O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.
O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.
Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.
São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.
E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade.
Carlos Drummond de Andrade, in 'Amar se Aprende Amando'
sexta-feira, 3 de julho de 2009
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Biblioteca
Bibliotecas nítidas na identidade primária
número:três cinco seis seis um sete seis.
As gavetas de fichas brancas
o cartão roído na procura dos livros.
Escolhia o Nobel da América: Steinbeck
"Vinhas da Ira", " Pérola", "Pastagens do Céu".
Místicas de quadros vagabundos, um pós guerra
sinais de fumo sujo nos "Bairros da Lata".
Personagens cativos e o leitor jovem no início
suspenso de palavras inscritas de feitiços
"A um Deus desconhecido".
Os dias no grande edifício dos claustros, altos
onde vento zumbia de subidas nas escadas de pedra
à grande sala onde pousava o silêncio dos olhares
leitura doce, ácida, alcalina de enredos, fantasias.
Os grandes livros no traço usado de riscos indevidos
os sublinhados, as capas de pele, macias; as palmas
como insignias de almas despertas, ali, vividas.
Tantos e tantos dias de Biblioteca
onde lia os primos versos dos poetas
sementes pequenas ainda inertes
de "... Leonor pela verdura..."
por "... mares nunca antes navegados..."
número:três cinco seis seis um sete seis.
As gavetas de fichas brancas
o cartão roído na procura dos livros.
Escolhia o Nobel da América: Steinbeck
"Vinhas da Ira", " Pérola", "Pastagens do Céu".
Místicas de quadros vagabundos, um pós guerra
sinais de fumo sujo nos "Bairros da Lata".
Personagens cativos e o leitor jovem no início
suspenso de palavras inscritas de feitiços
"A um Deus desconhecido".
Os dias no grande edifício dos claustros, altos
onde vento zumbia de subidas nas escadas de pedra
à grande sala onde pousava o silêncio dos olhares
leitura doce, ácida, alcalina de enredos, fantasias.
Os grandes livros no traço usado de riscos indevidos
os sublinhados, as capas de pele, macias; as palmas
como insignias de almas despertas, ali, vividas.
Tantos e tantos dias de Biblioteca
onde lia os primos versos dos poetas
sementes pequenas ainda inertes
de "... Leonor pela verdura..."
por "... mares nunca antes navegados..."
Condição... Da raiva à luz...
Obrigado por nada.
O professor é feito de uma matéria inefável, a qual, a maioria dos mortais não atinge.
Sim, o professor é imortal!
É algo que perpassa gerações, que ultrapassa referentes, que dispensa o comezinho, que de uma forma ou outra se incorpora e se enraíza num começo ancestral, se dela se pode falar, daquilo que conhecemos por Humanidade.
Adão mestre e preceptor de Eva e, Eva, preceptora e mestre de Adão.
Desse relacionamento pedagógico iniciático provém toda a candura que o caracteriza. A percepção de que tudo é composto de mudança, tudo é efémero e, que as modas ou circunstâncias se abatem sobre si mesmas porque ensinar é apenas e nada mais do que a arte de se imiscuir, torna-o, conscientemente, ser de cerviz baixa, típica atitude de quem aprende e ensina, acreditando piamente que o discípulo será sempre superior ao mestre.
Utopia, mito? Nem por isso!
Deixem-no fazer ao que geneticamente é propenso.
O Paraíso surge, como sempre surgiu nas mais adversas circunstâncias.
O caldo em que foi gerado, o relacionamento hierarquicamente democrático provindo dos tempos da criação, permite-lhe criar contextos e condições de mimar seres pensantes, se é que isso interessa, verdadeiramente necessários a épocas futuras.
Sim, há algo de inefável!
Não se aprende, não se ensina, não se transmite.
É uma vivência concêntrica, simultânea, que desperta no agente e circunstantes a essência do que é e do que será, do que foi e do que persistirá.
Sim, é assim que o professor é imortal!
É o fiel de balança entre poderes.
É sopro, é alma, é átomo no coração de quem o ama e deprecia.
