sexta-feira, 22 de maio de 2009

A Árvore

Vivo

Está vivo e dele se espera algo mais
ímpar sem alinhos de prumo
ímpeto de touro embravecido
nas escritas fortes em caligrafia
caudalosa de gritos e arrepios

vivo até ao último dia
sem medo da cicatriz diagonal
do esquerdo lugar da frente
ao sinal mais longo na virilha

vivo e absoluto em qualquer cruz
como o surdo que compunha sinfonias
como um cego entre as bombas de Hiroshima
como os cascos do cavalo nos infernos de Guernica

vivo e sanguíneo
rasgando o ventre dos bosques
as raízes invasivas de rotinas

vivo e resistente
nas tempestades brutas
nas marés vivas das razias

vivo e revolto
como a raiva das águas
que destrói as rochas teimosas
altivas duras
na força de espumas brancas
às ínfimas partículas
areias miméticas de vazios

vivo e dele se espera algo mais
os espirros a gripe
o catarro
a doença benigna
a pandemia das ideias
nos mastros contemplativos.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Cachoeira de Paulo Affonso

O BAILE NA FLOR


Que bellas as margens do rio possante,
Que ao largo espumante campêa sem par!...
Ali das bromelias nas flores douradas
Ha sylphos e fadas, que fazem seu lar...

E em lindos cardumes
Subtis vagalumes
Accendem os lumes
P'ra o baile na flor.

E então nas arcadas
Das pet'las douradas
Os grilos em festa
Começam na orchestra
Febris a tocar...

E as breves
Phalenas
Vão leves,
Serenas,
Em bando
Gyrando,
Walsando
Voando
No ar!...

Poema original brasileiro de Castro Alves publicado em 1902 no rio de Janeiro.
Como curiosidade o editor era de Paris H.Garnier - Rue de Saints-Péres, 6
e tinha delegação no Rio de Janeiro na Rua do Ouvidor, 71-73(escrevi as palavras como vêem publicadas na edição que referi)

A QUEM SE INSCREVEU NA 3ª EDIÇÃO DO CURSO DE ESCRITA CRIATIVA

Bom dia, meus colegas e minhas colegas da arte de escrita!

Queria só dizer que, com grande pena minha, se vai adiar esta edição para o inicio do ano. Só há 5 pessoas inscritas e isso é muito pouco para a dinâmica a que estamos habituados nas nossas sessões.


Um grande abraço para todas e para todos,

ana luísa

Lembras-te como era

O tracejado branco na subida
escasso movimento na hora do almoço
pouco azul muita nuvem esparsas aves
curiosamente um corvo negro quedo
no campo próxímo de seara
centeio verde a cento e vinte
à hora A25 tarde de Domingo.

Nada de sinos. As estações fugidias
de ondas hertzianas frequência modulada
cassetes impróprias para consumo
mp3 impopular de AC/DC metálicos
permanece o silêncio e a memória.
A paisagem segue indiferente.

Distracção nas curvas de linha contínua
de novo a faixa, rectas de moldura
nas bermas de extensos tufos amarelos
arbustos lilás de lavanda e rosmaninho.

No caminho da autoestrada a Natureza não fala
sussurra íntima devagarinho por trás da nuca
desfaz as ceras do ouvido contorna o queixo
murmura e solta aromas de outras vidas.

Nos antigos dias de Verão
lembro voos de estorninho
o guloso melro das bêberas
os figos de mel maduro
os pardais e as caturras
de penas negras e alguns
brancos manchas de lixívia.
Recordo o movimento lento
das semanas tardes de sesta
e fugas pelas janelas.

Era pequeno entre o milho macio
de barbas finas e valente
nos cortes de melões e melancias
abóboras maciças.

Sigo a subida da estrada rolam as árvores
no rodopio de encostas a nitidez
de um pressentimento
retorno a uma Natureza que de hoje
é a mesma de outros tempos:
"Lembras-te? Lembras-te como era?
Vê como crescemos!"

Naqueles tempos circulava leite fresco
de mamilos em latas de asas e alumínio
ao fim do dia
passavam rebanhos de cajado e campainhas
ao fim do dia
e ceava-se de mãos postas e Avé-Marias
no mês de Maio
ao fim do dia.

Quando todos dormiam o eu noctívago
fugia sem dizer nada
pela noitinha
ao fim do dia.

Os amigos
contavam em cada um de cada um
a sua história algumas da apanha de amêndoa
da vindima outras de colégios internos
de cidades mais libertas menos sofridas
em grupos de dez doze menos meninas
havia sempre namorados
olhares de estrelas
o brilho escasso dos pirilampos
e ouço ainda a permanente melodia
o cantar único dos grilos.

