sábado, 13 de dezembro de 2008

Um poema do David

Na outra noite,de um lado ela
mesmo em frente todos nós
cada um junto dela
ela dentro de nós.

Maria Teresa Horta

Falou-nos sem o peso dos minutos numa auréola encantada de muitas histórias, da tal dimensão que só alguns atingem. Todas as palavras eram leves e sem esforço, naturais, tão claras de sentido, tão deslumbrantes de evidências como se tivessemos sede e de copo ao lado não conseguissemos usar as mãos. Aprendemos a serenidade a tranquilidade de uma mente superior que nunca usou de presunção em momento algum. Fez-nos acreditar que vale a pena lutar pelos nossos sonhos.
Deu-nos asas!

Também falou dos seus amigos, daqueles que lhe rondam a casa na esperança do convite, da partilha dos seus cozinhados. De muitos que são e de outros que já eram.
Dos que já eram destaco outra mulher de força Natália (Correia), ainda o José (Cardoso Pires) e o David (Mourão Ferreira), a quem tratava pelo primeiro nome, como se ainda ali estivessem vindos de uma animada tertúlia trauteando poemas e melodias, enlevados nas teclas de um piano, de um bar muito conhecido, chamado de Botekim,ali à Graça, no bairro da capital.

Há dias deixei um poema simples do David que para mim não deixa de ser bonito (devo dizer que saiu no teste do 8º Ano do meu filho... no exame nacional do último ano... e portanto é bom sabermos que ainda se dá na escola...)

Hoje deixo outro:

INTERIOR

É bom ouvir de noite uma trompa de caça
Despir muito depressa a túnica da Lua
E descobrir o amor no forro de uma casa
onde apenas vibrava a memória de chuva

Depois de arrebatar o corpo da amada
ao ritmo infernal de um batuque de guerra
é bom permanecer na mesa de montagem
misturando Anfião Vivaldi Apollinaire

É bom lançar ao fogo um velho dicionário
É bom o crepitar das palavras antigas
Adivinhar quais são as que por fim renascem
e que sabem voar ao sair ds cinzas

É bom pedir perdão ao som de uma sonata
Segredar num soneto a ária de um remorso
É bom recomeçar com música de Jazz
Vestir sem ninguém ver a túnica de Apolo
David Mourão Ferreira

El indepentista aburrido

Cerca de un ecepticismo exaservado y más que propenso a un ataque de ira que de catatonía existencial,
ofrezco mi mirada de elefante espantado por un ratoncito,
mi zarpaso felino a una bola de hilo,
mi hululular fantasmágorico una noche de halloween,
mi pasito duranguense y un trago de tquila,
A todos esos que creen en los “ismos”
Lo sé, no me he manifestado en a favor del desarme,
Y eso es belicismo
Ni contra el calentamiento global,
y eso no es ambientalismo
Porque he hablado inocuamente de las dictaduras,
Y eso es comunismo
Me he me he declarado abiertamente ateo
Y eso no es cristianismo.
Finalmente porque aún creo en la revolución
Y eso es terrorismo.

Para que no se diga que en nada he colaborado,
que solo he puesto mi cara indecente,
de pedófilo frente al crepúsculo,
de simbárita ante el hambre,
Porque he barrido el suelo por un par de nalgas con forma de maniqui en búsqueda de labios ansiosos de esperma
por ser un suicida,
sin pólvora,
sin filos,
sin alturas,
sin cuerdas,
sin ventanas abiertas,
En suma, por tener tan pocas ganas de abrir los ojos,
y colgar mis sueños a lo largo del dia,
recogerlos,
para tirarlos a la basura.


