terça-feira, 7 de janeiro de 2014

É por ti que escrevo - um poema de António Ramos Rosa

PicassoFrancoiseGilot
Pablo Picasso (imagem daqui)
É por ti que escrevo que não és musa nem deusa 
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso 

António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto' (lido aqui)

domingo, 22 de dezembro de 2013

História Antiga



Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga


terça-feira, 26 de novembro de 2013

You are welcome to elsinore - Mário Cesariny (9 Agosto 1923 - 26 Novembro 2006)

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte      violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas      portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

                 Mário Cesariny, in Pena Capital

  (Lisboa, 9 de Agosto de 1923 - 26 de Novembro de 2006)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

existem dois mil livros

Shakespeare and Company Bookstore, Paris, France.
imagem daqui

chegou  a saudade dos violinos com a quebra de luz na janela.
o escuro invade a sala, o computador e a cadeira ocupada;
uma penumbra que se abre -
onde andas borboleta de mil folhas?
onde andas estrela cintilante de tantos dias e tantas noites?
porque parou a luz agora, neste instante?
arrefecem os pés com o inverno à solta, o frio não voa

e existem dois mil livros que nos chamam pelos nomes  -

josé ferreira    19 novembro 2011

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Não posso adiar o amor - Um poema de António Ramos Rosa

. 
imagem daqui

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa,  Matéria de Amor, Presença, 1985

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O Meu Soneto - um poema de Florbela Espanca

imagem daqui

Em atitudes e em ritmos fleumáticos,
Erguendo as mãos em gestos recolhidos,
Todos brocados fúlgidos, hieráticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos...

E os meus olhos serenos, enigmáticos
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
São letras de poemas nunca lidos...

As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d´amor trazem de rastros...

E a minha boca, a rútila manhã,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!..

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas" lido aqui

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

o mar como a poesia

imagem daqui


sabes,
acordei com o som de ondas enroladas num colar branco
e um aroma verde de limos e algas,  a maresia –

o mar tem destas coisas, toca-nos pelo olhar e pelo som
pela imensidão
pela linha definida que junta o azul
pelo segredo que se esconde na viagem dos peixes
pela quilha que avança, no movimento dos barcos
 e no voo planado de gaivotas pelo ar –

o mar tem destas coisas, sublima, da terra ao céu
como em Turner
entre o naufrágio e o sublime, ou determina 
o dia seguinte
entre o crepúsculo laranja que despede o dia
 e o silêncio das estrelas que nos olham de cima  –

o mar tem destas coisas, liga
está para além da rotação dos astros
da cultura dos livros
o mar é o espelho de Olimpo mesmo que não exista –

 no descer  das pálpebras, escutam-se os búzios, e imagina-se–

o mar tem destas coisas, como a poesia
uma emergência que não se domina, uma realidade e uma sina –

sabes,
acordei com o ombro quieto e o teu rosto paralelo
mas não despertes, peço-te
queria colocar-te um colar branco de espuma
soletrar-te o mar e entregar-te o brilho  de uma pérola original –
a tua mão é uma concha aberta aos primeiros raios de sol.
permanece -

lá fora, as ondas continuam enroladas –

josé ferreira 27 de agosto 2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Soneto de Vinicius para Neruda e e um samba para Vinicius


Soneto de homenagem a Pablo Neruda

Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, meu irmão, meu companheiro...
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?

Canto maior, canto menor - dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro

E o seu amor - o amor que hoje encontramos...
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
celebro-te ainda além, Cantor Geral

Porque como eu, bicho pesado, voas
mas mais e melhor do céu entoas
teu furioso material!

Vinicius de Moraes ( 1960 )

sexta-feira, 26 de julho de 2013

"Em seu entender o poeta..." por David Mourão


imagem daqui

                   XLI

Em seu entender, o poeta nunca
aprende; nem ensina. Limita-se
a apreender; e a ficar apreensivo
ou a superar a apreensão

David Mourão Ferreira, Jogo de Espelhos, Presença

quinta-feira, 18 de julho de 2013

procurar poemas

flickr.com
flickr aqui


procurei poemas no sol incansável do meio-dia
e nenhum  surgiu sem  sombra
na verticalidade própria de uma hora exacta
como instante único na cor do dia –

foi ingenuidade querer encontrá-los numa única vontade
os poemas são sempre de mãos juntas ou de lutas.
os poemas estão para além de quartos nas cidades
e de ruas a ferver nos semáforos.
os poemas são redondos e completos
numa analepse do mundo, de Ítaca a um céu futuro -
os poemas são a proximidade possível com a natureza
na essência que exige água e luz
a superfície de um planeta -