É, de facto, célula estaminal.
Da diferenciação, cria e recria a alma, toda a célula existente num povo, cérebro, osso, coração, músculo, pele e, assim, cumpre Portugal.
Grandioso este poder ingénito. Inefável, de origem divina ou transcendente com atributos de beleza e perfeição superiores ao nível terreno não expresso em palavra humana.
Na bíblia, este poder ingénito e inefável, ocorre como inexprimível e indescritível.
Ser professor é arte performativa transcendental e, como tal, inexprimível, indescritível e inquantificável.
Deixem-no ser mito, imortal, inefável… o país agradecer-nos-á, pois este ser mitológico ancestral onde coexiste o utópico e o real, onde o ser é ter e, o ter significa inexoravelmente ser o saber, cumpre a difícil arte de ser autóctone em português
Ente imortal e estranha condição.
É sopro.
É alma.
É átomo no coração de quem o ama e deprecia.
É, de facto, mito.
Mito que é um nada e que é tudo e, como sempre quer, o homem sonha, a obra nasce.
Ser Português!
Obrigado por tudo.
A.J.Lima Reis
Texto publicado por Maria Celeste Carvalho
O professor é feito de uma matéria inefável, a qual, a maioria dos mortais não atinge.
Sim, o professor é imortal!
É algo que perpassa gerações, que ultrapassa referentes, que dispensa o comezinho, que de uma forma ou outra se incorpora e se enraíza num começo ancestral, se dela se pode falar, daquilo que conhecemos por Humanidade.
Adão mestre e preceptor de Eva e, Eva, preceptora e mestre de Adão.
Desse relacionamento pedagógico iniciático provém toda a candura que o caracteriza. A percepção de que tudo é composto de mudança, tudo é efémero e, que as modas ou circunstâncias se abatem sobre si mesmas porque ensinar é apenas e nada mais do que a arte de se imiscuir, torna-o, conscientemente, ser de cerviz baixa, típica atitude de quem aprende e ensina, acreditando piamente que o discípulo será sempre superior ao mestre.
Utopia, mito? Nem por isso!
Deixem-no fazer ao que geneticamente é propenso.
O Paraíso surge, como sempre surgiu nas mais adversas circunstâncias.
O caldo em que foi gerado, o relacionamento hierarquicamente democrático provindo dos tempos da criação, permite-lhe criar contextos e condições de mimar seres pensantes, se é que isso interessa, verdadeiramente necessários a épocas futuras.
Sim, há algo de inefável!
Não se aprende, não se ensina, não se transmite.
É uma vivência concêntrica, simultânea, que desperta no agente e circunstantes a essência do que é e do que será, do que foi e do que persistirá.
Sim, é assim que o professor é imortal!
É o fiel de balança entre poderes.
É sopro, é alma, é átomo no coração de quem o ama e deprecia.
É, de facto, célula estaminal.
Da diferenciação, cria e recria a alma, toda a célula existente num povo, cérebro, osso, coração, músculo, pele e, assim, cumpre Portugal.
Grandioso este poder ingénito. Inefável, de origem divina ou transcendente com atributos de beleza e perfeição superiores ao nível terreno não expresso em palavra humana.
Na bíblia, este poder ingénito e inefável, ocorre como inexprimível e indescritível.
Ser professor é arte performativa transcendental e, como tal, inexprimível, indescritível e inquantificável.
Deixem-no ser mito, imortal, inefável… o país agradecer-nos-á, pois este ser mitológico ancestral onde coexiste o utópico e o real, onde o ser é ter e, o ter significa inexoravelmente ser o saber, cumpre a difícil arte de ser autóctone em português
Ente imortal e estranha condição.
É sopro.
É alma.
É átomo no coração de quem o ama e deprecia.
É, de facto, mito.
Mito que é um nada e que é tudo e, como sempre quer, o homem sonha, a obra nasce.
Ser Português!
Obrigado por tudo.
