segunda-feira, 9 de março de 2009

Estalo

Um estalo
súbito
num embalo
súbdito
mumifica

conserva-se
como servo

até gotas salgadas
o derreterem

em carne
viva outra vez



domingo, 8 de março de 2009

Dia da Mulher



Hoje é o dia 8 de Março - Dia da mulher
Assinalo com esta pintura de Matisse " A blusa romena"

Parabéns e um mundo melhor e mais justo para todas as mulheres!
Sou uma pedra de gelo
num copo de whiskie;
sem odor arrefece
sem sabor amacia
redonda s'esvai...
sumiu!

sexta-feira, 6 de março de 2009

Jonh Wiliams -Concerto de Aranjuez

Plumas persistentes

Sim é verdade que consinto
necessito
clarear o dia de plumas persistentes
nos ínfimos segundos
libertos: poesia.

Benção de açucena bela e fina
mesmo que o sentido no poema
seja forte de revolta duro de fractura
seja farta tempestade ou vela lassa
mas
sempre os tules transparentes
alvos toques de acalmia
maresias de pele morena.

Aparta-se de mim a alma
na dança breve e segura
e somos dois no mesmo espanto
de milagres de (a)letria
versos de sorvete
mantas de absinto
fatias de sonho estaladiço
na mesma forma à mesma hora
no mesmo dia ao mesmo fio;
um colar de infinito
pontos de luz
que nos funde na distância
na mesma noite de olhos unidos
na lua amiga.

Um poema de Vinicius

Allegro

Sente como vibra em nós
Doidamente em nós
Um vento feroz
Estorcendo a fibra

Dos caules informes
E as plantas carnívoras
De bocas enormes
Lutam contra as víboras

E os rios soturnos
Ouve como vazam
A água corrompida

E as sombras se casam
Nos raios nocturnos
Da lua perdida

Vinicius de Moraes
Oxford, 1939
Poemas, Sonetos e Baladas - Quasi

quinta-feira, 5 de março de 2009

O tempo é um não retorno e hoje vai parar

A tua voz é minha nesta tarde
Contas-me histórias
Ris histórias
O tempo é todo teu
O tempo és todo tu
Tarde rara de saudade
Feita de beijos e sonhos
Paralelos triste no asfalto
são saudade em pedaços
Ruas de saudade
Levam a maré em sonho
Há poesia nos dias simples
Pinta-se de cor o tempo
Desmarca-se o trabalho
Ordena-se que ninguém morra hoje
Hoje é o dia que parou
O dia em que o tempo parou
O tempo é todo teu
O tempo és todo tu
Saudade
Feita de beijos e sonhos
Vamos dar nomes às estrelas
Faltar ao trabalho
Parar o tempo
Ordenar que ninguém morra hoje
E Contar histórias
Muitas histórias
Até os beijos serem palavras

Lento embalo

Vento dobra
Vento dança
dança e leva o meu amor
vento leva o meu amor
dentro dobra
dentro dança o meu amor
lenta lança
fere lenta
fura e dobra minha dor
lento embalo
vento embala minha dor
lento canto
inebria minha dor
vento dobra
choro dentro
dentro dobra minha dor
lento embalo
vento sonha
danço com o meu amor

Vicky Barcelona-recuerdos de alhambra

Recuerdos de Alhambra
na guitarra bronzeada de Oviedo.

Cristina submissa
ferida na úlcera de um tanino
-tinto mal digerido-
escapou fugaz em halo de seara
seduziu no abandono louro
a almofada
no terapêutico repouso.

Inebriou Vicky a noite intensa
(húmidos vapores na relva Shakespeare)
e o ponteado crescido de barba rude
face visível de Juan
na oculta raíz de poeta
melodias de Tarrega
a corda sensível.

Vicky Juan o ecrã de lua.

Supomos o chão envolto
na queda unida
romântica sina;
amarelos de Miró
pastilhas de azulejo
fantasias de Gaudi.

Vicky de alça descaída
pés descalços indiferentes
no caminho das formigas
vibra
nas cordas da melodia.


