sábado, 5 de novembro de 2011

a meu favor tenho o verde secreto dos teus olhos


Vladimir Kush

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A minha avó



A minha avó costumava contar histórias assim. Ela era perita no fim do mundo e achava estranho ter nascido com um pé dentro desta espécie e o outro, visivelmente deslocado, na boca mórbida da suspeita e no sexo ufano da ironia. A minha avó passava o tempo a coser mentiras umas às outras, criou o crochet cruel das minudências, e ainda se dava ao luxo de povoar essas mentiras de pássaros orientais, paisagens soberbas onde a serenidade e a percepção sofriam os ventos mal representados da hesitação sombria. A minha avó contava-me contos distópicos antes de eu dormir. Sentava-se na cama e falava da falência da Terra, do advento do cripto-individualismo, da comicidade com que, tantas vezes, se reveste a distorção do real, como, por exemplo, na “demonização baudelairiana do riso”. Dizia poemas onde a guerra e o bom senso amavam-se para sempre e a era da demência era mundialmente aplaudida. E por vezes, perguntava: queres que eu te leve a este planeta? Ou preferes ficar esta noite apenas na casa escura do ensino? Falava exactamente assim. Por intermédio de uma rede organizada de metáforas e tiques da elevação do estilo, levemente apoiada na sua língua bífida e sibilina, nas encostas de um português com 35 % de sotaque romeno e 65% de sotaque desconhecido. Falava assim.
Eu tinha 39 anos naquela altura, quase todos os dias 39º de febre e queria muito dormir. Mas, naquela noite, por mais que a senhora se esforçasse, eu não conseguia. Resolvi recorrer ao serviço de avós ao domicílio, secção avós distópicas para netos cínicos, Avenida Marqués del Abandono, Ciudad Irreal.
Vou protestar, pensei. Vou exigir uma avó nova ainda esta noite. Uma que me conte histórias do princípio. Mas entretanto, adormeci.

por uma luz real




A rapariga debaixo da luz verde
da árvore
parecia usar a máscara disforme
dos pesadelos.

Era uma imagem nítida,
quase branca.

Fumava.
Olhava-me para dentro do medo
sem rosto
debruçada, lenta, circular.

Era noite.
Eu estava na rua à tua espera.
Na rua não, no carro.
Eu estava no carro de vidros abertos
de olhos abertos
debruçada.

Mas felizmente tu chegaste
com a tua luz real (tão real)
para me interromper o pesadelo.

Filipa Leal lida aqui

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Balada do amor através das idades




Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigámos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

no dia seguinte ao dia dos teus anos


Miguel Ângelo

quando em outubro te abraço os braços que me estendes
guardo as lágrimas da génese como uma chuva de pérolas
e agradeço-te tudo quanto sinto desde o ser pequenino
vestir calções e enrolar-me nos teus ramos de árvore gigante -

fazes anos, nascemos no mesmo mês e em anos tão diferentes
e sinto mais os ossos agudos os ombros descaídos a doçura das rugas
quando em Outubro abres o sorriso e nos teus olhos de água
corre um rio -

um pai mais de cidades do que campo, na pressa de ser presente
quando as obrigações te afastavam o horizonte
de tantos dedos de vários tamanhos dos maiores aos mais pequenos -

chegavas pelo fim das tardes de Outono carregado de maçãs
golden, stark, bravo, impregnando de aromas os corredores
a alma que não consigo segurar
e ainda me salta, ao fim de tantos anos -

sentavas-te a meu lado na mesa grande da sala, nas tardes de domingo
e lentamente nos cadernos de duas linhas ensinavas caligrafia
os ós redondos de lacinho os tês pequenos de tracinho
os és elegantes grandes tão difíceis -

no dia seguinte ao dia dos teus anos quando te encontras longe
posso deixar correr nos olhos esta água miudinha, este sal precioso
e dizer-te o tanto quanto te quero, o quanto te agradeço
mesmo que não ouças e esteja frio e haja vento

mas junto de ti para sempre -

José ferreira 31 de Outubro de 2011

(este é um poema que dedico ao meu pai no dia seguinte ao dia dos seus anos)

