terça-feira, 3 de abril de 2012

Era o tempo de Puchkine -um poema de Pablo Neruda


Pablo Picasso

Era o tempo de Puchkine,
a primavera plana,
uma onda de ar
como a vela pura
de um barco transparente
ia pelos prados levantando a erva e o aroma
das germinações.
Perto de Leninegrado os abetos
dançavam uma valsa lenta
de horizonte marinho. Para Leste
caminhavam os motores,
as rodas, a energia,
os rapazes e as raparigas.
Trepidava a estepe,
os cordeiros punham
a sua pontuação nevada
na imensa extensão da ternura.
(…)

Pablo Neruda

segunda-feira, 2 de abril de 2012

LUZ

É estranha a dor da perda
Abismo entranhado na pele que esvazia o olhar
Rosto cinzento de nuvens
Desconexo o sonho vão ruma ao infinito
Onda paralela de saudade que abraça e destroça
A dor joga aos dados, lentamente com o corpo
Num duelo agudo, uterino de rasgo.
Sabor ocre ensimesmado que desenlaça lágrimas
É urgente voar.
Desdizem-se as verdades e os mitos num búzio que canta mar.
A dor é amoral e tem pó nas arestas.
O amor doce de primavera e a graça simples da saudade.
Um tempo que estagna e desaparece.
Como a alma quando morre.
Um embalo frio de tão real
O lado inacabado do nascer
A nua sombra em riste que enfim jaz
Com um novo raio de luz.

sobre as folhas iluminadas uma brisa indelével




no campo imaginário, nos antípodas, fora da cidade
não se viam casas, apenas árvores de copas alinhadas
e os olhos abriam sobre um vale e sobre castanheiros
sobre vários troncos de formas apropriadas, sem singularidades.
do lado esquerdo, dois de varas finas nas mãos do tempo, recentes.
quando seriam grandes? quando seria o momento?
aquele, em que se encontrassem altos
sobre a lisura e em sossego –

não havia casas apenas árvores de copas alinhadas
e havia um plano mesmo que imaginário –

sobre as folhas iluminadas uma brisa indelével
uma promessa de um deus desconhecido
de que um dia, naquele campo
correria a brisa, a brisa indelével
a única possível, definida, no deslizar dos sentidos –

o verde invadia em abundância o campo imaginário
e surgia nítido, junto dos castanheiros, um terreno cultivado de laranjas,
só de flores, sem a cor e ainda sem o globo de sumos -

um aroma intenso e profundo invadia tudo
um pólen precioso, de abelhas sem agulhas de fúrias
daquelas que voam muito, espalhando um ruído de sorrisos
de mãos nas mãos, cruzando e descruzando linhas
caminhos, quiromancias –

no campo imaginário o céu estava claro
usava uma camisa azul com linhas corridas nos pulsos;
algumas nuvens –


não havia escuridão nem medo.
os olhos partiam sobre as flores e havia borboletas
brancas, algumas de desenhos, brancas
asas rodeando as árvores, sem laranjas -

quando se juntam as mãos no campo imaginário
de cada um dos lados há duas que ficam vazias
essa a razão de procurar a substância, essências
flores que habitem –

no campo imaginário não há mãos vazias
colhem flores
sobem múltiplas vezes acima dos lábios, junto às narinas;
aspiram odores, aromas, uma tranquilidade fina, nas narinas –

