"Nothing gold can stay!"
Robert Frost. "Nature's first green is gold"
But God
is gold
and can stay
and stays
But God
is not
enough
Adília Lopes - César a César - & etc. 2003
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Fiz um soneto :)
Não era este o tempo de te ter
Paixão que me roubou todo o sentir
Voava em vez de andar só de te ver
Cantava o meu falar e o meu rir
Ceguei de ti por ti cada segundo
Naquele instante o teu era o meu mundo
A cor do meu olhar era a do teu
Aí meu coração não era meu
Agora à luz da dor já posso ver
A paixão não escolhe a simetria
A dança de te ter ou não te ter
É fado, acaso ou talvez magia
É o mistério impune do amor
Esse bifáceo de prazer e dor
Liliana
Paixão que me roubou todo o sentir
Voava em vez de andar só de te ver
Cantava o meu falar e o meu rir
Ceguei de ti por ti cada segundo
Naquele instante o teu era o meu mundo
A cor do meu olhar era a do teu
Aí meu coração não era meu
Agora à luz da dor já posso ver
A paixão não escolhe a simetria
A dança de te ter ou não te ter
É fado, acaso ou talvez magia
É o mistério impune do amor
Esse bifáceo de prazer e dor
Liliana
COMO DESABITADO, O CORAÇÃO
Podem acontecer milagres. Podem
acontecer, e então a música decerto estará lá,
as palavras surgirão então, o sol, o girassol, a luz
que gira em torno de eixo feito de outra luz.
Poderia ser deus, ou paz.
Sentir. E de repente o mundo a acontecer,
o milagre do mundo a acontecer –
Milagres
Lázaro em vestes brancas,
ausente o pó do quarto onde morara, entretecido
a morte e cheiros de planeta envelhecido.
A estrela nova nascendo dos seus pés.
Eis-me, em milagre e mudo.
Lázaro, a sua voz
em sinfonia muda
Ou a violência dentro do coração,
vibrando dentro do coração, ventrículo desfeito
por esta certeza: surgirão as palavras a seguir,
tão lisas e potentes como a música.
Milagres
Podem acontecer.
Serão como a beleza das pirâmides, a
perfeição: onde pequeno seixo atravessado em falha?
Onde folha finíssima por entre as pedras, as siamesas pedras,
resistentes ao vento e ao deserto, a sua forma, a esplêndida,
a forma mais capaz de resolver enigmas?
Nessa folha finíssima, ou na pedra:
o mais puro milagre
Podem acontecer: junto ao deserto do gesto desumano,
o chicote, a tortura, o revólver bramando no vazio,
a mão que se detém, a boca que não grita,
Lázaro, a sua voz. Igual a música
Eis-nos, e mudos
O conhecer mais puro. O ar que traz os sons,
o tempo a transportar a luz. As estrelas já mortas,
de onde nascemos, a sua luz ainda. Aqui, junto de nós.
Habitar sem saber a mecânica quântica, igual
a habitação de coração.
O pensamento mais iluminado.
Saber da energia, o mais puro conceito.
Como Deus
Milagres. Podem ainda assim
acontecer ao longo do deserto, das fronteiras
erguidas, quase tocando o céu, como pirâmides.
De Rodes, o colosso dividindo, mas aberto aos navios,
o sândalo, a canela, especiarias, mais de mil cheiros,
saltos de gigante, pirateado o coração e o sol.
E ao seu lado, a voz humana:
cal viva e uma paisagem de cacto e maravilhas.
Alguns
milagres.
Junto à vida amputada, à clave, à carne rota,
ao eminente apodrecer das cores:
capazes de fazer tombar ruídos longos,
e ficar só um timbre, mas mais que uma miragem,
um timbre, som de diapasão vibrando pelo tempo,
ou festa de Babel.
A estrela que morrera, a sua luz cruzando
o velho éter, já não éter, mas tempo
Anoitece, e está vermelho o sol ao lado das pirâmides.
Há-de ser isto o eixo de outra luz,
amigos a saudar-se, devagar,
ao lado do silêncio, hão-de surgir.
