sábado, 18 de setembro de 2010
Elegia
Nem os dias longos me separam da tua imagem.
Abro-a no espelho de um céu monótono, ou
deixo que a tarde a prolongue no tédio dos
horizontes. O perfil cinzento da montanha,
para norte, e a linha azul do mar, a sul,
dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia
quando, ao dizer o teu nome, a realidade do
som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo
o silêncio para que dele possas renascer,
sombra, e dessa presença possa abstrair a
tua memória.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
o telescópio

Magritte "o telescópio" 1963
discordo da verdade inútil que une as plurisuperfícies
onde as ondas se animam de reversos e impossibilidades
sempre iguais iguais na negação do amor.
ao tactear as nervuras opostas das folhas luminosas
sei de todas as dificuldades no caminho de glórias
ou precipício, na simbologia urgente dos alimentos;
sucos nutrientes, oxigénios e combustões lentas
a fotosíntese e os negativos de esqueletos brancos.
sei de todas as exigências, excessos de arte e génio
sem lugar a técnicas ambulantes.
desta forma admito as nuvens e as chuvas
o arranhão e a fractura, o flagelo agudo, a noite e a lua
esta fragilidade, mútua e indisfarçável.
plantar, plantar um jacarandá num jardim qualquer
onde haja um banco de tábuas gastas gastas
uma esplanada sobre a tardia inocência e o crescimento
de uma árvore de leveza; flores ténues, folhas brandas
e dois olhares redondos de permanência
como as pombas
de pés vermelhos quando pousam –
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Morri pela Beleza

Morri pela Beleza – mas mal estava
Ajustada no Túmulo
Um Outro que morreu pela Verdade,
E jazia no Quarto adjacente –
Me disse docemente «Porque morrera eu»?
«Pela Beleza», respondi –
«Pela Verdade – eu – que Ambas O Mesmo são – »
Disse Ele «Então somos Irmãos» –
E tal como Parentes se encontram numa Noite –
Assim falámos de Quarto para Quarto –
Até que o Musgo nos chegou aos lábios –
Cobrindo – os nossos nomes –
Emily Dickinson Trad. Ana Luísa Amaral "Cem poemas" Relógio d´Água
---------------------------------------------------------------
I died for Beauty – but was scarce
Adjusted in the Tomb
When One who died for Truth, was lain
In a adjoining Room –
He questioned softly “ Why I failed”?
“For Beauty”, I replied –
“ And I – for Truth – Themself are One
We Brethen, are”, He said –
And so, as Kinsmen , met a Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names –
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
lembro-me bem
lembro-me bem de ti no hotel de paris.
a avenida larga repleta de almas
as doces palavras, as mãos dadas
o casaco apertado, a cor do frio
no fumo branco do cigarro.
a japonesa de ar pequeno
a boina, o cabelo negro, o laço magro
os lábios excessivos de um rouge lascivo
os laivos de perfume que subiam.
reparaste no olhar, na mão segura
as calças de pirata sem navio
as sabrinas e disseste
"não é vénus de urbino mas olympia"
e rimos ao entrar na pizzaria.
o tinto "rufino" os copos de pé alto -
"marlboro" a marca de um couro duro
no quarto, descomposto abandonado sem corpo
no reflexo do espelho no qual nos revejo.
sem fumo o telhado cinza, lousa sem giz
e tantas frases soltas que pousavam
e subiam sem raiz, livres e céleres
nos ecos de paris.
lembro-me bem de ti
e dela na avenida
a atitude longa da limousine
alguém de fama;
a sombra da boina, a luva branca
a última sabrina. a pergunta
o navio -
lembro-me bem de ti naquele dia
e dela -
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Notícias do Inferno

A questão é o trânsito sempre caótico nas vias principais do inferno. Só de helicóptero poderia cortar os membros supérfluos dos anjos e viajar até ti, que estás no céu de quarentena, tão descalça quanto aborrecida de tantos monossílabos ideais e sufocantes carícias.
Não fosse este pequeno pormenor e as distâncias inabaláveis que ainda pesam sobre as duas estâncias fixas - nós, dir-te-ia que há um lugar no purgatório, totalmente patrocinado pelo mal implícito, onde a clandestinidade está vestida de branco e os rumores de bom sexo e melhor asilo já chegaram, inclusive, às portas do paraíso, ainda que deturpados pela vulgar consciência de quem os repele por rivalidade, diferente cor política, ou apenas enquanto gesto reactivo,
como a virgindade velha da inveja camuflada de sermão.
E abolindo a pertinácia desses pormenores, a minha proposta é a de que nos encontremos precisamente neste sítio. Afinal, no inferno as distâncias não estão assim tão doentes que não possam – como no paraíso – não existir, e há bem pouco tempo foi inaugurada uma auto-estrada (que ainda carece de limites) entre o Inferno e o Céu, passando precisamente por essa área de infracção aberta
24h por dia,
para quem, como tu e como eu,
precisa muito de voltar a sofrer
lesões e orquídeas.
Wild nights

