quarta-feira, 6 de junho de 2012

A um ritmo certo, na parede branca


                                           

                                  Ludvik Glazer-Naudé        


As fotografias  passavam como diapositivos.
A um ritmo certo, numa parede branca.
Ali um barco, ali um pássaro, ali uma árvore
Ali um ombro.
A um ritmo certo que passava na parede branca.
Ali os olhos, na metade de um espelho.
Ali um braço, ali uma unha pintada de vermelho.
Ali um pé pousado numa sabrina plana.
Ali uma brisa de platina e os cabelos ao vento.

A um ritmo certo na parede branca.

josé ferreira 6 Junho 2012

terça-feira, 5 de junho de 2012

Sento-me então a olhar o rio





                                           Roland Gerth 


Sento-me então a olhar o rio, 
os meus pensamentos formam cardumes 
que contra a corrente se insurgem 
mas as águas são inexoráveis; 
olhando-as, a superfície cintila, 
propaga-se como se fossem notas 
de um piano na garupa de um cavalo 
que se dirige para o mar. 
O rio bebe as cores da cidade, 
sobre elas eu abro o coração 
em que te encontras, as colinas 
emolduram as raízes que à terra
nos ligam. Para os meus olhos 
é um momento de pausa: as coisas 
que interrogo não resistem à maré,
não dão respostas; perdem-se no mar 
como tudo o que a memória não reteve. 
Mas este rio 
já foi longamente folheado, nele 
escrevemos o romance de amor 
que nos deu uma casa, 
nos cortou o cabelo, nos afastou 
das rugas, nos entregou o azul 
(tecido, nuvem, divã, janela...) 
o voo das artérias, lugar do corpo, 
portas que nos amanhecem, espelho 
onde fazemos fluir a vida. Acordes 
da guitarra que forja o horizonte, 
que guia o sinuoso voo das gaivotas 
e acaricia a pele que rasga atalhos 
no interior dos sonhos. Estarei 
vivo enquanto me guardar 
teu coração. E no seu lucilar, 
esta água imita o fogo 
que devora sombras e escombros, 
libertando a asa que no sangue 
respira. A foz está próxima, 
mas o horizonte é o teu olhar. 
No leitor do carro, a guitarra flexível 
sublinha o que divago; os acordes 
disparam, 
encontram-me na trajectória do seu alvo.


Egito Gonçalves In A FERIDA AMÁVEL , Campo das Letras, 2000

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Intervalo



                                      Lillian Bassman


Faço um intervalo porque a boca se fechou
num silêncio de silício, uma campânula de vidro
imerso e sem imagens, e foi um dia de domingo –

Um caderno permanece aberto de notas dispersas sobre números
Um quotidiano, uma utilidade que não fala, nem mexe, nem merece.
Melhor assim o silêncio –

Faço um intervalo porque penso nos teus braços
Nos teus olhos, abrindo um sorriso
Nos teus modos tímidos
Na tuas palavras  sopradas pelos lábios
Nos teus ombros típicos:
Uma alça presa e a pele à mostra –

Faço um intervalo pelo rio grande imaginário
Com um chapéu de palha e um barco
Uma viola cheia de cordas dentro das mãos
Na posição de sol e por cima do teu colo –

O barco desliza na divisão perfeita de uma linha
Pela grafite de um compasso  e a meio do rio
E podia ser uma gôndola  de dias quentes
De profundidades ilíquidas, lentamente e sem a mente
Nos labirintos e nas ilações de rumos –

Faço um intervalo e penso na transparência de um horizonte
Em dias diferentes
O caminhar dos dedos como se corressem
E transpirassem e batessem num ritmo de músculo
Num íman de sede, numa entrega de tudo
Uma promessa de mundo –

Faço um intervalo porque é importante o sonho
E não creio nos demónios que calcinam a alma, como pedras
Demónios que atordoam e fazem perder os sentidos –