A eclosão de impérios. Cheiro o cheiro a marfim,
de sílabas tão brancas
Lázaro fala, pela primeira vez.
rouco de voz, primeiro, depois a sua voz:
Eis-me em milagre, mundo!
E o reconcerto abate-se na luz,
e um dedo basta para o reconforto. Um dedo.
As suas veias. Fio de cabelo ou pena de pavão
tornam-se sons, leve ponto de açúcar, se o vento de galáxia
os amacia. Podem então,
em longo desconserto
E encostada à música, essa palavra nova nascerá:
rota dos olhos que não viram nada,
mas com peixes ao fundo, multiformes,
a voz sem palco e tudo a acontecer.
Podem então, alguns deles então, acontecer,
a derradeira vez como
primeira vez –
Ana Luísa Amaral (inédito)
acontecer, e então a música decerto estará lá,
as palavras surgirão então, o sol, o girassol, a luz
que gira em torno de eixo feito de outra luz.
Poderia ser deus, ou paz.
Sentir. E de repente o mundo a acontecer,
o milagre do mundo a acontecer –
Milagres
Lázaro em vestes brancas,
ausente o pó do quarto onde morara, entretecido
a morte e cheiros de planeta envelhecido.
A estrela nova nascendo dos seus pés.
Eis-me, em milagre e mudo.
Lázaro, a sua voz
em sinfonia muda
Ou a violência dentro do coração,
vibrando dentro do coração, ventrículo desfeito
por esta certeza: surgirão as palavras a seguir,
tão lisas e potentes como a música.
Milagres
Podem acontecer.
Serão como a beleza das pirâmides, a
perfeição: onde pequeno seixo atravessado em falha?
Onde folha finíssima por entre as pedras, as siamesas pedras,
resistentes ao vento e ao deserto, a sua forma, a esplêndida,
a forma mais capaz de resolver enigmas?
Nessa folha finíssima, ou na pedra:
o mais puro milagre
Podem acontecer: junto ao deserto do gesto desumano,
o chicote, a tortura, o revólver bramando no vazio,
a mão que se detém, a boca que não grita,
Lázaro, a sua voz. Igual a música
Eis-nos, e mudos
O conhecer mais puro. O ar que traz os sons,
o tempo a transportar a luz. As estrelas já mortas,
de onde nascemos, a sua luz ainda. Aqui, junto de nós.
Habitar sem saber a mecânica quântica, igual
a habitação de coração.
O pensamento mais iluminado.
Saber da energia, o mais puro conceito.
Como Deus
Milagres. Podem ainda assim
acontecer ao longo do deserto, das fronteiras
erguidas, quase tocando o céu, como pirâmides.
De Rodes, o colosso dividindo, mas aberto aos navios,
o sândalo, a canela, especiarias, mais de mil cheiros,
saltos de gigante, pirateado o coração e o sol.
E ao seu lado, a voz humana:
cal viva e uma paisagem de cacto e maravilhas.
Alguns
milagres.
Junto à vida amputada, à clave, à carne rota,
ao eminente apodrecer das cores:
capazes de fazer tombar ruídos longos,
e ficar só um timbre, mas mais que uma miragem,
um timbre, som de diapasão vibrando pelo tempo,
ou festa de Babel.
A estrela que morrera, a sua luz cruzando
o velho éter, já não éter, mas tempo
Anoitece, e está vermelho o sol ao lado das pirâmides.
Há-de ser isto o eixo de outra luz,
amigos a saudar-se, devagar,
ao lado do silêncio, hão-de surgir.
A eclosão de impérios. Cheiro o cheiro a marfim,
de sílabas tão brancas
Lázaro fala, pela primeira vez.
rouco de voz, primeiro, depois a sua voz:
Eis-me em milagre, mundo!
E o reconcerto abate-se na luz,
e um dedo basta para o reconforto. Um dedo.
As suas veias. Fio de cabelo ou pena de pavão
tornam-se sons, leve ponto de açúcar, se o vento de galáxia
os amacia. Podem então,
em longo desconserto
E encostada à música, essa palavra nova nascerá:
rota dos olhos que não viram nada,
mas com peixes ao fundo, multiformes,
a voz sem palco e tudo a acontecer.