Sí, soy culpable de detestar las ambigüedades de solución fasista.
De declararme,
Moralmente incapasitado,
para poder destiniguir al PC de la Pc,
la OTAN del PATAN,
Los EU de la UE


Yo me digo, que prefiero ser un agujero por donde no pasa hilo
una cerradura oxidada
un catalejo de lentes borrosos,
un anuncio de pasta de dientes sin sonrisas,
un cero a lado de un -1
Al final,
tan sexy como un labio lepurino
desconsertante como la mirada estrabista
inrresistible como una coca-cola
a veces incomprensible como una película de David Lynch
Por último; Y porque nunca dije: tomen mi opinión y vendala, o toménla en cuanta, o aqui estoy, quiero que me escuchen Solo es que quizé parecer frío, morbido, calculador, analista, un maldito estratega, un estúpido filosofo-cientista, un marica escribiendo cartas, una ofinista cogiendo con su jefe,un escritor limpiando baños porque no quiere vivir de contar patrañas y mas, siempre se esta masturbando la cabeza,
La verdad nunca dije que no fuera:
-un secuestrador-violador de estrellas de cine que al oído les dice; es tú mejor filme, disfruta porque esta es la más inolvidable de tus actuaciones...
Siento por supuesto que levanto un poco de humo, cuando digo que jamás he llegado a explicar algo hasta el absurdo de preguntarle a mi interlocutor: tienes alguna otra pregunta acerca del tema?
-De eso, no soy culpable...

Roberto Diaz, 2008

Gambeto

Tenderte,
sí,
desdoblarte,
como si fueras un mapa
al que solo acudo a buscar reflejos,
ecos de ubicaciones prefabricadas,
espejos caleginosos
donde perder el camino sea más fácil;

Supongo
que lo que quiero es extrañarte,
alejándome del punto vacío
por donde nuestras despedidas se cruzaron
como crucigramas
que encerraban miradas
y gestos mullidos,

Tuvimos que callarnos...?
Para decir:

Tal vez sea,
que te encuentreen el infierno,
olvidada de las lineas de mano pútrida,
descompuesta, apestando a estiércol,
que ahí anhelará tocarte
esfúmandose en un latido
como perro horrorizado,
como un guate ajeno corrído a la sombra
por el fuego semejante a una tumba,
meditando
que el futuro
es solo su desaparición,
en rastros
de sudores inahalados
de pistolas no empuãnadas
ydejos acuosos
de lágrimas o
sáliva evaporada.



Pudimos decir:
No te veré más:
Mañana me saco los ojos,
con un abrelatas desepcionado
que esperaba
nenúfares de mi alma
y solo recibió limazas coprofágas
caracoles descabezados,
un par de testiculos emplazados
a producir más esperma para callar cualquier ansia



Roberto Diaz, 2008

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

CUMPRIR LIMITES, NÃO CUMPRINDO AS REGRAS:

CUMPRIR LIMITES, NÃO CUMPRINDO AS REGRAS:
O EXCESSO NA POESIA DE MARIA TERESA HORTA
Ana Luísa Amaral

Recensão ao livro de Maria Teresa Horta, Antologia pessoal, 100 poemas, (Lisboa, Gótica, 2003), in Relâmpago, nº 14, Abril, 2004, pp. 131-133