A.J.Lima Reis
Texto publicado por Maria Celeste Carvalho
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Dia Mundial das Bibliotecas

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a minha casa é feita
de pó e de papel
labirinto de imagem, palavra e sonho
terra de magia e torre de babel
tem o cheiro acastanhado
dos segredos
e o silêncio da alma
assídua e devota
que toca com os olhos
e sente
na ponta dos dedos
cada estante, cada lombada, cada cota
os livros –
direitos ou tombados,
pequeninos e pesadões,
fora de sítio, arrumados,
e empilhados em montões –
chamam o meu nome
(com um chamar bonito)
em prosa ou em verso,
manuscrito ou impresso
depois dão testemunho
de ciência, ficção e memória
que me prende e liberta
num só momento
por uma página, por uma história
pelas palavras que alguém
um dia escreveu no vento
é de pó e de papel
esta casa que é uma ponte
tem um postigo no telhado
de onde vejo o horizonte
e uma janela enorme
que dá para o meu jardim
não é uma casa, nem é minha
de pó e de papel
labirinto de imagem, palavra e sonho
terra de magia e torre de babel
tem o cheiro acastanhado
dos segredos
e o silêncio da alma
assídua e devota
que toca com os olhos
e sente
na ponta dos dedos
cada estante, cada lombada, cada cota
os livros –
direitos ou tombados,
pequeninos e pesadões,
fora de sítio, arrumados,
e empilhados em montões –
chamam o meu nome
(com um chamar bonito)
em prosa ou em verso,
manuscrito ou impresso
depois dão testemunho
de ciência, ficção e memória
que me prende e liberta
num só momento
por uma página, por uma história
pelas palavras que alguém
um dia escreveu no vento
é de pó e de papel
esta casa que é uma ponte
tem um postigo no telhado
de onde vejo o horizonte
e uma janela enorme
que dá para o meu jardim
não é uma casa, nem é minha
no fundo
ela é todo o mundo
e faz parte de mim.
ela é todo o mundo
e faz parte de mim.
raquel patriarca
um.julho.doismilenove
O romper da névoa na noite pálida
Só por acaso na noite pálida
se desvela a forma plácida
de um coreto no jardim.
Só por acaso a necessidade
de um fumo que se evola
em consumos de cinza
conduz os passos
ao ímpeto surdo
de uma orquestra voando
em círculos límpidos.
Só por acaso ao longe
a proximidade humana
de um vazio no escuro
a batida fora de horas
um jogging de cadências
os ritmos e a batuta.
O filtro assomava
o fastio de um fim
o cigarro;
dissonante melodia.
Não foi só por acaso
o breve lamento da brasa
na bica líquida;
último assobio.
Mais perto a batida
a consulta de uma bracelete
onde fugia o tempo
biorritmo presto da corrida.
Passou ofegante a figura feminina
e no mesmo instante o silêncio
nas grades verdes em seta
sem maestro sem orquestra.
No olhar neutro das estrelas
a luz dissonante de paletas
a impossibilidade dos poemas.
Só por acaso o brilho purpurina
a pulseira caída junto à fonte
numa bolsa de tecido andino
cores púrpura, azul e rouge
de uma queda amortecida.
No espelho de água risco o burburinho
o ritmo cardíaco, a batida,o dia seguinte
o romper da névoa na noite pálida
o coreto adormecido.
se desvela a forma plácida
de um coreto no jardim.
Só por acaso a necessidade
de um fumo que se evola
em consumos de cinza
conduz os passos
ao ímpeto surdo
de uma orquestra voando
em círculos límpidos.
Só por acaso ao longe
a proximidade humana
de um vazio no escuro
a batida fora de horas
um jogging de cadências
os ritmos e a batuta.
O filtro assomava
o fastio de um fim
o cigarro;
dissonante melodia.
Não foi só por acaso
o breve lamento da brasa
na bica líquida;
último assobio.
Mais perto a batida
a consulta de uma bracelete
onde fugia o tempo
biorritmo presto da corrida.
Passou ofegante a figura feminina
e no mesmo instante o silêncio
nas grades verdes em seta
sem maestro sem orquestra.
No olhar neutro das estrelas
a luz dissonante de paletas
a impossibilidade dos poemas.