Podem então, alguns deles então, acontecer,
a derradeira vez como
primeira vez –
Ana Luísa Amaral (inédito)
Um poema de que gosto
Fico admirado quando alguém,por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.
José Luís Peixoto
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.
José Luís Peixoto
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Poema meu
Escrevo como se os teus olhos
atrás do ombro
espreitassem luzidios...
como se..não os vendo...
ainda assim sabendo...
alimentassem de novo
um rio de margens revolutas
de sossego de ventos brandos,
de acalmia segura...
minha...tua...
Escrevo como se no teu colo
olhando areias finas
retomassem gaivotas o horizonte...
asas brancas... azul cristalino...
ainda assim sentindo
a mão amena
o rosto em desafio
prendendo a Lua
minha...tua...
Escrevo de língua quente, da pimenta...
lábios de chilli ardente,
nas últimas gotas da laranja nua...
querendo o beijo... a sobremesa...
o corpo mole, a floresta muda...
ainda assim despertando...reassumindo
o falo laço num sussurro...
roçando emergente, líquido, explosivo...
deslizando...
em lisa pele de seda pura...
minha... tua...
José Ferreira
atrás do ombro
espreitassem luzidios...
como se..não os vendo...
ainda assim sabendo...
alimentassem de novo
um rio de margens revolutas
de sossego de ventos brandos,
de acalmia segura...
minha...tua...
Escrevo como se no teu colo
olhando areias finas
retomassem gaivotas o horizonte...
asas brancas... azul cristalino...
ainda assim sentindo
a mão amena
o rosto em desafio
prendendo a Lua
minha...tua...
Escrevo de língua quente, da pimenta...
lábios de chilli ardente,
nas últimas gotas da laranja nua...
querendo o beijo... a sobremesa...
o corpo mole, a floresta muda...
ainda assim despertando...reassumindo
o falo laço num sussurro...
roçando emergente, líquido, explosivo...
deslizando...
em lisa pele de seda pura...
minha... tua...
José Ferreira
Soneto de brincar
Um Deus pode. Mas como erguer do sol
O que ser humano não consegue
Oh Deus lá no Cé olha e tudo pede
Que a estrela há de servir a quem tem sede
Este riso que dá luz e tom verde
Empresta um pouco a quem nem tudo acende
Quem não dá ao amigo tudo vende
Renega amor família e antepassados
Não dás aos pobres a roupa coçada
E foge assim rebelde galopada
No seu lento vento que arrasta a amada.
E chora meu amor a mão lançada
Não deixes atrás a tua jangada
Apanha a vida, sonha que nem fada!
O que ser humano não consegue
Oh Deus lá no Cé olha e tudo pede
Que a estrela há de servir a quem tem sede
Este riso que dá luz e tom verde
Empresta um pouco a quem nem tudo acende
Quem não dá ao amigo tudo vende
Renega amor família e antepassados
Não dás aos pobres a roupa coçada
E foge assim rebelde galopada
No seu lento vento que arrasta a amada.
E chora meu amor a mão lançada
Não deixes atrás a tua jangada
Apanha a vida, sonha que nem fada!
1º e aflitivo trabalho de casa
É livro aberto,
Desenhos,
Últimas caçadas esculpidas.
É como pedra,
Imagem,
Dias de marfim, cenas partidas.
É mil desenhos,
Baleias,
Lâminas e restos de mil dias.
É livro aberto,
Imagem,
Últimos desenhos de baleias.
Maria Inês Beires
Empanquei imenso nos primeiros dias, e após inúmeras e fatigantes tentativas, o resultado acabou por sair à primeira 2 dias antes da reunião de quarta. Mas fiquei contente com o resultado final, embora as baleias ali mencionadas duas vezes me façam urticária de poeta.
Desenhos,
Últimas caçadas esculpidas.
É como pedra,
Imagem,
Dias de marfim, cenas partidas.
É mil desenhos,
Baleias,
Lâminas e restos de mil dias.
É livro aberto,
Imagem,
Últimos desenhos de baleias.