The Road of Excess leads to the Palace of Wisdom.
William Blake

Não pretendo mais do que o limite,
que para além do limite
já se entrega

eu cumpro os meus
limites
não cumprindo as regras
Maria Teresa Horta
“Tacteio à minha / volta / e é só fulgor … // Para a minha sede / nenhuma água chega”. São estas a primeira e última estrofes do poema que figura na contracapa da colectânea de poemas de Maria Teresa Horta, agora dada à estampa pela Gótica. O poema, intitulado justamente “Fulgor”, pode ser pretexto para começar a falar desta poesia como uma poesia de excesso, um aspecto que atravessa todos os livros publicados por Maria Teresa Horta e continua presente nesta selecção, que reúne poemas publicados entre 1960 (Espelho Inicial) e 1999 (Só de Amor) — ressalve-se que, a fechar o livro, se encontram ainda textos inseridos no volume Vozes e Olhares no Feminino, de 2001.
Estamos, então, perante uma antologia pessoal, de cem poemas escolhidos. Sublinho escolhidos, porque a selecção não poderia, a meu ver, ter sido mais feliz. Se se mantém nesta antologia o elemento de excesso, característico, como disse já, da escrita de Maria Teresa Horta, e se continuamos a detectar aqui dois grandes vectores estruturantes, que são o corpo sexual e erotizado e o corpo do texto, erotizado também, o que é certo é que a exclusão de muitos poemas veio transformar este volume num livro novo e diferente, que permite, mais do que revisitar, redescobrir e admirar esta poesia, tão injustamente negligenciada ou mal ajuizada. Seleccionar cem poemas de entre centenas, distribuídos por quinze livros, significa uma enorme capacidade de auto-crítica, mas significa também um gesto de abdicação e contenção, que, aparentemente, colide com a dimensão excessiva de que falei acima. Só aparentemente, todavia, já que esta contenção acaba por tornar ainda mais evidente a presença do excesso, sendo excesso entendido aqui não só como o que se afasta da norma (nesse sentido, o excesso será a diferença), mas ainda como aquilo que a ultrapassa em demasia. É esse demasiado, ou ilimitado, esse lugar de ruptura-para-lá-da-ruptura, que é difícil isolar e definir. Mas, porque o limite se encontra além da norma, num espaço onde a questão da infracção deixa de contar, transgressão, subversão e limite não são elementos alternativos, mas momentos tangentes. Por isso se pode dizer, no poema de que me servi como epígrafe, e que é um dos três únicos poemas do livro que não tem título, que é possível “cumprir … limites, / não cumprindo as regras” (p. 111).
Encontramo-nos, assim, perante uma poesia (e uma poética) servida por dois processos de ruptura com a norma: a transgressão e a subversão. Se a transgressão não destrói o sistema, visto criar um sistema paralelo, a subversão, por seu lado, porque parte de dentro do próprio sistema, efectua sobre ele um efeito de corrosão, que o abala. Os dois processos estão presentes nesta poesia. E ambos resultam numa grande novidade.
Penso que a subversão na poesia de Maria Teresa Horta reside num inteligente aproveitamento da tradição poética ocidental, para, a partir dela, se criar uma versão outra (uma sub-versão): é assim que, a partir da éducation sentimentale de Fréderic, se inventa uma nova Educação Sentimental (1975), onde a mulher pode agora dizer “do [seu] corpo / o uso dos [s]eus dias”, ou da “alegria / do corpo sem disfarce” (p. 95), ou despudoradamente falar da aprendizagem “[d]o vagar da arte” do amor e do erotismo, onde cabem “dedos”, “mãos”, “braços”, e também “suco”, “pénis”, “seios”, “a seda da pele / das virilhas” (pp. 96-7); é assim também que o medieval “minha senhor”, forma de tratamento dado pelo homem à mulher no amor cortês, será re-elaborado, através da reivindicação de um espaço de mulher autónomo e livre, e transformado em “minha senhora de mim” (título para poema e para um dos mais célebres livros de Maria Teresa Horta, publicado em 1971 e retirado pela censura), onde é até permitido ao sujeito feminino “desaver-se” consigo própria (p. 67).
