Este foi o poema que ilustrei ontem para o encontro baseado nas impressões que ficaram de um filme "Caramel" e das contrariedades de um mundo preso na insistência das diferenças esquecendo a origem comum - o átomo. Árabes ou judeus, negros ou brancos, amarelos mulatos todos neste "Nosso Mundo" somos feitos de mistura, um cozinhado original que tem o condão de nos tornar únicos entre iguais - seres humanos.
Não há culpa que resista quando a poesia nos invade, uma névoa calma que nos transporta no sonho real dentro, fora, de mãos dadas na sensibilidade própria
de ser poeta - um voo de Peter Pan.
Continuemos a tomar conta dos momentos que nos tocam e a transformá-los em danças de palavras, em melodias. Ontem fomos alguns que puderam estar, da próxima seremos mais, mas principalmente não esqueçamos os conselhos da nossa prezada Ana Luísa - publiquem-se!
Segue-se só o poema porque ainda não sei publicar as imagens:
Nosso Mundo - O limbo invertido
O país original separa o véu
olhares largos de azeviche
esconde limites na auréola
de um tecido interdito
apelo hirto de leito de rio
no anteparo alto da barragem
soltando soluços de água
- energia sufocada.
O meio caminho de Darwin
o preconceito do sagrado, proibido
do estado hipnótico ao óbvio
sentido "emociobiológico" celular
divisão múltipla orgânica
do minúsculo átomo- igual origem.
Admito complexo este mundo, este ser
onde a fala determina o resultado;
o gato, o cão, a águia, o abutre.
A flor, o bago, o puro malte, a seara
outro falar: a cor, o sabor, a semente.
A árvore a presença, o mocho quietude
o galo o acordar, a serpente o ciciar
-todos espécie e símbolo.
Nesta sequência aprecio o brinco
azul safira, cobalto, claro, marinho
e desta forma sigo a rota do leme
das águas claras de superfícies
aos profundos de sombra
o viajar ao contrário no pecado original
- ritmo sonar seguro.
Atrevo a definição
o nosso mundo:
"um limbo invertido"
judeu, árabe, europeu
amarelo, negro, filisteu
grego, romano, plebeu
- o jogo ocaso que é luz
no DNA da incógnita
contagem infinita de areias
- o novo ser que nasceu.
sábado, 31 de janeiro de 2009
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
O pôr do sol em espinho

LITERATURA EXPLICATIVA
O pôr do sol em espinho não é o pôr do sol
nem mesmo o pôr do sol é bem o pôr do sol
É não morrermos mais é irmos de mãos dadas
com alguém ou com nós mesmos anos antes
é lermos leibniz conviver com os medicis
onze quilometros ao sul de florença
sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico
Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar
ou antero junto da ermida?
O sol que aqui se põe onde nasce? A quem
passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?
O pôr do sol em espinho é termos sido felizes
é sentir como nosso o braço esquerdo
Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém
mulheres recortadas nas vidraças
oliveiras à chuva homens a trabalhar
coisas todas as coisas deixadas a si mesmas
Não mais restos de vozes solidão dos vidros
não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas
não mais o pôr do sol apenas pôr do sol
RUY BELO in Homem de Palavra(s)
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Nem tudo me dizes
Nada te pergunto
tudo me dizes
erguendo fantasmas brancos
lívidos em sons guturais...
e o silêncio indiferente
dentro.
A meu lado
ramos fustigados de tempestades
acima das folhas crepitantes
crateras de dor
no eu impotente.
Nada do que sei
quero por companhia.
Onde está a concha
que afasta o grito
devolve as asas
o dia azul?
Qual o oceano longe
desconhecido
a Nova Atlântida?
Sinto-me ilha submergida
bóia bamboleante de maré alta
revoltosa que aparta e destrói;
impulsão dos sentidos.
Aguardo o dia
em que o que sei
será o que dizes
e nesse dia
não serei mais o eu
apenas o ponto final
sem intervalos exageros
interjeição...
cingido a meio
entre o que fica
e o que ...
não sei-
tudo me dizes
erguendo fantasmas brancos
lívidos em sons guturais...
e o silêncio indiferente
dentro.
A meu lado
ramos fustigados de tempestades
acima das folhas crepitantes
crateras de dor
no eu impotente.
Nada do que sei
quero por companhia.
Onde está a concha
que afasta o grito
devolve as asas
o dia azul?
