terça-feira, 21 de outubro de 2008

É como um fio de uma teia de aranha

É como um fio de uma teia de aranha
Fino, frágil, quase imperceptível
A que te agarras inconscientemente
E eu quieta, observo-te, impotente.
Observo-te com atenção e é incrível
O corpo quase inerte ali deitado
E eu a ver-te, sentada a teu lado.
É como um fio de uma teia de aranha
Quase flutuas, magro, alvo e transparente
A tua respiração é tão leve e tão fina
E transporto-me ao passado, de repente
Sou de novo a tua menina.
Bonecas, guarda-chuvas de chocolate,
Viagens, loucura, comboios eléctricos,
Bicicletas, estórias, uma sinfonia
E de volta ao presente eu sufoco
Nesta dor de te perder, nesta agonia.
O lençol imperceptível sobe e desce
A cada vez mais ténue e esbatido
E a frágil teia que o meu imaginário tece
Flutua como o vento, cresce, cresce
E o medo que me esmaga e enlouquece
Que eu não quero que tudo fique partido.
Mas é tão frágil e uma lágrima já sinto a escorrer
Sei que essas pausas vão ficando mais espaçadas
Teu coração quase não sinto a bater.
Fecho os olhos e procuro te agarrar
Mas a teia é tão frágil, vai quebrar!
E quando te abraço e sussurro bem do fundo:
Que te adoro, Pai, fica comigo…
Mas o fio da teia está partido
E tu, Pai, já não és mais deste mundo.

Elza

3 comentários:

Maria Celeste Carvalho disse...

Um poema muito bonito e muito sentido, Elza!
Há, particularmente, dois fios da teia que vamos tecendo, que arrastam consigo,um enorme vazio e sofrimento quando se quebram! É um desses fios, lindos e poderosos, que aqui, evocas, magoadamente, ternamente:
"Que te adoro, Pai, fica comigo...
Mas o fio da teia está partido."
Gostei muito! Mas, Elza, devemos dar graças pelo privilégio de ter tido, ao nosso lado, alguém, assim querido, que preencheu, uma parte, muito importante, da nossa vida, de amor, de ternura, de sabedoria e de compreensão!

Maria Celeste.

José Almeida da Silva disse...

Elza,

Apesar do «fio partido» e da sua fragilidade, a teia, pelos seus fios, excelentemente tecidos, e pelas formas que exibe, é de uma beleza extraordinária. ´~ao assim, também, os laços que ligam os seres humanos na sua relação de parentesco ou de amizade. e por mais que possamos julgar que esses fios, esses laços, se partem, a verdade é que eles nos ligam indelevelmente aos que connosco partilharam a vida - é uma extraordinária forma - que construímos - de eternidade. e os fios da memória, essa teia tantas vezes urdida dolorosamente, permitem-nos a relação tão ansiada. E só o afecto se torna pedinte! E o coração enche-se da ternura quente que a memória grata nos faculta. Saudades? Não há que ter saudades do que se viveu intensamente. O tempo e, depois, a memória grata depuram o sofrimento imposto pela ausÊncia, devolvendo-nos a quietação.

O seu texto é lindíssimo.

Navegador curioso disse...

Que lindo! Adoro-te prima querida. Aínda mais pela tua sensibilidade!

Como não sou poeta, deixo-te um dos meus poemas preferidos, da Sophia de Mello Breyner Andresen (ela que perdoe os abusos da minha memória taicoeira, que não o tenho comigo, senão na minha cabeça):

"Se tanto me dói que as coisas passem;
É porque em mim cada instante foi Vivo;
Na luta por um Bem definitivo;
Em que as coisas de Amor se eternizassem"

E como acredito que o teu Pai deixou as Vossas "coisas de Amor" eternizadas em ti...