sábado, 16 de abril de 2011

Séraphine - um poema sobre o filme


Séraphine de Senlis

invadido pela simplicidade original de Séraphine
imagino os seus olhos fechados
por sobre o quadro, respirando a aura -
imagino umas socas escorregadias no empedrado,
nas voltas de um fim de tarde, rápidas e sonoras
a subir escadas, a fechar a porta,
do quarto, do quarto -
imagino as cores, os óleos naturais,
a mistura de pastas em essências extensas e sólidas.
imagino os golpes certos da espátula,
os dedos grossos, gretados, as pupilas iluminadas -
imagino a tela ao fundo, junto á janela, larga, alta,
e o rosto inclinado, a língua de lado, fora do lábio -
imagino a leveza infantil do gesto -
imagino o barro das imagens -

José Ferreira 16 Abril 2011

sexta-feira, 15 de abril de 2011

XXXV - Um poema de Pablo


Salvador Dali "A aparição da cara de Afrodite" 1981

A tua mão voou dos meus olhos para o dia.
A luz entrou como uma roseira florida.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colmeia cortada nas turquesas.

A tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,
galhetas com azeite amarelo,
corolas, fontes e, sobretudo, amor,
amor: a tua mão pura poupou as colheres.

A tarde foi-se. Secretamente a noite deslizou
sobre o sono dos homens sua cápsula celeste.
A madressilva soltou um triste aroma selvagem.

E a tua mão voltou voando do seu voo
a fechar suas penas que julguei perdidas
sobre os meus olhos devorados pela sombra.

Pablo Neruda "Cem sonetos de amor" Trad. Albano Martins, Campo de letras

O momento de Doisneau



1. Muito antes de Freud, já Stanislavski tinha chegado à conclusão de que um sentimento é como um dirigível, por mais imenso que seja é sempre mais leve do que o ar, e no seu cockpit há pelo menos um narrador e um co-narrador, os dois muito atentos ao seu papel de condutores únicos e exímios do destino comum de uma narrativa, que é sempre uma viagem mais ou menos longa e significativa de balão ou dirigível, atravessando o capítulo da nudez de tudo à velocidade imprevista de sempre.

2. A corporização radical da personagem proposta por Stanislavski é, no mínimo, apetecível: Stanislavski pretende imitar a fundo o real, usando e abusando dos vínculos ditos “naturais” da realidade e, detendo-se nas suas luminosas estratégias de imitação eficazes e antigas, construir uma espécie de fenómeno de actuação sobre a actuação propriamente dita, recebendo do texto crepusculares mundos fingidos, sentidos como Pessoa queria que sentíssemos o fingimento, projectando-o muito para além das suas próprias fronteiras e expectativas.

3. No fundo, Stanislavski queria imprimir no actor aquilo que no poeta navega apenas na distância mater da sua escrita. Ou, talvez, por outro lado, dotar o poeta de toda aquela perícia que envolve o actor, da maquinaria ignóbil do corpo humano quando realçado entre os seus, entre os que assistem vestidos ao bailado analfabeto dos seus gestos e passos torpes na periferia do indizível, inventário tradicional de posturas patéticas e autênticas. Mas mais do que isso, Stanislavski tinha vontade de autenticidade histérica, noções muito presentes no amor, quando o impacto entre dois corpos e os papeis que lhes foram atribuídos produz esse tão estranho “método de acções físicas”, tendo apenas em vista a satisfação de uma promessa proveniente do interior incómodo do indivíduo, que sempre nos é indevida, excepto nos lugares extremos.

4. Ora, todo o lugar é um lugar extremo, se nada mais além desse lugar existir. Toda a expectativa consumada é uma ópera que conspira. Como no momento de Doisneau.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

telhados

às vezes peço ajuda aos telhados das casas da cidade. estão juntos porque as ruas aqui são estreitas. de umas janelas vê-se para dentro das outras, do outro lado da rua. não se vê bem. só os reflexos distorcidos ou as manchas de humidade. aqui é difícil ver-se uma cara de gente. quando quase se vê, está nua, não traz sorriso. os telhados escorrem-se da chuva uns nos outros e se duas pessoas saíssem às varandas, e estendessem os braços para a frente, conseguiam quase abraçar-se e trocar segredos ao ouvido. nunca aconteceu. eu daqui só vejo telhados. imagino quem neles se abriga e com o que ocupa o tempo. penso nas pessoa que estão sós e tenho pena delas mas não sei quem são nem se existem. eu daqui só vejo telhados.
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raquel patriarca | catorze.abril.doismileonze
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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Nem brutal nem severa


Fotografia retirada da internet

Nem brutal
nem severa,
experimentas
a estranha euforia
e o ardor
do vento;
alta
e calma
e silenciosa,
por vezes perdida na
realidade resistente, sob
a resistência da luz,
para caminhares no meio da poeira,
na plena matéria viva.

Gérard de Cortanze " O movimento das coisas "

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Colhe de um corpo o carvão verde


Felix Revello

Colhe de um corpo

o carvão verde

a sua música cereal moída moída.

