segunda-feira, 24 de outubro de 2011

a carta que te escrevi enquanto dormias


Klimt

de quem a responsabilidade da tua altura
branca, nua
iludindo a escuridão nesse manto de estrelas,
enclausurando ternuras nos olhos adormecidos
nos cabelos largos, nos braços cruzados


de quem a responsabilidade
desta distância, deste silêncio, dentro do quarto
na frente da lua, soltando em pequenas chamas o ténue fumo
para que se confunda com as cores da bruma;
Setembro, Outubro -

de quem a responsabilidade
do desassossego cinzento, carregando no peito
a incompletude dos espelhos
no correr do rio de indícios únicos

de quem a responsabilidade de ser tão escuro
e na pequena mesa o copo estar quase todo de vidro
após o cair de migalhas, as pratas enroladas
e os dentes a falar sozinhos

de quem a responsabilidade de dormires
de não dormirmos, plenos de seiva e sem raízes

de quem a culpa desta sensação da falta de trevos
quando as noites se enchem de chuva e se tornam frias


na madrugada que caminha nos teus ombros
quando acordares
não te escondas nos bicos dos braços
enquanto lês os livros e os poemas
cessa de ser sempre a silhueta
no meio das sombras e mais sombras e mais sombras
não percas a luz dos dias
aceita a oferta das tulipas, dos gladíolos, dos cravos brancos
dos jacintos húmidos, das hortênsias, azuis e rosas ao mesmo tempo.
recusa o cronómetro contínuo, a rotina prevista, o dong do sino
e não te iludas nas mentiras, no pó dos anos
que muitos gritam aos ouvidos; evidências sem prova, insensíveis

de quem a responsabilidade das naves sem terras nem paraísos
em eternas galáxias de buracos fundos, sem âncoras, sem rumos
e o porquê das janelas abertas por onde entram os corvos, o piar nocturno
o voo rápido dos morcegos nas luzes cegas dos candeeiros

o porquê de ser Outono
e haver árvores despidas, e almas tristes
caídas sobre os paralelos luzidios, como gotas
gotas de superfície, na superfície
perdendo as formas, transformando-se em linhas
de olhos indomados pelo sono, no silêncio rectilíneo
como corpos taciturnos, sem lábios, sem mundos -

de quem a responsabilidade de não morarmos na mesma rua
no mesmo quarto, no mesmo lume
e não fecharmos os braços
crescendo em minutos morrendo em segundos -

José Ferreira 23 de Outubro de 2011

1 comentário:

Marlene disse...

José
Tão bonito
Que parece não ter tido dono responsável
Parece ter saído do mar ou de uma folha de outono
E ter caído sobre nós
Sem avisar