convite - um poema de Egito Gonçalves


Matisse the dream 1940


Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade

o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma

nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço

nesta fase em que o amor é não ler os jornais

podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam as pombas -

podes vir e sentar-te a falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz

porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores

Egito Gonçalves

domingo, 30 de outubro de 2011

A noite


Antonio Carneiro


Acaricia o horizonte da noite, busca o coração de azeviche que a aurora recobre de carne. Ele te porá nos olhos pensamentos inocentes, chamas, asas e verduras que o sol ainda não inventou.
Não é a noite que te falta, mas o seu poder.


LA NUIT

Caresse l'horizon de la nuit, cherche le coeur de jais que l'aube recouvre de chair. Il mettrait dans tes yeux des pensées innocentes, des flammes, des ailes et des verdures que le soleil n'inventa pas.
Ce n'est pas la nuit qui te manque, mais sa puissance.



Paul Eluard lido aqui

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Ecos - um poema de Ana Luísa Amaral traduzido por Maria Alonso




Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

Saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

Ana Luísa Amaral. Se fosse um intervalo. Dom Quixote (2009)


Ecos

En voz alta, he ensayado tu nombre:
la palabra se ha roto
Ni eco ínfimo en esta habitación
casi hueca de muebles

Casi un tiempo de vida durmiendo
a tu lado y el desapego es esto:
un eco ausente, una ausencia de nombre
que se repite

Saber que nunca más: reducida
a un extremo de esta cama ancha
el calor sofocante

En cambio: mi pie izquierdo
cruzado en lado izquierdo
en esta cama

Tu nombre en un suelo
ni de añoranza


Poema de Ana Luísa Amaral traduzido por Maria Alonso Seisdedos no seu blog http://opoemaquehojepartilhariacomvoces.blogspot.com/

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

colecção de documentos das artes cénicas ... a sequela!

para os afortunados que anteontem desfrutaram do privilégio de assistir ‘in loco’ aos efeitos embaraçosos de um inesperado apagão, foi um prazer estar convosco e contamos com a vossa presença hoje, no mesmo local e à mesma hora, para partilhar da magnífica Colecção das Artes Cénicas. para aqueles a quem a terça-feira não permitiu uma visita ao Arquivo Distrital do Porto, ouçam a voz do destino e venham aproveitar esta segunda oportunidade de conhecer a colecção. uns e outros podem espreitar aqui o teaser disponível no youtube, e mais informações na página do evento ou do Arquivo Distrital do Porto no facebook.
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Sinfonia Fantástica, de Berlioz



Programas, poetas, sonhos de ópio,
pastores pipilando, e as guilhotinas,
e o sábat das bruxas ao som do Dies Irae,
comédia melancólica e sarcástica
de romantismo sentimental e crítico
desesperadamente triste de si mesmo,
na solidão do espírito perdido
num mundo burguês sem fantasia,
sem mais maravilhoso que o da infâmia,
sem mais espanto que o da hipocrisia.
Tudo isto com bem pouca reserva,
bastante vulgaridade, muito efeito fácil,
e um colorido por vezes novo rico
como os cristais e as pratas dos barões banqueiros.
Mas é música, violentamente
música. Agressivamente
música. Os ritmos
de cadência, colorido, timbres,
estilos, tons - é tudo música.
Da solidão romântica imensamente pública - mas solidão.
Da amargura romântica tremendamente amena - mas uma amargura.
Da raiva de não ser o mundo uma obra de arte,
um indivíduo, a glória, a liberdade.
Música pungente, irónica, raivosa,
ainda saudosa das doçuras clássicas
com deuses imortais (de pedra branca).
Se não sentimos isto, porque a grosseria
cresceu à escala cósmica, nenhuma culpa
acaso cabe a tais visões sonoras,
em que a tristeza sabe imaginar-se
tão puramente um canto de oboé,
com percussões pontuando o mundo a que assistimos,
ao som dos arcos e metais:
grandeza caricata deste inferno amável
(cheio de róseas profundezas - e assassinos).