Por outro lado, ou em simultâneo, assiste-se a um processo de transgressão que é notório desde os primeiros livros, aqui epitomizados no “Poema de Insubordinação” (p. 8), evoluindo ao longo dos outros livros. Poderíamos, nesse sentido, isolar inúmeros textos desta antologia, em que são desafiadas as convenções da poesia lírica amorosa, ao instituir-se o sujeito feminino como enunciador e encenador do desejo e elemento de domínio da relação, ou ao proceder-se à re-distribuição, mais do que à inversão, de papéis sexuais tradicionalmente instituídos. São disto exemplos o poema “Segredo” (p. 72), do livro Minha Senhora de Mim (1972): “Não contes do meu / vestido / que tiro pela cabeça // Nem que corro os / cortinados / para uma sombra mais espessa (…) Não contes do meu / novelo / nem da roca de fiar // nem o que faço / com eles / a fim de te ouvir gritar”); ou o poema “Docemente” (p. 89), do livro Educação Sentimental (1975): “Docemente / disponho dos teus braços // dos peixes que navegam / docemente”); ou o poema, intitulado precisamente “Do Excesso” (pp. 121-2), do livro Destino (1997), em que, a dado momento, se pode ler: “Tu escusas o escusado / e só no excesso / me encontrarás a beijar-te o corpo louco // Sou eu que ponho aquilo / que tu vestes / e disponho daquilo que tu escondes” (p. 122); ou, finalmente, o poema “Foz” (p. 138), do livro Só de Amor (1999), em que o sujeito poético, claramente identificado como feminino, se auto-define como “espada”.
Estamos, pois, perante um conjunto de poemas criteriosamente seleccionados e arrumados, o que torna muito mais evidente e fácil detectar estes processos, bem como neles verificar a preocupação constante com o corpo e o corpo do texto. Por isso, ao “dizer do corpo / o corpo da poesia // Os ombros / os seios / o ventre” é “pensar” e “escrever / do corpo / o corpo da poesia” (pp. 125-6), acompanhado pelos “silêncios da fala”, o “silêncio que posto / em cima do silêncio”, como um corpo sobre outro corpo, “usurpa do silêncio o seu magro labor” (p. 162), o sujeito de enunciação reconhece-se como “a voz / onde invent[a] o nada” (p. 138). Nessa invenção (ou reinvenção), é possível à mulher poeta reivindicar o estatuto de “bruxa da palavra” (p. 104), ocupando-se, num gesto novo, subversivo da relevância das musas, de uma maternidade para os poetas — “Quem são as mães / dos poetas? As fadas das serras altas? / As bruxas da floresta?” (p. 123) —, ao mesmo tempo que definindo-os (e definindo-se) como “alquimistas do futuro” (p. 124).
É ainda interessante verificar as diferentes ocorrências de negativas nos poemas que aqui se apresentam, pelo sentido que contêm de afirmativa autonomia: “Não sou escrava / de lamento … // não quero anéis / de aceite / para enfeitar os meus olhos” (p. 69); “Não ergas / meu cavalo / as crinas da memória” (p. 82); “A bota não faz / a espora … // Desterro não faz domínio” (p. 60). “«No» is the wildest Word we consign to Language”, escrevia Emily Dickinson. Na poesia de Maria Teresa Horta exercita-se também um gesto semelhante de força e energia, e tantas vezes violência, porque ser-se “senhora do [s]eu silêncio / com tantos quartos fechados” (p. 68) equivale a instaurar uma espécie de desordem ordenada, em que se pode ser “raivosamente instável” (p. 119).
Maria Teresa Horta elegeu, para encerrar esta antologia (que aproveita dos livros Verão Coincidente (1962), Candelabro (1964), Minha Senhora de Mim (1971), Os Anjos (1983) e Destino (1997), os poemas que antes os estruturavam e lhes davam título), o poema “Os silêncios da fala”, já aqui referido, esse poema que fala do silêncio que “usurpa do silêncio o seu magro labor” — o da poesia. O poema que o antecede intitula-se “Português” (pp. 160-1) e é dos melhores exemplos da fusão entre corpo e corpo textual — ambos erotizados e transgressores ambos. Nesse poema, de 2001, retoma-se a imagética do desejo, retomam-se as redes de oposições e contrastes, tal como se retoma a subversão de espaços tradicionalmente femininos, a que pertencem “a roca e o bordado”, para a seguir se diluírem as dimensões literal e simbólica de corpo. “Se a língua ganha / a dimensão da escrita / E a escrita ganha / a dimensão do mundo” (p. 160) — assim começa o poema. E, da hipótese proposta, que se detém no corpo da palavra e nas suas infinitas possibilidades, conclui-se que “[d]escer é preciso até ao fundo / na busca das raízes da saliva / que na boca vão misturar tudo” (id.). Este processo de fusão entre corpo e corpo textual, entre língua e linguagem, culmina nos versos “O tempo a confundir qualquer abraço / entre o visto e o escrito” (p. 161). E assim se confundem e se fundem o palpável e tangível corpo com o impalpável e intangível texto. Ambos capazes de exercitar a liberdade de “subir a pulso / o mundo” (id.).
“Subir a pulso o mundo” — julgo que não haverá melhor expressão para caracterizar esta escolha rigorosa e feliz, a marcar, em cem poemas, quarenta anos de uma poesia nova.

