terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Eu, Inquisidor

Que faço quando tudo arde?
Sá de Miranda, 1481-1558
Eu,
Inquisidor,
única esperança
de remissão,
ardo nas chamas da salvação divina.


Eu,
Inquisidor,
convoco o homem
o herege pertinaz,

posto a tormento no suplício
vê nascer a verdadeira fé
em cima do potro ou nas cordas do polé

essa criança que ofende
o Pai
reacende as brasas do amor celeste


Eu,
Inquisidor,
nada vejo:
nem sonhos,
nem palavras,
nem a carne rosácea que perante mim se disforma

vejo a alma
o pecado e o vício
é este o meu santo ofício.


Eu,
Inquisidor,
queimo as palavras, os sonhos,
a carne cinzenta que perante mim se reforma

e quando tudo arde,
sou eu sublime
sou eu santidade.


Raquel Patriarca
nove.dezembro.doismileoito

5 comentários:

Joana Espain disse...

A ironia, a heresia de hoje. A invocação ao salvador pedido. Tocar na fé queima neste poema. Parabéns. Acho que está fabuloso.

Marlene disse...

O inquisidor, o arqui-inimigo da bibliotecária amante da leitura. E este inquisidor aparece aqui com um sentido mais lato, o sentido do que castra, proíbe, limita.
Gostei muito.

José Almeida da Silva disse...

Gostei imenso do poema, Raquel. Arrepiaram-se-me as carnes e os cabelos! Denúncia sempre necessária, a da Inquisição, a do Inquisidor. De um tempo que se fez lugar emblemático de uma fé distorcida, castradora, tão distante da dos primórdios que "queimava" o coração dos primeiros cristãos. Mas os inquisidores andam por aí, ainda agora, e em todos os sectores da vida humana. Um texto de grande actualidade. A epígrafe foi muito bem entendida e muito inspiradora.
Parabéns.

josé ferreira disse...

Raquel uma abordagem que incomoda sob o olhar poderoso e dominante do Inquisidor garantindo o suceso do poema. Não consegui desligar estes versos e personagem do livro/filme " O nome da rosa" onde nos regimes dos primários limites no extremismo se queria ocultar verdades e queimar os sonhos.
Parabéns!

p.s. ESqueci-me de acrescentar no comentário de há dias que a fotógrafa captou bem os momentos mágicos das poetisas Maria e Ana e deu-nos o mimo da fotografia do portal. Obrigado!

Ana Luísa Amaral disse...

Raquel, uma palavra: excelente.