sábado, 13 de dezembro de 2008

Inefável instante obtuso

Não estava perto nem longe do lugar;
cinzelado na figura alta de Rodin.
Nem tão pouco entendia se a distância
trazia o olhar de Camille nos ínvios
caminhos onde obra e arte no conjunto
resplandecia o caminho das estrelas
no céu astral.

Não havia outra razão de procurar
no intermédio se coisa alguma afinal
teria o dom de iluminar esse dia
homem de dias mortais, a noite
o infinito de claridade que redefine
histórias do filme gasto, irracional.

Inefável instante obtuso, suspenso
em névoas de outros sonhos, células
divisas na leveza do ser, asas ténues
delicadas, suaves borboletas de antenas
nascente de aneis circulares, casulos
meditação.

Planalto de incerto limbo
nem perto nem longe do vale
nos braços do vento Leste,
do vento Norte, do Suão: Nós e
o fio aço, o fio ferro, o fio brasa
no mesmo nada, à vez resistindo
à corrosão, crescendo de rugas
nos castanhos óxidos, sugando
fogueiras de calor e brilho,
cada um nas suas cordas bambas
segurando o coração de salto
brusco no equilibrio "Rambo"
da alma.

Não estava perto nem longe de tudo
perto nem longe de nada
naquele lugar.

2 comentários:

Marlene disse...

Sabe José, acho que o José é um esteta. O "inefável instante obtuso", mais do que um instante transcendente é uma delicia dos sentidos. Lembro-me que em pequena tinha palavras preferidas e usava-as juntas numa frase apenas para delícia dos sentidos. Dizia para mim baixinho coisas como "borboletas aladas", "sossegados desgostos", "titibiante tontura". O "inefável instante obtuso" e o "planalto de incerto limbo" são para mim canteiros de palavras perfumadas onde passeio encantada.

josé ferreira disse...

Marlene obrigado pelas tuas palavras e pela música dos teus poemas. Gostei de conhecer as tuas "borboletas aladas", "sossegados desgostosos" e "titibiante tontura" e descobrir que esse sentido estético, mesmo nas metáforas, faz parte dos nossos imaginários.
Adorei que me chamasses esteta, não
sei se mereço, mas foi um muito simpático elogio, o meu obrigado.
Não resisto a dizer que os teus comentários são tão recheados de frases bonitas que também me fazem lembrar os canteiros de flores, nos aromas e nas cores.