Natal Cristão - Transfiguração Humana

Todos os anos em Dezembros sombrios,
almas vivas se engalanam,
pairando no espaço e na Terra,
em extremo fulgor , contagiante alegria.
Seres vivos que tropeçam
na Glória de um nascimento "mágico",
longínquo, de há 2000 anos atrás!...

Nasceu um Menino, chamaram-lhe Jesus,
tolerante, lutador, pacifista, controverso,
que lutou por um mundo diferente,
melhorado, benfazejo,
já então um mundo repleto de radicalismos
e povoado de imensas injustiças e déspotas!

Assim nasceu e cresceu Cristo Homem,
humilde e sonhador,
tendo a paz como única ambição,
lutando pela igualdade dos homens,
mas também pelo amor e concórdia duradoira...
Tão poucas ambições e tão desmedidas!...
.....................................................................

Todos nós nos transfiguramos em Dezembro,
todos os anos, espontaneamente,
irmanados por uma espiritualidade envolvente,
por uma amizade "pueril", quase ilógica,
mas despida de preconceitos,
desconcertante mas fisiológica,
e absolutamente real e paradigmática.

Assim nos procuramos alcandorar aos Céus,
como se lá estivessem todas as soluções
para os nossos descontentamentos
e outras tantas e tamanhas frustrações!

Ciclicamente nos transfiguramos todos os anos,
como a pedir uma vez mais um nascimento fulcral,
que fosse ainda mais marcante
do que aquele de há dois mil anos,
confidenciando a nós próprios que tudo seria diferente:
- seria uma situação nova,
esplendorosa, única, magnificente,
que criaria um carinho esfusiante
e um caminho apoteótico a não perder!...

Em respeito àquele Menino
e de tanto Nele pensarmos,
todos os anos nos transfiguramos, por tempo curto,
em auto-confissão absurda, contudo ponderada,
com a linear promessa de O receber condignamente,
numa próxima vez,
de braços abertos, com frontalidade,
com uma verdade nova, mimos incontáveis,
mesmo um amor supra-fraternal, insuperável...

Prometemos tudo aquilo
que apenas vivemos em Dezembros sombrios,
após um ano de louco trabalho,
conflitos e guerras ainda mais sombrias.
Consequentemente a distúrbios
e à desolação humana,
ambicionamos o Dezembro espiritual do Menino Jesus !...

Todos os anos em Dezembro
prometemos expandir a solidariedade,
agora conseguida sem esforço por ser Dezembro,
simultaneamente embalados pelo Menino
e em homenagem ao Mesmo.
Sentimos que voluntariamente
envergamos com espontaneidade
a roupagem da simplicidade e do altruísmo,
da veracidade e da respeitabilidade
e a negação de toda a conflituosidade!...
.................................................................................

Tudo isto acontece em honra
e por submissão ao Menino,
com festejos apenas em Dezembros sombrios,
quando Ele concerteza,
no auge do seu voluntarismo e do seu fervor,
quiz que fosse criado um Natal de todos os dias,
de todas as semanas, ou sequer de todos os meses!
Mas nós teimamos que o Natal
aconteça apenas em Dezembro...
............................................................................