Cento e vinte à hora tarde de Domingo
quando chego chego perto
no tracejado branco das descidas
sinto-me criança menino
encosto o carro na sombra
sento-me no tronco de oliveira
e observo as primeiras pintas
nas cerejas
e as "Maias" fulgurantes
companheiras de cores explosivas
na côr de lírios.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Palavras maestrinas

Amo-te e nem sequer suspeitas
se nunca o disse
pois no último breve passeio
desceu a ave nocturna
na estranha chuva ácida
importuna
que estanque fez
o som tímido das cordas

doces palavras esbeltas
prisioneiras no bojo de um frasco
frágil no rio náufrago
descaindo transparente
no lugar de um mar desconhecido.

Amo-te e nada disse
no falar dos peixes
no discurso mudo
míope e trôpego de passos lentos
pálido hesitante nas sombras
círculos de hipnose
nas sete saias da noite errada.

Dobrámos a placa de lata vermelha
o stop da tabacaria; livros e revistas.
No eclipse momentâneo o cordão impotente
desapertou
roeu a calçada
esfiapou de linhas fracas.

Nada disse.


Amo-te muito e tu não sabes
mais e mais em cada praça
nos ângulos plácidos das esquinas
nas outras veias inscritas
de linhas claras pequenos fios
que de batuta me conduzem

ao dia de cenários
onde escavo a memória
e encontro
sempre alguma história
ainda muitos sentidos

à noite na insónia
onde soçobro triste;
aperta-me a ausência
soltam-se as lágrimas
desmoronam as muralhas
de tudo o que podia ser
e não existe


adormeço

na tela de um outro mundo
lugar idílico
cartas ridículas
palavras maestrinas
largas soltas e belas
de um amor
que então digo.

sábado, 16 de maio de 2009

Cristal

És o meu mundo
onde se afastam águas
e se afogam perigos

Onde a música das estrelas
cintila a noite

Onde as asas do sonho
e as cores da fantasia
eliminam sombras.

Neste teu mundo
desvaneço
esfumo
mãos de areia
perdendo o mar

E nele sempre me encontro
no céu dos deuses
das nuvens mansas

Entre o perfume das rosas
a carícia das brisas
dos jardins precisos

Qual pedra de cristal
refletindo
brilhos no teu olhar

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Iluminações - uma cerveja no inferno

Esta cerveja! essa rua!
A miséria que isto sua!

Mas trago o curso perfeito
Da ventura, dentro do peito.

Saudemo-lo cada vez
Que cantar o galo gaulês.

Ah, é tarefa cumprida:
Está dono da minha vida.

Levou-me a alma, corpo, escorços
E dispensa-me de esforços.

Esta cerveja! essa rua!

A hora da fuga, ó sorte,
Será a hora da morte

Esta cerveja! Essa rua!


Tudo isto foi. Hoje, sei saudar a beleza.



Jean-Arthur Rimbaud
'Iluminações - uma cerveja no inferno'
Tradução de Mário Cesariny

3ªFase com Ana Luísa Amaral

Caros colegas de navegações poéticas

Ainda não foi possível iniciar a 3ªfase devido a não haver um nº mínimo de inscrições.
Há ainda a possibilidade de início na próxima semana se até segunda feira se atingir os doze participantes.
Se puderem divulguem.
Se puderem participem e publiquem no blogue escritos, ideias, factos de forma a manter acesa a diversidade criativa dos poetas aprendizes!

Saudações poéticas a todos

Sentimento

Quero o calor do Sol
e um leque sem brocados
leve como a pena
que desliza
na seda dos poemas

Quero o brilho da caruma
num abraço de pinheiros
a melodia dos pardais

Sem o vidro fosco
que afasta
a clara luz do sentimento:

que é puro
que é belo
dá prazer.

What a wonderful world

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Europa aleg(O)ria

Gnomos no sonho de obeliscos
nas antenas Eiffel de Paris
olhar no Sena
corcunda na ponte de Neptuno.

Notre Dame dos segredos
flutua nas brisas do vento norte
levita sopra invisível
na praça áurea de Bruxelas;
"necessidades" de um menino
na praia D calma e deserta.

Dunquerque atrapalha Calais
onde surge
o túnel união de cocos
águas de Tamisa sirenes Big Ben
nos aromas etéreos de Versailles
onde se passeiam ninfas
nas quatorze sinfonias
de um "poéte Antoinette".

Desce a chama da estátua
na rapsódia azul de Gershwin
sobem fumos no castelo da àguia
liberdade sem suástica.

Cria-se estima
na marquesa de "pera"
na capital dezanove
século judeu de Viena.
Betellheim explica o lobo
à solta
nos bosques de Bolonha
o sorriso ingénuo de criança
e
sem siso
há um índio aflito
alter ego de Voltaire
nas correntes da Bastilha.

Quando se ergue a noite
surge o sonho e a poesia
a (in)sensata terapia
sem medidas
réguas tortas cambalhotas
parece loucura
mas cura.