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Magritte "Alice no Paìs das Maravilhas" 1945
Pierrot escondido por entre o amarello dos gyrassois espreita em
cautela o somno d'ella dormindo na sombra da tangerineira. E ella não
dorme, espreita tambem de olhos descidos, mentindo o sôno, as
vestes brancas do Pierrot gatinhando silencios por entre o amarelo
dos gyrassois. E porque Elle se vem chegando perto, Ella mente ainda
mais o sôno a mal-resonar.
Junto d'Ella, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo mudo na
negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois os joelhos
redondos e lizos, e já se debruçava por sobre os joelhos, a beijar-lhe o
ventre descomposto, quando Ella acordou cançada de tanto sôno
fingir.
E Elle ameaça fugida, e Ella furta-lhe a fuga nos braços nús
estendidos.
E Ella, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a fronte num
grande perdão. E, feitas as pazes, ficou combinado que Ella dormisse
outra vez.
Almada Negreiros, in Frisos - Revista Orpheu nº1
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