sábado, 13 de dezembro de 2008

Amor criogénico

Tu querias inundar-me
de beleza,
Mas és belo e incapaz
por natureza
de um degelo
ao amor em rigor mortis
que aqui jaz

Em vez disso, que certeza
tu me dás
Do poder tão criogénico
Tão capaz
e com desvelo
o amor on the rocks
consumirás

A batida é devagar,
A veia pulsa atrasada
Aos flocos o sangue cai
em quase nada
Numa neve
Vascular

Zango-me então contigo
Deixas-me aqui neste estado
Com o peito consumido
E o amor por consumar
Amor em amor fatiado
Meu coração sem sentido
Jaz sentado sem pulsar
Em arca frigorífica
Do meu peito hipermercado

Abatida devagar
A voz é pausa marcada
De flancos o amor cai
Da escada
Numa febre
Glaciar

Não penses que te deixo impune
Depois de gelares o meu peito
Rompeste a corda que une
Fizeste "eu" do "nós" desfeito

Espero-te numa outra esquina
Com veia gelo de assassina
E um revólver apontado
Agora sou eu que grito
Devolve-me já neste instante
Todo o tempo que tomaste
Do meu coração assaltado

Meu coração assaltante
Criminoso amor tornaste
Agora sou eu que dito
Cem mil dias de cobrança
Pelo amor que é sentença
Teu amor, tua poupança
Que nunca comigo gastaste

Não chames que te trago de volta
Depois dos teus crio-danos
Deixaste meus sonhos à solta
Agora solta os meus planos

Bate o dente, bate o dente
Nem que tente, nada tenho
Coragem, vontade ou empenho
De te assaltar o calor

E vejo os logrados desejos
De um amor que degele
Este frio, esta tristeza

Olho e tu já não estás
Debaixo da minha mesa
Mas persistes sob a pele

9 comentários:

josé ferreira disse...

Impossível ficar indiferente a este samba, passeamos nas "bossas novas" dos versos,nas rimas rítmicas de um discurso poético exacto de sentidos, um clima de descrição perfeito.
Vinicius e Drummond devem estar extasiados!
SEm querer desmerecer todos os outros versos que gostei destaco o genial estilo Marlene "Marlowe"
"Espero-te numa outra esquina
com veia gelo assassina
e um revólver apontado...
cem mil dias de cobrança
pelo amor de poupança
do teu coração desarmado"
Gostei muito! Parabéns!

josé ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marlene disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marlene disse...

Obrigada José,

Entretanto já depois do amável comentário mudei, mastiguei e se calhar piorei. Mas às vezes fica a sensação de que por mais voltas que se dê não se chega lá. Melhor parar por aqui senão o amor criogénico vira um qualquer amor mutante transgénico.

A. Roma disse...

Muito bonito o teu poema. Gélido e bonito. - quanto a mim muito feminino. É claro que posso corrigir uns versos :)
Prendem-me estes:
"Aos flocos o sangue cai
em quase nada
Numa neve
Vascular"
assim como o desconcerto em:
"Meu coração sem sentido
Jaz sentado sem pulsar
Em arca frigorífica
Do meu peito hipermercado"
Finalmente o garante da firmeza dos esmaltes glaciares que protegem o Mar de qualquer investida teimosa do aquecimento global em:
"Bate o dente, bate o dente
Nem que tente, nada tenho
Coragem, vontade ou empenho
De te assaltar o calor"
A ideia foi genial. E tu seguiste-a até ao polo norte.

Joana Espain disse...

Está muito bonito. O frio, o jogo e ritmo destes versos em especial estão uma delícia! Parabéns

"A batida é devagar,
A veia pulsa atrasada
Aos flocos o sangue cai
em quase nada
Numa neve
Vascular

Abatida devagar
A voz é pausa marcada
De flancos o amor cai
Da escada
Numa febre
Glaciar"

Elza disse...

Gostei desta "canção" que entoas a esse amor tão glaciar, parecendo que o fizeste, como sempre, com uma leveza e facilidade espantosa. Gostei de muitos versos. Marco aqui o "Fizeste "eu" do "nós" desfeito", sendo que vejo "nós" com duplo sentido. E, no caso do autor empirico ser o mesmo que o autor textual (acho que não estou a dizer asneiras) deixo aqui um conselho em jeito de brincadeira: Depois do gelo, o degelo, derrete já o coração de poeta para poderes sentir o amor quente de inferno outra vez! Como dizia alguém neste blog, e depois de ouvir a Maria Teresa Horta: Não te desapaixones nunca! Ou apaixona-te sempre, uma vez mais, como queiras ;)

António Pinto Oliveira (António Luíz) disse...

Reli os versos,mastiguei o poema, creio que o entendi.E gostei muito. Mas permita-me dizer o seguinte: sou avesso á total submissão à paixão. Esta quer extremos, egoísmo quanto baste ( na1ª fase do enamoramento), e sem ter que passar desapercebida também não gosta de parangonas, nem de parapraxia. Mas tem que haver coerência na bilateralidade e na óbvia duplicidade (casal) e não haver paranoia. Por parte de nenhum dos intervenientes deverá haver sobreestima patológica, pois isto alterará a sua autocrítica e seu juízo genuíno sobre a situação emotiva, levando a muitas e sombrias susceptibilidades e até à insociabilidade. Contudo, o poema fala acima de tudo de amor romântico (2ª fase), de desamor e assimetrias vitais ( por culpa unilateral) mas que não devem ser fatais. Constatar distintas incompatibilidades, assumir a desolação pelo desenlace...sim! Mas aceitar frustração com vingança e crime ( meu coração assaltante, criminoso...)não! Eu sei que apenas se trata de um poema, e quão belo e intocável!
..."Agora sou eu que grito,
devolve-me já neste instante
todo o tempo que tomaste
do meu coração assaltado".
Muito bonito... porque tem que se compensar a seguir, mas poderemos fazê-lo apenas por distanciação e desprezo!
"...depois dos teus crio-danos,
deixaste meus sonhos à solta
agora solta os meus planos".
Sim, quantas vezes é preciso a percepção de liberdade e reiniciar um relacionamento, ou nova paixão, após retemperar , reformular ou recriar os desejos ( pois que o sonho foi-se) mesmo que ele(a) "persista sob a pele"!
Na verdade, o amor/paixão tem razões insondáveis que a racionalidade nunca saberá entender...
Muitos parabéns pela profundidade de descrição desta amálgama de sentimentos que tanto me tocou, apesar da frigidez (frialdade e não anafrodisia) do texto.
Saudações poéticas, António

Marlene disse...

Obrigada pelos comentários. É mesmo bom ter um feedback porque sinceramente a minha autocrítica é muito incoerente. Tão depressa gosto um bocadinho como se ler uma segunda vez desgosto muito e na maior parte das vezes não sei dizer o que sinto. É um bocado aquilo que a minha mãe sente quando diz que a comida dela não lhe sabe bem, por isso prefere jantar fora. Pois eu tb prefiro jantar fora e devorar os vossos poemas, porque embora me divirta a escrever, os meus são incomestíveis para mim!
Em relação à criogénese, a sua origem foi meramente efeito do frio exterior. Posso dizer que o autor textual e o autor destes sentimentos invernosos não são o mesmo...e portanto podem ficar descansados que não vou para uma esquina assaltar corações à mão armada.
Beijinhos a todos e obrigada pelos comentários