domingo, 4 de janeiro de 2009

Estrelas

A lua hoje está só e cheia
As estrelas cobrem a lua de dor e cor
Eu sou só pó
Eu estou só e cheia
A lua é uma ideia minha
Daquelas grandes ideias que surgem à tardinha
Eu sou só lua e estrelas
Tu és uma ideia minha
Que surge sempre à tardinha
As estrelas não me dizem por onde ir
Na minha ambição de me perder
Nas tuas estrelas
As estrelas cobrem a lua de cor e dor
Eu estou cheia e só de ti
Terra em vaso de estrelas
Tu a flor que sobe em ar
Com um esguio abraço
Tocas a lua cheia e só

Diz Vélasquez às Meninas

Espelho meu
Espelho meu
Há algum quadro mais belo do que o meu?

O espelho em 5 tempos

Cena Um
Palco cheio.
O pintor hesita junto à luz
Olha para trás
Talvez para nós.

Cena Dois
Palco vazio.
O pintor olha a sua obra
Olha em frente.
Talvez para nós.

Cena três
Centro do palco
A menina posa e é a luz
Olha o espelho
Talvez para nós.

Cena quatro
Primeiro plano.
O cão olha para baixo.
Talvez para nós.

Cena cinco
Palco duplo
Eu olho para o quadro
Talvez para mim.

sábado, 3 de janeiro de 2009

A pepita de uma brasa

Não me fales do Jivago das estepes
nem dos gumes afiados dos palácios
do teu gelo

Sei onde estão
quando findos lumes são destino
e os desejos desvario.

Estende-te aqui comigo no tapete de lã
merino, ao comprido, na sala do piano
onde ardentes as brasas são recinto
circunscrito circo de cenas
arena dos barulhos de silêncios.

Porque te cintas num anel Nibelungo
nos acesos comentários de Weimar
construindo razões débeis de atenção
nesse íman fraco de plástico
estático suporte de encantos supostos
que o não são.

Elimina a pose, solta a lágrima
abre a cratera desnuda da fúria
avalanche de esfera e sem arestas
agiganta o que te digo sempre - sublima!

Há o brilho na bola de sabão - azul e frágil
no amarelo-metal - encantador
no cinza frio - prata ou alumínio
e no teu sorriso - que arrepia o dorso
amolece a face, humedece a nascente
do meu rosto - sublinha
as palavras que não disse
não tive tempo.

Embora sinta cada um como cúpula
cada polpa do seu dedo na sala dividida
e um vidro plano duplo ao meio cinda
a linha fronteira das marquesas
estonteando as frases de ecos distantes
(chaves partidas de cofres errados),
nas diversas chaminés sobem fumos quentes
arrastam fuligem refractária
adensam a sina que adivinha
sucedidas terapias, unos sentidos.

Somos agora
olhos de lado ligados
longe dos
siderados hipnóticos mortais dos
falsos tectos de focos halogéneos
das falsas paredes cegas de luzes
extintas

Reassumindo o estaladiço crepitar
a pepita de uma brasa
que estilhaça o vidro glacial

Tudo termina numa frase:
"Este Inverno no jardim
pequenas violetas no canteiro
e mais à frente ali à esquerda
junto ao limoeiro
quatro lírios roxos
raiados de lábios amarelos;
não costuma ser assim
em Janeiro a natureza"

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Rosto velho versus Ano novo

Cai o dia, estende-se a noite,
quase a findar mais um ano;
eu olho-me ao espelho,
envolto em fadigas, canseiras,
de tantas e absurdas frustrações;
não vislumbro sinais de olheiras,
pois só vejo sombras, as velhas desilusões.

Acreditava não ver ali ninguém,
ou talvez quisesse não ter alguém
do outro lado do meu espelho...

Mas quem vejo eu ?
Alguém que me perscruta,
de rosto tão perplexo,
mas assaz sério, sisudo;
pálpebras lisas, fontes sem rugas,
aquelas erguidas em contemplação
sobre uns olhos esbugalhados,
espantados e muito incrédulos!

E que vê este rosto de infante,
configurado por certo em Ano Novo?

Do lado de cá do meu espelho
acredito que veja a resignação,
mas acima de tudo o combate e a esperança;
porventura a visão do Ano Velho
porque apenas termina mais um ano,
de soberba luta pela igualdade,
e pela premente difusão do amor e da justiça,
mantendo-se na vanguarda
para um dia atingir seus sonhos de Criança!

( António Luíz , 31-Dezembro-2008)

Apesar da fadiga no momento da confecção deste pequeno poema,
espero que gostem. Aproveito esta oportunidade para desejar as maiores Venturas
e óptima Saúde para 2009.
Saudações poéticas .