é como se encerrassem o tempo dentro da cabeça
(uma sala de cinema às escuras, antes de um filme)
uma inconsciência de consequências, de cenas e fotografias;
pedaços autênticos, uma vida –

não sabemos onde mora o inconsciente
não há exemplos, não há espelhos
não sabemos se é gente autónoma
pregando tábuas, abrindo e fechando janelas
arejando a alma como se estendesse roupa
na extensão comprida de arames;
e a roupa oscilando e enroscando-se
na direcção dos ventos –

não sabemos quem comanda o sonho
somos ignorantes, como as abelhas
o pólen e as borboletas –

seguimos uma ordem química, um signo, a desorientação de um excesso
ou a certeza mais certa de um caminho;
a solução das mãos, como uma mistura de sais
uma poção de magia alterando a cor do céu;
a cor intensa, vermelho vivo –

as pálpebras pesam
e os olhos estão para o homem como asas, visíveis e invisíveis,
na luz do sol ou protegidas;

abrem e fecham, sobre o sonho e sobre a vida –

domingo, 1 de abril de 2012

Viagem

Casa grande de portas fechadas
A jovem face do perigo que espreita
O medo trancado sob as fechaduras
É o interno líquido da solidão
O correr intenso da inquietação
Chama em vão a longínqua companhia
Casa grande de identidade em formação
Terno ventre de mobília inteira
O mito inconsciente da borboleta
Na simplicidade da transformação
Mudança corpórea de consequência
O brilho diamante da felicidade
Que veste de fantasia a realidade.
Janelas abertas da casa fechada
Tocam com o olhar a lua solar
Lá em baixo fica só a escuridão
As asas abertas para poder voar
Dormir sobre a lua em nu disfuncional
Colher estrelas-sonhos no sol matinal
Descer rumo à terra à casa gigante
Enchê-la de luz cor de diamante.

sábado, 31 de março de 2012

A linha cinzenta e branca

Invisível a folha branca não fala
Não se move nem procura a ternura
A folha voa, fugidia, altiva e crua
É branca, tão branca e impossível.
A cor não existe na folha branca
A cor desdisse que é cor.
É branca. É ausente.
A folha branca não sabe que o amor não existe.
Que o amor é uma abstracção do céu.
É tarde para amar agora que o branco chegou.
Uma parede alta ergueu-se na fronteira cinzenta dos corpos.
Há pó invisível pesado e o ar rarefeito sem brisa não ecoa.
As estrelas balançam na inquietação agitada dos seus cinco braços.
O corpo não sabe, só dói.
A folha não pensa pesada e branca.
Descansa leve no mar, com o universo por baixo.
O amor são as ondas mudas, em silêncio.
A folha branca continua.
Muito branca.
Cheia de estrelas invisíveis por nascer.

a mudança e o solstício


Bill Brandt


era um dia dos mais frios
não tinha previsto essa roupa de gelo
dobrava a alma, corria um fecho sobre a tarde cinza
lembrava-se dela como se a encontrasse hoje
deitada sobre um livro, como se fosse um campo de lírios –

anunciaram outro dia a mudança e o solstício, quem dera, disse –

a interrogação é constante, uma lua é um espaço branco
não tem mãos rugosas nem lâminas nos brilhos
é um outro espaço, um espaço platina
um espaço entre estrelas
onde por vezes surgem incessantes
não legítimos
um manto negro e nebulosas que não adivinha;
mas assim é o sangue quando corre no oxigénio
um rio, vermelho e vivo
percorrendo caminhos –

essa é a parte que espera
uma janela sem vidros, sem cortinas e nunca sem linhas
que seguram um balão ou enrolam um novelo de fios
como quando a mãe era ainda menina e ele pequenino
como quando engraxava sapatos e recebia uma moedinha
como quando uma tarde inteira passava roupa
e tinha muito cuidado com os colarinhos
com os vincos das roupas, as marcas longínquas
que andavam na rua e eram difíceis –

o mundo não é insustentável, digo-te
pode ser limão ou manga
uma cadeira de verga, singular e repetida
ou mãos dadas e rostos de diamante
ou uma dança de rumba e um mar de chamas –

o mundo pode ser tudo se acreditares antes do fumo
em ti e no mundo –

o mundo pode ser tudo, o impossível -

repara
o impossível é construído
é algo que se acrescenta e nos toca os lábios
como um raio de luz ou uma onda perdida
nos toca, mesmo que não agora, de braços à volta, mesmo que não agora
mas pode, no futuro –