Acredito na cor das brisas e seguro as velas nos dias difíceis
Porque há muitos momentos na vida:
A distância de um oceano e a diferença do frio
A proximidade numa mesma cidade tornada longínqua
E o habitar da possibilidade como dizia Dickinson –

 josé ferreira 4 Junho de 2012

domingo, 3 de junho de 2012

O vagar


O vagar do que dizia soava ao escorrer do azeite, no lagar da ainda aldeia. No entanto, não morrera ele no chão, onde caíram as azeitonas deixadas. As que não se apanharam deram-se à terra. E ele ficou, com quem ficou, mas foi como azeite entornado fora de prato. Aceitou, mesmo depois de entender, até ao fim. É isso o que mais lamento.
Quase incógnito, impotente, como tantas mulheres de todos os tempos, e na inversão de papéis, mesmo assim, quando disse que não, foi não. Essas poucas ocasiões foram poucas demais, mas há quem se lembre.
Os tempos de hoje são parecidos aos dele em muitos lugares, é isso que me surpreende muitas vezes.
E se tudo pode mudar, deu o aviso, o que não muda. E o vagar do que dizia soa ainda como azeite, verde, velho, sensato, e a tempo, mesmo que ele morto. Morreu fora de casa e fora de terra. No entanto, ironicamente, ficou a esperança nesse aviso, e também tanto a agradecer. 
Anabela Couto Brasinha

sábado, 2 de junho de 2012

Poema

A poesia está guardada nas palavras - é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.


Manoel de Barros

Aqui vai o "exercício" com um sorriso para a inspiradora Ana Janeiro

AZeite

Ah!
Bentas, pois!
Cegueira total.
Dê para onde der,
É.
Fogeee! Foi por um passo.
Gueto, o cansaço dado,
Há que animar.
Ida, e que travessia!
Jesssusss!

Ler a mente, só o que é preciso,
Maluquice é o que há mais, e
Não falta muito, deleite.
O verde suave não afoga.
Pelas cores do céu que trocaram,
Que ficou sempre fim de tarde,
Restam.
Sem esperar nada,
Também não há fim ou princípio.
Uaaau! É bonito ver como se move o azeite!

Voz vai dizendo, música,
Xilofones; os tolos, esses,
Zombam. Amor não traz dor, isso é outra coisa.

Aí azeite
fui rua fora, até que entrei casa dentro. o zig zag na TV, não pensei se tropecei,
Azelha eu!
corro para os tachos fazer  arco-íris, e foguetes, a grande festa. não há nada como o azeite, verde garrafa, e desculpa, esvaziei ontem a última garrafa de outra coisa, e é forte o azeite, aquilo é condimento, alimenta, e nada faz falta aqui.



acordei com os braços em cima dos teus seios
olhando a encosta, junto do carro vermelho.
foi aí uma hora e pouco nos mexemos;
as mãos em silêncio, as asas sem medo -

o planar dos melros por cima dos pinheiros
era um  lago parado na cor dos espelhos,

 e por vezes os lábios
como borboletas –

josé ferreira 2 junho 2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012

7

                                Katerina Bodrunova

Fecham-se as persianas
À ternura urge o lusco-fusco.
E os olhares ácidos
Do crepúsculo
Não saboreiam
Silêncios subtis
Num sabor feito de ardor
E arco-íris.

Fecham-se as persianas.
A ternura invade o chão nu
Numa união sempre original
De corpos doces a saber a sal.

Fecham-se as persianas.
Arde a luz.