Assim, para salvaguarda do mundo,
pela perene alegria de todos nós meninos,
devemos olhar à nossa volta,
sangrar a raiva dos cretinos,
gritando sem dó uma revolta
pela frustração de não sermos genuínos!

Assim, teremos que lutar de modo mais profundo,
por Natais mais solarentos,
mais íntimos e mais verdadeiros,
com raiva, amor, constância e maior fragrância,
homenageando os Amigos da paz, os " não matreiros ",
para que abundem Natais mais castos,
num Planeta de maior e radiosa elegância!

Antonio Pinto Oliveira, in " Andanças do pensamento - 12 Temas polémicos",
Livro na forja ( a editar em 2009).

(Peço sinceras desculpas por ter andado afastado deste nosso Território Poético, em termos de escrita mas não de consulta e leitura.
Estaremos juntos em 22/Dezº., concerteza, pelas 19.45h . Saudações amigas ).

Os poemas saem de passagem

Delineou-se um segundo poema que dedico a todo o grupo das quartas-feiras, aos presentes e os ausentes que também recordo com saudade. Mas ( e é sem dúvida o "mas" mais mportante ) o mais precioso liame que nos uniu foi e é a presença e a voz da nossa mais que tudo "prezada" amiga Ana Luísa... que alimenta fogueiras e nos faz arder no lume bravo ou manso dos poemas, de muitos poetas, limando as arestas, polindo as superfícies, fazendo um pouco mais do pouco que ainda somos na arte de poetisar.


Os poemas saem de passagem

"o que fazer quando tudo arde?"
- Poesia

As janelas abrem
os poemas saem de passagem
versos e rimas; ritmos símios
trajectos de lianas nas selvas
da mensagem.

Vertigem sem sinal antes do fim de página
nas costas de um formulário, benefício
exacto de um suspenso final
abrupto se descubro
que se esconde a veia
revolteia o tema
no consumé das palavras, nas saladas
das ideias, ratoeiras de pontes,
vidas e contos, cegonha de fontes,
bacia das baías, promontório,
esquinas das memórias
Rainhas!

Seguem os ventos, a rosa dos sentidos
-sérias ou traquinas as melodias.
farinha de afectos ou castigo,
ironias desfolhadas aos pedaços,
filosofia; jardins, vestidos,
maresia,estrelas, lua,
recantos e cortinas, os contornos
e os traços das Marias!

Pesam de socorros como lastro
os poemas.

Mares de surpresa,
fluido plâncton de diademas,
anémonas e corais, golfinhos
e baleias, coloridos palhaços
tropicais de leme e brânquias.
Melodias de Corelli, paraísos
de túnicas, finas musas
no cintilo de cristais!

Às quartas-feiras os poemas
e as magias, bençãos divinas,
esquiços de traços e linhas,
sensíveis liames imersos
na descoberta das fatias;
bolos de cereja e licores,
lumes vivos, pés mansos razias,
acertos, partilhas unidas.

Quando chega a noite
abrem-se os poemas
um vaso de estrelas
a planta do céu
o aroma dos dias!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Outros olhos

Que farei quando tudo arde?
Sá de Miranda
Antes era a fome
Os dedos secos, nodosos e escuros a remexer
A terra
Não havia água como para os marinheiros
Não havia ar como para os pensadores
Rostos caídos, olhares apagados, fronteiras cerradas
A noite durava um longo dia
E uma cantiga baixinho
Para consolar
Da terra brotavam coisas
Laranjas, pipas de vinho, brincos de cerejas
Uma barcaça traçava as águas do rio
A fome não passava
O abutre alisava as penas

