IX
Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
Natália Correia
Depois daquela poesia a seguir ao almoço
no hábito que não é o nosso
desceu o sono, o farto sentir do cansaço
o abrir de uma rosácea que pedia descanso.
Dessa forma se fecharam os olhos
na calma branca de uma parede incompleta;
lugar onde caiu faz três anos o quadro colorido
de um prego inseguro e superficial.
Seguiu-se o ruído de mundos leves
entrando e saindo, uma brisa breve de ritmos
escutando o sentir interior mais íntimo
afastando as sombras de um teatro antigo.
Os véus opacos desvendaram segredos
apenas a pássaros pequenos
que debicavam migalhas sobre a mesa -
Nas almofadas os dois rostos estavam serenos
sem o indício inseguro, no indício da faísca
que de lua em sol subia os lábios felizes
(felinos eram os corpos em corpos que não miam
no jeito encolhido de um beiral de Agosto).
De olhos fechados os dois dormiam, dormiam, dormiam -
No primeiro acordar foi tão nítido o sonho:
uma catedral engolida de ondas
ao som de um piano no breve instante.
Sobrou suspenso, não deglutido um vitral
filtrando cores de um sensível arco-íris
nos dois rostos calmos como os fenos
- quando não há mais ventos - e o mesmo som
dentro de uma longa e larga jarra, em cima da mesa
vestida de fios finos de estrelícias
de aromas de narcisos
nascidos nas puras águas de uma ilha
onde habitavam os poemas
e à volta, num grande mar
as almas de todos os rios -
Matilde, nombre de planta o piedra o vino,
de lo que nace de la tierra y dura,
palabra en cuyo crecimiento amanece,
en cuyo estío estalla la luz de los limones.
En ese nombre corren navíos de madera
rodeados por enjambres de fuego azul marino,
y esas letras son el agua de un río
que desemboca en mi corazón calcinado.
Oh nombre descubierto bajo una enredadera
como la puerta de un túnel desconocido
que comunica con la fragancia del mundo!
Oh invádeme con tu boca abrasadora,
indágame, si quieres, con tus ojos nocturnos,
pero en tu nombre déjame navegar y dormir.
Pablo Neruda Cien Sonetos de Amor
MATILDE, nome de planta ou pedra ou vinho,
do que nasce da terra e dura,
palavra em cujo crescimento amanhece,
em cujo estio rebenta a luz dos limões.
Nesse nome correm navios de madeira
rodeados por enxames de fogo azul-marinho,
e essas letras são a água de um rio
que em meu coração calcinado desemboca.
Oh nome descoberto sob uma trepadeira
como a porta de um túnel desconhecido
que comunica com a fragrância do mundo!
Oh invade-me com tua boca abrasadora,
indaga-me, se queres, com teus olhos noturnos,
mas em teu nome deixa-me navegar e dormir.
de pés na terra e de cristais feitos de estrelas –
josé ferreira 31 julho 2012
segunda-feira, 30 de julho de 2012
trago-o na vibração inquieta da matéria sem vontade finjo não ouvir o trabalhar de operários de amor
o badalar crescente navio de espelhos que pulsa em ombros lançado devo ignorar a luz que abandona os sinos ao entardecer imperturbáveis, e a mim não, vem assistir a este pulsar vaidosa ao espelho
entre sinapse e quasar devo ignorar noites de cidades gravadas nos pulsos ser navio que cavalga e ter milhares de portos para descarregar o mundo cantar mais alto que a matéria sem vontade soprar devagar onde escureça e deixar que a luz oscile em cada olhar cruzado sem o querer descruzar devo ser feliz à desgarrada operário de um só pulsar e os sinos nunca denunciar
Ah, abram-me outra realidade!
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver, como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!
Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte — o que todos querem
O Sul — o que todos desejam
O Este — de onde tudo vem
O Oeste — aonde tudo finda
—Os quatro ventos do místico ar da civilização
—Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo
Álvaro de Campos In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Não
serão os mesmos seixos que a água deixa ver, nem os mesmos fentos que
amparam a água a correr devagar, como toda a que passou antes sob a
ponte.
Mas
ainda são as mesmas pedras, talhadas e carregadas para se sobrepor à
armação de madeira que as sustentam. As pedras, elas no esqueleto de
madeira que fez o avô carpinteiro do meu avô que foi lavrador, também
não serão eternas.
O Meu avô compunha também as rodas dos carros de bois, menos vezes
quando fui para a primária da aldeia, mas já muito antes de eu ir
para a escola. Também vendia gado de puxar carros de bois na feira. O
caminho era curto, meia hora a pé com companhia. Ele nunca vendeu os
bois pelo preço justo, coisas... hoje vejo bem melhor isso.
Por
vezes falam-me da ingenuidade do campo, falam-me as pessoas da cidade.
Ou como agora se perdeu... E eu, eu acho graça, e imagino como a feira
deveria ser um jogo estranho para o Fanfa, o meu avô. Era apenas um
homem, um homem que não jogava.
Diz-se ainda hoje que sob a ponte muita água há-de passar. Esta, neste preciso momento, está a passar.
Já agradeci a quem me ouviu. E se o meu avô estivesse vivo, teria também dito, deve ser proibido desrespeitar.
Na aldeia, à noite gosto de ouvir o som da água, e é perfeito quando o
céu está limpo, e deixa ver o estrelar, como a água que de dia deixa ver
os seixos. E a ponte, não se deixa ouvir, nem ver, é silêncio. De todos
os silêncios, o silêncio perfeito
«Aqueles de vós que correm atrás do poder
despótico (...) eu exorto a mudarem de direcção e a cedo fugir
do que é considerado “felicidade” [eudaimonisma] por homens de ânsias
insaciáveis e mentes vazias (…)»
fala-me dos arcos de céu onde infinitos pequenos astros se rebolam sobre a pureza do teu rosto. fala-me dos teus olhos, da paisagem que inventam no luar de azul onde se adivinham os dias e se pressente o ligeiro vibrar do novo amor em semente.
escutarei, e das tuas palavras vou tirar outras que não são para dizer, que trazem nos lábios o mais íntimo segredo disso que é real, disso que ignora as paredes do olhar e em tudo desenha o tão doce horizonte que somos em nós.
mudo ficarei suspenso da tua voz sem saber ao certo se é verdade ou mentira, se se pode de facto criar um rosto que nos mostre por completo, como a pele mostra a mão, a água o beijo, sem saber se este sangue e esperança será suficiente para te encontrar no rebolar dos infinitos pequenos astros.
Vasco Gato in «Um Mover de Mão», pág.25 Lisboa: Assírio & Alvim, 2000