repara
o impossível é construível
o impossível nasce do possível
quando se junta uma sílaba –

repara e acredita
o mundo é verde, sustentável, digo-te
acredita –

josé ferreira

sexta-feira, 30 de março de 2012

O caminho

Asas dobradas no meu jardim
Anjos caídos descrentes do céu
Parecem mudos, vestidos de breu
Inertes, brancos de um cal de morte
Jazem sem sangue ainda que vivos
Os olhos brilhantes sabem de cor o azul
O desconhecido da terra batida
A humana forma de sentir o chão
Em misto de angústia e de ilusão.
Quieto o silêncio, foge ao vago verbo
Tão vero, tão certo, tosco e insincero.
Viagem ao centro da dúvida exacta
Pura, sem corpo, de face abstracta.
Cortam-se a xizato as asas e o sol
Recortam-se as estrelas, decantam-se as lágrimas
Desdobram-se as mágoas com a fita métrica
Embrulha-se o medo em papel celofane
Um vestido novo e um longo arame
Onde na vertigem se dá mais passo
O céu lá tão alto.
É um caminhar sem asas na terra.
O levante erecto do corpo deitado.
Eis que ao percorrer o caminho incerto
As asas recrescem e o céu já perto
Sussurra ao ouvido das estrelas bebé
Já podem nascer, o novo já é.

um mar azul e branco - um poema de Sophia


Charles Curran

O mar azul e branco e as luzidias
Pedras – O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 29 de março de 2012

Era o sol uma sombra

Rasgo de sol enquadrado na árvore como o amor na pele
Triângulo isósceles de indefinições que cresce e morde
A seda de um beijo, a sede da doçura de tudo o que foi.
É tarde e o sol não fica, talvez já não volte a nascer.
A incerteza da luz gravada na clorofila do rosto comove.
Será o coração a raiz? Mente ancorada a corpo incerto.
Não.
A raiz é o cerne neuronal do pensamento que acende os olhos.
O coração não se arranca nem dá fruto.
É só um músculo liso, autómato e acéfalo.
O miocárdio não pensa tão cheio de sangue.
Um punho fechado de células síncronas
Um sol ao contrário, que apaga e sorve luz.
O coração arranca-se. Quando é preciso.
Entra o sol e os neurónios continuam vivos e ternos
Sem a saudade melancólica do beijo.
A raíz é o corpo ser inteiro.
Ser inteiro em si na incompletude da dor.
A inteireza de se saber ser quem se é e faz.
A luz nas folhas verdes de uma árvore direita.
Inteira.

Isto tudo que nos rodeia (I) - Cartas de Mécia Sena/Jorge Sena


John William Waterhouse "Ophelia" 1889


Querida Mécia (28/11/46)

De manhã andei na obra. Almocei. Depois chegou o correio: um postal da Mãe, outro do Óscar, e provas do Pessoa. Até às 4 e meia, vi , e empacotei para as devolver, 80 páginas do Pessoa, e escrevi-te, ao Óscar, à Manuela Porto, ao Salgueiro (da Inquérito) e à Mãe. Fui ao túnel, andei por lá. Vim para o quarto repousar, ler um pouco: Shaw, E, à luz da vela, porque a electricidade foi-se mais uma vez, aqui estou a escrever-te com vagar.
Como já disse não recebi notícias tuas, que se calhar mandaste para Évora …

(…)

Acaba de regressar subitamente a luz, não sei por quanto tempo – (agora está a apagar e a acender) – (…) Apaga , acende, apaga, acende, que nem as velas se poupam, nem as velas servem (até esta frase parece um final de poema – hein? – um princípio de outro vem à cabeça do papel desta carta, mas não passou daí, em verso, e continuou-se por aqui fora como estás vendo).

(…)

São sete e meia, estou cansado, muito, muito cansado. Até amanhã, querida.