As almas gritam
A liberdade!
Primeiro o subsidio, depois o salário, agora o empréstimo
Da terra brotam coisas
Enchem os camiões nas estradas
- Deite-se metade fora!
Manda a lei
E os meninos ao longe com estômagos do tamanho de ervilhas
Têm fome
Os abutres alisam as penas
Dizem
- As fronteiras não existem
- O mundo está na palma da mão
Imagens
A violência já não se faz de olhos inchados e peles purpúreas
Penduram-se as almas espetadas em pregos toscos e enferrujados
Que doem
No Silêncio

Que farei quando tudo arde?
Rasgo a folha de papel à minha frente
Fecho os olhos
Com o peso do mundo nas pálpebras
Viajo para o interior de mim
Limito-me
A acreditar

Abro os olhos,
Outros,
Pego no lápis e recomeço.

Arde no meu olhar o universo

Que farei quando tudo arde?”
[Sá de Miranda (1481-1558)]

Não sei se sou capaz de lavar o meu olhar
Do fogo e da dor que lavram no universo.
Não sei. Sou náufrago das chamas desmedidas
Deste tempo humano sem paz e incapaz de um verso.

Nem as chuvas todas de todos os invernos do universo
Podem lavar as franjas do teu nome a céu aberto.
Impossível reescrever a paz e a ternura da alma
Das crianças sobre a tentativa do apagamento do sangue
(tão vivo aos olhos das mães, dos pais e dos irmãos)
Inocentemente vertido pelo chão. Impossível. Voam as bombas
E a carne dos suicidas embatendo cegas na inocência das crianças
E dos homens embrulhados no medo e na morte sem esperança.
Impossível não olhar a morte amortalhada na brancura pálida.
Impossível não sentir a revolta desmedida. Impossível não ter medo
Até somente do teu nome. Impossível não possuir insónias geradas na dor
E nas imagens das atrocidades que os olhos assustados gravaram na alma
Indeléveis. Impossível não olhar as armas cruéis que vieram em busca de outras
Armas. Impossível não sentir o ódio como mortífera sombra de poderes alheios
De interesses disfarçados, de mentiras vestidas de verdades, de enormidades.

E há quem durma a sono solto sem lavar as mãos e o olhar ensanguentados.
E há quem coma sem nojo entre cadáveres frescos por lavar. E há quem lave
As mãos secando-as em toalhas de linho enxovalhando-as como se fossem
Lençóis onde se embrulham tantas ruínas de humanidade. E há quem discurse
Sobre o acto democrático de matar em nome do seu deus em nome da sua paz
Em nome do fingido medo de armas de destruição maciça, quer dizer, em nome
Da preguiça de cuidar no respeito e no direito de existir e de pensar diferente.
E há quem pense que o poder é a força a qualquer preço, mesmo que em apreço
Esteja a morte, esteja o sofrimento, esteja a injustiça, e esteja a indiferença.

Arde no meu olhar o universo. E não sei o que fazer do incêndio que devora
Homens e mulheres e crianças que trazem somente por horizonte o vazio
Da esperança. E não sei apagá-lo. Como saber apagar a labareda das imagens
Sangrentas das chamas que os devoram? Tudo arde. Que farei?


2008.12.09
José Almeida da Silva

A venda e o cigano estão no banco

Eis o resultado do trabalho oficinal de Escrita Criativa II sobre três versos (um octassílabo e dois heróicos quebrados) de um poema de A. M. Pires Cabral, in Que comboio é Este. Edição do Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005.

A venda e o cigano estão no banco.
O comboio era uma tenda triste
e um grito de telemóvel insiste.
Ninguém atende, nem o saltimbanco
que resite ao som atrapalhado.

E lá fora espantam-se as árvores
com os palhaços que vieram da cidade.

O circo está assim montado
e o cigano vende um Ipod usado
e a clientela aplaude o saltimbanco
que compra o roubo
com um ar experimentado -
saltimbanco de olhos vendados,
sem vara e sem cautelas,
o comboio e nós dentro
.