                                10.07.1991

José Almeida Silva in Amanheceste em mim pelo poente, Editora Moura Pinto, 2007

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Portugal_idade


Engarrafado na oliveira,
à mais de 100 anos,
o Gallo canta
Azeite!
Resolve à batatada
qualquer jantar

Ai que saudades da caldeirada!

e depois é manhã



                              Lillian Bassman "Carmen having tea" 1950



e depois é manhã, uma manhã resplandecente
depois da madrugada com as palavras debaixo do corpo
ainda morno e é primavera –

os teus olhos abrem-se na dificuldade dos braços espalhados
a perna esquerda levantada, a direita esticada, a tocar as dobras
uma profundidade –

e os meus da mesma forma –

e  é manhã, a manhã depois do sonho das fadas
das estrelas brilhantes, da lua branca, das tuas palavras
sem durezas, macias como uma espuma a tocar areias
e o mar afaga, e é longo –

guardo-te todos os diamantes, os que são líquidos, os sossegos mais claros
aqueles que compõem a alma, que lhe secam as lágrimas
aqueles que têm mãos e abraçam as omoplatas
as suas partes mais ósseas, para que sejam mais brandas
menos pesadas –

e depois é manhã, uma manhã de dedos e margens
que acenam e constroem pontes –

as nuvens são uma promessa
de trazerem alguma sombra e de darem um pouco de azul sem que outros vejam
um azul que estilhaça as cavernas, os fantasmas mais perversos
os limites do tempo na época dos frutos –

 e depois é manhã, a manhã resplandecente, sempre
até que um sinal de fumo anuncie a noite
o seu veludo, a rotação dos astros influentes
e resistentes
e eternamente iluminados –

e depois é manhã dentro do meu peito
no compasso imperfeito do sono, o círculo sem medo
que acorda o mármore dos templos e a deusa no seu manto

e as estrelas
e as estrelas –


 josé ferreira 31 maio 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Amanhecer na luz

Há na cor invisível da pura luz a forma
O quente laço do olhar a embalar angústias

Os medos são monstros transparentes
Capas de ilusão maciça sem dono

(sinto os ossos mais fortes quando ris)

A matéria osteoblástica da tua força
Um mistério da metafísica

Cresço num gigante de sorrisos
(um abraço forte, forte)

Os monstros transparentes fogem, fogem
São tão pequenos à visível luz
O amor é a antiforma

( a matéria é uma ilusão arcaica)

O amor
Embala os barcos coloridos na nossa praia

(A luz cresce, cresce)

A verdade sobre os guarda-chuvas














A verdade sobre os guarda-chuvas

A chuva voltou de entre nuvens de fogo – amanhã
Vai estar calor, o céu tem nuvens róseas, o negro
Que as circunda é quadro para as mostrar aos olhares
Nuas – uma beleza inesperada na tempestade oculta
Por dentro das nuvens – tanta chuva por chover recolhida
Na abóbada que devia ainda ser azul celeste pouco antes
Do crepúsculo. A chuva há de chegar com bagas grossas,
Ou miudinhas, forte e fustigada pelo vento norte enregelado
De frio como vagas encrespadas de um súbito mar enfurecido –

E eu estou à janela esperando contemplar o espetáculo tão belo
E singular que as nuvens sempre oferecem no final do ciclo da água
– Não acho piada nenhuma aos guarda-chuvas de todos os tamanhos
E cores. Os guarda-chuvas impedem que a Natureza se mostre no seu
Esplendor e que a chuva lave as impurezas que as cidades depositam
Nos homens – A sujidade assim agarra-se à pele e instala-se no coração
E até na alma – Um incómodo para a chuva miudinha que tem de fazer
Muito mais esforço. Não sei bem para que servem os guarda-chuvas.
Não guardam nada e não deixam que a chuva se cumpra na sua função.

Estava eu debruçado na janela quando a chuva começou a cair a rodos.
Fechei a janela e saí para a rua – precisava de me lavar, e não me manter
Ali abrigado como se abrisse um guarda-chuva e deixasse as impurezas
Agarrarem-se a mim como lapas nos rochedos ou bolores nas paredes.

