segunda-feira, 16 de março de 2009

Lírios



Como estamos no tempo dos lírios resolvi carregar este quadro de Van Gogh para colorir um pouco o blogue.

ÁRVORE À BEIRA DA AUTO-ESTRADA

Árvore que te deleitas com o pôr-do-sol,
após febril temperatura longas horas,
um eterno dia sob poderosos raios solares
que te despertaram,
que te deram vida!...

Fizeram-te ferver a seiva,
e levaram-te ao esquecimento
do quanto és escrava
do teu espaço, do teu chão
e do incomensurável Tempo...

Tu pareces estátua silenciosa,
pacata, quieta, muda;
mas não és desdém, nem coisa simples
espetada à beira da auto-estrada!...

És coisa bem viva, sempre atenta,
absolutamente erecta, em ortostatismo sereno;
contudo, a teu lado jazem tantas raízes
no sub-solo, sob o asfalto carrasco!...

Tentas ignorar um tal sacrilégio,
creio sim que és um pouco humana:
- cúmplice dos silêncios,
arrancados à tenaz penumbra
e companheiros íntimos do luar!
- teus braços e folhagem
dialogam com pacatos, ou tremendos ventos,
aceitando-os perdidamente
com muita paixão;
mas não bastam para casamento,
pois perderiam a liberdade, a autonomia,
e não dançariam mais
ao sabor das tempestades, ou das geadas,
ou do intrépido mas temível granizo!...

Não mereces que um terramoto
esventre as tuas raízes,
ou te derrube sem nexo, sem ponderada explicação,
e sem dignidade, ou sem honra...

...Sim! Sei que nunca aceitarás comiseração,
uma qualquer espécie de piedade,
apesar da vida única e solitária
que aceitas como teu Destino!

...Serás sempre uma bela árvore frondosa,
aqui plantada à beira da auto-estrada;
centenária, mas eternamente bonita ,
caprichosa mas vital ao ser humano,
e força arrebatadora que eu preciso
para me erguer ,
em dias menos construtivos da minha Vida,
que eu persigo e tanto quero
sem pinga de escravidão!...



( António Luíz , 10-03-2009 , durante viagem de regresso
a casa, na A1 - percurso entre Amarante e Porto )

A casa incendiada-o sonho irreversível e os outros

Queria falar-te do sonho irreversível
daquele que as cinzas inumanas
transformaram no carbono elementar
escuro.Não há pois mais que fechar
portas e janelas que o não são
de chamas consumidas; pós negros
tintas de borbulhas escarlatinas
memórias de faíscas lancinantes.

São vãos os tectos de estuque em pedaços
relevos e alegorias resumidas a tabique
esmiuçado, inexistente nas aberturas
de golpes de água e gritos de machado
abrindo junto ao candeeiro na calçada
o nítido esquadro onde cresce noite
desce a lua se acende a madrugada.

A realidade torna-se dura de deserto
no bico dos abutres da cidade despertada.

Mas há os outros, os outros sonhos
os encobertos, que nascem sem balizas
como pedras sem dono alterando superfícies
paradas de charcos. Os visíveis
só presentes como alguém distante
que bate à nossa porta fora de horas
de armadura e alicerces mais fortes
que os maus dias de facas afiadas
que o sonho irreversível
da casa inccendiada.

domingo, 15 de março de 2009

Um poema diferente

Ana Hatherly fez esta poesia com garra, com "dente":

ESTA GENTE/ESSA GENTE

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

sexta-feira, 13 de março de 2009

A magnólia digna autónoma





Mais do que antes nos jardins meios
de muros e portões da cidade velha
assomam violetas flores de magnólia
no cair leve de braços abertos.

Não é ainda a hora certa de Março
pois o pouco sol e as gotas de chuva
por vezes caudalosa invade condiciona
a síntese verde de clorofila nos canteiros
sem vestidos de cor habitual.

Indiferente a magnólia de árvore
ou no chão. Digna autónoma
no lugar que é o seu
imagem virtual de um espelho de flores
compostas ou desmanchadas
entre as que ficam definidas no ar
e as que caem e vão soltas nos dedos
de terra e raízes.

Pétalas grossas de duas cores
que ninguém ousa perturbar
nem as aves que visitam os ramos
nem aqueles que se perdem no momento
de ver algumas naquele instante
abrir descair pousar.

quinta-feira, 12 de março de 2009

o muro e o destino

céu da boca no escuro
assobia para o futuro
comprometido véu
retrocede à voz
melhor não cantar
nada vai passar

olhar no chão desligado
esconde o fado findo
não vá bater no muro
travão do destino
melhor não cantar
nada leva a saltar

assobios arremasados
pedras ensimesmadas
no muro com um pé direito
de ruínas de altura,
rebatendo-se
na ternura da chuva
última voz do destino
refeito
em curvas revestidas
a ecos de
ondas
dentro das tuas luvas
onde sem demora morro,

mora o som
afogado
onde é
melhor não cantar

quarta-feira, 11 de março de 2009

David e Golias

Não é estranha a sorte da pedra ou seixo
que derrotou Golias num golpe de perícia
depois de usada no dano irreversível?

Ficou a história do gigante
das grandes mãos da funda ou fisga
mas da pedra ou seixo
não estou esclarecido.

