terça-feira, 21 de outubro de 2008

CARTA A UM AMIGO

Porto, 21 de Outubro de 2008
Meu Querido Amigo,

Fico-te muito grata pela confiança que em mim depositaste: abriste-me os alçapões da tua alma e entreabriste-me o universo das tuas preocupações.
Não sei se alguma vez pensaste nisto, mas eu julgo que a partilha harmoniosa dos corpos depende, essencialmente, do verdadeiro amor mútuo. Quando há, no nosso quotidiano, a necessidade de não facultar ao outro as ilhas da nossa alma, isso pode significar o crescimento da distância entre os que se amam. É verdade que o tempo inscreve nas almas dos amantes a cor da monotonia e as suas resistências. E que, se se não estiver atento, provoca erosão nos sentimentos como o vento sibilino nas rochas mais duras. O tempo não é, todavia, o maior carrasco do amor e das relações interpessoais. As pessoas escondem debaixo do amor incompreen¬sões e egoísmos que não sabem controlar. E vivem atormentadas e atormentam os que amam, porque não conseguem superar esses pequenos nadas que se vão agigantando, dia após dia, a infernizar a sua vida e a dos outros. Com o medo de perderem a partilha, engavinham-se no outro e não o deixam respirar em plena liberdade. Sufocado, o outro começa a criar a distância, e o silêncio cresce. E, ao amor, as palavras são importantes! A linguagem não transparece o amor na sua essencialidade, mas está lá, bem no seu interior: nos gestos, no olhar, nas mãos, nos lábios, nos corpos acesos, linguagens que dizem, tacitamente, os sentimentos mais profundos e os mais humanos.
Nós, as mulheres, entendemos o amor como uma contínua paixão. Não o compreendemos senão como constante ardor do corpo e da alma. Não entendemos que a paixão seja efémera devido à sua intensidade e ao desgaste que provoca. A paixão não conhece as fronteiras do tempo. A paixão confunde o dia e a noite. Não é má, a paixão! A paixão é boa. Mas não há espírito nem corpo que comporte a paixão ao longo de toda a vida. A paixão oferece-nos a morte múltipla, muitas vezes. A paixão não dá espaço para viver, sossegadamente. O sossego e a calma são-nos oferecidos pelo amor. Porque o amor é a paz. E os homens precisam de paz interior para uma relação estável, para a placidez do espírito. O amor contém dentro de si a vida, o companheirismo, a fraternidade, a partilha autêntica e desinteressada. O calor dos corpos é tão-só um complemento desse estado de partilha mútua, que possibilita o entrelaçamento do espírito e do corpo, para um crescimento sereno do par amoroso.
Às vezes, os homens esquecem-se também da paixão por dentro do amor. E correm desenfreadamente por outras paixões, efémeras, que, dizem, não interferem no amor que partilham. Esse, crêem, foi o escolhido e, por isso, eterniza-se por ele mesmo, não precisa de ser alimentado. Mas a paixão corrompe o amor e estilhaça o bem-estar, a serenidade que a vivência do amor exige constantemente. O amor precisa de todo o espaço espiritual dos amantes. Exige deles uma verdadeira partilha exclusiva.
Caro amigo, não foi toda esta filosofia que me pediste. Mas, se calhar, eu não sou capaz de responder concretamente às tuas angústias e às tuas preocupações. O amor é como o respirar: cada um tem de saber dedilhá-lo à sua maneira. A vida depende de ambos. Por isso, cada um tem de encontrar as soluções que melhor se adaptam ao seu caso concreto. O médico não cura ninguém. Propõe caminhos que o paciente percorrerá ou não. A cura está sempre dentro de nós. O teu caso exige uma grande reflexão a dois. A harmonia tem de surgir de vós mesmos. Se não forem capazes dessa harmonia, não valerá a pena caminharem para o caos relacional. É bem melhor que cada um de vós saiba encontrar a sua harmonia, mesmo que implique a separação e a busca subsequente da harmonia individual.
Certa de que encontrarás a melhor das soluções, deixo-te um solidário abraço de muita amizade, e fico à tua inteira disposição.
Francisca
(José Almeida da Silva)

5 comentários:

Maria Celeste Carvalho disse...

Esta belíssima carta é uma delicada e profunda reflexão sobre a turbulência e desassossego da paixão e a paz e a doçura do amor, tão facilmente desgastado pela monotonia da rotina, corroído pelas mil pequenas quezílias do dia-a-dia e desfigurado pelos desencontros da vida a dois! Amor, também muitas vezes, destruído, crucificado, pela loucura da traição!
É uma dádiva maravilhosa, ter como amiga, uma Francisca tão sensível, tão sábia e, sobretudo, tão conhecedora dos infinitos, sombrios alguns, luminosos outros, mistérios da alma humana!
Obrigada, Francisca, pela deliciosa beleza e delicadeza de escrita e por me teres deixado partilhar contigo, a sabedoria das tuas reflexões!

Maria Celeste

liliana disse...

Gostei muito da carta da Francisca repleta de sensibilidade e ternura, cheia da disponibilidade da amizade. Gostei do filosofar sobre o amor, a paixão e os seus cruzamentos e desencontros. Gostei do realismo em corrente de um texto-rio a chegar ao mar.

Elza disse...

Sábia e serena, a Francisca. Gostei das imagens que surgiram de expressões como: "ilhas da alma", "a paixão oferece-nos a morte múltipla" e "a paixão por dentro do amor"...

Maria Inês disse...

Muito obrigada pelo comentario! E so posso concordar com os comentarios acima, é de facto uma carta que uma mulher escreveria, e que bontia carta!
Espero ter uma francisca que um dia me diga estas coisas quando eu precisar. Ou entao venho ao blogue rever o seu belo texto!

Ps: Ja estou a algum tempo para lhe dizer que "Amanheceste em mim pelo poente" é um titúlo sublime.

Elza disse...

José: Muito obrigada pelo comentário sábio e caloroso que fez ao meu poema. Fiquei sensibilizada. E agora um pedido: Não se despeça deste blogue, nem deixe a Celeste fazê-lo definitivamente, porque queremos continuar a descobrir mais desse "amanhecer..." tão belo que escreve!