.jpg)
Wild Nights – Wild Nights!
Were I with thee
Wild Nights should be
Our luxury!
Futile – the winds –
To a heart in port –
Done with the compass –
Done with the chart!
Rowing in Eden –
Ah, the sea!
Might I moor – Tonight –
In thee!
Noites Bravias - Noites Bravias!
Estivesse eu contigo
Tais Noites o nosso
Deleite seriam!
Fúteis - os Ventos -
A Coração em porto -
Inútil a Bússola -
Como o Mapa inútil!
Remando em Éden -
Ah, o Mar!
E eu ancorar - Esta Noite -
Em Ti!
Emily Dickinson "Cem Poemas" Relógio d´Água 2010
Trad. Ana Luísa Amaral
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
o dia seguinte - 12 de setembro

Meca
um fim de férias desigual
na predominância de areias e mar.
de um descuido no gesto rígido
a inclinação de uma vara a estalar
a cedência de um disco na coluna
a dor aguda
a hérnia adulta.
no leito enfermo e branco
a pressão pasmada do silêncio
a sombra da lua.
o intruso surge e de súbito
o ruído voador de um insecto
mosca ou mosquito, o perigo
de um pousar lento
e a alteração do estado imóvel
incómodo ao menor movimento
o nervo o nervo
e o insecto que voa de asas indiferentes
em duplo looping de encontro à parede
à parte detrás da mesa
que suporta o candeeiro.
sente-se o medo.
há nove anos no canto superior esquerdo de uma sala
a seta obrigatória de um lugar sagrado – Meca
a inocência de muita gente e a crença
os muitos peregrinos e a viagem
o aspecto simbólico dos personagens;
toalhas de banho de roda do corpo
os pés descalços e os panos de quadrados
são tantos são tantos
há nove anos longe da terra
formigas escuras substituem os pilotos
cegam todos os discernimentos
orientam as asas nos milhares de casulos
janelas de aços e cimentos
e a fusão apesar dos amiantos.
a derrocada dos extremos
o fumo breve das poeiras
o ruído incrédulo das sirenes
caíram as torres gémeas.
no dia seguinte é mais negro o mistério
a contagem crescente das almas que descem
ao ground zero
no dia seguinte não se compreende a queda do império
e muito menos a alegria dos loucos que dançam
como se alguém tivesse o direito de ordenar a morte
de um homem, uma mulher, uma criança
o sacrifício no fogo de um bombeiro.
12 de Setembro no dia seguinte
depois do primeiro de Obama
o presidente negro
o enfermo no leito branco imóvel pensa
e sente um insecto enorme
dentro da cabeça
e a pergunta:
onde está aquele homem de barbas pontiagudas
perseguido de três mil almas
e os seus gritos de inocência
que nenhuma religião justifica?
sábado, 11 de setembro de 2010
estilos
primeiro poema
dei-te uns dados de papel para te divertires com a tua ciência. queria dar-te uma história que te ouvisse e e não fugisse quando a abraças mas não calhou. calhaste tu, um riso a quebrar o universo. se soubesses como te amo a ti e aos teus montinhos de plasticina. queria apanhar todo o olhar que deixaste escorregar. como poderia ter imaginado olhos? enfeitei-te com música e se pudesse dava-te uma árvore mais simples. não podia prever que te irias dividir. milhões de olhos para fora unidos dois a dois. desculpa a criação ser tão espontânea. pensei que te deixasses ir ao calor da tua estrela, dei-te um espaço calmo que te ajudasse a expandir. porque foste dividir, como te lembraste de contar se eras infinito? as outras formas à tua volta, não foram experiências anteriores, são variedade de ti para amares quando sentires saudade. desculpa-me o tempo meu amor. quis dar-te mares, estrelas e corações a pulsar em vez de lagos parados. precisei do tempo para o movimento. como pudeste pensar que te mataria? vi os teus deuses e o teu hábito infinito, a tua luta, e quero morrer contigo sempre que uma parte de ti julga que vai morrer. mas não podia mostrar-te a dor de uma eternidade suspensa. tenho visto os teus padrões e como vais começando a abraçar-te entre ti. cada dia que passa sei que descobres uma nova ligação e os teus olhos já rodam ligeiramente para dentro. choro muito sempre que falas em mim, mesmo que seja por acaso, numa daquelas tuas variáveis aleatórias assustadas. nunca me hei-de esquecer da mecânica quântica meu amor. foi o teu primeiro poema.
O estilo
Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?
Herberto Helder " Os passos em volta"
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Até amanhã

