terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Outros olhos

Que farei quando tudo arde?
Sá de Miranda
Antes era a fome
Os dedos secos, nodosos e escuros a remexer
A terra
Não havia água como para os marinheiros
Não havia ar como para os pensadores
Rostos caídos, olhares apagados, fronteiras cerradas
A noite durava um longo dia
E uma cantiga baixinho
Para consolar
Da terra brotavam coisas
Laranjas, pipas de vinho, brincos de cerejas
Uma barcaça traçava as águas do rio
A fome não passava
O abutre alisava as penas

As almas gritam
A liberdade!
Primeiro o subsidio, depois o salário, agora o empréstimo
Da terra brotam coisas
Enchem os camiões nas estradas
- Deite-se metade fora!
Manda a lei
E os meninos ao longe com estômagos do tamanho de ervilhas
Têm fome
Os abutres alisam as penas
Dizem
- As fronteiras não existem
- O mundo está na palma da mão
Imagens
A violência já não se faz de olhos inchados e peles purpúreas
Penduram-se as almas espetadas em pregos toscos e enferrujados
Que doem
No Silêncio

Que farei quando tudo arde?
Rasgo a folha de papel à minha frente
Fecho os olhos
Com o peso do mundo nas pálpebras
Viajo para o interior de mim
Limito-me
A acreditar

Abro os olhos,
Outros,
Pego no lápis e recomeço.

11 comentários:

Tiago Carneiro disse...

mmmmmmmmmmmmmmm...

Angeles Sanz disse...

elza. tu estás também nesta edição?
Avisa ,por favor se vai ter lugar o jantar.
Gostei do teu :limito-me a acreditar.
Angeles

Marlene disse...

Elza,
Gostei imenso do teu poema. E gostei de tantas coisas, como o facto de existir uma musicalidade que não precisa da rima para nada. Na minha qualidade de leiga (às vezes acho-me pretensiosa a comentar, pois o meu conhecimento é nulo, apenas me guio pelas sensações), parece-me que essa musicalidade resulta de alguns versos como:
"Rostos caídos, olhares apagados, fronteiras cerradas";"Primeiro o subsidio, depois o salário, agora o empréstimo". Esta cadência resulta tão bem! E depois também a repetição "o abutre alisava as penas" resulta perfeita (causa arrepio). E mais ainda comparações inusitadas: "Não havia ar como para os pensadores".
Muitos parabéns. Gostei mesmo muito.

José Almeida da Silva disse...

Elza, um belíssimo poema!
Destaco os versos: «A noite durava um longo dia»; «A violência já não se faz de olhos inchados e peles purpúreas / Penduram-se as almas espetads em pregos toscos e enferrujados / Que doem / No silêncio.»

A poesia como denúncia de uma violência apuradíssima, que alastra no nosso tempo.

Muito obrigado e parabéns.

josé ferreira disse...

Elza gostei do teu poema e da preocupação que transmite, a inquietação do primário, a fome, e a passagem para algo mais mas não menor, a liberdade.Essa que nos une a toda esta diversidade biológica que habita a Natureza.
Para além das frases fortes e ritmadas há a permanência muito bem conseguida dos "abutres que alisam as penas" numa mensagem que se descodifica no fim: a vida como um eterno recomeço, um edifício que se constrói (às vezes sobre ruínas) para chegar ao céu.
Muitos parabéns!

A. Roma disse...

Elza,que lindo.É um "poemaço".Como é construído, como oferecem os versos uma unidade na ligação dramática entre os tempos em que se passava fome e os tempos das privações actuais.
Fascinou-me como se pode gritar a revolta ainda com doçura, e expressar esperança com tristeza.

Claro que tenho de festejar o já consagrado verso pelos colegas:
"o abutre alisava as penas" - se me fosse dado um verso assim iria repeti-lo até não poder mais.

e ainda:
"Penduram-se as almas espetadas em pregos toscos e enferrujados
Que doem
No silêncio.»

Y viva la Revolucion!

Joana Espain disse...

Adorei o poema. Foi como se estivesse nas costas de um abutre que viaja a alta velocidade do detalhe das mãos na terra à visão da humanidade no espaço. Tudo a grande velocidade com algumas estaladas das asas do abutre para acordarmos. E depois abandonas-nos, e desistes. E o abutre pousa-nos no chão como quem diz faz o que quiseres idiota. Se calhar não era esta a intenção mas foi o que senti quando o li. Foi muito bom:)

Joana Espain disse...

Esqueci-me de dizer que quando o abutre viaja do detalhe ao global viaja claro no tempo. E esta dimensão separa realmente o passado do presente. E sei que no fim se fala em acreditar mas não se consegue (ou eu não consigo:)) acreditar nesse acreditar. Este poema está muito rico. O abutre faz o caminho inverso da pomba de esperança que foi correndo no passado, levantou voo em Abril e depois... Parabéns mais uma vez.

Joana Espain disse...

Só mais uma pergunta (não sei editar os comentários anteriores). Não seria bom se existisse um abutre? Um e concreto? Se ele nos levasse a dar um passeio não sei quem deixava quem no fim:) Desculpa a invasão de comentarios

Elza disse...

Adorei os vossos comentários! Devo no entanto acrescentar que esse verso do "velho abutre" que tanto vos marcou não é ideia minha. Sophia de Mello Breyner, penso que a propósito dos tempos dificeis da ditadura disse: "O velho abutre é sábio e alisa as suas penas/ A podridão lhe agrada e seus discursos/ Têm o dom de tornar as almas mais pequenas" Eu peguei nesta ideia para o meu "manifesto" e mais não explico para não estragar o poema e os vossos devaneios, muito bem pensados, sobre ele. Também não gosto de desvendar tudo, ao desvendar há qualquer coisa que se perde. Ah, Joana, gostei da visão que sentiste no voo de um abutre perigoso desde o alto, e talvez fosse bom viajar à boleia para assim poder ver de longe (no espaço e no tempo) aquilo que é preciso mudar. Não conseguiste acreditar, e eu também não sei se consigo, mas não vou deixar de tentar, nunca! :) Obrigada a todos e vamos continuar a fazer poesia!

Ana Luísa Amaral disse...

Estou orgulhosíssima (posso?) dos vossos comentários! Re-comento-os mais, amanhã na sessão -- que será um pouco diferente! Para já,Elza: muito bom!