Qual o oceano longe
desconhecido
a Nova Atlântida?
Sinto-me ilha submergida
bóia bamboleante de maré alta
revoltosa que aparta e destrói;
impulsão dos sentidos.
Aguardo o dia
em que o que sei
será o que dizes
e nesse dia
não serei mais o eu
apenas o ponto final
sem intervalos exageros
interjeição...
cingido a meio
entre o que fica
e o que ...
não sei-
Um texto poético
Resolvi publicar um texto de um livro de Jiménez, autor espanhol do principio do século XX , com um nome sugestivo "Platero e eu". Convém desde já dizer que o Platero era um jumento que sempre acompanhava o escritor nos seus passeios e interrogações na Natureza. O livro tem um autor e o seu auditor (Platero) e uma sequência de pequenos textos poéticos dos quais aqui vos deixo um.
Última sesta
Que triste beleza, amarela e descolorida, a do sol da tarde, quando acordo debaixo da figueira!
Uma brisa seca, embalsamada de esteva derretida, acaricia-me o despertar suado. As grandes folhas da branda velha árvore, mexendo-se de leve, enlutam-me e deslumbram-me. Parece que me embalam suavemente num berço que fosse do sol à sombra, da sombra ao sol.
Lá longe, na aldeia deserta, os sinos das três tocam as trindades, atrás das vagas cristalinas do ar. Ao ouvi-las Platero, que me tinha roubado uma grande melancia de doce gelo escarlate, em pé, imóvel, olha para mim com os seus enormes olhos vacilantes, onde anda uma pegajosa mosca verde.
Perante os seus olhos cansados, os meus olhos cansam-se outra vez...Volta a brisa, como a uma borboleta que quisesse voar e a que, subitamente, se dobrassem as asas...
as asas... as minhas pálpebras frouxas, que, rapidamente, se fecharam...
Juan Jiménez "Platero e eu"
Última sesta
Que triste beleza, amarela e descolorida, a do sol da tarde, quando acordo debaixo da figueira!
Uma brisa seca, embalsamada de esteva derretida, acaricia-me o despertar suado. As grandes folhas da branda velha árvore, mexendo-se de leve, enlutam-me e deslumbram-me. Parece que me embalam suavemente num berço que fosse do sol à sombra, da sombra ao sol.
Lá longe, na aldeia deserta, os sinos das três tocam as trindades, atrás das vagas cristalinas do ar. Ao ouvi-las Platero, que me tinha roubado uma grande melancia de doce gelo escarlate, em pé, imóvel, olha para mim com os seus enormes olhos vacilantes, onde anda uma pegajosa mosca verde.
Perante os seus olhos cansados, os meus olhos cansam-se outra vez...Volta a brisa, como a uma borboleta que quisesse voar e a que, subitamente, se dobrassem as asas...
as asas... as minhas pálpebras frouxas, que, rapidamente, se fecharam...
Juan Jiménez "Platero e eu"
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
APELO DE UM AMOR FERIDO
Eu sonhei louca felicidade
com um amor doce, abençoado,
mas perdi minha liberdade,
é inutil meu grito amordaçado.
Meu sonho vive em ruína,
tão manchado pela maldição,
não m' esforces ter-te em surdina,
- liberta-me! e ter-te-ei com paixão.
Não me cries mais ansiedade,
quero de novo o chilrear de passarinhos,
... que deles hei tanta saudade.
Não me subjugues a teus desvarios,
inunda-me d' amor e de gestos mansinhos,
... e nossas lágrimas não desenharão mais rios!
António Luíz , 25.01.2009
com um amor doce, abençoado,
mas perdi minha liberdade,
é inutil meu grito amordaçado.
Meu sonho vive em ruína,
tão manchado pela maldição,
não m' esforces ter-te em surdina,
- liberta-me! e ter-te-ei com paixão.
Não me cries mais ansiedade,
quero de novo o chilrear de passarinhos,
... que deles hei tanta saudade.
Não me subjugues a teus desvarios,
inunda-me d' amor e de gestos mansinhos,
... e nossas lágrimas não desenharão mais rios!
António Luíz , 25.01.2009
Azul cobalto- os dois rostos num aperto
Este poema foi escrito em paralelo com o que publiquei anteriormente da "Maria"
e pretende criar um ambiente a que chamei " Díptico do desencontro"
Azul cobalto- os dois rostos num aperto
Acordei preso de pétalas
amarelo malmequer
rodeado de cabelos em ogiva
os dois rostos num aperto.