os poemas todos juntos escrevem o mundo -

josé ferreira

domingo, 7 de julho de 2013

escrevo-te (XXI) - sobre o mar

Amadeo Modigliani


escrevo-te sobre o mar no poema vinte um.
quero que o guardes junto de uma macieira vermelha
protegido num rolo de aguarela, enrolado na forma de papiro.
tem os cantos queimados como costumava fazer na mesma idade do poema
incinerando os  vazios do papel que se desprendiam num fumo que subia
e depois caíam exaustos, separados entre cinza e espírito
como se dividissem a alma
entre o eterno,  que colocava a moldura da forma
e o momento da aura,  de terminar a obra de arte, depois de soltar as palavras fugidias
nos recantos da praia, nas relvas dos jardins, na solidão das paredes insensíveis
e de uma luz eléctrica transformada na sensualidade de um teatro  de sombras
como se decorresse um filme à luz de lamparinas  –


se lhe chamo obra de arte não é um elogio, tenho a consciência dos limites.
houve dias e dias, horas e horas, numa existência morta.
casualidades e banalidades pelos interstícios de muitos anos perdidos.
sem resultados, sem linhas escritas -

os poemas são a obra de arte que significam sem a preocupação de medida.
uma efervescência, uma ebulição, um assobio, o lugar de um número ímpar;
serei sempre um desconhecido do tempo, um vagabundo da luz e da poesia –


para além do mar e desta cidade parada na foz de um rio
escrevo-te sobre a revolução  das glícinias
quando  lançam os braços doces nas noites propícias.
como uma luz âmbar na cor lilás do teu  sorriso, o teu sorriso
irrepreensível de sentido, natural, solto, em frente de um chá de camomila
depois de colocares os lábios num copo de vinho
após o desfazer dos brincos de cereja, primeiro de  par em par
e depois um a um,  caindo –

o mar está ali à minha frente, sei que o vês nitidamente
da esplanada de folhas brancas manuscritas, por detrás dos óculos escuros
com os olhos de brilho.
o mar persistente de ruído branco e sal infinito –

sei que o vês nitidamente enquanto recordo o teu baixar das pálpebras
os meus lábios aflitos
e as horas fugitivas como se fossem minutos e segundos pequeninos –

calo-me, deixo que as lágrimas caiam, e sim, são esses borrões de tinta.
não, não é um momento triste, porque na memória reside o vivido
o campo risonho de margaridas, as nuvens, o céu azul, o sol  e a chuva
a protecção de um bosque e uma casa escondida
de cortinas de renda e lenha acesa, na luz tremeluzente
como a das lamparinas –

dançaste a noite inteira, derrubaste cadeiras na coreografia
percorreste a sala iluminada como se fosse uma corrida
e depois paraste, abriste os braços e teu coração batia.
era a noite dos milagres,  a lua estava cheia e as estrelas protegiam –

calo-me, e dou lugar às ondas. caminho. a areia escorrega
a água esgota-se na clepsidra
os pés vestem-se de branco e as veias apertam.
calo-me e o mar avança, cobre-me de limos
adivinho-te na rocha mais distante como uma figura de mitologia
os cabelos reluzentes, a pele em contraluz, os raios procurando aberturas
chegando com as ondas e partindo num som imperceptível –

josé ferreira 7 julho 2013

quinta-feira, 4 de julho de 2013

um poema de Sophia - O mar dos meus olhos


Amadeo Modigliani



Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes 
e calma

Em "Obra poética" (Ed. Caminho, 2010) lido aqui

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Um conto de Kafka - Os que passam a correr




Se vamos a passear à noite por uma rua e um homem que ao longe se avista - porque a rua sobe à nossa frente e a lua está cheia - vem a correr de encontro a nós, então não o vamos agarrar, apesar de ele ser fraco e andrajoso, apesar de vir uma pessoa a correr atrás dele e a gritar, vamos antes deixá-lo passar.
Porque é de noite e não temos culpa que a rua seja a subir e esteja iluminada pela lua, e, além de mais, talvez estes dois homens tenham organizado a caça para seu divertimento, talvez os dois persigam um terceiro, talvez o primeiro esteja a ser injustamente perseguido, talvez o segundo queira matar e nós seríamos cúmplices do crime, talvez os dois não saibam nada um do outro e cada qual apenas corra, por sua própria iniciativa, para a sua cama, talvez sejam sunâmbulos, talvez o primeiro esteja armado.
E afinal de contas não podemos nós estar cansados, não é verdade que bebemos muito vinho? Estamos contentes por também já não vermos o segundo homem.


Franz Kafka lido aqui