Todo molhado, da cabeça aos pés, sentia-me lavado e leve, e comecei a
Chamar por toda a gente como se estivesse a suplicar aos céus a bênção
Da água quando as secas se abatem sobre as florestas como furiosos fogos
Devastadores de mãos sujas. As pessoas vieram mas trouxeram os usuais
Guarda-chuvas e as botas de borracha. E eu fiquei sozinho no meio delas.
Parou de chover, e eu ri muito da inutilidade dos guarda-chuvas. Como o azeite,

Toda a verdade ilumina o poema, lucerna de sons, de ideias e versos acesos –
                                                                                                                           (2012.03.06)
                                                                                                                                      José Almeida da Silva

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Teu Amor



Amor escrito a densidade
Ziguezague em pura luz
Envolve de ouro a saudade
Impregna de estrelas a pele
Transformando em liberdade
Etéreos sonhos de papel.

Amor corpo inteiro em céu
Zela a noite em nu abraço
Espaço de poente a par
Ilumina gigante a fantasia
Teu amor é terra e laço
Escreve em meu colo poesia.

A história de como o Azeite

.

..
Dom Azeite Azeitoninho de Monte-Plano Lampante
          [ Reguengos de Oliveira Carocilho e Alarcão
Era um senhor rubicundo
e profundamente careca
que vivia numa ramada seca
em Azeitão.
.
Falava imenso,
sempre muito alto –
com a sua cara de pele lustrosa
virada para cima a brilhar –
na toada discursiva
de quem sabe tudo,
peito inchado,
sobrolho franzido e
braços a gesticular.
.
Gabava-se de ser Rei
das Hortas, das Oliveiras e da Criação,
Senhor dos Lagares do Azeite,
rico que nem sabia quanto!
Navegador d’ aquém e d’ além
do Regato Pingado da Rega
Imperador das varetas,
e isto e aquilo e mais que Santo.

Tinha só uma folha pelada
que chamasse sua,
o resto era basófia e
refinadíssimas balelas,
está mesmo bom de ver!
Por dentro
tinha um caroço
preto e duro como os outros,
e sangrava a mesma matéria,
densa e viscosa ao arrefecer.
.
E lá andava muito empinado,
a rebolar por todo o lado,
a arengar à esquerda e à direita
com voz cava de cavalheiro.
Mas houve um dia
em que perdeu a compostura,
estalou-se-lhe o verniz da casca
e mostrou a polpa de arruaceiro:
.
Alguém o chamou
sem as untuosidades de que ele gostava:
- Anda cá, ó Azeitona!
E ele parou de repente
engasgou-se-lhe o caroço,
passou-lhe uma coisa pela vista,
foi direito ao outro e zás!
Acertou-lhe uma tapona.
.
E estavam todos tão cansados
das retóricas e tiques de
Dom Azeite Azeitoninho de Monte-Plano Lampante
          [ Reguengos de Oliveira Carocilho e Alarcão
que foi um deleite:
É que o outro
era maior e não se ficou,
apanhou-o pela largueza da baga,
e apertou
e triturou
e torceu
e espremeu
e sacudiu
até que nada sobrou,
senão uma pocinha de azeite.
.
raquel patriarca | vinteecinco.maio.doismiledoze

domingo, 27 de maio de 2012



de entrada a uma casa pequena ao sol
o estreito movimento de olhos  
o virar da face como remo 
uma casa que é barco por dentro
e arrefece na suspensão de uma festa no cabelo 
sem prestar atenção ao que se acende e se apaga em cada ilha 
ao movimento dos barcos 
quando se despedem dos olhos  
a caminho do espaço comum 
aberto devagar entre as sobrancelhas dos bichos
milímetros paralelos de luz
e cada um para o outro, uma criança -
tem que se falar de luz no sublime cruzar dos olhos dos bichos
não através dos olhos dos mortos nem do alimento do espectro dos livros
sigo com os barcos que fazem desaparecer multidões 
a acenar por dentro dos olhos 
ouve-se um rumor lúcido de um motor suave 
mais ou menos o que há de bom no sol
talvez esteja a chegar
o calor é actualizado a cada instante 
e já não é o calor do sol 
de luz, de avisos
oh meu capitão 
há barcos que vão e vêm vazios