Abre um corpo na partitura canta-o

enquanto se parte enquanto ficam

anos por contar enquanto ficam

anjos nas pálpebras

inconfessáveis.

Como se a manhã falhasse sempre.

Como se escolhesses o comboio que pára

em todas as estações

e valesse a pena gastar outra infância

para não chegar.


Catarina Nunes Almeida Revista Cráse

A curva dos Teus olhos


Isabelle Hupert

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Paul Eluard,"Algumas das Palavras" Trad. de António Ramos Rosa Dom Quixote 1977

domingo, 10 de abril de 2011

Second Nature - XVII


Edouard Boubat

Dignité symétrique vie bien partagé
Entre la vieilesse des rues
Et la jeunesse des nuages
Volets fermés les mains tremblantes de clarté
Les mains comme des fontaines
Et la tête domptée.


Dignidade simétrica bem partilhada
Entre a velhice das ruas
E a juventude das nuvens
Janelas fechadas mãos trémulas de claridade
Mãos como fontes
e a cabeça dominada.

Paul Eluard "Algumas palavras" Trad. António Ramos Rosa Dom Quixote 1977

sábado, 9 de abril de 2011

Amadeo Modigliani &Jeanne Hébuterne


Amadeo Modigliani "Retrato de Jeanne"

amadeo:
certo dia, quando pintava o retrato de soutine e a mão deixara de me seguir, soutine disse-me:
- bebes para te matares.
e eu perguntei-lhe:
- e tu, soutine, o que te levou à tentativa de te enforcares?
saímos, depois, em silêncio para a rua. vimos o sena latejar sob as pontes e engolir as estrelas da imensa noite de paris.

jeanne:
soutine tinha razão. os anos passaram, não muitos, e amadeo tentara arranjar coragem para deixar de beber. foi inútil, e às vezes era violento - apesar de saber que eu nunca o abandonaria.

amadeo:
jeanne pressentiu que eu não precisaria de muito tempo para realizar a minha obra. sempre vivi como um meteoro.

soutine:
a 25 de janeiro de 1920, jeanne soube da morte de amadeo. refugiou-se num quarto em casa dos pais, num quinto andar. abriu a janela e saltou para junto dele.



Al Berto

sexta-feira, 8 de abril de 2011

as imagens na pedra rolante e redonda


Fotografia retirada da internet

as primeiras e as últimas em diálogo
imagens na pedra rolante e redonda
onde as faíscas fazem o fogo: o levantar de ombros
cérebro e mãos, pálpebras e folhas percorridas
os discursos directos do passado, os dias finitos
as conclusões quotidianas: as estrelas importantes.
os sonhos são críticos na sequência alucinante do desvio
e a vida suspensa, surpresa, incompleta, sempre, caminha
nas fragilidades verdes dos braços resistentes
nas heras ascendentes de um mundo de paredes;
e lança a semente cautelosa
o desejo das rosas, o medo dos espinhos
na hora incerta dos destinos -

José Ferreira 8 Abril 2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Um poema de Emily


Marc Chagall

A sepal, petal, and a thorn
Upon a common summer's morn --
A flask of Dew -- A Bee or two --
A Breeze -- a caper in the trees --
And I'm a Rose!

Emily Dickinson


Sépala, pétala, espinho.
Na vulgar manhã de Verão –
Brilho de orvalho – uma abelha ou duas –
Brisa saltando nas árvores –
- E sou uma rosa!

Trad. Ana Luísa Amaral

terça-feira, 5 de abril de 2011

SENTIMENTO PRIMAVERIL (SYLVIA BEIRUTE)


















SENTIMENTO PRIMAVERIL


não sei o que é este sentimento
mas se o tentar dizer
sem pensar
e com as palavras que me vierem
à boca
será um dia de semana em voz alta
na cabeça de uma criança que não
distingue os sons,
a sua respiração que se desintegra
desde a sua infância velha. intemporal.
ou então um quarto de mim mesma
na adivinhação plena e simples
do teatro negro
antes de a acção começar a interrogar-se,
ou as flores que
parecem encobrir o ar das cinco da tarde.

não sei.
não sei o que é este sentimento
mas sei o que quer dizer.

Sylvia Beirute
inédito

Psicanálise da Escrita

Mesmo que fale de sol e de montanhas,
mesmo que cante os ínfimos espaços
ou as grandes verdades,
todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve

Quando os traços de si
parecem excluir-se das palavras,
mesmo assim é a si que se descreve
ao escrever-se no texto
que é excisão de si

Todo o poema
é um estado de paixão
cortejando o reflexo
daquele que o criou

Todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve
e assim se ama de forma desmedida,
à medida do verso onde a si se contempla
e em vertigem
se afoga

Ana Luísa Amaral
in Inversos - Poesia 1990-2010 - Inéditos

A onda

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda

Manoel Bandeira (Recife, 1886 - Rio de Janeiro, 1968)