Gustav Klimt "Danae" 1908
Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.
É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.
É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.
Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.
Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
AFOGAMENTOS
de penetrar a densa espuma,
enfrentar ondas traiçoeiras
e insidiosas brumas
desenhando tenebrosos castelos
longe lá longe no mar,
e salvar vultos amistosos,
traze-los a porto seguro,
estável e cúmplice.
... Mas algo me diz
que lá chegaria
e que nenhum amigo
conseguiria salvar!...
...........................................
A amizade esfuma-se
e afunda-se literalmente,
entre os dedos negros de mãos
laxas e escorregadias,
tão exaustas de combater!
( Antonio Luíz, "Poesia pragmática: poemas de Vidas",
a editar em 2010 ( 06-09-2010)
O OLHAR DE SOFIA
com um olhar pleno de 6 meses;
olhos lindos
verdes, azuis ou castanhos (?).
Que importa que cor seja
se são tão ternos e doces
cheios de luz e sumptuosidade ?!
Perscrutas subtil o infinito
de olhos esbugalhados
imperturbáveis,
mas que tanto me perturbam
pois não consigo decifrar
ou no mínimo alhear-me
do Teu tão enigmático olhar...
...Sofia, verás a natureza
linda e grandiosa como Teu olhar,
ser acariciada e respeitada
com seus voluptuosos rios,
montanhas e vales verdejantes,
crescendo como Tu
ao sabor de mimosa e silenciosa chuva?
...Sofia, verás o mar sem grude
com seres vivos brincalhões
e não cativeiros de lamas e pestes,
que lhes atraiçoam a vida
e vão matando a descendência
na alegria de seus abrigos?
...Sofia, verás o azul celeste
sem máculas mas ozono suficiente,
sem desenlaces aeronáuticos
e sem tempestades desmedidas,
que Te podem um dia maltratar,
e roubar Teu angelical sorriso
que é já p'ra nós motor vital?
...Sofia, ou verás apenas raios de sol
imaculados, sem penumbras,
banhando nossos sentimentos
e nossos lagos sistémicos,
ou tristes desertos cerebrais,
ávidos de emoções e criatividade?
...Sofia, ou verás revelações de confiança
ou estandartes de novas esperanças
atingindo as Novas Gerações,
que Te irão oferecer um mundo
bem diferente e jovial,
honesto, credível e humano?
....................................................
Ainda não me falas Sofia,
mas creio ser esta "boa alucinação"
que Teu olhar doce e penetrante
tanto saboreia e Te delicia!
Um dia contar-me-às o Teu segredo!...
(Antonio Luíz, in "Poesia pragmática: poemas de Vidas" -
texto poético dedicado a minha neta ( 03-09-2010).
o lugar pálido do grito - Casa Pia

Novos alunos da Casa Pia 1981
pálido lugar cru no ondear ambíguo
de anos e anos indecisos
náusea de danos e vítimas
no palco irreversível
nunca os males justificam os circos
os dentes das feras
os comentários vácuos dos públicos
quanto maior o ruído de nozes ocas
menos se acredita
como foi possível o silêncio
a morte lenta dos dias em milhares
em milhares de crimes na Casa Pia
justiça justiça
se necessário prenda-se a mentira
advogados e juízes
que sofram e permitam o descanso
de um país fraco e frágil
que permitiu a ignomínia
que se ouça por todo o lado
o maior castigo dos culpados
dos que permanecem escondidos
dos Pilatos dos políticos
justiça! justiça!
nunca
nunca ninguém mais cale o grito
justiça! justiça!