Escrevi este poema no tal desafio de poema sobre o filme de Woody Allen.
Também publiquei a música de que gosto muito.

Recuerdos de Alhambra

Poesia sem nome

Ainda não havia nennhuma poesia deste poeta no blogue. gostei desta.


Nomeio constelações uso-as
para me guiarem no receio das noites
escavo corpos na flexibilidade das sombras
atravesso a manhã e ponho a descoberto
a casa onde a infância secou
o olhar desce aos gestos inacabados
satura-os de jovens lágrimas de resinas
e o susto de criança que fui reaviva
um pouco de alegria no coração.

Al Berto (1948-1997)
Vigílias

quarta-feira, 4 de março de 2009

Dentro

Dentro
Olho dentro
Fundo de mim
Água profunda de indecisão
Água parada de inquietação
Eu dentro
O mundo dentro de mim
O meu mundo em mim
Olho dentro
Entro
Aos poucos
Dentro, dentro, dentro
Não me assusto
Não fujo
Não sei a minha cor
Entro dentro
O mundo fora de mim já não se vê
Está todo dentro
Revestimento interno de caos
Olho dentro
Centro o olhar
Aos pouco entro
Não me assusto
Não fujo
Aceito o caos
O revestimento interno do Homem
A pele interna
Fragmentos de luz e pó
Somos nós
Por dentro
Olho dentro
Água profunda de vida
Morte em abstracção
Desejo de cor
Dentro entro
Interno
Inteiro
Aceito
A paz
Interna
Inteira
A paz
É caos integrado
Não me assusto
Não fujo
Olho dentro
Dentro, dentro, dentro
Até me ver
No teu olhar.

Tempo da corda

Menina de sabrina
de braços bem abertos,
na corda de tolos encantos
que julgam o tempo encantar:
- Leva uma sombrinha na mão!

Do susto da plateia, da pirueta
que feriu, só palmas,
pela sombra penduradas:
- Mãe, são palmas ao tempo
ou ao tombo?

A ventania assim veio
voava a sombra varada,
agora sem palmas, pendurada:
- Mãe, cresce-se com tempo
ou vento?

Era a noite que se seguia
a corda que desencantava,
a sombra sem sol de bengala:
- Mãe, morreste de tempo ou de alma?

Não é por isso

Não é por isso que escrevo
pelos teus olhos doces
é pouco
pelos mimos nos teus lábios
de sorrisos aos meus hinos
e ensaios de assobios
não é por isso.

Sabes que gosto da surpresa
do toque no ombro esquerdo
e do beijo que me espera
no oposto tão perfeito.

Mas não é por isso que escrevo
o poema líquido e puro
num harpejo de candura.

Não é por isso
que se solta a penugem
alta e baixa na brisa
branca e lenta
em círculos de mariposa
sobre as folhas
peso leve
harmonia e suave movimento.

Encostas por vezes o queixo
sopras
no meu corpo de costas
a estrofe mágica
um segredo
mas não é por isso
só por isso o desvario:
isso tanto e isso tudo
que desejo.

Por ti escrevo a sombra no sol
naquela luz que vem de dentro
(células rosa em dança viva)
que me invade e hilaria
na graça dos teus braços
maré cheia.

E ainda é mais do que isso
porque escrevo:
preciso de inventar outra forma de dizer
mais do que existe
e me aproxima dentro de ti
de viver no Paraíso.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Mosca espera o terceiro pensamento

Criei esta rotina de sempre descansar um pouco o olhar nas palavras de alguns poetas
um pouco antes de deitar. Só o título deste poema de Ondjaki já é magnífico e por isso resolvi publicar.

Mosca espera o terceiro pensamento

uma mosca parada
dominou o sol.
estive a olhá-la
mas ela não.
em sopro
não se mexeu.
em aproximação de aranha
não se rendeu.
seus olhares aquietos
rebolam a tarde.
uma mosca parada
pode incomodar uma pessoa.

Ondjaki

(Publicada no livro oferta do jornal de letras)