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A partir de As Meninas de Velásquez

As rendas e os tules tendem a entediar
Por isso vou até ao fundo, à porta aberta onde reluzem escadas
Que não sei onde vão dar
Trazem luz e um homem de bigode que periclita entre degraus
Por que é que o cão não ladra ou morde a anã?
Por que é que o pintor não deixa cair a paleta no veludo do vestido?
Ver num instante tudo em alvoroço, ah –
Braços a gesticular, pernas no ar, cabeças a rodar entre mãos e pés,
O espelho malogradamente partido
uma anã gigante em cima da mesa
que a roda das saias esconde
E os tapetes? Telas de Pollock.
Mas o mais espaventoso era o pintor pegar na tela
com a ajuda dos criados ou sem ela e especá-la à frente das meninas,
do cão, do espelho, da anã, da porta que dá para as escadas
de tudo. E… nada…
de repente, o esplendor –
um cavalete e a estrutura de madeira que sustenta a tela comprida e larga
Um Velásquez às avessas
Vazio e de costas ao léu

A confissão de Velásquez

A confissão de Velásquez

Jan van Eyck[1] pensava todos os dias em Picasso
Pensava tanto, tanto, tanto
Que eu tive de nascer para pintar as meninas.
Então van Eyck pôde adormecer e Picasso[2] ter meninas no seu museu.


[1] Os esponsais dos Arnolfini, 1434 – toma-se como certo que Velásquez conhecia este quadro e que se inspirou no motivo do espelho que reflecte pessoas que não pertencem à composição para pintar As Meninas.
[2] As Meninas – segundo Velásquez (Pablo Picasso, Barcelona, Museu Picasso)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Palavras Minhas

Palavras Minhas


Por vezes passeio os dedos nas lombadas de espelhos finos
livros de poemas nas livrarias. Reconheço sinais
aromas de pradarias. Solto-me de vento aos versos
de poetas e sonho nas palavras deles inventar
palavras minhas.




Vem este poema curto que vos deixo na sequência de ter encontrado um poema Francês que me parece o mais indicado para antecipar o Ano Bom de 2009 que se aproxima:

Vai ser assim um mês atrás de outro:


Janvier nous prive de feuillage;
Février fait glisser nos pas;
Mars a des cheveux de lilas;

Mai permet les robes champêtres;
Juin ressuscite les rosiers;
Juillet met l´échelle aux fenêtres,
Août, l´échelle aux cerisiers.

Septembre, qui divague en peux,
pour danser sur du raisin bleu
S´amuse à retarder l´aurore;

Octobre à peur; Novembre a froid;
Décembre éteint les fleurs; et, moi
L´année entiére je t´adore!

Rosemond Gérard
Les pipeaux

O tigre no castelo de Kafka

O Tigre no castelo de Kafka

“Caminante no hay camino, el camino se hace caminando”
António Machado


Uma estrada de prata
Onde se perdem os suicidas,
que leva ao centro da alma,
Borges perde-se num caminho bifurcado
que leva a um castelo
encontra um tigre a olhar para o grande espelho
o seu olhar manso e distraído
a quem os corvos chuparam a vida


no interior do castelo:
quero escrever como uma possessa
até o diabo vir com as suas mãos de cereja
tocar-me no ombro e dizer que o venci…
Sarah Kane a subir a estrada
A estrada da vida é a estrada da vida
Demoramos dois séculos a ligar o forno
Sylvia Plath a beijar Dante -


Kafka sabe que é perigoso escrever…
O interior do castelo está cheio de morcegos,
de corvos e caracóis - para escritores tristes


O tigre espia numa estrada que leva a Chernobill Celeste
imaginada por Sarah kane num diálogo eterno com Papini
as almas gémeas fundem-se

As mãos derretem por cima da serradura,
O que interessa é o processo


ele foi escrito / encontrado por Sarah Kane
No meio de um holocausto digital
Os anjos esquecem enquanto sobem
uma estrada que leva a um castelo – Por onde Kafka sobe
um tigre com consciência do ridículo Sonha África
Percorre as ruas de Praga com um passo Seguro e Forte
Para se escrever a si próprio numa língua que há de vir


Chegaram à Chernobill Eterna
a subir os anjos esquecem….


Nuno Brito 2008

sábado, 27 de dezembro de 2008

- Casa-se a Menina!

- Casa-se a Menina!


O padre na corda do sino
batina em rodopio de cortina
o vale desperto , o monte papagaio
de ecos repetidos, o alvoroço de ramos
o piado aflito dos bicos pequenos.

As velas reduzem os últimos grãos
sacudidos no saco de orelhas
criando barriga nos assentos
de vazios; nuvens brancas de farinha.

Fim de dia, festa, o sino, o padre e a batina:

Dobra a fivela o eixo do calcamhar
destapa a unha negra do maldito
salpico do turíbolo, pesado bronze
do desiquilíbrio na quina do granito
agora marcado, partido.

Hora especial de missa vespertina:
-Casa-se a Menina!

Filha mais nova de Ti Maria
por sua vez sobrinha do padre Valdevez
pai de três, todas de batina,
à sua vez da Laurinda, Catarina
e da Alzira; crente e bela
mas de outra freguesia.

