie!
Uma garrafinha térmica de boca pequenina!
Que frio. Não imaginas!
E ele! Impávido olhando o carro!
O túmulo! O parvo! Como se aquela lata
fosse um filho fraco que precisa de cuidado.
Ser corrigido. Que raiva! Que desvario!
Dois pontapés assentes nas rodelas de borracha.
Maldito jeep!”
Coloquei auricular ao fazer de conta, inventar:
“Sim! Claro! Naturalmente! Em Santa Catarina.
Os documentos. O B.I. , o número do contribuinte.”
O ar alheado de quem nem ali está
pedindo por fim laranja, doce em fatias.
Mas no fundo a voz de rapina, inaudível:
“Não parem. Vá lá. Faço-me pequenino.
Pego num livro. Continuem as fantasias.”
Na mesa contígua, ali ao lado:
“Bem te disse! Fim de ano decente
pede pedras de granito e uma lareira
a alegria em casa dos amigos;
os corridinhos, os sambinhas, palavras soltas
disparos de rolhas de cortiça
enquanto há pés de dança e energia.
Desta dita durou até às tantas
quando a lua bocejou, abriu os braços
teve preguiça – deitou a noite subiu o dia.”
Doze gramas de açúcar não é bom para a glicose
mas depois de me obrigarem na longínqua Inglaterra
prazeres de café amargo, gosto dele muito doce.
Na mesa contígua, ali ao lado
um prato vazio, não há restos
apenas faca e garfo, encostados
e o guardanapo abandonado.
Do outro o robalo, vestido de Inverno
de soslaio, olhar de vidro, prateado
resiste.
“ Não consigo! Não quero! Faz-me lembrar o frio.
Que frio! Que frio! Não imaginas!”
Levanto-me. A conversa pára.
Cá fora assobio e sinto quente a alma
mas arrasto de surpresa os pés frios
como se dois cubos de gelo...
Deslizo e medito:
“Queres ver que o robalo...”-
Dobrada à moda do Porto
Na sequência de um desafio lançado aos antigos participantes nos cursos de escrita criativa em poesia com a poetisa Ana Luísa Amaral surgiram vários poemas da autoria dos participantes e de alguns poetas por demais conhecidos. O tema proposto era sobre algo que se associasse a culinária ou alimentação. Como exemplo foi lembrado o poema do heterónimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, "Dobrada à moda do Porto":
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei multo bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos
( Na sequência deste surgiu o já publicado "Chávena de chá" de José Almeida da Silva e outros que vão ser publicados)
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei multo bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos
( Na sequência deste surgiu o já publicado "Chávena de chá" de José Almeida da Silva e outros que vão ser publicados)
Chávena de chá
Sublime a chávena de chá deste fim de tarde.
Surgiu dela a tua imagem de menina. O chá
Não estava forte. Não estava. Chamemos-lhe
Afecto ou tisana. De facto tornou-se um momento
De quente harmonia. Vi-o reflectido nos teus olhos
E na indómita vontade que me invadiu de ficar assim
Contigo para sempre. O bem-estar é doce e líquido
Como o sangue – fonte de vida sem sobressaltos –
Em que é dual a liberdade. E estou certo. Sim, estou
Certo de que a tisana ou o afecto deste fim de tarde
Inscreveu em nós sossegadamente a eternidade.
(03.02.007)
José Almeida da Silva
Surgiu dela a tua imagem de menina. O chá
Não estava forte. Não estava. Chamemos-lhe
Afecto ou tisana. De facto tornou-se um momento
De quente harmonia. Vi-o reflectido nos teus olhos
E na indómita vontade que me invadiu de ficar assim
Contigo para sempre. O bem-estar é doce e líquido
Como o sangue – fonte de vida sem sobressaltos –
Em que é dual a liberdade. E estou certo. Sim, estou
Certo de que a tisana ou o afecto deste fim de tarde
Inscreveu em nós sossegadamente a eternidade.
(03.02.007)
José Almeida da Silva
Fora e dentro
Lá fora os relâmpagos iluminavam
A escuridão das ruas e o medo
Dos trovões e os raros transeuntes,
Os automóveis moviam-se a custo,
E a chuva transformava a cidade
Em rios de lama e mares de aflição.
Cá dentro a amizade destilava-se
Em conversas, unia os poetas à mesa
Dava lugar à memória longínqua
E próxima da poesia e dos poetas
E as provas tipográficas de toda
A poesia da poeta maior – 500 páginas –
Ali sobre a mesa e ainda dois livros
Que não vieram jantar, mas vão chegar
À gráfica e depois aos ávidos leitores.
Urdiram-se encontros mensalmente
– Não pode perder-se o hábito
Da reunião salutar da poesia –
Da Mestra e dos discípulos –
Aprender pede uma eternidade
Só assim se tece a liberdade
E se derrubam fronteiras
E as pulseiras com que as normas
Destinam o destino e o caminho.