Diria o sonho extinto
não fosse a flor na jarra
azul cobalto
que rodava crendo-se viva
sorrindo na volta do vidro
caule esguio de uma linha
na mesinha onde sopra
seiva verde de permeio
entre o linho do tecido
e o mármore cinza um pouco frio.
A luz ténue matinal
película fina
qual imperativa razão
desce lenta a persiana
adormeço de novo
no mesmo sonho
e
sinto-me de ti como o crepúsculo
prisioneiro na longínqua serrania
num rubor rosa de nuvens
os dois rostos num aperto
e um bailado
dos teus braços de alimento
ao meu corpo em desconcerto
tonto ao sê-lo.
É sonho bem sei
e planeio
bem mais do que um simples devaneio
poemas de palavras
que te toquem os cabelos
com ternura
as mãos dadas e os passeios
de aromas silvestres sabor de amoras
que te troquem os jeitos a postura
a miragem de um oásis
nos sossegos do teu seio
e ser eu o jardineiro
de ganga e saco de juta
na procura das sementes
no canteiro dos teus lábios
doce rosa de Alladin.
É sonho bem sei
mas a flor diz o contrário
na jarra côr azul
azul cobalto
os dois rostos num aperto
tontos dois tontos
sem sê-lo
e pretende criar um ambiente a que chamei " Díptico do desencontro"
Azul cobalto- os dois rostos num aperto
Acordei preso de pétalas
amarelo malmequer
rodeado de cabelos em ogiva
os dois rostos num aperto.
Diria o sonho extinto
não fosse a flor na jarra
azul cobalto
que rodava crendo-se viva
sorrindo na volta do vidro
caule esguio de uma linha
na mesinha onde sopra
seiva verde de permeio
entre o linho do tecido
e o mármore cinza um pouco frio.
A luz ténue matinal
película fina
qual imperativa razão
desce lenta a persiana
adormeço de novo
no mesmo sonho
e
sinto-me de ti como o crepúsculo
prisioneiro na longínqua serrania
num rubor rosa de nuvens
os dois rostos num aperto
e um bailado
dos teus braços de alimento
ao meu corpo em desconcerto
tonto ao sê-lo.
É sonho bem sei
e planeio
bem mais do que um simples devaneio
poemas de palavras
que te toquem os cabelos
com ternura
as mãos dadas e os passeios
de aromas silvestres sabor de amoras
que te troquem os jeitos a postura
a miragem de um oásis
nos sossegos do teu seio
e ser eu o jardineiro
de ganga e saco de juta
na procura das sementes
no canteiro dos teus lábios
doce rosa de Alladin.
É sonho bem sei
mas a flor diz o contrário
na jarra côr azul
azul cobalto
os dois rostos num aperto
tontos dois tontos
sem sê-lo
O voo frágil do colibri
Abraço a árvore da selva amazónica
cara ao lado nas unhas de casca
a árvore e eu sózinha.
Pelo caminho das gangas sobe um esquilo
descansa no cinto castanho irmão de côr
segue grávido de noz ao redondo lugar
da toca na altura do cabelo.
Qual o nome destino que desponta
o ritmo batuque pulsante
que alimento de sabrinas
pés distantes no calor liso das raizes
milenar fluído de liras capilares
circular música sina dos sentidos
a árvore e eu sózinhas.
Posição imprópria e singular
acalmia
sinto-me bela adormecida
no berço rutilo titânio das pupilas
braços abertos seios despertos
desejo
a seiva fruta dos lábios
ofereço
o cálice flor de mel
no voo frágil do colibri
a árvore e eu
Aqui.
Maria-
cara ao lado nas unhas de casca
a árvore e eu sózinha.
Pelo caminho das gangas sobe um esquilo
descansa no cinto castanho irmão de côr
segue grávido de noz ao redondo lugar
da toca na altura do cabelo.
Qual o nome destino que desponta
o ritmo batuque pulsante
que alimento de sabrinas
pés distantes no calor liso das raizes
milenar fluído de liras capilares
circular música sina dos sentidos
a árvore e eu sózinhas.
Posição imprópria e singular
acalmia
sinto-me bela adormecida
no berço rutilo titânio das pupilas
braços abertos seios despertos
desejo
a seiva fruta dos lábios
ofereço
o cálice flor de mel
no voo frágil do colibri
a árvore e eu
Aqui.