Jorge de Sena

quarta-feira, 28 de março de 2012

A lógica do amor

A lógica não tem olhos nem sabe sentir
Hermética na dor decide em cru e ri
Há sabedoria na dor, tão leve como a ausência
Toda a luz é leve, inesperadamente profunda
Pesa a tristeza, mente em chumbo
Caminho em vazio, sopro estranho o do amor.
Vento que revolve, enleia e move
Flores presas nas mãos como beijos
Ondas largas que inundam o rosto
Vagas áureas e nos cabelos a solidão.
Asas episódicas libertam-se nuas
Colhe-se a sombra nos segundos
As sementes voam e são espectros
Fantasmas mnésicos do que foi
O amor não tem lógica, é um transacto.

lua crescente





uma lua crescente e branca venceu a noite.
aquela noite que por vezes sem chave
não abre as portas e se perde na estrada
procurando palavras
procurando sempre palavras –

é grande o poder da lua na noite original.
a noite original é aquela que não tem regras
a noite dos aromas das glicínias maduras
a noite que não é mão fechada nem praia deserta
a noite que se debruça sobre as águas e sobre as ondas
onde há um barco ao largo sem visão de terra
o barco de um sonho que caminha com pés de tábua
sem remos sem velas por vezes magoado –

e a lua crescente crescendo na noite mostra-lhe uma estrela
como quem desce de uma longa escada para lhe tocar o cabelo
para lhe iluminar os olhos tapar os ouvidos e erguer a cabeça -

e a lua crescente traz uma luz no mar e senta-se no barco
um barco em forma de gente de pés molhados –

e o mar compreende tudo e fica iluminado
abre uns lábios brancos
e na força do vento e de vagas incessantes
ergue uma mão gigante de espuma e de sal
e mistura barco e lua de uma só vez
de uma só vez na hipnose do tempo
como se solúveis
feitos de uma mesma essência

a lua no barco e o barco na lua
assim de repente –


josé ferreira 28 março 2012

terça-feira, 27 de março de 2012

Dúvida

Era tarde para não nascer agora que chorava
Berço pronto lácteo e doce, colo quente em descoberta
Vida feita de invisível, cruo encontro de acasos
Espera eterna ou morte certa, dois bocados de infinito
A unir a escuridão, fina luz, ténue e fina
Lua branca, um não ao escuro, régua estranha a do futuro
Num jogo com o presente, a brincar com a razão
Só será depois de ser, ao fazer cria ilusão
Do tempo ser uma linha, costurada a precisão
Segundos certos de nada, tão perdidos no passado
Rodam num ciclo em relógio de comboio disfarçado
Onde era o fim da linha , vê-se a nascer enfim
Nova vida, novo grito, novo choro e novo fim.
A vida enrola-se em si, um novelo tão perfeito
Que seria em vão tentar estendê-lo todo a direito.
As perguntas não são vãs, mas são vãs as incertezas
São tão certas as manhãs e os poentes no mar.
São tão certos os sabores que até sabem pensar.
Nascimento ou infinito, maresia ou escuridão
Seja silêncio ou grito, plenitude ou confusão
Estou tão certa da certeza que já só tenho Razão.

Adiamento - um poema de Álvaro de Campos


fotografia por Christine Schneider

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos

domingo, 25 de março de 2012

Morte

Há na vida um tom ocre de lamento
Doce dor em vento, sopro e liberdade.
Face da metade de um outro equinócio,
Árida e surpresa, uma nuvem presa, na terra
em inércia, parada e muda, epitáfio surdo
Memória inquieta, paixão em colcheia
Rápida e segura, alterna a loucura com a centopeia.
Só a incerteza sorri à inconstância
De mudar de par a meio da dança.
Rodopio áspero, a vida em moinho
Mói a juventude em centeio fino;
Branco e sabedor, cor de luz e leve
Há no fim a luz da mais branca neve.