[Uma pinga na mesa entrelaçava
O fora e o dentro e o momento.]
Leça da Palmeira – à beira-mar – é lugar
De ventos por achar. É lá que vive
Em memória o Nobre António
Do lado de lá da Casa de Chá
Desenhada por Siza, o Arquitecto.
E no interior da marítima cidade,
Junto à Igreja Matriz, repousa o Poeta.
Vive Só como sempre se sonhou
No meio de lembranças e saudades
Sem esperanças de voltar à Torre
De Anto. Os seus versos, um espanto.
Só desassossegos e lamentações.
Lá fora, sem dó, cai chuva a rodos,
Continua o vendaval em liberdade.
Era melhor a chuva de molha todos,
Saíamos para a rua e colhíamos Poesia
E se fosse início de Setembro engordava
As uvas – néctar de deuses e da alegria.
Cá dentro o relógio empurrava-nos para fora.
Saímos mesmo assim, aberto o guarda-chuva.
Os carros estavam longe. Veloz, o vento soprava
Rajadas fortes, indiscretas. E a casa lá longe
– Um paraíso ao alcance de uns quilómetros,
Simples versos, inscritos num recanto do presente.
(02.01.2010)
José Almeida da Silva
A escuridão das ruas e o medo
Dos trovões e os raros transeuntes,
Os automóveis moviam-se a custo,
E a chuva transformava a cidade
Em rios de lama e mares de aflição.
Cá dentro a amizade destilava-se
Em conversas, unia os poetas à mesa
Dava lugar à memória longínqua
E próxima da poesia e dos poetas
E as provas tipográficas de toda
A poesia da poeta maior – 500 páginas –
Ali sobre a mesa e ainda dois livros
Que não vieram jantar, mas vão chegar
À gráfica e depois aos ávidos leitores.
Urdiram-se encontros mensalmente
– Não pode perder-se o hábito
Da reunião salutar da poesia –
Da Mestra e dos discípulos –
Aprender pede uma eternidade
Só assim se tece a liberdade
E se derrubam fronteiras
E as pulseiras com que as normas
Destinam o destino e o caminho.
[Uma pinga na mesa entrelaçava
O fora e o dentro e o momento.]
Leça da Palmeira – à beira-mar – é lugar
De ventos por achar. É lá que vive
Em memória o Nobre António
Do lado de lá da Casa de Chá
Desenhada por Siza, o Arquitecto.
E no interior da marítima cidade,
Junto à Igreja Matriz, repousa o Poeta.
Vive Só como sempre se sonhou
No meio de lembranças e saudades
Sem esperanças de voltar à Torre
De Anto. Os seus versos, um espanto.
Só desassossegos e lamentações.
Lá fora, sem dó, cai chuva a rodos,
Continua o vendaval em liberdade.
Era melhor a chuva de molha todos,
Saíamos para a rua e colhíamos Poesia
E se fosse início de Setembro engordava
As uvas – néctar de deuses e da alegria.
Cá dentro o relógio empurrava-nos para fora.
Saímos mesmo assim, aberto o guarda-chuva.
Os carros estavam longe. Veloz, o vento soprava
Rajadas fortes, indiscretas. E a casa lá longe
– Um paraíso ao alcance de uns quilómetros,
Simples versos, inscritos num recanto do presente.
(02.01.2010)
José Almeida da Silva
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Império (poema de Sylvia Beirute)

IMPÉRIO
posso exigir apenas até à hesitação.
hesitação.
hesitação que externa uma abertura
que externa uma condição.
uma condição que externa uma verificabilidade
condicionada.
uma compulsão que consome para não
multiplicar.
multiplicação. primeira multiplicação.
segunda. terceira. infinita. imperativa.
{todo o infinito tem imperatividade
ou império}.
prossecução. calculador da cegueira
das estrelas. reinício. poderei
exigir-te, recordo, apenas até à hesitação.
a hesitação está muito antes do mundo
e o maior paradoxo
é procurar-me a mim mesma
e o sangue ficar do meu lado.
Sylvia Beirute
inédito
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Domingo no campo

Aos domingos, quando os sinos tocam
de manhã, o que neles se toca é a manhã,
e todas as manhãs que nessa manhã
se juntam, com os dias da infância que
nunca mais acabavam, as casas da aldeia
de portas abertas para quem passava,
as ruas de terra batida onde as carroças
traziam as coisas do campo, os cães que
corriam atrás delas, uma crença no sol
que parecia ter expulso todas as nuvens
do céu, e a eternidade desses domingos
que ficaram na memória, com o ressoar
dos sinos pelos campos para que todos
soubessem que era domingo, e não havia
domingo sem os sinos tocarem a lembrar,
a cada badalada, que os domingos não
são eternos, e que é preciso viver cada
domingo como se fosse o primeiro, para
que o toque dos sinos não dobre por
quem não sabe que é domingo.
Nuno Júdice
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