Maria-
domingo, 25 de janeiro de 2009
O autêntico segundo
Deste-me aquele poema que já foi lido
em feltro azul de traço largo
não saberás que me guio em linhas
de cabelo recém nascido traço fino
fino muito fino.
"Para ti"- como se estrela única
entre mil conchas de Pacífico
mergulho corajoso de rocha alta
ganhando lanço sustendo sopro
no puro engano que abraço como sendo
a luz singular do teu desejo.
Guardo a exigência no saco fundo
como quem se desvia da falsa areia
na toalha de caranguejos e corais
num jogo de crianças junto ao mar
e quando sempre e por acaso
me deixo afundar
nesse buraco demais aberto
guardo o autêntico segundo
a íntima certeza de posse
traço largo;
cinde esse mundo que adivinho
no lento crescer da minha linha
fina muito fina.
em feltro azul de traço largo
não saberás que me guio em linhas
de cabelo recém nascido traço fino
fino muito fino.
"Para ti"- como se estrela única
entre mil conchas de Pacífico
mergulho corajoso de rocha alta
ganhando lanço sustendo sopro
no puro engano que abraço como sendo
a luz singular do teu desejo.
Guardo a exigência no saco fundo
como quem se desvia da falsa areia
na toalha de caranguejos e corais
num jogo de crianças junto ao mar
e quando sempre e por acaso
me deixo afundar
nesse buraco demais aberto
guardo o autêntico segundo
a íntima certeza de posse
traço largo;
cinde esse mundo que adivinho
no lento crescer da minha linha
fina muito fina.
poesia de que gosto
é mais conhecido como escritor de prosa, no entanto tem poemas muito interessantes
cortando com o tradicional. Pareceu-me importante trazer ao blogue algumas delas.
hoje deixo-vos uma:
poema das coisas aladas no coração da minha irmã flor
as coisas aladas ensinam o chão. explicam-lhe quanto há entre terra e céu,o
caminho livre de voo, a vista elevada de deus. eu vejo anjos e os anjos são,
das coisas aladas, os sonhos mais completos. erguem-se braçados de asas a
educar o vento, percursos de sopro que se abrem nas dimensões, e luzem nas
nossas cabeças como homens enfim pássaros, como se as árvores pudessem
ser casas nossas e nada nos acordasse na força do frio ou da chuva. como se
nos cumprimentássemos em pleno ar, seres tão leves atarefados com mais
nada. seríamos só pulmões cheios, máquinas de pairar, alegres imprecisões
ao alto
valter hugo mãe "folclore íntimo"
nas palavras do próprio poeta e escritor "as maiúsculas fazem-lhe confusão"
em sua homenagem e respeito todo este texto é minúsculo!
cortando com o tradicional. Pareceu-me importante trazer ao blogue algumas delas.
hoje deixo-vos uma:
poema das coisas aladas no coração da minha irmã flor
as coisas aladas ensinam o chão. explicam-lhe quanto há entre terra e céu,o
caminho livre de voo, a vista elevada de deus. eu vejo anjos e os anjos são,
das coisas aladas, os sonhos mais completos. erguem-se braçados de asas a
educar o vento, percursos de sopro que se abrem nas dimensões, e luzem nas
nossas cabeças como homens enfim pássaros, como se as árvores pudessem
ser casas nossas e nada nos acordasse na força do frio ou da chuva. como se
nos cumprimentássemos em pleno ar, seres tão leves atarefados com mais
nada. seríamos só pulmões cheios, máquinas de pairar, alegres imprecisões
ao alto
valter hugo mãe "folclore íntimo"
nas palavras do próprio poeta e escritor "as maiúsculas fazem-lhe confusão"
em sua homenagem e respeito todo este texto é minúsculo!