Joana Espain e José Almeida da Silva

Eu, Inquisidor

Que faço quando tudo arde?
Sá de Miranda, 1481-1558
Eu,
Inquisidor,
única esperança
de remissão,
ardo nas chamas da salvação divina.


Eu,
Inquisidor,
convoco o homem
o herege pertinaz,

posto a tormento no suplício
vê nascer a verdadeira fé
em cima do potro ou nas cordas do polé

essa criança que ofende
o Pai
reacende as brasas do amor celeste


Eu,
Inquisidor,
nada vejo:
nem sonhos,
nem palavras,
nem a carne rosácea que perante mim se disforma

vejo a alma
o pecado e o vício
é este o meu santo ofício.


Eu,
Inquisidor,
queimo as palavras, os sonhos,
a carne cinzenta que perante mim se reforma

e quando tudo arde,
sou eu sublime
sou eu santidade.


Raquel Patriarca
nove.dezembro.doismileoito

Desperta-me de noite

E este é o segundo:

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

É rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas

A trégua
a entrega
o disfarce

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo

E eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vai descobrindo vales.

Maria Teresa Horta

As nossas madrugadas

Há dois poemas da Maria Teresa Horta que parecem também eles um canto e contraponto. Quase não sei qual deles gosto mais. Deixo os dois para que escolham. Este é o primeiro:

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

pois suspeitas

que com ele me visto e me
defendo

É raiva
então ciume
a tua boca

é dor e não
queixume
a tua espada

é rede a tua língua
em sua teia

é vício as palavras
com que falas

E tomas-me de força
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse

E queres-me de amor
e dás-me o tempo

a trégua
a entrega
e o disfarce

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lenços que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuíres de mim o que não sabes

Despertas-me de noite
com o teu corpo

tiras-me do sono
onde resvalo

e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite

e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.

Maria Teresa Horta

Minha Senhora de Mim






Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

Maria Teresa Horta

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Vinicius e Pablo Neruda

Em tempos ouvia com frequência uma cassete (fita magnética inscrita da pré-história da tecnologia) de uma actuação ao vivo de Vinicius, Toquinho e o Quarteto em Cy. Neste registo havia lugar à poesia (a poesia também é um lugar... um refúgio que pelo menos a mim me preenche, dá espaço ao sonho e ao tempero das emoções) e havia uma sentida homenagem a Pablo Neruda. Dizia o grande poeta brasileiro :" malvado ano de 1973 que levou de uma só vez três Pablos, não três Pablitos... três Pablões" referia-se a Pablo Picasso, Pablo Casals e Pablo Neruda cada um em sua superior arte sem substitutos.

Nesta recordação resolvi publicar dois poemas que a voz inconfundível de Vinicius recitou na companhia (tantas vezes minha) dos acordes perfeitos de Toquinho e um coro celestial das vozes femininas do Quarteto em Cy, terminando na apoteose final de palmas (...e ruídos das gravações imperfeitas, alguns encravamentos que engoliam as fitas e obrigavam ao enrolamento manual com a ajuda de um lápis levando a fita à frente e atrás na esperança de conservar a preciosa cassete, o que foi conseguido).

Não vos chateio mais com conversa de "chacha", aqui vão os dois sonetos:


Soneto de homenagem a Pablo Neruda

Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, meu irmão, meu companheiro...
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?

Canto maior, canto menor - dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro

E o seu amor - o amor que hoje encontramos...
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
celebro-te ainda além, Cantor Geral

Porque como eu, bicho pesado, voas
mas mais e melhor do céu entoas
teu furioso material!

( 1960 )

De seguida Vinicius leu um outro soneto escrito em 1938 a bordo de um barco que o conduzira a Inglaterra. Chama-se "Soneto da separação" e foi aqui adaptado à partida do grande poeta chileno. ( algo que nunca acontecerá porque nos deixou a sua poesia )


Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais do que de repente
Fez-se triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.



Espero que gostem!
Saudações poéticas a todos!