Jorge de Sena

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

muito lhe dizia


fotografia retirada daqui

muito lhe dizia a chuva que ensopava os pés
e migrava até à alma: disseram que era mentira
assim um sol que não existia, mentira pura,
um poço tão fundo de que não se via o fim,
só de penumbra,
mentira -

a noite perdia portanto aquela lua.
agora lia nas letras do jornal as horas do pôr-do-sol
e no despertador metálico ligava uma campainha antiga,
e tapava os olhos,
e via tudo escuro, como se fosse a própria noite -

mentira, disseram, mentira pura -

antes de existir -

josé ferreira 25 Outubro 2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sem outro intuito

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava

Erik Satie para piano - um poema de Jorge de Sena



As notas vêm sós por harmonias

como de escalas que se cruzam

em sequências descontínuas de figuras

singelamente acorde surpreendido

de se encontrar num instante pensativo.

São como vagas vindo no perlado

tão diminutas, solitárias mas ligadas

de pura sucessão ocasional

que se rebusca em cálculos descaso

contrário ao hábito de estarem escritas,

ou juntas ou seguidas. Mas é como

se desde sempre este hesitante fluido

houvera de estar pronto a ser pensado

e a soar tranquilo em espaço diminuto

não por ser breve mas por ser silêncio

de uma memória em que a surpresa ecoa

lembranças perpassantes de quanto não foi,

não existiu, não foi vivido e entanto

pungente fere as águas espelhadas

onde de imagens passam vultos claros

em túnicas voando transparentes

e muito curtas sobre membros duros

que dançam devagar a dança juvenil

num salpicar de pés do tempo antigo.


Jorge de Sena

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

a carta que te escrevi enquanto dormias


Klimt

de quem a responsabilidade da tua altura
branca, nua
iludindo a escuridão nesse manto de estrelas,
enclausurando ternuras nos olhos adormecidos
nos cabelos largos, nos braços cruzados


de quem a responsabilidade
desta distância, deste silêncio, dentro do quarto
na frente da lua, soltando em pequenas chamas o ténue fumo
para que se confunda com as cores da bruma;
Setembro, Outubro -

de quem a responsabilidade
do desassossego cinzento, carregando no peito
a incompletude dos espelhos
no correr do rio de indícios únicos

de quem a responsabilidade de ser tão escuro
e na pequena mesa o copo estar quase todo de vidro
após o cair de migalhas, as pratas enroladas
e os dentes a falar sozinhos

de quem a responsabilidade de dormires
de não dormirmos, plenos de seiva e sem raízes

de quem a culpa desta sensação da falta de trevos
quando as noites se enchem de chuva e se tornam frias


na madrugada que caminha nos teus ombros
quando acordares
não te escondas nos bicos dos braços
enquanto lês os livros e os poemas
cessa de ser sempre a silhueta
no meio das sombras e mais sombras e mais sombras
não percas a luz dos dias
aceita a oferta das tulipas, dos gladíolos, dos cravos brancos
dos jacintos húmidos, das hortênsias, azuis e rosas ao mesmo tempo.
recusa o cronómetro contínuo, a rotina prevista, o dong do sino
e não te iludas nas mentiras, no pó dos anos
que muitos gritam aos ouvidos; evidências sem prova, insensíveis

de quem a responsabilidade das naves sem terras nem paraísos
em eternas galáxias de buracos fundos, sem âncoras, sem rumos
e o porquê das janelas abertas por onde entram os corvos, o piar nocturno
o voo rápido dos morcegos nas luzes cegas dos candeeiros

o porquê de ser Outono
e haver árvores despidas, e almas tristes
caídas sobre os paralelos luzidios, como gotas
gotas de superfície, na superfície
perdendo as formas, transformando-se em linhas
de olhos indomados pelo sono, no silêncio rectilíneo
como corpos taciturnos, sem lábios, sem mundos -

de quem a responsabilidade de não morarmos na mesma rua
no mesmo quarto, no mesmo lume
e não fecharmos os braços
crescendo em minutos morrendo em segundos -

José Ferreira 23 de Outubro de 2011