A neve a entrar nos teus olhos de sol
sou eu
a humanidade orgasmática a suar, a vir-se
em quentes frios espasmos,
a neve que te entra nos olhos
Sou eu, o que rejeita a publicação a Joyce,
a que tira as manchas de sémen nas camisas de Proust
a que abraça Rober Diaz, a que chupa Borges
pessoas passo a passo com frio a transpirar
a consolar-se a cada perda
Sou esta humanidade inteira nuclearmente ansiosa de riso e de calor e o meu suicídio será um povo etnicamente puro pegar no seu míssil de prata -
sou o ditador a comer iogurte de morango depois da limpeza étnica
as estrelas brilham para eles
a gente de verdade consola-se à escala humana,
a mais perigosa a Maior
E sou tu, a ler este texto,
e agora no rio está reflectida a nossa cara, a múltipla perspectiva
menina a arder com Messenger ligado
Nuno Brito, 2009
sou eu
a humanidade orgasmática a suar, a vir-se
em quentes frios espasmos,
a neve que te entra nos olhos
Sou eu, o que rejeita a publicação a Joyce,
a que tira as manchas de sémen nas camisas de Proust
a que abraça Rober Diaz, a que chupa Borges
pessoas passo a passo com frio a transpirar
a consolar-se a cada perda
Sou esta humanidade inteira nuclearmente ansiosa de riso e de calor e o meu suicídio será um povo etnicamente puro pegar no seu míssil de prata -
sou o ditador a comer iogurte de morango depois da limpeza étnica
as estrelas brilham para eles
a gente de verdade consola-se à escala humana,
a mais perigosa a Maior
E sou tu, a ler este texto,
e agora no rio está reflectida a nossa cara, a múltipla perspectiva
menina a arder com Messenger ligado
Nuno Brito, 2009
sábado, 24 de janeiro de 2009
Carícia lenta permanente
Assinalo o benigno dia
que é teu
aqui ao lado
disfarçado na sombra
do Sol que te deseja.
Solto o beijo, a mão
ingénuo e cândido;
meu modo de ser.
Deslizo de sonho
no etéreo fumo dos afectos
junto a ti
Evolamos na brisa dos gestos inéditos
poesia reti(s)ente de asas imensas
carícia lenta, doce e permanente
riso sano
e no mesmo instante
o búzio gigante, sussurros,
rumorejo, sossego sim;
assinala o benigno dia
que é teu
nas ondas do mar.
que é teu
aqui ao lado
disfarçado na sombra
do Sol que te deseja.
Solto o beijo, a mão
ingénuo e cândido;
meu modo de ser.
Deslizo de sonho
no etéreo fumo dos afectos
junto a ti
Evolamos na brisa dos gestos inéditos
poesia reti(s)ente de asas imensas
carícia lenta, doce e permanente
riso sano
e no mesmo instante
o búzio gigante, sussurros,
rumorejo, sossego sim;
assinala o benigno dia
que é teu
nas ondas do mar.
Vinicius e Neruda - Dois sonetos
Soneto do amor total
Amo-te tanto, meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade
Amo-te como amigo e como amante
numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo.te, enfim, com grande liberdade
dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
com um desejo maciço e permanente
E de te amar assim muito e amíude
É que um dia em teu corpo de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.
Vinicius de Morais
XLIV
Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida
a palavra é uma asa do silêncio
o fogo tem a sua metade de frio
Amo-te para começar a amar-te
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.
O meu amor tem duas vidas para amar-te
por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo
Pablo Neruda
Amo-te tanto, meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade
Amo-te como amigo e como amante
numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo.te, enfim, com grande liberdade
dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
com um desejo maciço e permanente
E de te amar assim muito e amíude
É que um dia em teu corpo de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.
Vinicius de Morais
XLIV
Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida
a palavra é uma asa do silêncio
o fogo tem a sua metade de frio
Amo-te para começar a amar-te
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.
O meu amor tem duas vidas para amar-te
por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo
Pablo Neruda
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Bonitas as árvores
"Bonitas as árvores?" e tu dizes nada
atento ao toque, trinados metálicos
feitos de moda e metal imediato
"A Bolsa sabes! Não é dia! LIgou-me
o Estevão!"
Assinei de palmas as penas do chão
as folhas castanhas secas fluídas
carapaça olfactiva de terra negra
e de uma formiga essa sim atarefada
de um ponto branco, uma migalha.
Centrei-me nela indefesa tão pequena
ampliei de vista as antenas, a cabeça
ametista, a pata levantada soltando
a baga, a gota cansada de caminho
e ela fugindo, ela por baixo
por cima a migalha.
"Gosto das árvores no Outono
erguem os braços fortes, finos!
Vês deste lado, um esquiço
um "Siza" chino, traços leves
fundo azul.
Gosto das cores cambiantes matiz
o som dos passos na forma elástica
interminável de um poema, estala."
E tu calado estendes a mão no meu ombro
afagas a pele; que interessa a palavra
a biologia do resto?