Maria Inês Beires
Empanquei imenso nos primeiros dias, e após inúmeras e fatigantes tentativas, o resultado acabou por sair à primeira 2 dias antes da reunião de quarta. Mas fiquei contente com o resultado final, embora as baleias ali mencionadas duas vezes me façam urticária de poeta.
Soneto Verso a Verso de passo incerto
Depois de muitas revoltas voltas de uma folha
que desesperava a rima incerta
do poeta precedente,
eis que surge o resultado
um soneto simplesmente:
Tanto de meu estado me acho incerto
Que dá pena ouvir-me, ver-me ao espelho,
uma cortina com um retrato velho
abertura ao encontro do espelho
Uma fantasia nova a vê-lo
com outras cores além do vermelho
vermelho luz claridade e elo
incêndio rigoroso num gelo
Impossível desta forma mantê-lo
mas muito viável um dia revê-lo
sob novas formas reavivá-lo
Adeus formas doentias em dó
que a alma não pode estar só
já basta um dia saber-me... pó!
Maria do Céu, Nuno, António, José
Que
de cabelos desgrenhados
mesmo alguns arrancados
desta grande aflição
já se livraram!
que desesperava a rima incerta
do poeta precedente,
eis que surge o resultado
um soneto simplesmente:
Tanto de meu estado me acho incerto
Que dá pena ouvir-me, ver-me ao espelho,
uma cortina com um retrato velho
abertura ao encontro do espelho
Uma fantasia nova a vê-lo
com outras cores além do vermelho
vermelho luz claridade e elo
incêndio rigoroso num gelo
Impossível desta forma mantê-lo
mas muito viável um dia revê-lo
sob novas formas reavivá-lo
Adeus formas doentias em dó
que a alma não pode estar só
já basta um dia saber-me... pó!
Maria do Céu, Nuno, António, José
Que
de cabelos desgrenhados
mesmo alguns arrancados
desta grande aflição
já se livraram!
Três mil anos
Três mil anos
É marcação
Como um livro aberto
Lâminas de últimos dias
Restos de artefacto e marfim
Imagem, desenhos, caçadas
Baleias partidas
Cenas feitas
Esculpidas de pedra.
É marcação
Como um livro aberto
Lâminas de últimos dias
Restos de artefacto e marfim
Imagem, desenhos, caçadas
Baleias partidas
Cenas feitas
Esculpidas de pedra.
Ar
ar
o artigo do ar
resto de excesso e calor
se o ar percorresse o interior
penas mais leves
libertar o novo
ossos invadidos por penas
aéreos, terríveis e ocos
o elefante do ar
esse elo de origem
recente linhagem
isoladamente o primo próximo
aves, aves e aves
do rio e do ar
só pele e ar
o artigo do ar
resto de excesso e calor
se o ar percorresse o interior
penas mais leves
libertar o novo
ossos invadidos por penas
aéreos, terríveis e ocos
o elefante do ar
esse elo de origem
recente linhagem
isoladamente o primo próximo
aves, aves e aves
do rio e do ar
só pele e ar
Soneto em grupo
Tornou-se tão cansado o seu olhar
Diante do espelho a sonhar
Vejo reflexos de ondas e mar
Perco-me em espaços repletos de amar
E chego mais perto desse lugar
Onde há duendes para encantar
e arco-íris de cor, luz e mar
sem saber como aprendi a dançar
E nua me deixei estar ao luar
Tórrida de desejo de te amar
Olhar, enlaçar, deitar, pernoitar
Descanso em teu colo meu respirar
E deixo-me sentindo devagar
Abraçar-te inteiro ao acordar
Diante do espelho a sonhar
Vejo reflexos de ondas e mar
Perco-me em espaços repletos de amar
E chego mais perto desse lugar
Onde há duendes para encantar
e arco-íris de cor, luz e mar
sem saber como aprendi a dançar
E nua me deixei estar ao luar
Tórrida de desejo de te amar
Olhar, enlaçar, deitar, pernoitar
Descanso em teu colo meu respirar
E deixo-me sentindo devagar
Abraçar-te inteiro ao acordar
Brincadeira poética
Sem querer assassinar o lindo soneto de Florbela Espanca, aqui fica o trabalho conseguido às cegas pela Angeles, Celeste, José, Elza e Filinta, a partir do primeiro verso de Os versos que te fiz:
Deixa dizer-te os lindos versos raros
E sintas no ouvido a minha boca
A sussurrar sons ternos e caros
Sem eles, a minha alma fica oca.