Só por acaso o brilho purpurina
a pulseira caída junto à fonte
numa bolsa de tecido andino
cores púrpura, azul e rouge
de uma queda amortecida.
No espelho de água risco o burburinho
o ritmo cardíaco, a batida,o dia seguinte
o romper da névoa na noite pálida
o coreto adormecido.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Pastelaria
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mário Cesariny (Lisboa, 1923-2006)
in Nobilíssima Visão
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mário Cesariny (Lisboa, 1923-2006)
in Nobilíssima Visão
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Castelos de pedras pequenas
Surge sem defesa a tontura do lado detrás da nuca
a impressão de um olhar cravado que nada mostra
esconde, não desvenda, um lugar de outros
que não se conhecem, sombras de outras histórias
na ansiosa existência indefinida de diversos sentidos
os recém-nascidos, os do meio, os mais antigos.
Por vezes a tontura surge como eixo de um globo
corte certeiro de Equador nas florestas tropicais
chuvas caudalosas, calores infinitos, Amazónias
de paisagens magníficas, arábicos ventos desertos
de passos lentos que conduzem à vida dos Nilos.
Não pára esse olhar intenso do lado detrás da nuca
como uma queimadura no dia frio; um pêndulo largo
contando os segundos, alinhando os ponteiros
no som das aves.
Construo paredes, ergo castelos de pedras pequenas.
Os quadros nas paredes não são meros adereços
inertes, sem vida. Os quadros são significantes
insubmisssos, soldados de futuro, células vivas.
Ruas pequenas, muitas esquinas
na reinvenção de um novo ser,
uma planta de uma nova fotossíntese,
seiva líquida de cor rubra, vertigem
nesse olhar de traves grossas
por trás da nuca...
e a tontura do vapor
de uma veloz locomotiva...
a impressão de um olhar cravado que nada mostra
esconde, não desvenda, um lugar de outros
que não se conhecem, sombras de outras histórias
na ansiosa existência indefinida de diversos sentidos
os recém-nascidos, os do meio, os mais antigos.
Por vezes a tontura surge como eixo de um globo
corte certeiro de Equador nas florestas tropicais
chuvas caudalosas, calores infinitos, Amazónias
de paisagens magníficas, arábicos ventos desertos
de passos lentos que conduzem à vida dos Nilos.
Não pára esse olhar intenso do lado detrás da nuca
como uma queimadura no dia frio; um pêndulo largo
contando os segundos, alinhando os ponteiros
no som das aves.
Construo paredes, ergo castelos de pedras pequenas.
Os quadros nas paredes não são meros adereços
inertes, sem vida. Os quadros são significantes
insubmisssos, soldados de futuro, células vivas.
Ruas pequenas, muitas esquinas
na reinvenção de um novo ser,
uma planta de uma nova fotossíntese,
seiva líquida de cor rubra, vertigem
nesse olhar de traves grossas
por trás da nuca...
e a tontura do vapor
de uma veloz locomotiva...
sábado, 27 de junho de 2009
A vida
A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;
a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;
a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.
Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento"
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;
a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;
a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.
Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento"
A folha branca na manhã complexa
A réstea de luz suficiente, o oxigénio necessário
um braço de sol, anjo caído que ilumina
a lisa folha branca disponível
na manhã complexa.
A luz suficiente recolhe numa aurora circular
o olhar fundo de uma noite incompleta.
No íntimo inclinar de sobrancelhas
encontro a ausência no teu mundo
a escondida claridade do teu sorriso
cândido, a estranha sensação diferente
de um toque demasiado leve nos lábios.
Quase o choque imediato de neurónios
na queda imprevista de umas chaves
e o deslize de uma auréola
para o lado de lá da janela.
Uma brisa,
fluxo imperceptível de Venturi,
estabelece a fronteira entre a rua,
a saída no corredor e o lugar fixo
de gravidade presa no meio espaço
de uma sala sem a luz suficiente
o oxigénio necessário depois do bater
da porta de uma despedida geométrica.
A folha branca eleva-se um pouco
na corrente de ar à altura medida
de um prisma de cores cruzadas.