Entoam-se cânticos
e ninguém diz, ninguém fala
dos anjos de uma só asa.

Outros ecos e a ladainha:
- Casa-se a Menina!

Grita mais alto a hóstia
a sagração do dia
a oração benzida
na hora da eucaristia:
"Corpo de Cristo!" "Ámen!"

- Casa-se a Menina!

Cicuta Pura

Do "Tríptico emocional" e depois da última sessão
decidi só publicar o que recolheu
a melhor aceitação dos meus colegas (quanto ao pastel
que pintei para a apresentação tenho que estudar
um pouco mais de informática para o conseguir
publicar):

Cicuta Pura

Por vezes visto-me de toga branca, acusado
na Assembleia grega de Sócrates.
Do lado de lá nem Platão nem Críton. Só ninguém
e uma chuva de setas de cicuta lançada de canas secas.
Cuido da vista que não se perca, do lado esquerdo
do peito que o veneno não atinja.
Se a chuva cessa sempre palpita um lado.
No meio dos dedos vejo rostos, esgares e
sendo imensa e funda, apago a dor
esperando um, apenas um dia um
mais dia um ... alguém!

sobre(a) a menina

Que não te apague a luz -
que nunca;
sombra, nata de névoa escorre
cega no espelho do império, nas
cataratas espessas da madeira.
Dobram os olhos do pintor real -
no espaço trata uma obcessão,
bando de súplicas para que os teus dias
dialoguem com o sol de uma bandeira.

Que não te canse o lume -
que nunca;
na cauda de menina-luz a cozer ditados
ao animal cioso que cuida belezas.
Bichos quase caseiros - a lareira costurando
o fogo. Que todos te acendam rendados
em pregas de claras cores, modelos
de olhos caprichosos de menina;
esboços e estudos a gris, namorando
a tela-luz do contraste que dominas.

Que nunca! Futuros modernos?
Prendam esses ladrões de ares de altivez,
pois nunca é muito como te vês.
Que nenhum lobo marinho
venha ao sul secar o teu sangue
azul.

Um firme raio - um passo do sol
pincelado séculos atrás, passeia na
na moldura digital na alçada
do hall de entrada do T2.
Pilhas inventam pixels onde sois
princesa, à grande e à castela,
pilhas alcalinas para perpetuar
as meninas,

e a tristeza
de te ver presa
na casa real da
incerteza.

EMBRIAGAI-VOS

A Propósito do pensamento " A maioria das atitudes na época Natalícia, desde a discreta e aparentemente espontânea simpatia de alguém, passando pelos excessos ternurentos simulando mais humanismo a quem se não conhece, acabando nos exageros do hiperconsumismo, mais parece uma forma estranha de uma qualquer embriaguez" - Antonio Pinto Oliveira/2008

- É preciso estar sempre bêbado.
Tudo reside nisso: eis a questão.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo
que esmaga os vossos ombros,
e vos inclina para a terra,
precisais embriagar-vos sem tréguas.
Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa vontade.
Mas embriagai-vos!
E se às vezes, nos degraus de um palácio,
na erva verde de uma vala,
na morna solidão do vosso quarto,
acordardes a bebedeira leve ou curada,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme,
a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai que horas são;
...e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro e o relógio responderão:
"São horas de embriagar-se !
Para não serdes os escravos martirizados do Tempo,
embriagai-vos;
embriagai-vos sem parar!
De vinho, de poesia ou de virtude,
à vossa vontade".

( Charles Baudelaire, in " O SPLEEN DE PARIS" - Pequenos Poemas em Prosa, XXXIII prosa , 2007) - poema em prosa publicado em vida em 1864 /1869

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Devolve-me os dedos

-----------------------------------------A medo vivo, a medo escrevo e falo
-----------------------------------------António Ferreira (1528-1569)




Devolve-me os dedos
que ficaram dormentes
nas fendas da lua

quando as ruas derretiam
e o vento vermelho voava
deixando as pessoas nuas

quando a vertigem trepava
e a virgem voraz rasgava
a garganta que a habitava

Devolve-me o linho branco
que cobria os meus pruridos
curvas e contra costas

quando o aço do teu espaço
se sumia em arrepio
ao cheiro do meu grito

quando os olhos se apertavam
e visões de videntes vinham
em inventadas ausências

Devolve-me o certo de mim
as linhas que me desenham
um ventre que se sustente

e medos que me sobrem
ou ancas que não se dobrem
leva-os no mar para longe

onde não possam dançar
falar ou viver
no instante em que tudo -



Olhares esguicham
furam-lhe as fendas.
Composto
bidimensional,
esmagado a céu aberto.


Imposto,
centro massivo
velho e excessivo,
pelas bordas quer fluir
o foco exige abrir.

Tenta o anão,
escorrega
no pé da criança,
agarra-se
ao hábito da fé,
mas cai
entre nós e o cão.

Silêncio.

Regressa pelo espelho,
ao fundo
reflecte o passado.

Pousa o pincel,
sai pela porta.