E ponho-me a pensar já em silencio
E da alma que escorre sobre o nada
Sentindo como os teus olhos afagam
E vejo-te etérea como fada
Tenho o teu olhar contemplando o meu
Mas sinto-me sózinha e vazia
De memórias presentes e sem fim
E continuo a olhar pelo raro véu
És para mim amor e alegria
Enfim, quero para ti o imenso céu
Deixa dizer-te os lindos versos raros
E sintas no ouvido a minha boca
A sussurrar sons ternos e caros
Sem eles, a minha alma fica oca.
E ponho-me a pensar já em silencio
E da alma que escorre sobre o nada
Sentindo como os teus olhos afagam
E vejo-te etérea como fada
Tenho o teu olhar contemplando o meu
Mas sinto-me sózinha e vazia
De memórias presentes e sem fim
E continuo a olhar pelo raro véu
És para mim amor e alegria
Enfim, quero para ti o imenso céu
Os versos que te fiz
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
Florbela Espanca (1894-1930) in
Livro de Soror Saudade (1923)
Podem ouvir este soneto e também poemas de Ana Luisa Amaral cantados por Clara Ghimel no site: http://www.myspace.com/claraghimel. (Tentei colocar as canções aqui, mas confesso que não domino estas técnicas internéticas...)
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
Florbela Espanca (1894-1930) in
Livro de Soror Saudade (1923)
Podem ouvir este soneto e também poemas de Ana Luisa Amaral cantados por Clara Ghimel no site: http://www.myspace.com/claraghimel. (Tentei colocar as canções aqui, mas confesso que não domino estas técnicas internéticas...)
O Hipopótamo - T.S. ELiot
E quando esta epistola for lida entre vós
fazei com que seja lida também na Igreja dos
Laodiceanos
O Hipopótamo de costas largas
Repousa sobre a barriga na lama;
Embora nos pareça tão firme
É meramente de carne e sangue.
A carne e o sangue são fracos e frágeis,
Susceptíveis de choque nervoso;
Ao passo que a verdadeira Igreja nunca falha
Porque tem por base um rochedo.
Os fracos passos de Hipopótamo podem errar
Ao compreender os fins materiais
Ao passo que a Verdadeira Igreja não passa de se mexer
Para colher os seus dividendos
O `pótamo não consegue alcançar
O mango na Mangoaeira;
mas frutos de romã e pêssego
Refrescam a Igreja vindos do ultramar.
No acasalamento a voz do hino
Denota inflexões estranhas e roucas
Mas todas as semanas nós ouvimos e louvamos
A Igreja, por ser una com Deus.
O dia do hipopótamo
É passado a dormir, à noite caça;
Deus trabalha de um modo misterioso -
A Igreja consegue dormir e comer ao mesmo tempo.
Vi o ´Popótamo levantar voo
Subindo das húmidas savanas,
E anjos implorantes à sua volta cantam
Louvores a Deus, em altos hosanas.
O sangue do Cordeiro vai lavá-lo bem limpo
E ele abrirá os braços celestiais,
No meio dos santos serám visto
Tocando numa harpa de ouro.
Será levado tão branco como a neve,
E beijado por todas as virgens mártires,
Ao passo que a Verdadeira Igreja fica cá em baixo
Embrulhada no velho nevoeiro de miasmas.
T.S. Eliot (1888-1965)
fazei com que seja lida também na Igreja dos
Laodiceanos
O Hipopótamo de costas largas
Repousa sobre a barriga na lama;
Embora nos pareça tão firme
É meramente de carne e sangue.
A carne e o sangue são fracos e frágeis,
Susceptíveis de choque nervoso;
Ao passo que a verdadeira Igreja nunca falha
Porque tem por base um rochedo.