Um código de palavras invisíveis
surge nas sombras de um poema
guardado; incompreendida
tatuagem interna, inscrita
no sabor ainda presente
de uma pele de pétalas
macias.
um braço de sol, anjo caído que ilumina
a lisa folha branca disponível
na manhã complexa.
A luz suficiente recolhe numa aurora circular
o olhar fundo de uma noite incompleta.
No íntimo inclinar de sobrancelhas
encontro a ausência no teu mundo
a escondida claridade do teu sorriso
cândido, a estranha sensação diferente
de um toque demasiado leve nos lábios.
Quase o choque imediato de neurónios
na queda imprevista de umas chaves
e o deslize de uma auréola
para o lado de lá da janela.
Uma brisa,
fluxo imperceptível de Venturi,
estabelece a fronteira entre a rua,
a saída no corredor e o lugar fixo
de gravidade presa no meio espaço
de uma sala sem a luz suficiente
o oxigénio necessário depois do bater
da porta de uma despedida geométrica.
A folha branca eleva-se um pouco
na corrente de ar à altura medida
de um prisma de cores cruzadas.
Um código de palavras invisíveis
surge nas sombras de um poema
guardado; incompreendida
tatuagem interna, inscrita
no sabor ainda presente
de uma pele de pétalas
macias.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
quinta-feira, 25 de junho de 2009
A quadra premiada
Dancei com tão pouca arte
que até o cravo ao meu peito
com o teu, num halo à parte,
mostrou que tinha mais jeito!
Agostinho
Esta foi a quadra premiada no concurso deste ano do "Jornal de Notícias".
Uma tradição poética que se mantém!
que até o cravo ao meu peito
com o teu, num halo à parte,
mostrou que tinha mais jeito!
Agostinho
Esta foi a quadra premiada no concurso deste ano do "Jornal de Notícias".
Uma tradição poética que se mantém!
Um cardume de cabeças
Concerteza a noite na imensidâo
de santos populares. Muitos, são muitos
debicando broas e sardinhas
engolindo ruídos, saboreando as notas
de um concerto de Villa Lobos
na praça do cogumelo gigante
cimento branco...
Antes era as Fontainhas (no lugar assassinado
de uma ponte) e as barracas, carroceis
farturas, desacatos e cadeiras circulares
na roda giratória de um enxame de gritos.
O fogo de artifício junto ao muro, beiral do rio
um cardume de cabeças,olhos brilhantes
os lábios abertos de espantos.
Passos lentos até ao "Cristal" destruído
o palácio inexistente. O final destino
nas tílias da Rotunda.
No caminho inverso barulhos breves
os pés mais arrastados, o suporte
de relvas em desalinho na Avenida.
Comprava sempre o "Notícias", na madrugada
onde se lia as quadras, as melhores
a premiada.
Na noite de S. João até aos nossos dias
permanece a memória e a poesia.
de santos populares. Muitos, são muitos
debicando broas e sardinhas
engolindo ruídos, saboreando as notas
de um concerto de Villa Lobos
na praça do cogumelo gigante
cimento branco...
Antes era as Fontainhas (no lugar assassinado
de uma ponte) e as barracas, carroceis
farturas, desacatos e cadeiras circulares
na roda giratória de um enxame de gritos.
O fogo de artifício junto ao muro, beiral do rio
um cardume de cabeças,olhos brilhantes
os lábios abertos de espantos.
Passos lentos até ao "Cristal" destruído
o palácio inexistente. O final destino
nas tílias da Rotunda.
No caminho inverso barulhos breves
os pés mais arrastados, o suporte
de relvas em desalinho na Avenida.
Comprava sempre o "Notícias", na madrugada
onde se lia as quadras, as melhores
a premiada.
Na noite de S. João até aos nossos dias
permanece a memória e a poesia.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, 1923 - Porto, 2005)
in Os Amantes Sem Dinheiro (Lisboa, 1950)
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, 1923 - Porto, 2005)
in Os Amantes Sem Dinheiro (Lisboa, 1950)
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