David é figura principal
alguns segundos antes
mas não como arma assassina
essa não existe ou foi mais reduzida
no recorrente efeito abrasivo.

Hoje fosse e o local a romaria
de bandeira e de lembrança.

A pedra ou seixo a heroína
preservada admirada
transparência resultante
de vitrine e pedestal.

O humano é efémero não resiste
no estado original
restaria a pedra ou seixo
como prova e essência
de palavras caídas
na gravura de uma cena
inscrita
na oferta de um postal.

Fito-me

Dizes hesitante, inseguro, pouco audaz
o caminho por onde vou

e eu não sei dizer o sim
de passo descoberto
nem como outros
não, por aí, por aí não vou.

caminho longamente junto à praia
escondo o outro sal jorrando dentro
e quando alguém me fita mais seriamente
falo do horário, do tempo, do vago
num olhar sem carapaça
e aguardo agulhas finas
que espicaçam
por onde devo ir...
por aqui ou por ali?
qual o lugar?

Fito-me e visto-me interiormente
de penas e já não quero ir...
quero voar.

terça-feira, 10 de março de 2009

Poesia de Nuno Júdice/jardins de Monet




Passeio

Um jardim tem avenidas, áleas, alamedas, buxos
e canteiros. Por aí passam as águas das grandes chuvas
de setembro. Num jardim também há bancos, fontes,
lagos, estátuas, grutas, muros e labirintos. O vento
anda por aí, sobre as águas e entre
os interstícios. E há ainda árvores, arbustos, flores,
folhas e troncos caídos. O dia e a noite confundem-se,
por vezes, nalgumas das suas clareiras. E há também
o teu corpo, num jardim. Abraço-o, apesar das águas
e dos ventos, sob o dia e a noite das grandes
folhagens adormecidas. Por vezes, encosto o teu corpo
contra o tronco do cipreste; de outras vezes, deito-o
sobre a relva que o inverno fortaleceu. Gosto
desse corpo de terra e de raízes; mas vejo-o também
à transparência do pólen e das sementes brancas da
primavera. Passeio assim no jardim do teu
corpo: sento-me nos seus bancos; navego no seu lago;
colho as suas pétalas mais húmidas. Nunca sei
se é dia ou se é noite neste jardim; nem se a chuva
cai ou o vento sopra. O que eu sei é que todos os
canteiros vão dar às flores que brotam da tua voz; e
que no lago do teu sorriso navega este barco de papel.

Nuno Júdice

Cartografia de Emoções - Publicações D. Quixote

Esmeralda a gata siamesa

Tanto queima o astro dourado
no manípulo da porta azul
sólida madeira exótica.

Por dentro duas janelas pequenas
de vidro fosco atrás do gradeado
uma campainha de alavanca
som de Madalenas.

Aguardo
no meio de buzinas e ar pesado
por onde passam
os brilhos "lipstick" da modernidade
cor de maracujá
face pó de arroz a pinta preta
cabelos em golpes rubi
verde junco estranho;
do lado de cá
os clichés vários da cidade.

Quando se entra há surpresa
nos tectos altos do passado;
jarros na jarra de um metro
solitário vidro majestático
o lustre de cristal.

Cera acesa em três velas
cor de rosa
no móvel polido vinhático.

De súbito o rangido a desfilada
na ampla estrada da claraboia
projetada de vidros multicolores.

Na ganga coçada na blusa branca
és a nota dissonante - a pérola.

Ouço passos lentos apoios de bengala
vejo um rosto de rugas em cima
debruçado sobre a escada.

Coras um pouco olhas para trás
mesmmo assim soltas os lábios
nos meus olhos de estorninho
no meu ar tão asssustado.

Dizes que suba
à salinha de costura
onde dorme a Esmeralda:
a gata siamesa e a ninhada
(oito linhas remeladas)
todos bem e de saúde
graças a avó e neta
e à Maria Antonieta - a empregada
no parto às três da manhã
segunda-feira passada.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Estalo

Um estalo
súbito
num embalo
súbdito
mumifica

conserva-se
como servo

até gotas salgadas
o derreterem

em carne
viva outra vez



domingo, 8 de março de 2009

Dia da Mulher



Hoje é o dia 8 de Março - Dia da mulher
Assinalo com esta pintura de Matisse " A blusa romena"

Parabéns e um mundo melhor e mais justo para todas as mulheres!
Sou uma pedra de gelo
num copo de whiskie;
sem odor arrefece
sem sabor amacia
redonda s'esvai...
sumiu!

sexta-feira, 6 de março de 2009

Jonh Wiliams -Concerto de Aranjuez

Plumas persistentes

Sim é verdade que consinto
necessito
clarear o dia de plumas persistentes
nos ínfimos segundos
libertos: poesia.

Benção de açucena bela e fina
mesmo que o sentido no poema
seja forte de revolta duro de fractura
seja farta tempestade ou vela lassa
mas
sempre os tules transparentes
alvos toques de acalmia
maresias de pele morena.

Aparta-se de mim a alma
na dança breve e segura
e somos dois no mesmo espanto
de milagres de (a)letria
versos de sorvete
mantas de absinto
fatias de sonho estaladiço
na mesma forma à mesma hora
no mesmo dia ao mesmo fio;
um colar de infinito
pontos de luz
que nos funde na distância
na mesma noite de olhos unidos
na lua amiga.