"Não queres sentar? Abrimos o jornal
não sujas o fato. Anda. Aqui no relvado.
Lembras-te do silêncio da Serra
no casebre de madeira da Estrela?
"A Bolsa sabes! A todo o momento..."
E os meus olhos dentro de mim:
vejo um prado longo de verde
umas meias longas brancas
umas tranças
uma Alice de tufos macios
um relógio grande de fadas
e imagino outras palavras:
"Bonitas as árvores?"
- Sim! Bonitas as árvores contigo ao lado!"
Maria-
atento ao toque, trinados metálicos
feitos de moda e metal imediato
"A Bolsa sabes! Não é dia! LIgou-me
o Estevão!"
Assinei de palmas as penas do chão
as folhas castanhas secas fluídas
carapaça olfactiva de terra negra
e de uma formiga essa sim atarefada
de um ponto branco, uma migalha.
Centrei-me nela indefesa tão pequena
ampliei de vista as antenas, a cabeça
ametista, a pata levantada soltando
a baga, a gota cansada de caminho
e ela fugindo, ela por baixo
por cima a migalha.
"Gosto das árvores no Outono
erguem os braços fortes, finos!
Vês deste lado, um esquiço
um "Siza" chino, traços leves
fundo azul.
Gosto das cores cambiantes matiz
o som dos passos na forma elástica
interminável de um poema, estala."
E tu calado estendes a mão no meu ombro
afagas a pele; que interessa a palavra
a biologia do resto?
"Não queres sentar? Abrimos o jornal
não sujas o fato. Anda. Aqui no relvado.
Lembras-te do silêncio da Serra
no casebre de madeira da Estrela?
"A Bolsa sabes! A todo o momento..."
E os meus olhos dentro de mim:
vejo um prado longo de verde
umas meias longas brancas
umas tranças
uma Alice de tufos macios
um relógio grande de fadas
e imagino outras palavras:
"Bonitas as árvores?"
- Sim! Bonitas as árvores contigo ao lado!"
Maria-
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
As griffes de coração
Escadas verde alface
as portas de laranja;
casa de artista
- óculos rectângulo azul turquesa
sobrancelhas à janela
arquitectura moderna
minimalista, estanque
cores opostas e pelugens;
faltam os ursos pandas
pendurados nos bambus.
Gogos largos muitos dividem salas
criam transparências nos átrios clínicos
chão de tábuas largas corridas pretas
nos brilhos dos trabalhos das abelhas.
Um catálogo de lugares exaustos
sem vivências: procuro onde são
as migalhas, as poeiras, o palco
ricochete de chamas nas palavras
bolas numeradas de bilhar
cruzando tabelas de paredes
brancas, descobertas.
Falta o desmancho de regras
músicas vinil de outras épocas
copos vazios o desamparo de bolos
nos disparos de talheres
bocas abertas;
a toalha entalada de gavetas
cadeiras de pernas coladas
mesas disfarçadas de bandidos
massagens nas provetas dos dedos
trocas de calcanhares diferentes.
Faltam as ondas quando escorregam
os cotovelos as gargalhadas soltas
de uma mufla fumos de enxofre
cor de açafrão.
Esta casa não existe
não é real
faltam as marcas, as garras
as griffes de coração.
as portas de laranja;
casa de artista
- óculos rectângulo azul turquesa
sobrancelhas à janela
arquitectura moderna
minimalista, estanque
cores opostas e pelugens;
faltam os ursos pandas
pendurados nos bambus.
Gogos largos muitos dividem salas
criam transparências nos átrios clínicos
chão de tábuas largas corridas pretas
nos brilhos dos trabalhos das abelhas.
Um catálogo de lugares exaustos
sem vivências: procuro onde são
as migalhas, as poeiras, o palco
ricochete de chamas nas palavras
bolas numeradas de bilhar
cruzando tabelas de paredes
brancas, descobertas.
Falta o desmancho de regras
músicas vinil de outras épocas
copos vazios o desamparo de bolos
nos disparos de talheres
bocas abertas;
a toalha entalada de gavetas
cadeiras de pernas coladas
mesas disfarçadas de bandidos
massagens nas provetas dos dedos
trocas de calcanhares diferentes.
Faltam as ondas quando escorregam
os cotovelos as gargalhadas soltas
de uma mufla fumos de enxofre
cor de açafrão.
Esta casa não existe
não é real
faltam as marcas, as garras
as griffes de coração.
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