Os fracos passos de Hipopótamo podem errar
Ao compreender os fins materiais
Ao passo que a Verdadeira Igreja não passa de se mexer
Para colher os seus dividendos
O `pótamo não consegue alcançar
O mango na Mangoaeira;
mas frutos de romã e pêssego
Refrescam a Igreja vindos do ultramar.
No acasalamento a voz do hino
Denota inflexões estranhas e roucas
Mas todas as semanas nós ouvimos e louvamos
A Igreja, por ser una com Deus.
O dia do hipopótamo
É passado a dormir, à noite caça;
Deus trabalha de um modo misterioso -
A Igreja consegue dormir e comer ao mesmo tempo.
Vi o ´Popótamo levantar voo
Subindo das húmidas savanas,
E anjos implorantes à sua volta cantam
Louvores a Deus, em altos hosanas.
O sangue do Cordeiro vai lavá-lo bem limpo
E ele abrirá os braços celestiais,
No meio dos santos serám visto
Tocando numa harpa de ouro.
Será levado tão branco como a neve,
E beijado por todas as virgens mártires,
Ao passo que a Verdadeira Igreja fica cá em baixo
Embrulhada no velho nevoeiro de miasmas.
T.S. Eliot (1888-1965)
A Pulga
Observa esta pulga, e repara nisto -
Quão pouco é o que me recusas -:
A mim sugou primeiro e agora suga-te a ti,
E nesta pulga nossos dois sangues se misturam.
Confessa: de tal não pode dizer-se
Que é pecado, ou vergonha, ou desfloramento,
Portanto ela goza antes de cortejar,
Saciada, incha com um sangue feito de dois,
O que, enfim, é bem mais do que ousaíamos.
Oh, espera. Três vidas poupa numa pulga,
Onde nós quase - não, mais do que - Casados estamos:
Esta pulga é tu e eu, e isto aqui
É o nosso leito, o nosso templo nupcial;
Embora os pais - e tu - protestem, estamos juntos
E enclausurados nessas vivas paredes negras.
Ainda que o uso te autorize a matar-me
A tal não se acrescente o suicídio,
E o sacrilégio: três pecados ao matar nós três.
Cruel e precipitada, já de púrpura
Manchas a tua unha como sangue da inocência?
De que poderia esta pulga ser culpada
Senão dessa gota que chupou de ti?
Mas tu triunfaste, e afirmas que te
Não encontras, nem a mim, mais fracos agora:
É verdade. Então aprende como são falsos os medos:
Esta mesma dose de honra, quando a mim te renderes,
Perderás -igual à vida que a morte desta pulga te roubou.
John Donne (1572-1631)
in "Poemas Eróticos" Assírio e Alvim -
tradução de Helena Barbas
Quão pouco é o que me recusas -:
A mim sugou primeiro e agora suga-te a ti,
E nesta pulga nossos dois sangues se misturam.
Confessa: de tal não pode dizer-se
Que é pecado, ou vergonha, ou desfloramento,
Portanto ela goza antes de cortejar,
Saciada, incha com um sangue feito de dois,
O que, enfim, é bem mais do que ousaíamos.
Oh, espera. Três vidas poupa numa pulga,
Onde nós quase - não, mais do que - Casados estamos:
Esta pulga é tu e eu, e isto aqui
É o nosso leito, o nosso templo nupcial;
Embora os pais - e tu - protestem, estamos juntos
E enclausurados nessas vivas paredes negras.
Ainda que o uso te autorize a matar-me
A tal não se acrescente o suicídio,
E o sacrilégio: três pecados ao matar nós três.
Cruel e precipitada, já de púrpura
Manchas a tua unha como sangue da inocência?
De que poderia esta pulga ser culpada
Senão dessa gota que chupou de ti?
Mas tu triunfaste, e afirmas que te
Não encontras, nem a mim, mais fracos agora:
É verdade. Então aprende como são falsos os medos:
Esta mesma dose de honra, quando a mim te renderes,
Perderás -igual à vida que a morte desta pulga te roubou.
John Donne (1572-1631)
in "Poemas Eróticos" Assírio e Alvim -
tradução de Helena Barbas
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